Kiara estava trancada em seu quarto, deitada de barriga para baixo sobre o carpete, tendo à sua volta inúmeros livros, cadernos e apostilas. Tentava desesperadamente se concentrar para poder estudar, mas os acontecimentos daquela noite não lhe saíam da cabeça.
O shortinho de moletom e a regata azul clara não a protegiam do frio do fim da madrugada e ela começava a tremer, mas não se importava. Em sua cabeça milhões de coisas passavam e por mais que tentasse organizá-las, não obtinha sucesso. Desistindo de estudar, fechou os livros e cadernos e levantando-se do chão colocou-os sobre sua mesinha de cabeceira de forma organizada.
Caminhou com passos lentos até seu guarda-roupa onde parou na frente do espelho. Analisou seu reflexo, procurando alguma coisa em sua aparência que justificasse as palavras de Nikolaos Korsac. Percebeu o que estava fazendo e repreendeu-se por isso. Foi aí que se lembrou de onde ouviu o nome Korsac, essa lembrança lhe causando um tremor involuntário.
Suspirando pesadamente, caminhou até a extremidade do quarto e abriu o guarda-roupa. Retirou com cuidado uma pilha de roupas bem dobradas e as colocou no chão. No espaço vazio que ficou retirou uma placa de madeira que disfarçava a entrada de um compartimento secreto. De dentro desse compartimento, Kiara retirou dois envelopes. Voltando a fechar o compartimento, os pegou e sentou-se em sua cama.
Abrindo o primeiro envelope retirou uma carta datada de três meses antes. Leu-a por inteiro e seus olhos brilharam pelas lágrimas contidas.
Suspirando, abriu o segundo envelope com as mãos trêmulas. Hesitante, começou a ler a carta datada de duas semanas antes. Ao chegar ao meio da carta as lágrimas venceram suas barreiras e vieram lhe banhar o rosto, impedindo-a de continuar a leitura. Dobrou-as e as guardou em seus respectivos envelopes e as pôs sob seu travesseiro.
Levantou-se enxugando as lágrimas que teimavam em cair, indo até a janela do quarto e ali ficou por minutos a observar em silêncio os poucos carros que passavam pela rua.
Sentando-se no parapeito da janela começou a analisar tudo o que lhe aconteceu durante o dia. Seus amigos a obrigando a ir à boate, seu encontro com William, a chegada de Korsac e seu amigo, as informações que Will havia lhe passado, seu esbarrão acidental em Nikolaos e o final catastrófico que se seguiu a isso.
Suas emoções estavam à flor da pele, todas alvoroçadas, borbulhando como lavas de um vulcão prestes a entrar em erupção. A lembrança de Korsac a menosprezando na frente de todos não lhe saía da mente.
Estava furiosa!
Não com Nikolaos. Afinal, não poderia esperar uma atitude educada depois de derrubar bebida na camisa dele. Mas, sim, consigo mesma.
"Como pude ficar calada diante de tamanha afronta?", – pensou enquanto ia até sua cama, onde se deitou olhando para o teto, esperando que o dia amanhecesse.
ooOoo
Nem bem o dia amanheceu e Kiara já estava de pé preparando o café da manhã para si e para Íris. Ambas tinham reunião do grupo de estudo logo pela manhã antes de irem trabalhar. A prova para admissão na Universidade era na próxima semana. Tudo estava tão corrido que as duas mesmo morando juntas quase não se viam, muito menos viam os amigos de longa data. Foi por isso que marcaram de ir à boate, mesmo se encontrando durante as reuniões do grupo de estudo não conseguiam tempo de se divertirem juntos. Mas com o desfecho do encontro, Kiara achou que deveria ter escutado seus instintos e ter ficado em casa estudando.
Não demorou muito e Íris acordou, indo até a cozinha. Não se surpreendeu em nada ao ver a morena lá. Afinal, escutou os passos dela dando voltas e voltas pelo quarto, inquieta.
