Capítulo 2

Depois que as lágrimas se derramaram, eu me senti melhor em relação ao que

acontecera. Sabia que tinha feito uma tempestade em copo d’água; Kellan não

fizera o vídeo recentemente. O choque havia me transtornado, só isso. E o

nojo. Não podia suportar a ideia de outra mulher tocando nele, mesmo tendo

sido anos antes. Só a lembrança de ouvi-lo satisfazendo outras mulheres

enquanto eu estava do outro lado do corredor já era bastante ruim. A ideia de

assistir a isso me dava vontade de vomitar. Até cheguei a pôr a mão na boca,

por via das dúvidas.

Quando os soluços cessaram, ouvi murmúrios no andar de baixo.

Provavelmente, meu pai passando um sermão em Kellan. Sabendo que

precisava superar isso, tentei pensar em outra coisa que não nos saltos

amarelos de Joey rodeando o corpo de Kellan. Mas foi muito difícil tirar essa

imagem da cabeça.

Precisando me concentrar em alguma coisa concreta, tirei a aliança do dedo e

observei os diamantes que cravejavam as laterais. Enquanto estudava cada um

deles, relembrei todas as coisas românticas e comoventes que ele dissera para

mim, e mais ninguém.

Prefiro abraçar uma linda mulher a acordar todo dolorido amanhã. Preciso

ficar perto de você. Cada mulher é você para mim. Você é tudo que vejo… é

tudo que quero. Nós poderíamos dar muito certo juntos. Você me arrasa.

Fica. Fica comigo. Resolve as coisas comigo. Mas não me deixa… por favor.

Tenho certeza de que quero você para sempre na minha vida. Estamos

casados… você é minha mulher. Eu te amo.

Quando, algum tempo depois, ouvi uma batidinha leve à porta, minhas

emoções e meu estômago já tinham se acalmado. Na verdade, estava até me

sentindo meio boba em relação a essa história. Kellan entreabriu a porta, mas

não entrou no quarto.

– Kiera… posso entrar?

Virando-me na cama de frente para a porta, sequei os olhos e puxei o vestido

curto.

– Pode – respondi com a voz rouca.

A porta não se abriu na mesma hora, e franzi o cenho, olhando para ela.

Depois de outra pausa, Kellan perguntou:

– Você não vai… atirar nada em mim, vai?

Deixei escapar um riso e, ao ouvi-lo, Kellan abriu a porta. Sorri ao ver sua

expressão preocupada, balançando a cabeça.

– Não, pode entrar, em confiança.

Kellan fechou a porta sem fazer barulho, e então caminhou até a cama.

Observou a aliança que eu ainda girava entre os dedos. Seus passos

diminuíram e seus olhos se vidraram. Sem conseguir tirá-los da aliança, ele

sussurrou:

– Você vai me deixar?

Enquanto eu observava seu rosto perturbado, refleti sobre a impressão que

meu gesto devia ter causado. Eu ficara transtornada, me afastara dele de um

jeito dramático, e então ele me encontrara manuseando a aliança de casada

como se não quisesse mais usá-la. Na mesma hora, voltei a colocá-la no dedo.

Seus olhos, ainda pesados de lágrimas não derramadas, se ergueram até os

meus. Meu coração se encheu de dor quando abri os braços para ele.

– Não, é claro que não vou te deixar.

Como ele ainda parecia inseguro, sentei sobre os joelhos e o puxei pela

camisa, passando os braços pelo seu pescoço. Na mesma hora ele relaxou e

passou os seus pela minha cintura. Aspirando seu aroma, sussurrei no seu

ouvido:

– Eu estava me lembrando de todas as razões por que te amo tanto. Estava

apreciando tudo que você faz, tudo que você é. Estava me apaixonando por

você de novo.

Kellan se afastou, com uma expressão surpresa.

– Você descobre, menos de vinte e quatro horas depois do nosso casamento,

que eu tenho um vídeo pornô com outra mulher… e isso faz com que você se

apaixone por mim de novo? – Pôs a mão na minha testa, como se tivesse

certeza de que eu estava com febre.

Caí na risada, puxando-o para a cama comigo.

– Não, quer dizer, eu não fiquei lá muito satisfeita com o vídeo, mas… –

encostando a cabeça no seu ombro, observei seus olhos azul-escuros – … há

tantas coisas em você que me fazem feliz, que eu não vou permitir que um

único fato estrague isso… e o que temos.

Kellan sorriu, dando um beijo na minha testa.

– Eu já te disse hoje o quanto te amo?

Eu me aconcheguei na curva do braço dele, enroscando as pernas entre as suas

e pousando o rosto em cima do ponto onde meu nome estava gravado, no peito

dele.

– Provavelmente sim, mas nunca vou me cansar de ouvir.

Enrolando as mãos na barra da sua camisa, curti o conforto do seu aconchego

por um momento. Sua voz grossa soou no meu ouvido quando ele rompeu o

silêncio:

– Me perdoe, Kiera. Eu jamais quis que você ficasse sabendo disso.

Dei uma olhada no seu quadril, imaginando se ainda estaria com o cartão no

bolso, e então observei seu rosto, que deixava transparecer seu

arrependimento.

– Não quero que você me esconda as coisas por achar que a verdade vai me

fazer infeliz. Nós já criamos problemas demais por causa disso.

Kellan assentiu, seus olhos pensativos.

– Tem razão. De todo modo, acho que, mais cedo ou mais tarde, eu acabaria te

contando… mas nunca na manhã seguinte à nossa noite de núpcias. Para ser

honesto, já tinha até me esquecido do vídeo com a Joey.

– Franziu os lábios, extremamente infeliz com o infortúnio de Joey ter

reaparecido e relembrado a ele.

Observando seu rosto forte e bem barbeado, perguntei:

– Como você pôde se esquecer de ter filmado uma transa com uma roommate?

Seria de se esperar que uma coisa dessas fosse inesquecível.

Senti Kellan ficar tenso debaixo do meu corpo, e prestei atenção nos seus

olhos. Antes de poder formular a pergunta que me enchia de pavor, ele

suspirou, balançando a cabeça.

– Me perdoe, Kiera. Ela pediu… e eu não me importei. Não tinha o hábito de

dizer não para a maioria das mulheres na época, e ela… – Mordeu os lábios

com força, fechando os olhos. Quando os reabriu, sussurrou: – Eu não estava

pensando no futuro, no que estava deixando para trás… me perdoe.

Começando a ter um péssimo pressentimento, eu me sentei.

– Esse não foi o único vídeo que você fez, foi?

Kellan estremeceu, e na mesma hora tive uma resposta.

– Me perdoe, Kiera – tornou a sussurrar.

Cruzando os braços, balancei a cabeça, incrédula.

– Ah, meu Deus… eu me casei com um ator pornô.

Kellan se esforçou por manter a expressão neutra, mas não conseguiu por

muito tempo. Dei um tapa no seu ombro quando ele começou a rir. Segurando

minhas mãos, ele sentou, passou os braços pela minha cintura e me puxou para

o peito, esfregando minhas costas para me tranquilizar. Minha breve raiva se

dissipou enquanto ele me abraçava. Então, fui assaltada por um sentimento de

melancolia.

– Eles não vão ficar escondidos para sempre, Kellan. Não quando as músicas

da sua banda estourarem nas rádios. Não quando o seu nome ficar conhecido.

Quando as pessoas souberem que podem ganhar dinheiro à sua custa… – olhei

para seu rosto

– … esses vídeos vão começar a aparecer por toda parte.

Com um sorriso triste, ele concordou.

– Eu sei… e peço desculpas de todo coração.

Examinando sua expressão, fiquei morta de pena dele.

– Não é o meu corpo que vai ser vendido, Kellan. Você não precisa se

desculpar por uma coisa que fez anos atrás. Eu só… me sinto mal por saber

que sua vida íntima vai ser tão… devassada.

Kellan deu de ombros.

– Não me importo com isso. – Segurou meu rosto. – Só não quero que você

seja magoada.

Aninhando o rosto em sua mão, soltei um longo suspiro.

– Bem, pelo menos vou estar preparada.

– Sorri para ele. – De todo modo, jamais vou assistir a esses vídeos. – Kellan

riu, e eu balancei a cabeça, fechando os olhos. Doía um pouco saber que mais

cedo ou mais tarde o mundo inteiro veria meu marido como veio ao mundo,

mas, no fundo, não importava. Ele não era mais aquele homem. Ele era meu

homem.

Abrindo os olhos, observei sua expressão preocupada. Querendo acalmar seu

medo de que eu o rejeitasse, murmurei, brincalhona:

– Você é um tremendo galinha.

Balançando a cabeça para mim, ele voltou a me puxar para a cama. Depois de

um momento, lembrei que ambos tínhamos coisas a fazer, pessoas à nossa

espera. Quando começava a me mover, para lembrar a Kellan que precisava

ligar para Gavin, bateram à porta do quarto. A voz preocupada de minha mãe

perguntou:

– Kiera, querida, está tudo bem?

Kellan se remexeu embaixo de mim, me afastando para o lado, a fim de se

levantar. Desejando poder puxá-lo de volta para os meus braços, sentei,

ajustando o vestido apertado.

– Está… pode entrar.

Quando ela fez isso, deu uma olhada em Kellan com uma expressão dividida.

Pude perceber que não ficara satisfeita com o que ouvira na sala. Minha mãe

gostava muito de Kellan, mas era tão superprotetora quanto meu pai, e Kellan

a deixava nervosa. Beleza, fama, juventude e monogamia não costumavam

andar juntas. Embora ela se esforçasse ao máximo para confiar no meu amor,

estava convicta de que ele acabaria me abandonando.

Mas ela não conhecia Kellan tão bem quanto eu. E eu tinha certeza de que ele

não faria isso. Já tinha levado esse tipo de vida, e agora queria algo mais.

Agora, queria uma vida inteira… ao meu lado.

Abri um sorriso radiante quando ela se aproximou. Kellan olhou para uma e

para outra, e então deu um beijo no meu rosto.

– Vou ligar para o Gavin… e dar uma olhada no meu carro. Volto em um

minuto.

