Ponto de Vista de Aliza:
O cheiro estéril do quarto de hospital encheu minhas narinas, um lembrete gritante do vazio que de repente se abriu dentro de mim. Aborto espontâneo. A palavra ainda parecia estranha, uma piada cruel para algo que eu não tinha entendido até agora. Toquei meu abdômen, uma dor fantasma florescendo onde a vida havia residido brevemente, secretamente.
A enfermeira, uma mulher gentil chamada Sara, me deu um sorriso pequeno e triste. "Você vai ficar bem, Sra. West." Sua voz era suave, mas as palavras pareciam lixa contra minha alma em carne viva. "Seu marido foi informado."
Como se invocado, a porta se abriu rangendo. Dante estava lá, alto e imponente, mas por uma fração de segundo, vi um lampejo de preocupação genuína em seus olhos. Mas então, Flávia se materializou ao seu lado, o braço entrelaçado no dele, um curativo elegantemente enrolado em sua têmpora. Ela parecia pálida, mas inegavelmente radiante, banhando-se em sua atenção total. Ela me ofereceu um sorriso simpático, mas estranhamente triunfante.
"Oh, querida, sinto muito, muito mesmo, por ouvir sobre seu... incidente infeliz", Flávia arrulhou, sua voz pingando doçura artificial. Ela pressionou a mão livre no peito. "Dante estava tão preocupado, correndo para o meu lado depois da minha pequena batida. Imagine, você também sofreu um acidente! Que azar terrível."
O braço de Dante apertou a cintura de Flávia. Ele não olhou para mim, seu olhar fixo no rosto de Flávia, sua preocupação palpável. "Flávia, você tem certeza de que deveria estar de pé?" ele murmurou, conduzindo-a gentilmente de volta para a porta. "Você precisa descansar."
"Mas Aliza, minha querida, eu só tinha que te ver", insistiu Flávia, lançando um olhar fugaz para mim, uma miragem de compaixão. "Vamos deixá-la se recuperar. Dante tem sido uma rocha para mim."
E então eles se foram, a porta se fechando suavemente atrás deles, deixando-me no silêncio sufocante mais uma vez. Minha garganta se apertou, um gosto amargo e metálico enchendo minha boca. "Incidente infeliz." "Uma pequena batida." Era tudo o que minha perda significava, uma nota de rodapé no drama deles. Ele nem sequer ficou. Ele a escolheu novamente. A dor esmagadora em meu peito se intensificou, uma queimação lenta e agonizante.
Meu celular, esquecido na mesa de cabeceira, tocou de repente. Era a Dra. Aris. Peguei-o desajeitadamente, minhas mãos tremendo.
"Aliza, o que diabos aconteceu?" A voz da Dra. Aris estava tensa, forçada. "Você perdeu o lançamento do projeto Quimera. O conselho está furioso. Eles veem isso como um grande sinal de alerta para o seu comprometimento."
"Dra. Aris, eu... eu tive uma emergência", gaguejei, minha voz quebrando. "Eu estava no hospital. Acabei de ter um aborto espontâneo."
Um silêncio pesado se estendeu entre nós. Então, a Dra. Aris suspirou, um som longo e cansado. "Aliza, sinto muito por ouvir isso. De verdade. Mas este projeto... é de alto risco. Precisávamos de você lá. O conselho já está questionando sua estabilidade. Especialmente depois de... bem, depois que a empresa já investiu tanto em você."
"Mas não foi minha culpa", implorei, lágrimas ardendo em meus olhos. "Dante estava me levando para lá, e então o acidente de Flávia aconteceu, e ele simplesmente... ele me trouxe para cá."
Outro suspiro. "Aliza, eu entendo que você está passando por muita coisa. Mas isso não está facilitando as coisas. A decisão foi tomada. Você está fora do projeto. Efetivo imediatamente." Sua voz era firme, não deixando espaço para negociação.
O telefone escorregou dos meus dedos dormentes. Fora do projeto. Meu sonho. Se foi. Em um único e horrível dia, eu perdi tudo. Meu filho, minha carreira e o último resquício da minha crença no amor de Dante. O quarto girou. Fechei os olhos, um soluço silencioso escapando dos meus lábios.