– Bom dia, Flor do meu dia. – cumprimentou tentando conter um bocejo.
– Bom dia Íris. – respondeu Kiara oferecendo uma xícara de café recém-feito.
As duas tomaram café em silêncio, se conheciam há tanto tempo que não precisavam travar uma conversa para saber como a outra estava. Um simples olhar lhes revelava o que mil palavras não conseguiriam explicar.
Depois de tomarem café e arrumarem o apartamento, as duas saíram juntas rumo a casa de Brenno, onde se preparavam para a prova. Essa era a rotina dos últimos dois meses. Entrar no mestrado em Harvard era um sonho que estava perto de se realizar. Kiara queria se especializar em Restauração de Edificios, Íris queria entrar no curso de Planejamento Urbano.
Andavam pela rua enquanto conversavam sobre amenidades quando Kiara foi chamado por um homem. Sem reconhecer a voz continuou andando até que o chamado se repetiu. Ao olhar para trás para ver quem a chamava, Kiara gelou. De todas as pessoas no mundo ele era a última pessoa que esperava. Nikolaos Korsac caminhava rapidamente em sua direção com uma expressão mal-humorada. Parou a alguns passos de onde Kiara e Íris estavam e disparou a pergunta:
– Você é Kiara Elliot, não?
– Sim, sou eu mesma – Kiara respondeu meio hesitante.
– É você a mulher conhecida como Rato de Biblioteca? – perguntou sacudindo uma folha no ar, bem a frente do rosto de Kiara.
Kiara o encarou, admirando os traços bonitos, porém irritados do homem a sua frente. Seu olhar desceu reparando nas roupas que ele usava. Dessa vez estava vestido com uma camisa azul marinho semi-aberta, deixando à vista boa parte do peito alvo. Uma calça preta e justa, seus classicos sapatos italianos e um Rolex diferente do usado na noite passada.
– Responda! É a...
– Já ouvi. – Kiara o interrompeu.
– E então?
A pergunta veio acompanhada de uma expressão de contrariedade, denunciando a evidente braveza.
– E então o quê? – perguntou Kiara, evitando usar um tom irreverente, enquanto olhava algumas pessoas passarem por eles apressadas, provavelmente rumo aos seus trabalhos seculares.
– Explique isto! – vociferou Nik, sacudindo novamente a folha.
Tranquilamente Kiara pegou a folha que lhe era estendida de forma arrogante. Ao examinar o papel, ela notou que se tratava de uma caricatura, postada como Meme no Facebook. Aliás, muito divertida. Kiara estava representada por um por um ratinho de óculos e aparelho nos dentes roendo livros e Nikolaos, sob a forma de um majestoso Dragão raivoso que apontava para ela e dizia qualquer coisa sobre Aparência.
Os lábios de Kiara se entreabriram em um sorriso divertido enquanto passava a folha para Íris olhar, irritando ainda mais Korsac que a observava atentamente.
– Pode me explicar o que é isso?
– Imagino que alguém achou divertido o que aconteceu entre nós ontem à noite, senhor Korsac e resolveu ilustrar.
– Alguém jogou isso bem na frente da minha casa. Fora que minhas mídias sociais explodiram com a publicação dessa coisa. Isso é um insulto!
Kiara deu de ombros.
– É apenas uma brincadeira. Nós, americanos, gostamos de desenhar coisas do cotidiano de forma a alegrar as pessoas. Bem vindo de volta à América, senhor Korsac!
– Pois eu não gosto! Destrua esse desenho e impeça que outros sejam compartilhados!
– Acho que está falando com a pessoa errada. E agora se me dá licença, precisamos ir agora. – fazendo um sinal a Íris que observava tudo em silêncio, começaram a se afastar.
– Nega que é você que aparece no desenho? – Nikolaos perguntou arrogante.