– Assenti, beijando sua mão antes de ele sair.

Mamãe ficou olhando enquanto ele se afastava, e então sentou na cama ao meu

lado. Não me perguntou nada, mas a pergunta que fizera antes ainda estava

clara nos seus olhos verdes. Pondo a mão no seu joelho, repeti a resposta que

já dera:

– Estou ótima, mãe, sinceramente.

Ela pareceu perplexa com essa resposta.

– Como você pode estar ótima sabendo que ele e aquela menina…?

Não concluiu a pergunta, e eu dei de ombros.

– Aquilo foi há séculos, muito antes de ele me conhecer. Aquele vídeo não tem

nada a ver comigo, e agora que o choque passou… estou ótima.

Mamãe exibia uma expressão confusa, e eu ri um pouco, encostando a cabeça

no seu ombro.

– Ele não é mais aquele homem, e… – Fiz uma pausa, a consciência dos meus

próprios erros subitamente me atingindo. – Não posso jogar o passado de

Kellan na cara dele.

Ao ouvir meu tom, mamãe se afastou para me forçar a olhá-la.

– E o seu passado? – Estudou meu rosto.

– Quer me contar o que realmente aconteceu entre você e Denny, querida?

Pisquei os olhos, atônita. Tanto ela quanto meu pai tinham acreditado quando

eu lhes dissera que Denny me deixara para poder aceitar um emprego na

Austrália. No entanto, minha mãe era observadora, estava preocupada e se

sentia curiosa, o que sem dúvida deve ter feito com que juntasse várias peças

soltas, como olhares culpados e comentários abafados, para formar o

quebracabeça do meu triângulo amoroso, que era muito maior do que a peça

minúscula que eu lhe dera. Eu tinha certeza de que ela suspeitava da verdade.

Sentindo meus olhos se encherem de lágrimas, comecei a balançar a cabeça.

Não, não queria lhe contar que eu era um ser humano horrível, que ela criara

esse tipo de mulher, que eu tinha ainda mais defeitos do que o homem que

filmara uma transa com a ex-roommate. Preferia que ela continuasse pensando

em mim como sua doce e inocente filhinha. Mas, por outro lado… eu seria

uma mentirosa se a deixasse continuar pensando assim.

Abaixando a cabeça, sussurrei:

– Eu tive um caso com Kellan. Denny descobriu e… me deixou. – Lágrimas de

culpa me escorreram pelo rosto. Olhando para ela, disse, com voz embargada:

– Me perdoe, mãe.

Seus olhos ficaram úmidos ao ver minha dor. Esperei por suas palavras

ríspidas de condenação, mas não vieram. Em vez disso, ela apenas me deu um

abraço apertado. O que só fez com que eu chorasse mais ainda. Encostando o

rosto no seu ombro, abri as comportas que represavam meu remorso. Solucei

nos seus braços, enquanto ela tentava me acalmar, sussurrando palavras

carinhosas no meu ouvido e esfregando minhas costas.

Quando as lágrimas cessaram, levantei a cabeça.

– Está furiosa comigo? – Minha garganta se fechou com as palavras.

Ela secou minhas lágrimas com o polegar. Com um sorriso tranquilo, balançou

a cabeça.

– Não, é claro que não estou furiosa com você.

– Você não vai gritar comigo? Dizer que sou horrível?

Eu já ia abaixar a cabeça, mas ela segurou meu queixo. Manteve os olhos fixos

nos meus por longos segundos antes de responder:

– Não há nada que eu poderia lhe dizer que a punisse mais do que você mesma

já se puniu. – Balançou a cabeça, suas longas mechas castanhas se agitando

nos ombros. – Agora, se você não demonstrasse um pingo de arrependimento,

seu pai e eu te daríamos uma coça daquelas. – Sorriu mais ainda, segurando

meu rosto. – Mas, obviamente, foi uma coisa que te deixou arrasada, e não

posso imaginá-la se infligindo esse tipo de sofrimento novamente.

Neguei com a cabeça, veemente. Não, não queria jamais passar por aquela

tortura outra vez. Ela sorriu para mim, abaixando a mão.

– Na verdade, estou muito mais chateada por você ter se casado escondido de

mim. – Cruzando os braços, franziu os lábios, arqueando uma sobrancelha. –

Quer explicar isso?

Suspirei, sabendo que não me safaria dessa tão fácil.

Demorou um pouco, mas finalmente consegui convencê-la de que só tinha

mesmo ficado noiva na noite anterior. Kellan e eu consideramos nosso

momento no bar como um casamento, mas eu sabia que as pessoas não o

veriam desse jeito e, de todo modo, fora uma cerimônia sem qualquer valor

legal. A mensagem que eu deixara na secretária eletrônica para meus pais fora

muito curta, sem qualquer explicação. Basicamente, eu só dissera que Kellan e

eu tínhamos nos casado e não voltaríamos para casa até a manhã seguinte. Era

um verdadeiro milagre que meu pai não tivesse posto a SWAT atrás de mim.

Quando mamãe compreendeu o que tínhamos feito, riu de alívio.

– Ah, antes assim, eu estava com medo de que você tivesse tomado um avião

de madrugada para Las Vegas e se casado com algum sósia de Elvis Presley! –

Balançou a cabeça, segurando minha mão para examinar o anel de

compromisso que se elevara ao status de aliança de casamento. – Essa não é a

maneira certa de se começar uma vida a dois… se é que você tem mesmo

certeza de que quer passar o resto da vida com ele.

Assenti enfaticamente. Isso era algo de que eu tinha a mais absoluta convicção.

Uma profunda determinação se estampou no rosto de minha mãe, e ela sorriu.

– Nesse caso, acho que é melhor começarmos a planejar o casamento, não? –

Seus olhos se iluminando ainda mais, ela apertou as mãos. – Podemos marcar

a cerimônia para dezembro, depois que Anna tiver o bebê… ou então na

primavera, quando as árvores estiverem em flor, que tal?

Minha cabeça dava voltas enquanto ela ia enumerando as coisas que

precisaríamos fazer até a data do casamento. Na certa se incumbiria de

escolher meu vestido, os trajes das damas de honra, os ternos de meu pai e de

Kellan, as flores, a música, a igreja, o bufê, o bolo de casamento, e até faria a

lista de convidados…

Quando a lista já ameaçava se tornar infindável, cobri as mãos dela com as

minhas para interromper seu falatório.

– Mãe, eu não preciso de nada luxuoso. – Sorri com ar apaixonado. – Kellan e

eu já estamos casados, e agora só precisamos oficializar a união.

Minha mãe me olhou com uma expressão perplexa, e então perguntou:

– Você vai querer que seja aqui em Seattle ou em Athens? Porque nossa

família inteira está lá, e obrigá-los a tomar um avião para cá não seria nada

simpático.

Suspirei. Ela não ia mesmo largar o osso. Eu ia ter que me produzir toda e

desfilar por um corredor enfeitado de rosas, quisesse ou não. Só de pensar

nisso meu estômago deu mil nós de ansiedade.

Tentando mudar de assunto, murmurei:

– É melhor eu ir falar com papai, para acalmá-lo. – Provavelmente ele ainda

estava meio baqueado com o episódio do vídeo, e também com a história do

casamento. Pobre papai. Aquele não era mesmo o seu dia.

Decidi vestir alguma coisa mais confortável antes de enfrentar a fera. O

tubinho emprestado por Anna ficava se enrolando na altura das coxas, e eu não

queria ter que ficar puxando-o para baixo toda vez que meu pai me chamasse a

atenção. Além disso, o decote quadrado cavadíssimo não permitia que eu

usasse um sutiã, o que até viera a calhar na noite de núpcias, mas não cairia

nada bem num têteà-tête com meu velho.

Minha mãe ficou olhando enquanto eu vestia um jeans qualquer e uma

camiseta; ainda estava animadíssima, planejando os detalhes do casamento,

falando pelos cotovelos sobre o arranjo de flores ideal. Já vestida, fui para a

sala. A descrição que ela fazia da cerimônia de casamento não acabava mais,

suas palavras me bombardeando a cada passo que dava. Enquanto descia a

escada, me imaginei avançando pela nave da igreja em direção ao meu

marido. Quando cheguei ao último degrau, Kellan estava parado perto das

janelas, fazendo que sim com a cabeça para meu pai com uma expressão

compenetrada. Imaginei Kellan de terno, e eu com um vestido de cetim. Na

minha cabeça, ele estava lindo, como sempre, e eu também, pela primeira vez.

A ideia de uma igreja cheia de gente me deixou meio nauseada, por isso tive

que imaginar que ele e eu estávamos sozinhos. Comecei a sentir um sobe e

desce no estômago, a marcha nupcial tocando na minha cabeça.

Kellan olhou para mim e abriu um sorriso. Eu tinha certeza de que ele não

estava tendo a mesma visão que eu, mas a expressão no seu lindo rosto era tão

cheia de amor e encanto quanto a minha. Corando de expectativa ao pensar em

como nossa cerimônia de casamento poderia ser maravilhosa, caminhei até ele

e passei os braços pela sua cintura. Sorrindo para mim, ele me abraçou e deu

um beijo na minha testa. Estávamos olhando um para o outro com ar bobo

quando meu pai pigarreou.

Despertei bruscamente da visão romântica e olhei para ele. Com as

sobrancelhas franzidas numa expressão confusa, ele perguntou:

– Está tudo… bem?

Sorri, assentindo, e ele suspirou, obviamente não entendendo como eu podia

ter passado de um extremo ao outro num espaço de vinte minutos. Dei um

risinho ao soltar Kellan para ir abraçar meu pai. Essas alterações de humor

eram corriqueiras no meu convívio com Kellan. Ele podia me pôr nas alturas,

ou me estilhaçar no chão. Embora às vezes eu até curtisse essa montanharussa, encontrar um ponto de equilíbrio entre os extremos era algo que eu

queria muito. Nós precisaríamos dessa serenidade, se pretendíamos ter uma

relação a longo prazo. E o casamento era uma relação a longuíssimo prazo.