Naquela noite, Dante voltou ao quarto do hospital sozinho. Ele carregava um buquê de lírios brancos, seu cheiro enjoativo no ar. "Aliza", disse ele, sua voz um pouco mais suave do que antes. "Sinto muito. Por... tudo." Ele colocou as flores na mesa de cabeceira, cuidadoso para não olhar diretamente para mim. "Flávia está descansando em casa. Concussão leve, nada sério."
Meu olhar estava fixo em seu rosto, procurando por algo, qualquer coisa. "E eu?" sussurrei, minha voz quase inaudível. "E quanto a mim, Dante?"
Ele se mexeu desconfortavelmente. "Eu te disse, Aliza. Sinto muito." Ele estendeu a mão para a minha, mas eu me afastei, recuando de seu toque. "Foi um acidente. Essas coisas acontecem."
"Essas coisas acontecem?" As palavras eram gelo na minha língua. "Você me deixou. Você me abandonou no carro para correr para ela. E agora... eu perdi nosso bebê. E meu emprego. Tudo pela 'pequena batida' dela?" Minha voz se elevou, crua de dor e raiva. "Por que, Dante? Por que ela é sempre mais importante?"
Sua mandíbula se contraiu. Seus olhos, geralmente tão guardados, brilharam com algo semelhante a irritação. "Aliza, não se atreva a me acusar disso. Flávia precisava de mim. Ela estava apavorada. E quanto ao bebê, é lamentável, mas podemos tentar de novo." Ele fez uma pausa, então sua voz baixou, um aviso subjacente em suas palavras. "E não se esqueça do seu lugar. Você é minha esposa. Você não vai questionar minha lealdade."
Suas palavras, frias e desdenhosas, cravaram uma adaga em meu coração já ferido. Meu lugar. Ele me via como uma posse, um símbolo de status, não uma parceira, não uma mulher que acabara de perder seu filho. Senti um vazio profundo, um espaço frio e duro onde meu amor por ele residira. As expectativas que eu carregara para este casamento, a esperança ingênua de que minha devoção eventualmente derreteria seu exterior gelado, se transformaram em pó. Eu havia imaginado uma vida de respeito mútuo, de sonhos compartilhados, de uma família. Em vez disso, encontrei uma gaiola dourada e um marido cujo coração pertencia a um fantasma.
Alguns dias depois, de volta à mansão espaçosa e silenciosa, meus pais vieram me visitar. Minha mãe, vendo meus olhos fundos, me envolveu em um abraço apertado. "Minha pobre menina", ela murmurou, acariciando meu cabelo. Meu pai, geralmente severo, deu um tapinha desajeitado no meu ombro. Eles estavam preocupados. Dante, sempre o marido dedicado em público, providenciou para que eu fosse levada para casa, garantindo que todas as aparências fossem mantidas.
Naquela noite, Dante entrou na sala de estar, um raro sorriso no rosto. "Aliza", disse ele, estendendo um folheto brilhante. "Minha mãe insistiu que começássemos a planejar. Para o berçário." Ele apontou para uma foto de um quarto luxuoso, cheio de tons pastel. "Ela acha que deveríamos ir com um tema clássico. O que você acha?"
Olhei para o folheto, depois para ele. O pensamento de outro filho, de preencher aquele espaço vazio, era uma perspectiva aterrorizante. Minha voz era um sussurro. "Dante... você será um bom pai?"
Ele fez uma pausa, um lampejo de surpresa em seus olhos. Então, ele sorriu, um sorriso real desta vez, embora parecesse forçado. Ele se ajoelhou diante de mim, tirando uma pequena caixa de veludo. "Aliza, eu te prometo, serei o melhor pai." Ele abriu a caixa para revelar um pingente de diamante brilhante, em forma de uma pequena estrela. "Isso é para o nosso futuro. Nosso novo começo." Ele fechou a caixa, abriu a palma da mão e, com um sorriso infantil, colocou minha mão na dele. "Promessa de dedinho?"
Uma estranha leveza, fugaz e frágil, tocou meu coração. Era um gesto infantil, tão diferente do CEO estoico, mas oferecia um alívio momentâneo do peso esmagador da minha dor. Lembrou-me, vagamente, de outra promessa, há muito tempo, em outra vida. Uma promessa de segurança, de para sempre. Eu quase acreditei nele. Quase.
Assenti, um sorriso fraco brincando em meus lábios. "Ok, Dante", sussurrei. "Promessa de dedinho."