– Claro que não! Com certeza o Ratinho é uma caricatura minha. E o Dragão parece se referir a você. Obviamente os cartunistas acharam que eu, ou melhor, nós dois servimos como boa matéria para os lápis deles. Mas isso não importa. Logo mais eles encontrarão novas vítimas... Agora realmente precisamos ir, senão chegaremos atrasados em nosso compromisso. – novamente Kiara e Íris começaram a se afastar na direção oposta.
– Não dê as costas para mim, garota! – Nikolaos bufou com raiva.
Kiara que já tinha se afastado alguns metros, girou a cabeça e, espiando sobre o ombro, disse com aspereza:
– Tenho nome. E não recebo ordens do senhor. Tenha um bom dia.
Nem bem tinha dado mais alguns passos quando sentiu seu braço ser puxado com brusquidão. Kiara estreitou os olhos na direção de Nik. A situação estava ficando constrangedora e ela acabaria chegando atrasada ao grupo de estudos, o que a deixava extremamente mal-humorada.
– Nenhuma mulher vira as costas para mim! – Nik falou em um tom raivoso segurando firmemente o braço de Kiara.
– Ficará satisfeito se eu me desculpar? – Kiara respirou fundo se segurando para não rolar os olhos.
– Ainda não terminei.
– Se não deseja ter seu nome envolvido ao meu... Essa não é a melhor maneira de consegui-lo.
– O que quer dizer? – Korsac perguntou um pouco confuso, mas sem perder a pose autoritária.
– Impedir-me de ir embora desse jeito é a pior solução. Se alguém estiver nos observando, não vai demorar muito para que surja outra caricatura.
Nik ergueu as sobrancelhas, revelando perplexidade.
"Ele realmente é um homem muito bonito", – pensou Kiara, antes de decidir explicar-lhe:
– Os cartunistas estão em todos os lugares que possa imaginar e não apenas nas boates. A maioria das pessoas por aqui estudam artes, então os desenhos e caricaturas são formas de praticarem seus estilos. E quando se deparam com uma cena que imaginam interessante para satirizar, não hesitam em passá-la para o papel. Depois a digitalizam e espalham por aí. Principalmente por você ser a nova celebridade do lugar. É a chamada liberdade de expressão.
– A culpa é toda sua! – acusou Nikolaos, apontando o dedo na direção de Kiara.
– Não tenho nada a ver com isso. – Kiara respondeu de forma contrariada. – Também não estou servindo de alvo para tais brincadeiras? Então, faça como eu, não permita que elas o aborreçam.
– Já foi vítima dessas brincadeiras antes? – Nikolaos quis saber.
– Sempre que eles não têm assunto novo... Eles me usam como inspiração para as brincadeiras. – Kiara falou em tom conformado.
– Não concordo com isso. – Nik foi taxativo.
– Não há o que se possa fazer – Kiara deu de ombros.
– Por quê? – teimou o moreno.
– Liberdade. Eles podem brincar com as caricaturas conforme desejarem. Não importa a quem agradem ou desagradem. Por essa razão, prefiro ignorá-las.
– Então não há como impedi-los? – Korsac encarou Kiara com firmeza.
– Lamento desapontá-lo. Agora poderia fazer o favor de soltar meu braço e me deixar ir embora.
– E se formos vistos juntos, apreciando a companhia um do outro, evitaria que nos satirizassem? – Nik falou sem nem prestar atenção ao que Kiara disse.
– Receio que não. Provavelmente, sempre o considerarão como um Dragão enfurecido.
– Não sou assim – rebateu Nik.
– Vou aceitar sua palavra se fizer o favor de soltar meu braço e me deixar ir embora. – Kiara puxou seu braço com brusquidão fazendo com que o moreno a soltasse.
– Está bem. Mas antes devo avisá-la de que vou acompanhá-la à festa promovida pela Universidade para os novos alunos do mestrado. Irei buscá-la às nove horas. Esteja pronta, odeio esperar.