Pelo menos, para mim.

Quando meu pai e eu terminamos de nos abraçar, ele olhou para Kellan, às

minhas costas. Pude perceber claramente como seus sentimentos estavam

divididos. Meu pai queria que eu fosse feliz, mas não aprovava o fato de eu

estar com um roqueiro. E um roqueiro que carregava o vídeo de uma transa no

bolso, ainda por cima. Inclinandose para mim, ele disse:

– Kellan me contou sobre o… casamento de vocês dois… no bar. – Franziu o

cenho, dando uma olhada em Kellan. – Tem certeza de que é o que você quer,

Kiera?

Com um sorriso radiante, dei um beijo no seu rosto.

– Absoluta, pai.

Mas a resposta não fez com que sua expressão se animasse. Na verdade, ele

pareceu envelhecer diante dos meus olhos. Vendo a sisudez nos vincos de sua

testa, segurei seus braços.

– Kellan te contou que o pai dele vai vir tomar um brunch com a gente? –

Olhando para Kellan, perguntei: – Você conseguiu falar com o Gavin?

– Acabei de falar. – Kellan exibiu o celular. – Ele vai estar aqui em meia hora.

– Seus olhos azul-escuros brilhavam de alegria. Sentimentos positivos por um

parente eram uma novidade para ele, que relutara muito em se permitir sentilos. Acho que em parte ainda hesitava, como se estivesse se preparando para a

inevitável implosão emocional que se aproximava. Mas, por ora, estava sendo

otimista.

Ainda sorrindo de orelha a orelha, Kellan apontou para a porta:

– E o meu carro está OK. – Sorri ao ver sua expressão de alívio.

Provavelmente ele sairia no encalço de Joey se ela tivesse causado algum

dano ao seu bebê.

Enquanto esperávamos que a família de Kellan chegasse, minha mãe me

perguntou sobre esquemas de cores para o casamento, o olhar fulminante de

meu pai se tornando ainda mais fulminante a cada pergunta. Kellan ficou

segurando minha mão com um sorriso bem-humorado enquanto ouvia minha

mãe. Tinha certeza de que ele concordaria com qualquer cerimônia

extravagante que ela propusesse. Não se importava de ser o centro das

atenções de uma multidão, e nem que eu fosse centro também. Estava sempre

me incentivando a ser mais confiante e extrovertida. Embora isso me deixasse

envergonhada, eu adorava que Kellan me amasse o bastante para me encorajar

sutilmente a amadurecer.

Gavin tocou a campainha bem na hora. Soltando um longo suspiro, Kellan se

levantou e secou as palmas das mãos no jeans. Não vi o volume no seu bolso

quando sua mão passou por ele, e achei que talvez tivesse jogado o vídeo fora.

Pelo menos, foi o que esperei. Não queria vê-lo com outra mulher, mas sabia,

se topasse com o vídeo, que ficaria morta de curiosidade. E era possível que

essa curiosidade me enlouquecesse a ponto de me fazer assistir. E há coisas

que você não pode fingir que não viu. Kellan fazendo a ex-amante gemer não

era uma cena que eu queria gravada no meu cérebro. Só imaginá-la já era

bastante ruim.

Kellan estava visivelmente nervoso ao se dirigir para a porta. Achei isso

superfofo; ele raramente ficava nervoso. Mas esse encontro com o pai era

muito importante para ele. Eu não sabia exatamente como estava se sentindo,

mas, se fosse eu, seria uma mistura de entusiasmo, apreensão e terror. Muita

coisa pode dar errado quando a gente expõe a alma para outra pessoa, ainda

mais quando se trata de um parente. Kellan estava sendo extremamente

corajoso, e eu não podia me sentir mais orgulhosa dele.

Como se estivesse reunindo forças mentalmente, Kellan soltou um suspiro

curto antes de chegar à porta. Abrindo um de seus sorrisos espontâneos, abriu

a pesada porta de madeira. Levantei do sofá ao avistar seu pai. Gavin era tão

parecido com o filho que o parentesco dos dois era inegável. O mesmo porte,

a mesma altura, o mesmo tom castanho-claro dos cabelos, os mesmos olhos de

um azul-escuro profundo, o mesmo contorno do queixo forte e anguloso. Olhar

para os dois lado a lado era como ter um vislumbre do futuro de Kellan. E, por

tudo que eu podia ver… Kellan ia envelhecer muitíssimo bem: Gavin era

podre de atraente.

Ao meu lado, ouvi minha mãe murmurar Ai… Minha nossa!.

Eu e ela nos entreolhamos com ar cúmplice, enquanto Kellan e o pai trocavam

um aperto de mão. Com uma expressão eufórica, Kellan indicou o interior da

casa.

– Que bom que vocês vieram. Vamos entrar.

Gavin assentiu, acompanhando-o. Atrás dele estavam seus dois filhos, os

meiosirmãos de Kellan. Acenei para a irmã, Hailey. Sorrindo, ela retribuiu

meu aceno. Hailey era mais ou menos da minha idade, talvez um ou dois anos

mais nova. Também herdara os olhos azul-escuros do pai, mas, agora, à luz do

dia, dava para ver que seu cabelo castanho era um pouquinho mais claro que o

dos homens da família. Logo atrás dela estava o irmão caçula de Kellan,

Riley. Bonitinho como ele só, parecia ter uns dez anos de idade, apenas dois

anos mais novo do que Kellan era quando tivera sua primeira experiência

sexual. Eu esperava sinceramente que Riley ainda não tivesse se iniciado; ele

era jovem demais. Com seus olhos da cor de um céu de primavera, Riley

olhava para Kellan com uma expressão de deslumbramento. Obviamente, já

idolatrava o irmão rock star.

Kellan fez uma festinha nos cabelos do caçula quando ele entrou. Quando o

trio já estava no vestíbulo, Kellan indicou a pequena sala.

– Por favor, vamos sentar.

Eu me afastei do sofá para que o pai de Kellan pudesse sentar. Meus pais

fizeram o mesmo, para cumprimentar Gavin. Meu pai lhe deu um firme e

caloroso aperto de mão. Minha mãe tremeu nas bases, mas tentou disfarçar

com um pigarro. Papai franziu o cenho ao ver a mulher trocar um aperto de

mão com a versão mais velha de Kellan. Muito esperto, sentou no lugar dela,

ficando ao lado de Gavin no sofá.

Riley sentou no chão, esticando as pernas enquanto dava uma olhada na casa

de Kellan. Não muito tempo antes, eu pedira ajuda a Jenny, minha melhor

amiga, para pintar as paredes da sala. Eram de um branco sujo, sem graça,

desde que eu fora morar lá. Ela me ajudou a pintá-las de um tom quente de

bege, menos uma, que pintamos de vermelho-escuro. Nos cantos dessa última,

Jenny usara sua habilidade artística para desenhar várias notas musicais.

Também pintara a letra de uma música de Kellan. Em grandes letras de fôrma

acima da porta de vidro de correr, estavam os dizeres A cada dia vou levar

você comigo, não importa quão longe esteja. Kellan achou que era meio

pretensioso exibir uma letra escrita por ele na parede da sua própria sala, mas

achei que tinha ficado lindo, e não deixei que a apagasse. Afinal, agora a casa

também era minha.

Hailey veio me dar um abraço. Pela alegria no seu rosto, era óbvio que já me

adorava só pelos elogios que Kellan fizera. Agora eu achava quase cômico

que um dia já tivesse chegado a suspeitar que Kellan estivesse me traindo com

ela. Mas ele tratara a descoberta do pai biológico com o maior sigilo e a

escondera de todos, até mesmo de mim. Acho que a maioria das mulheres no

meu lugar teria pensado o mesmo que eu pensei.

Achei que o rosto de Kellan poderia até se rasgar, tão largo era o seu sorriso.

Quando seus olhos se fixaram em Gavin, que conversava com meus pais, ele

bateu as mãos com força.

– Bom, vou começar a preparar o brunch, já que está quase na hora do almoço.

– Rindo um pouco, levantou as mãos para o pai: – Me desculpe por ter te

ligado mais tarde do que o combinado.

Os olhos azul-escuros de Gavin observaram o filho, e então se voltaram para

mim. Sentindo meu rosto queimar sob seu olhar, foi fácil imaginar como esse

homem seduzira uma mulher casada. Claro, era uma situação terrível, tão

terrível quanto a situação em que eu me encontrara dois anos antes, mas era

fácil ver por que tinha acontecido. O rosto de Gavin era daquele tipo a que

poucas mulheres conseguem resistir. Na mesma hora me senti aliviada pelo

fato de papai estar agindo como uma barreira entre Gavin e mamãe. Não que

Gavin fosse dar em cima dela na casa de Kellan, e não que ela fosse cair, mas,

enfim…

Um sorriso afetuoso curvou os lábios de Gavin, que balançou a cabeça para

mim.

Meu rosto ficou ainda mais vermelho quando Hailey me deu um apertãozinho

no ombro, exclamando:

– Você agora é parte da família, Kiera, goste ou não!

Meu pai suspirou.

Vindo até mim, Kellan me afastou da irmã e me deu um beijo leve. Seus olhos

me bebiam como se ele jamais me tivesse visto. O jeito como olhava para mim

fez com que meus joelhos ficassem bambos, meu coração disparasse e minha

respiração acelerasse. Ele era incrível.

– Goste ou não – murmurou, antes de me beijar novamente.

Toda derretida e romântica, respondi, com um suspiro:

– Eu gosto.

Meu pai suspirou outra vez.

Passando o braço pelos meus ombros, Kellan olhou para nossas famílias.

– Vamos estar na cozinha. Vocês precisam de alguma coisa?

Sorrindo ao olhar para Gavin, minha mãe murmurou:

– Não, não precisamos de nada. – Meu pai deu uma olhada nela e se inclinou

um pouquinho para a frente, tentando bloquear a visão do pai de Kellan.

Sem notar, Gavin balançou a cabeça.

– Não, obrigado, filho.

Kellan estava rindo baixinho quando contornamos a parede e entramos na

cozinha.

– Ele me chamou de “filho”.

Sorri para ele, eufórica pelo vínculo que se aprofundava entre ele e o pai.

Kellan parou diante da geladeira, seu sorriso se desfazendo. Seus lábios

carnudos se curvaram numa expressão preocupada.

– Que é que eu preparo para eles? – Olhou para mim, seu rosto em pânico. –

Eu não sou o melhor cozinheiro do mundo.

Abriu a geladeira, procurando alguma coisa no seu interior. Tentando me

lembrar de alguma refeição decente que tivesse preparado, sugeri, impulsiva:

– Eu posso fazer uns ovos mexidos, que tal?

O sorriso radiante de Kellan reapareceu ao encontrar uma caixa de ovos na

geladeira.

– Tá, tudo bem… pode ser. – Passando a caixa para mim, fechou os olhos por

um segundo. – Por favor, me diga que tem bacon em casa. – Eu já ia responder

que comprara um pacote poucos dias antes, quando ele abriu a porta do freezer

e o encontrou. Com uma expressão de grande alívio, suspirou. – Graças a

Deus.

Achando graça do seu nervosismo, coloquei os ovos na bancada e segurei seu

rosto entre as mãos.

– Calma. Eles estão aqui por você, não pela comida.

Kellan soltou um longo suspiro para se acalmar.

– É, eu sei. É que… não quero estragar tudo. – Balançando a cabeça, olhou

para o chão. – Porque eu sempre estrago tudo, Kiera.

Sentindo um aperto no estômago ao ver sua expressão sofrida, passei os

braços pelo seu pescoço e puxei seu corpo para o meu.

– Não, não estraga. – Com uma expressão séria, observei seus olhos. – Você

não estragou a nossa relação.

Seus lábios se curvaram, irônicos, como se ele tivesse certeza de que isso não

era verdade. Mas era, sim. Nosso lado sombrio não podia ser atribuído

exclusivamente a ele. Não, nossos problemas tinham sido criados por nós

dois.

Apontando para o armário embaixo da pia, ele disse, em voz baixa:

– Ah, não? Eu acabei de jogar fora um vídeo pornô, Kiera.

A sensação que experimentei ao ouvir isso foi estranha. Por um lado fiquei

eufórica por não estar mais no seu bolso, por outro fiquei horrorizada por

saber exatamente onde estava. Mas me obriguei a sorrir do jeito mais natural

possível, e me afastei de Kellan. Pegando uma frigideira para os ovos,

respondi:

– Exatamente. Você jogou fora. – Tirando um garfo da gaveta, dei uma

espetadinha brincalhona no seu peito. – Agora, se tivesse guardado numa

gaveta para assistir mais tarde, aí sim, você seria um babaca.

Kellan riu baixinho, batendo no meu traseiro com o pacote gelado de bacon.

Quando me afastei dele, com a bunda gelada, sua irmã entrou na cozinha.

– Quem é babaca?

Esfregando o traseiro, apontei automaticamente para Kellan. Ele ficou sério, e

então deu de ombros.

– Eu… pelo visto.

Hailey abriu um largo sorriso para o irmão, puxando uma cadeira. Sentando

com os braços sobre o encosto, ficou assistindo enquanto tentávamos preparar

um brunch decente. Kellan degelou o bacon no microondas, enquanto eu

preparava uma jarra de café. O borbulhar do café fervendo se misturou com os

estalos e chiados da gordura quando as fatias de bacon foram jogadas na

frigideira. Comecei a fritar os ovos, quebrando vários em outra frigideira, e

então esperei alguns minutos até que a clara começasse a endurecer. Quando

achei que estavam prontos, tentei soltá-los. Kellan deu uma olhada na

frigideira quando me viu quebrar a gema de mais um ovo.

– Hum, acho que eles têm que ficar mais tempo… – murmurou.

Dando uma olhada na sua frigideira de bacon chiando, notei que uma

desagradável fumaça preta começava a encher a cozinha. Apontando para sua

frigideira, respondi:

– E eu acho que você está deixando o bacon queimar.

Na mesma hora ele voltou a prestar atenção à frigideira, e Hailey caiu na

risada.

– Santo Deus, como vocês dois sobreviveram esse tempo todo?

Levantando, veio até onde Kellan e eu assassinávamos o brunch.

– Podem deixar que eu termino. Vão descansar em outro lugar.

Kellan deu um sorriso para ela, como se se desculpasse.

– Obrigado… irmã.

Ela sorriu para ele, depois de soltar um ovo frito da frigideira com a maior

facilidade.

– Não há de que, irmão mais velho.

Não pude deixar de notar as semelhanças entre seus sorrisos quando os dois se

entreolharam. Fiquei feliz por ver que o sorriso de Kellan parecia ser

genético. Quem sabe ele não podia passar aquele sorriso incrível para os

nossos filhos? Quer dizer, quando tivéssemos filhos. Dali a muitos anos.

Kellan passou os braços pelos meus ombros, com um suspiro satisfeito.

Olhando para mim, balançou a cabeça.

– Há anos que eu cozinho para mim mesmo. Não sei por que eu não estou

conseguindo hoje.

Com um largo sorriso, dei um tapinha no seu estômago.

– Bem-vindo ao maravilhoso efeito colateral de uma crise de nervos, Kellan

Kyle.

Ele franziu o cenho ao ouvir minha opinião.

– Eu não estou nervoso.

Hailey parou de cozinhar por um segundo e se virou para ele:

– Você só pode estar brincando. Quase dá para sentir o cheiro do medo saindo

de você.

– Deu uma risadinha.

Kellan franziu ainda mais o cenho.

– Como estou feliz por ter irmãos…

Adorando o papo brincalhão entre irmão e irmã, passei os braços com mais

força ao redor do seu pescoço. Hailey estava certa sobre o seu nervosismo, e

errada sobre o seu cheiro. Ele estava com o mesmo aroma fantástico que

sempre tinha. Aquele aroma maravilhoso que era só seu e enchia os meus

sentidos enquanto eu me aconchegava a ele. Seu cheiro era melhor do que o do

café e o do bacon.

Riley entrou na cozinha alguns minutos depois, com uma expressão

entusiasmada.

– Kellan, me mostra a sua guitarra?

Kellan sorriu para ele.

– Claro. – Deu um tapinha no ombro de Riley, e um beijo na minha testa. – Já

volto.

Fiquei olhando seu traseiro quando saiu da cozinha, me sentindo totalmente

feliz. Em seguida Hailey disse algo que balançou um pouco essa felicidade.

Dando uma olhada no irmão, perguntou:

– Kellan fez mesmo… um vídeo? – Ergueu as sobrancelhas, maliciosa.

Irritada por ela ter ouvido nossa conversa, estremeci. Vendo minha reação, os

olhos de Hailey na mesma hora se arregalaram e ela voltou a se concentrar na

refeição que preparava.

– Desculpe, não devia ter perguntado. Tenho certeza de que você prefere não

falar sobre o… assunto. – Pareceu um pouco constrangida.

Sem compreender a que ela se referia, Riley pareceu confuso:

– Ele fez um monte de vídeos, Hail. – Olhou para mim, seus olhos o retrato da

mais pura inocência. – Tem vídeo dos D-Bags que não acaba mais na Internet.

Corei, mordendo o lábio.

– É, exatamente… um monte de vídeos na Internet. – Suspirei, sabendo o

quanto essa afirmação era verdadeira.

Hailey fez uma careta, pedindo desculpas por mímica labial.

Assenti. Não fazia sentido me preocupar com todos os vídeos de Kellan que

poderiam vir à tona algum dia. Não importava. Eu podia enfrentá-los. O preço

valia a pena. Provavelmente seria capaz de enfrentar coisas até piores para

ficar com Kellan. Não que quisesse isso, mas, se acontecesse, aceitaria

qualquer limão que a vida jogasse em mim, se era esse o preço de ser sua

mulher.

Kellan voltou à cozinha alguns minutos depois, segurando a guitarra pelo

braço. Estava num intervalo da gravação do álbum da banda em Los Angeles

e, como sempre, trouxera o instrumento favorito para casa. Era quase como um

cobertor de segurança para ele, um objeto do qual parecia não ser capaz de se

afastar por muito tempo.

Sorri para Kellan, que convidou Riley a sentar, e então lhe entregou a amada

guitarra. Achei que o menino seria capaz de desmaiar, tal foi sua empolgação

ao segurála. Os olhos de Kellan brilhavam ao observar a euforia do irmão,

como se lembrasse de si próprio. Deixei os dois se entrosarem e tentei ajudar

Hailey com o brunch. Peguei um melão pingo de mel fresquinho na geladeira e

comecei a cortá-lo em finas fatias, um riff desafinado encheu o ar.

Kellan ajudou Riley a melhorar sua técnica e, enquanto eu ouvia suas

instruções, relembrei a primeira vez que Kellan tentara me ensinar a tocar

guitarra. A lembrança de suas mãos sobre as minhas e sua respiração no meu

ouvido me fez sorrir. Na época, eu me sentira extremamente culpada por gostar

tanto daqueles momentos. Na verdade, ainda me sentia culpada. Eu tentara

fingir que nossa paquera não passava de carícias inocentes, mas de inocente

ela nunca tivera nada. Eu o desejava, e ele a mim. Eu o amava, e ele a mim.

Nada do que havíamos feito estava certo. Mas a lembrança ainda me fazia

sorrir.

Longe dos acordes de Riley e dos chiados do bacon na gordura, ouvi Gavin e

meus pais conversando. Para minha surpresa, meu pai soltou uma gargalhada

homérica. Gavin devia ser tão simpático quanto o filho – mais uma

característica que estava nos genes de Kellan. Que Deus ajude as mulheres do

mundo se Kellan e eu tivermos um filho algum dia, pensei.

Quando a comida estava quase pronta, Gavin apareceu diante da porta em arco

que separava a sala de jantar da sala de estar, e sorriu de felicidade ao ver os

três filhos. Quando seus olhos encontraram os meus, abri um sorriso radiante

para ele, feliz por ver Kellan lhe dar mais uma chance, como ele pedira. Eu

sabia muito bem o que é a bênção de ter mais uma chance, já que Kellan

também me dera uma. Balancei a cabeça para Gavin, que sentou numa cadeira

ao lado de Riley.