Kiara arregalou os olhos diante de tamanha impertinência.
– Não acha que está sendo insolente? Você nem sabe se irei à festa?
– Se não me engano, você está se preparando para voltar para a Universidade, então é bom que vá as festa promovidas por ela para facilitar sua entrada, não? – Nikolaos falou calmamente.
– Mas é um direito meu escolher quem vai comigo. – Kiara cruzou os braços em uma atitude de desafio.
– Isso é besteira. Vou buscá-la às nove. Poderemos cortar o mal pela raiz. Ser for vista desfrutando da minha companhia, encontrarão outras pessoas para importunar.
– Parece ter se esquecido de um detalhe. – o sarcasmo de Kiara era palpável.
– Qual? – o olhar curioso de Nik irritou Kiara ainda mais.
– O de que não aprecio sua companhia.
Para completa surpresa de Kiara, Nik deu uma gargalhada tão estrondosa que ela estremeceu.
– Esteja pronta às nove horas. Já disse que detesto esperar. – Korsac voltou a falar em tom calmo.
– Você nem sabe onde moro – Kiara tentou desesperadamente se livrar do compromisso.
– No apartamento 15 A do 6º andar do edifício Chizuru.
Kiara o fulminou com o olhar.
– Como você sabe disso?
– Tenho meus informantes. – Nikolaos riu travesso. – Esteja pronto às nove.
– Eu não disse que aceitaria. – teimou Kiara.
– Vai preferir que eu a force?
– Seria capaz disso?
– Duvida?
Nik deixou a questão no ar. Em seguida afastou-se indo em direção de Richard que os observava de longe.
Kiara permaneceu imóvel, observando até que o excêntrico homem sumisse de vista. Respirando fundo, virou-se para Íris que apenas meneou a cabeça e ambas correram para não se atrasarem mais para o compromisso.
Kiara nunca se importou tanto com sua aparência como naquela noite. Tudo o que queria era estar deslumbrante e atrair o máximo de atenção que conseguisse. Parecia supérfluo, mas seu orgulho assim exigia.
Escolheu um simples vestido preto de mangas compridas que colava em suas curvas como uma segunda pele. Ele ia ate o meio de suas coxas e era totalmente liso de detalhes, até ela virar de costas, onde havia uma renda sensual na altura dos ombros e cintura, emodurando as costas, que ficavam nuas.
Kiara colocou um belo colar dourado, com correntes mais grossas, e um brinco de argola que fazia par ao colar. Nos pés, sandalias pretas de tira simples e salto agulha transparente e uma bolsa de mão preta completava o look.
Seus longos cabelos castanhos estavam presos num rabo de alto. Seus olhos cor de âmbar eram destacados pelo esfumado da maquiagem. E o perfume que havia escolhido para aquela noite era de uma fragrância floral, porém suave.
Mirando-se no espelho ficou satisfeita com o que viu. Não que estivesse se arrumando para Korsac, mas queria mostrar que ele estava errado quanto ao que disse na boate.
Por volta das oito da noite, Kiara terminava de se arrumar indo dar uma força para Íris, que estava tendo problemas para decidir com que roupa iria à festa. Acabou optando por um vestido verde que combinava com as mechas vermelhas em seu belo cabelo negro.
Às oito e meia, vendo que Íris continuava enrolada, Kiara resolveu se adiantar e chamando um táxi se dirigiu ao local da festa. Preferiu não esperar por Korsac. Não queria e nem precisava de escolta. Muito menos de alguém arrogante pertencente à família que destruíra a vida da pessoa mais importante em sua vida.
ooOoo
As festas organizadas pela Reitoria de Harvard eram lendárias e muito restritas. Pouquíssimas pessoas tinham acesso a elas. Somente pessoas influentes ou com muito dinheiro eram convidadas, além de poucos alunos que ingressariam nos programas. Mas esse não era o caso de Kiara. Um amigo, veterano no curso de Arquitetura que ela tanto almejava, conseguiu um convite para Íris e ela irem. Sua presença naquela festa era uma ajuda imprescindível para ser admitido nos programas de Mestrado e conseguir bons orientadores.