– Ouviu isso, pai? Finalmente consegui acertar aquela parte!

O sorriso orgulhoso de Gavin se voltou para o filho caçula.

– Maravilha! Você já está no caminho para o estrelato. – Seus olhos passaram

para Kellan. – Como o seu irmão mais velho.

Riley voltou a tocar, mas Gavin manteve os olhos fixos em Kellan. Abaixando

a voz, ouvi-o perguntar:

– Posso dar uma palavra com você?

Na mesma hora a expressão de Kellan se tornou defensiva, mas ele assentiu,

indicando o corredor. Dando um beijo no meu rosto ao passar por mim,

contornou a parede em companhia do pai. Voltei a olhar para Hailey, mas ela

apenas deu de ombros; também ignorava o que Gavin queria.

Terminando de fatiar o melão, coloquei depressa os pedaços em uma tigela, e

então limpei o sumo das mãos com uma tolha. Curiosa, saí da cozinha, à

procura dos dois.

Kellan e o pai estavam parados pouco depois da aresta da parede, perto da

entrada da área de serviço e do banheiro. Ao lado de Kellan, ouvi Gavin

dizer:

– Não quero discutir isso na frente de Hailey e Riley, mas… – Parou de falar

ao me ver. Kellan ergueu os olhos e me deu um breve sorriso, por isso vi que

podia me aproximar. Gavin pareceu não saber se devia falar na minha

presença, mas Kellan meneou a cabeça para que ele continuasse. – Hum,

enfim, Martin e Caroline me falaram daquela visita que você recebeu horas

atrás. Disseram que a moça… chantageou você…

Kellan suspirou, e meu rosto começou a arder. Gavin olhou para o filho, e

então para mim.

– Está tudo bem?

Kellan retesou o queixo e apertou tanto os punhos que os nós dos dedos

empalideceram.

– Claro, está tudo bem. Isso… não é nada. Vou cuidar do assunto amanhã

mesmo, antes de voltar para Los Angeles.

Senti uma tristeza enorme ao lembrar que Kellan iria embora tão cedo. Mas

ainda não podia ir ao seu encontro. Meus pais iriam passar mais alguns dias na

cidade, e eu tinha um emprego do qual precisava me demitir primeiro. Pete

fora ótimo comigo, por isso eu queria agir da maneira certa dessa vez e lhe dar

o aviso prévio com duas semanas de antecedência. Também prometera à minha

volúvel irmã que a acompanharia na sua próxima consulta com a obstetra. Por

isso, infelizmente, Kellan teria que voltar para Los Angeles sem mim. Mas,

antes, ele teria que se encontrar com aquela… mulher. Cachorra.

Capítulo 3

Gavin e os filhos passaram horas na nossa casa, jogando conosco durante

quase toda a tarde ensolarada. Hailey nos deu uma surra no Banco Imobiliário,

meu pai desbancou todo mundo no Scrabble, e Kellan e eu arrasamos no

Pictionary, o que me surpreendeu um pouco, já que eu não tinha o menor

talento para o desenho. Mas a intuição de Kellan era fora de série; ele

adivinhava tudo.

Quando a noite chegou, Kellan já parecia se sentir totalmente à vontade no

meio da recém-encontrada família, e ninguém mais pensava no incidente de

horas antes com Joey. Foi quando minha irmã, que estava grávida, apareceu,

com o pai do bebê a tiracolo.

Sem o menor aviso, a porta da sala se escancarou cento e oitenta graus,

batendo na parede. Cheguei a saltar da cadeira, meu coração aos pulos. Todos

os presentes olharam para o vestíbulo. Tive certeza de que estávamos sendo

atacados, e que uma legião de policiais devia estar prestes a irromper pela

sala adentro, revólveres em punho.

Levantando-se, Kellan ficou na minha frente, para me proteger. Foi quando o

baixista louro da banda, que era um perfeito idiota, entrou com seus passos

gingados. Relaxando ao ver quem chegara, Kellan fuzilou o companheiro de

banda com os olhos.

– Griffin, será que você já ouviu falar numa coisa chamada “tocar a

campainha”?

Fungando, Griffin afastou para trás das orelhas os cabelos que lhe vinham até

o queixo.

– Nós somos parentes, cara, eu não preciso tocar.

Suspirei, sem saber se Kellan podia questionar esse argumento ou não; afinal,

Griffin engravidara minha irmã, ou seja, ele agora fazia mesmo parte da

família. Que Deus me ajudasse.

Kellan abriu a boca para tentar discutir, mas Anna entrou depois de Griffin e

lhe deu um pescotapa.

– Neandertal – murmurou.

Meus pais se levantaram do sofá para receber Anna. A expressão de papai

ficou sombria ao examinar o pai do seu neto. Pelo jeito como olhou para

Griffin, tive certeza de que, de repente, Kellan se tornara perfeito em

comparação, o “genro de ouro”, para ninguém botar defeito.

Quando me recuperei do choque causado pela entrada surpresa de Griffin, fui

receber Anna com meus pais. Ela era uma das mulheres mais lindas que eu

conhecia. Seu rosto deixava os homens de joelhos; seu corpo fazia com que a

seguissem como cachorros no cio. Mesmo grávida, sua figura curvilínea ainda

atraía os olhares masculinos. Seus cabelos eram incrivelmente sedosos, com

um brilho que ondulava a cada passo, e uns olhos tão verdes que era quase

impossível deixar de encará-los. Sua beleza era estonteante, e crescer à

sombra dessa perfeição nem sempre fora fácil. Mas eu estava começando a me

sentir mais confortável na minha própria pele e, pela primeira vez, não senti

um arrepiozinho de inveja diante da sua beleza absurda. Pelo contrário, tudo

que senti ao lhe dar um abraço apertado foi alegria por vê-la. Mesmo que ela

tivesse trazido o Neandertal a tiracolo.

– Oi, mana. – Quando me afastei, meus olhos percorreram o vestido de

grávida que ela usava. Eu não sabia como minha irmã conseguia encontrar uns

modelitos tão provocantes, mas quase tudo que ela tinha fora desenhado para

exibir o amplo busto. Griffin devia estar no sétimo céu. Putz, eu detestava ter

esse tipo de pensamento.

Anna estava num estágio superfofo da gravidez, prestes a entrar no quarto mês.

Já não estava mais vomitando tanto, e seu nível de energia começava a voltar.

Não que desse para perceber isso pelo jeito pesado como ela andava. Anna

exagerava ao máximo seu estado sempre que tinha uma oportunidade. Mas eu

sabia que ela era mais ativa do que deixava transparecer. Tinha certeza de que

sua noite com Griffin fora extremamente… atlética.

Anna olhou para Gavin e os filhos, que esperavam, educados. Ela franziu o

cenho de um jeito que só realçou sua beleza.

– Ah, desculpe. Não sabia que vocês estavam com visitas.

– Não tem problema – disse Kellan. – Entra aí.

Papai acompanhou Anna até a sala, segurando-a pelo braço como se ela fosse

cair se não fosse amparada. Kellan lhe deu um breve abraço, e então a

apresentou à família.

– Oi, Anna, não tive chance de apresentar você ontem à noite. Esse é Gavin,

meu… pai biológico. – Coçando a cabeça, deu de ombros.

Senti o maior orgulho por ver Kellan admitindo uma coisa profundamente

pessoal com tanta facilidade. Ele estava realmente começando a se sentir à

vontade com a ideia de ter um pai.

Os olhos de Anna se arregalaram um pouco diante da confissão de Kellan.

Não conhecia seu passado sórdido. Enquanto Anna trocava um aperto de mão

com Gavin, Kellan lhe apresentou os dois meios-irmãos. Os olhos dela se

arregalavam mais com cada acréscimo à família. Gavin abriu espaço para

Anna no sofá, e papai a ajudou a sentar.

Com um braço sobre o ombro de Hailey, Kellan explicou a Anna:

– Gavin, Riley e Hails vieram da Pennsylvania para me visitar. – Virou-se

para Gavin. – Você tem mais parentes por lá?

Gavin abriu um sorriso tão parecido com o de Kellan que chegava a assustar.

– Meu irmão e a família dele vivem lá, e meus pais também.

– Você vai adorar a vovó, Kellan. – Hailey deu uma cotovelada na costela de

Kellan. – Ela é tão cheia de vida.

Com uma expressão encantada, Kellan olhou para mim.

– Eu tenho avós, Kiera. – Voltou a olhar para Hailey. – Nunca tive avós vivos,

ou um tio vivo. – Riu baixinho, encantado com a informação. Minha felicidade

era enorme por ver que a família de Kellan não parava de crescer.

Griffin, que assistia à conversa sem entender uma palavra, olhou para os

presentes na sala.

– Espera aí, cara. Eu achei que o seu pai tinha morrido. Quem são essas

pessoas, afinal?

Todo mundo o ignorou.

O olhar de Anna se manteve em Gavin tanto tempo quanto o de mamãe. Alheio

ou indiferente, Griffin nem notou. No entanto, ainda quebrava a cabeça,

tentando decifrar quem era Gavin. Com um sorriso simpático, Anna perguntou:

– E aí, Gavin, sua esposa também veio?

Gavin olhou para os filhos sentados no chão, terminando de jogar uma partida.

– Não, não sou… casado. – Voltou a olhar para Anna, com um sorriso triste. –

Enviuvei… quando Riley tinha dois anos. – Hailey deu uma olhada no pai,

com uma expressão igualmente pesarosa.

– Ah, sinto muito – disse Anna, seu sorriso se desfazendo.

Fez-se um momento de silêncio enquanto todos refletiam sobre a declaração

de Gavin. Mas Griffin logo tratou de rompê-lo, indo até Kellan e cochichando:

– Cara, na boa, quem são essas pessoas?

Rindo baixinho, Kellan deu um soco no ombro de Griffin.

– Vem, vou te dar uma cerveja e desenhar um diagrama para você. – Os risos

aliviaram a tensão na sala enquanto Kellan acompanhava o baixista até a

cozinha, a fim de lhe contar a verdade sobre as suas origens. Griffin seria o

primeiro membro da banda a oficialmente saber que o falecido pai de Kellan

não era seu pai verdadeiro. Só esperava que o imbecil conseguisse assimilar a

informação.

Quando todos finalmente foram embora, já era quase de manhã. Anna foi para

casa com Griffin, a fim de aproveitar ao máximo o limitado tempo dele. Gavin

e os filhos voltaram para o hotel; iriam pegar um avião pela manhã. Exaustos,

meus pais se dirigiram ao quarto de hóspedes para passar mais uma noite no

meu velho e encaroçado futon. Papai suspirou quando Kellan e eu lhe demos

boa-noite da porta do nosso quarto.

Com pena de desperdiçar o pouco tempo que tínhamos dormindo, Kellan e eu

continuamos acordados pelo resto da noite. Ainda vestidos, ficamos

aconchegados na cama, conversando, até a luz acinzentada do amanhecer

entrar pela janela. Kellan afagava meus cabelos enquanto eu deitava a cabeça

no seu peito, ouvindo as batidas do seu coração e sua voz calmante. O

conforto que sentia em seus braços era palpável. Seu abraço me envolvia em

um calor que manteria do lado de fora a mais mortal tempestade de gelo.

Lamentando que ele tivesse que me deixar em algumas horas, eu segurava sua

camisa, abraçando-o com força. Ele parou de falar e deu um beijo nos meus

cabelos. Depois de um momento de silêncio, sussurrou:

– Kiera?

Dei uma olhada no seu rosto. Seus olhos estavam escuros na luz fraca, mas

brilhavam de felicidade. Com um sorriso, perguntou:

– Quer casar comigo?

Meu coração disparou quando me apoiei sobre os cotovelos.

– Como é?

– Quer casar comigo?

Dei uma olhada na aliança que rodeava meu anular esquerdo, e então na

aliança dele.

– Mas nós já não casamos?

Senti o peito de Kellan começar a tremer sob os meus braços, seu humor

borbulhando em uma profunda gargalhada.

– Já, mas acabei de me dar conta de que não cheguei a te fazer um pedido. –

Suspirando, afastou com o dedo uma mecha de meus cabelos para trás da

orelha. Quando terminou, acariciou meu rosto. – E você merece um pedido

tradicional.

Depois de dizer isso, seu rosto adquiriu uma expressão pensativa. Antes que

eu pudesse responder à pergunta, ele afastou meu corpo com delicadeza.

Tentei puxá-lo de volta, dizer que sim avidamente, mas ele se levantou.

Contornando a cama até o meu lado, ficou me olhando durante longos

segundos. Quando eu já estava prestes a lhe perguntar o que estava fazendo,

ele soltou um profundo suspiro, e se abaixou lentamente, ajoelhando-se sobre

uma das pernas.

Não sei por que razão, mas apenas vê-lo se ajoelhar fez com que um suspiro

me subisse pela garganta. Minha visão ficou embaçada, e passei os dedos nos

olhos para secar as lágrimas. Eu não queria perder nada.

Com os olhos úmidos em meio à luminosidade fraca, Kellan perguntou:

– Kiera Michelle Allen, a senhorita me concederia a grande honra de ser

minha esposa? Quer casar comigo?

Eu já estava assentindo antes de ele terminar de falar. Segurei seu rosto.

– Quero, é claro que quero. – E o beijei várias vezes, puxando-o de volta para

os meus braços.

Ele estendeu o corpo sobre o meu e nos beijamos, rimos e até choramos um

pouco até a pálida luz da manhã se transformar em brilhantes raios de sol

inundando nosso quarto. Ouvi meu pai sair do quarto de hóspedes, que um dia

eu dividira com Denny. Kellan e eu paramos de nos beijar e ficamos olhando

para a porta fechada.

Papai demorou muito mais tempo do que o normal, mas, por fim, desceu as

escadas em passos arrastados a fim de preparar seu café. Com um sorriso de

êxtase, Kellan olhou novamente para mim. Entrelaçando nossos dedos,

sussurrou:

– Por que estou com essa sensação de que deveria me esconder no armário?

Esfregou os quadris nos meus e se abaixou para beijar meu pescoço. Fechei os

olhos e virei a cabeça, extremamente feliz. As atenções de Kellan começaram

a despertar meu corpo. Passei as pernas em volta dele, imaginando até que

ponto conseguiríamos manter a discrição. Sexo em silêncio com ele era difícil,

mas não impossível. Quando seus lábios começaram a se afastar do meu

pescoço, murmurei:

– Hummm… porque você é um canalha que só está me usando para satisfazer

os seus instintos sexuais.

Kellan parou de me beijar, levantando o rosto.

– É isso mesmo que o seu pai pensa de mim?

Pega de surpresa pela súbita mudança de rumo, pisquei, gaguejando:

– Hum, não sei… não… acho que não.

Kellan se deitou ao meu lado, e eu me virei de lado para olhá-lo.

– É, sim. Ele pensa que a única coisa que quero de você é sexo, e que tenho

uma versão diferente de você em cada cidade que visito.

Franzi os lábios, tentando pensar em algum errinho na análise de Kellan.

Infelizmente, tinha certeza absoluta de que essa era mesmo a restrição

fundamental que papai lhe fazia: ele não confiava no meu marido por causa do

seu estilo de vida. Dando de ombros, observei:

– Tenho certeza de que ele não pensa que é em cada cidade.

Kellan franziu o cenho, e então voltou a se levantar da cama. Sentando, soltei

um resmungo exasperado.

– O que você resolveu fazer agora?

Kellan foi até a cômoda e começou a se despir. Parei de protestar no instante

em que a cueca samba-canção de seda caiu no chão. Kellan ficou me vendo

observá-lo com um sorrisinho. Vestindo uma cueca limpa e uma calça jeans,

procurou uma camisa nas gavetas, enquanto eu o encarava sem a menor

cerimônia. Por mais atraente que seu corpo fosse ao natural, havia algo do

mais extremo erotismo em sua figura de pé, com a calça aberta. Ainda mais

com as intrigantes linhas que definiam seu abdômen perfeitamente esculpido se

distendendo e flexionando enquanto ele se movia. Queria tanto sentir aquele

corpo em cima de mim novamente.

Achando graça da minha intensa inspeção, Kellan encontrou uma camiseta de

que gostava e a vestiu. Sorri ao ver aquele corpo maravilhoso sendo coberto

pela malha vermelho-escura. Mesmo vestido, ele era lindo. Puxando o zíper

da calça, Kellan balançou a cabeça, aproximando-se.

– Você sabe que se eu ficasse te secando do mesmo jeito que você me seca,

ouviria gritos.

Dei um beijo leve nele quando se abaixou em minha direção.

– Eu nunca gritaria com você… mas sei disso, sim. – Seu rosto misturava

humor e irritação quando ele se afastou. Aos risos, comentei: – A vida é cheia

de injustiças. – Franzi o cenho. – Como você ter que me deixar agora. Aonde

vai?

Kellan sorriu, passando os dedos pelos cabelos, ajeitando as camadas mais

longas até ficarem naquela bagunça irresistível de quem acabou de acordar.

– Vou mostrar ao seu pai que há mais em mim do que ele pensa. Dormir com a

filha dele não é o meu único interesse. – Piscou um olho, e então se virou para

sair. Já com a mão na maçaneta, olhou novamente para mim. – Embora seja o

que eu realmente gostaria de estar fazendo neste momento. – Seus olhos

percorreram meu corpo, despertando meu desejo. Kellan suspirou, enquanto eu

me contorcia sob o seu olhar. Fixando os olhos nos meus, acrescentou: – Está

vendo os sacrifícios que faço por você?

Deu um risinho e saiu do quarto antes que eu pudesse fazer qualquer

comentário.

Pensei em ir ao encontro dos dois, mas decidi não fazer isso. Meu pai

precisava ficar a sós com Kellan para poder se entrosar com ele. Além disso,

eu não queria distrair Kellan com meu sex appeal. É, é isso aí. Sorrindo da

minha vaidade ridícula, levantei da cama. Kellan era a metade sexy do casal, o

que era uma vantagem para mim. Eu era… a metade de sorte.

Esbarrei em mamãe no corredor quando me dirigia ao banheiro. A casa de

Kellan era pequena. O segundo andar consistia apenas em dois quartos

modestos e um banheiro entre eles. Esbarrar nas pessoas no corredor era

quase inevitável. Fora assim que eu conhecera Kellan oficialmente.

Mamãe sorriu, prestando atenção à conversa civilizada que seu marido estava

tendo com o meu. Dei um breve abraço nela, também prestando atenção. Papai

perguntava a Kellan se era mesmo possível ter lucro com esse “negócio de

banda”. Enquanto Kellan tentava explicar que provavelmente daria para

ganhar “direitinho”, minha mãe voltou sua atenção para mim.

– Nós devíamos dar uma olhada em algumas lojas de noivas enquanto estou

em Seattle. Achar um vestido para você antes de voltar para casa.

A ideia me fez estremecer.

– Mãe, eu não preciso de uma superprodução. Quero uma coisa bem simples.

– Simples ou não, você vai precisar de um vestido – disse ela, gesticulando.

Contive um suspiro derrotado. Esse argumento era irrespondível.

– Tá, tudo bem.

Antes que ela pudesse fazer qualquer comentário, entrei no banheiro e fui logo

trancando a porta. Sabia que noventa por cento do meu casamento já estariam

planejados antes de minha mãe ir embora. Quem teria imaginado que ela era

tão obcecada por casamentos? Nunca tínhamos conversado sobre o assunto.

Jamais fora mencionado enquanto eu estava com Denny.

Talvez ela tivesse percebido meu vínculo com Kellan e soubesse, como eu,

que eu encontrara o homem da minha vida. Minha alma gêmea. A metade da

laranja. Minha razão de existir. Nada nesta vida jamais me daria tanta alegria

e paz quanto Kellan. Não sabia o que faria sem ele.