Antes da balada seria servido um jantar formal onde todos poderiam se conhecer melhor. Cada lugar era previamente determinado. E qual não foi a surpresa de Kiara ao descobrir que se sentaria ao lado de William. Uma dor de cabeça já ameaçava despontar só de imaginar o que o excêntrico rapaz faria naquela noite. Meio a contragosto sentou-se em seu lugar, olhando para o lugar vazio ao seu lado. Percebeu então o alvoroço entre os convidados e ouviu o nome de Korsac sendo pronunciado em voz alta por um grupo de homens engravatados, provavelmente os patrocinadores da festa.
Forçando-se a permanecer imóvel, espiou com o canto dos olhos a imagem imponente de Nikolaos enquanto ele se aproximava. Espantou-se ao vê-lo acomodar-se na cadeira, do lado oposto da mesa, bem à sua frente. Sabia que aquele não era o lugar reservado a ele, uma vez que se tratava de uma figura de destaque.
Kiara piscou duas vezes, quase não acreditando na elegância e sensualidade que ele apresentava. E, a julgar pelos sussurros, não tinha sido a única a notar. Nik usava terno e calça cinza chumbo com alguns detalhes negros e uma camisa branca impecável. Para completar, usava abotoaduras em formato de dragão. Kiara engoliu em seco. O homem do outro lado era mesmo de tirar o fôlego!
O par de olhos negros de Nik revirava-se nas órbitas, como se não quisessem perder nenhum detalhe ao seu redor. Parecia não se importar com os olhares e cochichos. Na verdade, parecia apreciá-los.
Naquele instante um dos principais diretores da Universidade tomou seu lugar na cabeceira da mesa e deu por iniciado o jantar. Garçons uniformizados serviam os mais variados tipos de comida. Tudo regado a muito vinho branco e champanhe.
O número de pessoas presentes era impressionante para um evento de cunho didático. Apesar do ambiente mais erudito, muito negócios eram fechados entre a Universidade e empresas importantes.
Kiara não imaginava onde William estava. E também não estava preocupada. O que realmente a perturbava era aquele par de olhos escuros que a observavam, quase que indiscretamente.
O som de taças de cristal sendo servidas e o barulho de talheres, além dos sussurros entre os convidados, de repente, começou a incomodar Kiara, que se viu isolada e solitária em meio a tantas pessoas desconhecidas. Arrependeu-se de não ter esperado Íris, pois pelo menos teria com quem conversar. Ela também se sentia desconfortável com os toques "acidentais" do homem acomodado à sua direita, além do olhar fixo de Nik, atento ao menor gesto que fizesse.
"Não poderia ser pior", – pensou enquanto levava a taça com vinho branco aos lábios sorvendo um pouco do conteúdo.
Mas estava enganada...
– Estou tão decepcionado com você, Kiara.
A voz de William precedeu-lhe a aproximação. Sua expressão estava carregada, denotando um misto de tristeza e contrariedade. Kiara observou como ele estava bonito vestindo uma camisa vermelha sob o terno preto. Seus naturais cabelos loiros estavam brilhantes e alinhados.
"Realmente faríamos um belo casal", – Kiara pensou enquanto William acomodava-se ao seu lado, no lugar previamente determinado.
– Nem sequer foi direta comigo. Como teve coragem? – Will continuou em um tom melancólico e revoltado.
– Não sei do que está falando, William. – a expressão de Kiara era de total confusão.
O loiro jogou um papel dobrado, próximo a um dos talheres dela. Kiara fechou os olhos respirando fundo, desolada.
"William não tem jeito", – lamentou em pensamento. Tornou a abrir os olhos e apanhou o papel.