Quando saí do banheiro depois de tomar um banho longo demais, Kellan já

tinha voltado ao quarto, mas agora estava vestindo uma calça de moletom e

terminando de amarrar os tênis de corrida. Devo ter feito uma expressão

cômica, porque ele ficou me encarando ao notar minha presença. Claro que

podia ser pelo fato de eu só estar usando uma fina toalha branca que mal

cobria meu corpo. Eu estava mesmo precisando lavar as roupas.

Com um sorriso brincalhão, ele terminou de amarrar os tênis.

– Que foi? – perguntei, fechando a porta.

Kellan balançou a cabeça, seu sorriso aumentando.

– Nada. – Eu já ia perguntar de novo do que estava achando tanta graça, mas

ele terminou de amarrar os tênis e se levantou. – Vou dar uma corridinha

rápida.

– Tudo bem. – Imaginando se meu pai fora duro demais com ele na minha

ausência, perguntei: – Está tudo bem?

Seus olhos azul-escuros percorreram meu corpo seminu. Na mesma hora tive

consciência de não estar usando lingerie. Quando seus olhos voltaram aos

meus, havia um claro toque de sensualidade neles.

– Claro. Só preciso fazer um pouco de exercício para manter a forma. – Sua

expressão dando lugar a um sorriso natural, enfiou a mão sob a camiseta,

dando um tapa nos abdominais rijos. Mão de sorte. Vindo até mim, retirou a

mão e deu um beliscão no meu traseiro. – Não quero ficar flácido logo agora

que me casei.

Caí na risada, empurrando sua mão, que já começava a subir pela toalha.

Passando os braços pelo seu pescoço, eu me permiti contemplar sua perfeição

física, com ar sonhador.

– Prefiro te ver flácido a longe de mim.

Kellan me apertou com força contra o corpo; seu ar também pareceu sonhador

ao me olhar.

– Preciso… – Hesitou por um segundo, e então concluiu: – … de um pouco de

ar fresco. – Me deu um beijo rápido, parecendo totalmente à vontade, mas tive

certeza de que mudara o que ia dizer. Ou talvez eu estivesse sendo paranoica.

Nem sempre a nossa relação primara pela honestidade. Mas nós tínhamos

jurado que não iríamos mais esconder nada um do outro, e eu confiava nele.

Assentindo, eu o soltei. Seu sorriso em nenhum momento oscilou, mas achei

que o brilho em seus olhos diminuiu um pouco quando me deu as costas. Puxei

uma gaveta da cômoda, observando Kellan, que já ia abrir a porta. Mas parou

antes de fazer isso. Encostando a cabeça no batente, murmurou:

– Droga, não posso fazer isso.

Deixando minhas roupas de lado, eu me virei para ele.

– Kellan? – Será que eu acabara de acertar na mosca? Será que ele tinha

mentido para mim?

Respirando fundo, Kellan me olhou em silêncio por longos momentos. A

tensão no quarto parecia triplicar a cada segundo. O ar frio envolvia minha

pele úmida, me enregelando, e cada gota d’água que pingava do meu cabelo

era como uma lança de gelo perfurando meu corpo. Comecei a tremer, meus

nervos intensificando a sensação.

Percebendo meu medo, Kellan deu um passo na minha direção.

– Você disse total e irrestrita honestidade, não disse?

Assenti, ainda sem me sentir capaz de falar. Kellan desviou os olhos. Era

óbvio que sua cabeça dava voltas em torno de algum problema. Eu só não

sabia qual era. Engolindo o nó na garganta, consegui perguntar:

– O que é?

Ele voltou a me olhar.

– Desculpe. Eu menti para você. Não vou sair de casa porque quero me

exercitar, ou porque preciso de ar fresco. Tenho que fazer uma coisa… e tenho

que estar sozinho.

O gelo que recobria minha pele na mesma hora irrompeu em chamas; cheguei a

ter a impressão de ouvir minha carne chiando.

– Você… mentiu para mim? Em relação a quê? O que exatamente você tem que

fazer sozinho?

Kellan estremeceu, levantando as mãos.

– Está vendo? Era essa a reação que eu queria evitar, e foi por isso que menti.

Mas, como nós estamos tentando ser honestos, mudei de ideia e decidi te dizer

a verdade. Por isso, não fique zangada.

Fumegando de raiva a ponto de ter a sensação de que meu cabelo ia secar nos

próximos cinco segundos, rebati, ríspida:

– Mas você não me disse a verdade. Você não me disse nada. Está sendo vago

e misterioso… e eu não gosto disso.

Kellan fechou os olhos.

– Teria sido tão mais fácil se eu apenas tivesse ido em frente… – Comecei a

bater com o pé no chão, e Kellan reabriu os olhos devagar. – Joey me ligou

enquanto você estava no banho. Vou me encontrar com ela, e quero que você

fique aqui com os seus pais.

Meu queixo despencou.

– Não! Não quero que você vá se encontrar com ela sem mim. Vou com você!

– Não quero que você chegue nem perto dela. Quero que fique aqui. – Seu tom

era firme, autoritário. O que me deixou uma fera.

– Você não manda em mim. Se eu quiser ir… – Suspirando, Kellan me deu as

costas. Segurei-o pelo braço, fazendo com que se virasse para mim. – Eu

ainda não acabei de falar com você!

Com os lábios apertados numa linha fina, Kellan respondeu:

– Eu sei que não mando em você, Kiera. Entendi isso muito bem quando Denny

voltou para a sua vida e você não disse uma palavra. Mas você também não

manda em mim e, se eu quiser fazer isso sozinho, vou fazer!

E com essa, deu meia-volta e saiu. E eu deixei.

Sentindo as lágrimas brotarem nos olhos, sentei na cama. A total honestidade

não está com essa bola toda, como dizem.

Fiquei fumegando durante muito tempo depois que ele saiu. Meu pai tentou me

animar dizendo que talvez Kellan não fosse a pessoa certa para mim, mas

calou a boca quando meu olhar já frio se tornou glacial. Minha mãe ficou

suspeitamente quieta, folheando uma revista de noivas; eu não fazia a menor

ideia de onde a encontrara, mas, pelo encanto em seu rosto ao virar as páginas

e o silêncio diante de meu óbvio desagrado, ficou claro que esperava que

Kellan e eu fizéssemos as pazes em breve. E era o que eu queria. Não gostava

de ficar zangada com ele. Não gostava quando trocávamos palavras ríspidas.

Mesmo assim, sabia que os desentendimentos são inevitáveis. É encontrar uma

saída em meio a eles que faz uma relação dar certo, ou a destrói

completamente. Kellan e eu já tínhamos brigado muitas vezes, mas a maior

parte dessas brigas havia sido por motivos sérios. Não havíamos tido

briguinhas por coisas insignificantes. Não mesmo. Era uma novidade para nós,

e eu não fazia a menor ideia de como lidar com isso.

A única coisa em que não conseguia parar de pensar enquanto ele estava na

rua era o que poderia dizer para Joey, ou fazer com ela. Quer dizer, não que eu

achasse que ele faria qualquer coisa com ela. Ele me amava, e nos

considerava casados. Não destruiria isso por causa de uma vadiazinha com

quem transara anos antes.

Então, será que eu estava com medo do que ele diria? Bem, não, porque já

fazia uma boa ideia do que diria. Ele a encheria de desaforos, diria que ela

fora um enorme erro e atiraria um maço de notas na sua cara, esperando que

ela ficasse quieta. Sorri ao imaginá-lo tão furioso. Ele ficava extremamente

atraente quando estava zangado.

O sorrisinho que se esboçou nos meus lábios dissipou meu nervosismo. Não,

eu não estava preocupada com Kellan nisso tudo. Era o fator surpresa que me

preocupava. Era Joey. Não sabia o que ela faria ou diria, e isso me deixava

ansiosa. E essa fora a exata razão por que Kellan não quisera que eu o

acompanhasse. Ele a conhecia muito bem, convivera com ela. Sabia que a

garota tinha um gênio ruim. Estava tentando me proteger indo sozinho, e eu

soltara os cachorros em cima dele por causa disso.

Minha raiva passou quando refleti sobre a situação do ângulo de Kellan. Ele

devia estar constrangido. Não pelo vídeo, mas pela maneira como fora

exposto – diante de mim e de meus pais. Ele queria acalmar Joey, para poder

seguir em frente. Devia saber que minha presença só prolongaria o processo,

ou talvez até mesmo impossibilitasse qualquer chance de acordo entre os dois.

É claro que Joey diria ou faria algo que me ofenderia, e eu acabaria partindo

para cima dela. Provavelmente Kellan agira bem ao insistir para que eu

ficasse em casa. Se eu fosse ele, acho que teria feito o mesmo.

Quando Kellan finalmente voltou, uma hora e meia depois, minha raiva já tinha

passado. Meus pais e eu olhamos para ele quando entrou na sala. Ele respirou

fundo, fechando a porta. Lançando olhares nervosos para mim, nem mesmo se

virou totalmente na minha direção. Seu cabelo pingava, e seus braços reluziam

de suor. Imaginei que acabara decidindo ir dar uma corrida pesada. Talvez

tivesse sentido necessidade disso, depois de enfrentar a vagabunda.

Consciente de que lhe devia um pedido de desculpas, coloquei na mesa o

caderno onde estava escrevendo e, cautelosa, me aproximei. Ele desviou os

olhos e murmurou que precisava tomar banho antes de ir para o aeroporto.

Senti uma pontada de dor ao lembrar que ele iria embora, mas, no momento,

seu jeito arredio estava me preocupando mais. Quando cheguei ao vestíbulo,

ele se virou e subiu a escada correndo.

– Kellan…?

Ele contornou a parede, limitando-se a dizer:

– Já volto… só preciso me lavar.

Tentei não interpretar essas palavras como sendo mais do que uma constatação

objetiva; ele estava suado e queria ficar limpo antes de viajar. Dando uma

olhada rápida em meus pais, subi a escada atrás dele. Estava se examinando

no espelho do banheiro quando cheguei.

– Kellan…? – tornei a perguntar.

Quando ele olhou para mim, soltei uma exclamação. No espelho, pude ver uma

feia linha vermelha na sua pele, estendendo-se da face até o queixo. Fora por

isso que ele não quisera olhar para mim na sala – aquela cachorra o agredira!

– Ela bateu em você? – Meu coração disparou, e corri até ele.

Kellan observou o ferimento no espelho, e então suspirou ao perceber que eu

também podia ver o reflexo.

– Eu estou bem, Kiera.

Segurando seu rosto, virei-o com cuidado, para poder examinar o corte mais

de perto.

– Ela tirou sangue. Aquela cachorra tirou sangue!

– Está tudo bem. – Ele esboçou um sorriso. – Não é a primeira vez que uma

mulher me arranha.

Ignorei sua provocante referência ao nosso tórrido encontro no quiosque de

espresso, meus olhos úmidos. Seu sorriso se desfez quando ele examinou meu

rosto com a mesma atenção com que eu examinava o dele.

– As coisas não foram muito bem. Talvez você devesse mesmo ter vindo

comigo.

Segurei seu rosto ferido.

– Talvez tenha sido melhor eu não ir. Provavelmente teria sido presa por

agressão.

Um tênue sorriso curvou os lábios de Kellan, mas logo se desfez.

– Me desculpe por ter sido grosseiro com você. Não queria que você se

envolvesse com as baixarias dela.

Acariciei sua pele molhada com o polegar.

– Eu não estou envolvida com ela, e só queria estar lá para te dar uma força.

Kellan abaixou os olhos, seu rosto um misto de gratidão e preocupação.

– Eu sei. É que… eu a conheço, e sabia como se comportaria. – Levantou os

olhos. – Ainda mais agora que ela sabe o que você significa para mim. Eu

queria te proteger.

Dei um beijo no seu queixo; sua pele estava ligeiramente salgada.

– Eu não sou fraca. Sei me defender.

Com um sorriso tranquilo, Kellan sentou na bancada da pia.

– Eu sei que você não é fraca. Acho que o fraco sou eu. Precisava ter certeza

de que você estaria segura, protegida. Não queria que tivesse que ouvir… –

Calou-se, deixando a frase inacabada. – Esse problema é todo meu, Kiera… e

peço desculpas.

Eu podia facilmente imaginar o que Joey teria me dito – cada intimidade que

teria descrito, cada mau comportamento de Kellan que testemunhara. Teria

tentado semear a discórdia entre nós, só porque não conseguira transformar

Kellan em um dos seus brinquedinhos, como fizera com os outros namorados.

O que confirmou para mim o quanto o ciúme pode ser uma coisa perigosa.

Endireitando os ombros, passei os braços pelo pescoço de Kellan.

– Você sabe que não precisa mais pedir desculpas. Eu já te perdoei faz tempo.

Com um largo sorriso, Kellan passou os braços pela minha cintura. O arranhão

no seu rosto já não parecia tão feio agora que seus olhos brilhavam de

felicidade.

– Ah, é?

Aproximando-me ainda mais, dei de ombros.

– É claro. Nem sempre nós vamos concordar, nem sempre vamos nos entender.

– Tendo o cuidado de evitar seu corte, segurei suas faces quentes entre as

mãos. – E também… estou muito orgulhosa por você ter me dito a verdade

quando preferia ter mentido. Isso significa mais para mim do que… enfim,

significa tudo. – Minha garganta se fechou, e tive que engolir em seco para

aliviar a pressão.

Os olhos de Kellan se fixaram nos meus, e ele assentiu, seu rosto ainda entre

minhas mãos. Senti os olhos úmidos ao pensar nas muitas mentiras que haviam

marcado nossa relação. A honestidade, embora às vezes fosse dolorosa, era o

maior presente que podíamos dar um ao outro.

Antes que a emoção do momento tomasse conta de mim, levantei o astral e

perguntei a ele:

– Quer me contar o que aconteceu?

Em resposta, Kellan deu um longo suspiro, o que me fez lembrar que nenhum

de nós dormira na noite anterior. Na mesma hora, contive um bocejo.

– Ela queria se encontrar comigo aqui em casa, mas eu disse que a encontraria

na esquina. Queria chegar antes dela para que não aparecesse por aqui, por

isso não tive tempo de ir ao banco. Não tinha a quantia integral em dinheiro, e

ela deu um piti quando fiz um cheque para cobrir o que faltava. Até me ofereci

para levá-la de carro até o banco, mas ela me deu um tapa, e eu a mandei à

merda. Depois, fui dar uma corrida para descarregar a tensão. – Cachorra.

Ele revirou os olhos, e eu franzi os meus. – Ela é meio doida. Não sei como

posso ter vivido com ela.

O que eu me perguntava era como ele fora capaz de dormir com ela. Mas ele

já estava irritado, de modo que não falei nada. Dando um beijo na minha testa,

ele murmurou:

– Só quero tomar um banho e me vestir para ir viajar.

Dei um passo atrás para que Kellan pudesse se afastar da pia. Não suportava

pensar que ele iria embora sem mim. Queria que pudesse ficar. Ou que eu

pudesse ir com ele. Mas querer não é poder, e teríamos que ser pacientes.

Kellan abriu a torneira, e fechei a porta do banheiro. Sentei no lugar que ele

desocupara na bancada da pia e fiquei vendo-o ajustar a temperatura do

chuveiro. Torci para que a caixa-d’água já tivesse voltado a encher, depois do

banho de imperatriz que eu tomara horas atrás.

Quando a água estava perfeita, Kellan tirou os sapatos, as meias e a camiseta

úmida, que grudou um pouco na pele no momento em que a despiu. Quando

ficou visível, meus olhos se fixaram na tatuagem sobre o coração. Graças a

Deus Joey não tinha visto meu nome gravado na pele do examante; Kellan

poderia ter levado mais do que um arranhão. Mas ele raramente mostrava a

tatuagem aos outros. Era só nossa, uma coisa íntima. Eu ia sentir muita falta de

ver as letras caligráficas quando ele viajasse. Era só uma das mil coisas de

que sentiria falta.

Os dedos de Kellan se detiveram na calça de moletom. Deixando de lado meus

pensamentos melancólicos, dei uma olhada no seu rosto.

– Será que estou cometendo um erro? – sussurrou ele, acima do som do

chuveiro.

Sem nenhuma referência, não soube a que se referira. Notando meu ar de

incompreensão, Kellan esclareceu:

– Fazer um álbum, sair em turnê… será que estou cometendo um erro? –

Enquanto o banheiro se enchia de vapor, desci da bancada. Kellan segurou

minha mão quando me aproximei. – Só quero levar uma vida sossegada com

você – prosseguiu. – E o compromisso que assumi… não é exatamente com

uma vida desse tipo.

Imaginando como confortá-lo – quando eu vivia me perguntando a mesma

coisa –, passei o polegar sobre o corte que cicatrizava.

– Kellan, sua vida nunca vai ser sossegada, não importa o que você faça. – Ele

riu da minha referência, compreendendo. Pousei a mão no seu peito e o olhei

nos olhos. – Seu lugar é no palco. É isso que você nasceu para fazer.

Embora fosse conflitar com a paz e a serenidade que ambos queríamos, eu

sabia, sem a menor sombra de dúvida, que o que dissera era verdade. Kellan

estava fazendo o que devia. Estava cumprindo o seu destino. Mas isso não

significava que precisaria abrir mão de uma tranquila vida a dois comigo, e

sim que ambos teríamos que ser flexíveis. Dando um beijo leve nele,

murmurei:

– Vamos ter que encontrar momentos de sossego em meio ao caos, e nós somos

muito bons nisso.

Kellan retribuiu meu beijo.

– É… somos mesmo.

Meneando a cabeça em direção ao chuveiro, arqueou uma sobrancelha. Eu

sabia o que estava perguntando: Quer entrar comigo? Uma grande parte de

mim queria dizer sim, mas tínhamos coisas importantes para fazer; além disso,

meus pais, sempre vigilantes, estavam na sala, e estávamos tentando

impressioná-los com nossa compostura. E eu tinha certeza de que não sobrara

muita água quente na caixa-d’água.

Balançando a cabeça, dei um último beijo nele, e então recolhi suas roupas

sujas. Ele franziu o cenho para mim, mas então tirou as que ainda faltavam e as

depositou na pilha que eu carregava nos braços.

– Obrigado pelas sábias palavras – disse, dando um beijo no meu rosto.

Fiquei vermelha ao vê-lo entrar no chuveiro. Ele puxou a cortina e começou a

cantarolar uma música. Fiquei parada com a mão na maçaneta, ouvindo;

poderia passar o dia inteiro fazendo isso. De repente, ele aspirou pela boca,

soltando um palavrão. Dei uma olhada na sua sombra por trás da cortina clara.

– Você está bem?

Ele enfiou a cabeça para fora; seus cabelos bagunçados, totalmente escorridos

para trás, pareciam mais escuros, quase do mesmo tom que os de Denny.

– Estou… é que a porcaria do arranhão ardeu.

Quase voltei a me irritar ao lembrar a dor que aquela ordinária lhe causara,

mas a expressão petulante dele foi tão fofa que acabei rindo. Ele não achou

graça e voltou a entrar no chuveiro.

– Posso deixar um rolo de gaze em cima da pia, se quiser – ofereci, com um

toque de humor na voz.

Kellan soltou um suspiro sonoro.

– Não precisa, obrigado.

– Bebezão – murmurei, abrindo a porta.

Minha mãe já vinha subindo a escada quando saí no corredor. Seu rosto se

animou ao me ver. Seu dedo longo apontou para uma seção da revista

sofisticada que tinha em mãos.

– Acabei de encontrar o buquê mais lindo do mundo! Você precisa dar uma

olhada!

Com os braços cheios de roupas suadas de Kellan, abri um sorriso.

– Claro, mãe… sem problemas. Me deixa só colocar estas roupas na máquina

primeiro.

Ela assentiu, entusiasmada, indo me esperar no quarto.

Quando será que ela e meu pai iriam embora?

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