Tratava-se de outra caricatura envolvendo Korsac. No desenho o Dragão carregava o Ratinho sobre o ombro e fugia pelos ares ostentando uma expressão de vitória, enquanto um Pavão corria desesperado, tentando alcançá-los.
– E então? – perguntou William, entortando a boca com indignação.
– O caricaturista não é dos melhores. – Kiara respondeu em tom baixo, dando de ombros.
– Está negando os fatos? – O loiro perguntou veemente.
– Não vale a pena desperdiçar tempo com isso – Kiara respondeu calmamente, repondo o papel na mesa.
– Será que posso? – a voz de Nikolaos foi ouvida, enquanto esticava o braço por cima da mesa, para alcançar o papel.
Kiara se surpreendeu pela descompostura do gesto. Então percebeu que os lábios do moreno se estreitaram ao contemplar o desenho.
– Então, eu venci? – indagou Nik sem se dirigir a alguém em particular. A seguir mostrou a caricatura para a jovem sentada ao seu lado direito.
Kiara fechou os olhos ao perceber que o papel estava sendo passado de mão em mão, provocando risos e comentários.
– Se queria me magoar, garanto que conseguiu Kiara – queixou-se Will.
– E se pretendia acabar com a minha reputação na Universidade, teve êxito – Kiara respondeu entre os dentes.
– Não era minha intenção. Mas agora estou considerando a possibilidade. – William foi extremamente seco.
– Aquele desenho não significa nada. Hoje quando eu estava indo ao encontro do grupo de estudos acabei encontrando com o Korsac. Apenas conversamos. Foi só isso. – Kiara procurou de todas as formas acalmar os ânimos de Will.
– Pelo que me lembro, você disse que não valia a pena desperdiçar tempo com explicações. – Will se fixou nos olhos de Kiara, todo o sarcasmo evidente em sua voz.
– E não vale.
– E pensar que até a noite de ontem você nem o conhecia... – O loiro olhou para seu prato, suspirando.
– O que quer dizer com isso? – a morena elevou a voz, indignada.
– Você sabe muito bem. – Will voltou a encarar a mulher ao seu lado.
Kiara respirou fundo, tentando se acalmar. A discussão estava começando a chamar a atenção, e tudo o que menos queria era prejudicar sua imagem diante dos administradores da Universidade.
Com as mãos trêmulas pegou a taça de vinho, tomando um longo gole antes de responder:
– Não, Will, eu realmente não sei o que você quis dizer com isso.
– Você sabe sim – a intensidade do olhar de William era constrangedora – Não estou brincando. Desejo mais do que sua amizade.
– Sabe que não é possível, Will. Sinto muito – Kiara disse, repousando uma das mãos no braço dele em um gesto amigável.
O que ela não esperava era que William lhe aprisionasse a mão com o braço livre.
– Sempre me desprezou Kiara, apesar das inúmeras tentativas que fiz para lhe agradar – falava enquanto apertava o pulso delicado em uma carícia. – Desde que te conheci não consigo parar de pensar em você. Eu me aproximo na esperança de poder ficar por poucos instantes ao seu lado, mas até isso você me nega. E nem um simples beijo ou carícia recebi de você. Sabe o que isso significa para mim? E, se eu a encontrar em outros braços, juro que perco a cabeça.
Kiara engoliu em seco. Não queria responder e arriscar-se a uma cena desagradável. Tudo o que conseguiu fazer foi puxar a mão livrando-se do contato.
– Não subestime um homem apaixonado – William ameaçou e levantando-se repentinamente, abandonou o local.
Kiara nunca desconfiou da intensidade dos sentimentos de William. Para ela era algo passageiro, fogo de palha. Agora que sabia, não tinha a menor idéia do que faria a respeito.
Durante toda a cena, Kiara não percebeu que era observada com atenção por um par de belos olhos negros.