Naquela noite, sozinha novamente em nosso quarto, olhei para o pingente de estrela. A memória do projeto Quimera, meu emprego dos sonhos, piscou em minha mente. Eu não podia deixar tudo ir. Eu tinha que recuperar alguma parte de mim mesma. Peguei meu telefone. Eu ligaria para a Dra. Aris novamente, imploraria por outra chance, qualquer coisa. Eu não seria apenas a "Sra. West", uma mulher de luto cujo único propósito era gerar um herdeiro. Eu era Aliza Hayes, bioquímica. E eu lutaria por isso.
No dia seguinte, armada com uma determinação renovada, vesti meu terno mais elegante e fui para a universidade. A Dra. Aris hesitou, mas concordou em me dar uma chance de apresentar meu caso ao conselho do departamento. Enquanto eu caminhava pelo corredor familiar, meu coração batia com uma mistura de esperança e ansiedade. Abri a porta do laboratório de pesquisa, apenas para congelar.
Flávia Brennan estava lá. Com um jaleco dois tamanhos maior, posando para uma equipe de filmagem. Ela estava rindo, sua risada aguda ecoando pelo espaço geralmente sagrado. "Oh, as maravilhas da ciência!" ela chilreou, segurando um tubo de ensaio para a câmera. "Tão fascinante!"
Meu sangue gelou. O que ela estava fazendo aqui?
Ela me viu. Seu sorriso vacilou por um microssegundo, depois se iluminou, tornando-se ainda mais sacarino. "Aliza, querida! Que surpresa! Dante disse que você estava... se recuperando."
"Flávia", eu disse, minha voz tensa. "O que você está fazendo no meu laboratório?"
Ela piscou os cílios, fingindo inocência. "Oh, você não soube? Dante mexeu uns pauzinhos. A West Enterprises é uma grande patrocinadora deste projeto agora, e eu estou me juntando à equipe como uma 'embaixadora celebridade' para aumentar a conscientização! Não é simplesmente fabuloso?" Ela piscou para a câmera.
Meu mundo inclinou. Dante. Ele tinha feito isso. Ele não apenas garantiu que eu perdesse minha posição original, mas agora inseriu sua preciosa Flávia em meu projeto, zombando do trabalho da minha vida. A raiva que surgiu em mim era fria e pura.
Nesse momento, minha supervisora, a Dra. Aris, entrou, parecendo agitada. "Aliza, momento perfeito. Acabamos de terminar a orientação para nossa nova... membro da equipe." Ela me deu um olhar de desculpas que dizia muito.
"Membro da equipe?" zombei, minha voz cheia de veneno. "Ela é uma atriz, Dra. Aris. O que ela sabe sobre bioquímica?"
Flávia fez beicinho dramaticamente para as câmeras. "Oh, Aliza, não seja tão pessimista! Estou aqui para aprender, para inspirar! Dante acha que é uma ideia brilhante!"
"Dante acha que é uma ideia brilhante", repeti, as palavras queimando na minha língua. Ele não apenas me negligenciou; ele estava me sabotando ativamente, por ela. Os últimos fios da minha esperança ingênua se romperam.
De repente, Dante apareceu, entrando confiantemente no laboratório, uma mão possessiva pousando no ombro de Flávia. Ele olhou para mim, um lampejo de desafio em seus olhos. "Aliza. Presumo que você esteja aqui para se candidatar a uma posição de assistente de pesquisa. Este projeto é vital, e o envolvimento de Flávia garantirá o máximo interesse público."
Ele disse isso tão casualmente, como se me rebaixar de líder de equipe para assistente, e me substituir por uma atriz de segunda categoria, fosse uma ação perfeitamente normal e aceitável. Sua mão acariciou o braço de Flávia com uma ternura que ele reservava apenas para ela. Então ele se inclinou, sussurrando algo em seu ouvido que a fez rir, seus olhos brilhando de prazer.
Meu coração se despedaçou, não em mil pedaços, mas em um pó fino e amargo. A promessa de dedinho, o pingente de estrela, a tênue esperança de uma família - tudo parecia uma piada cruel. Ele não era apenas emocionalmente distante; ele era uma traição ambulante. O homem que eu amei por uma década, o menino que uma vez preencheu meus sonhos, era um estranho. E pior, ele era meu inimigo.
Ponto de Vista de Aliza:
A mão de Dante permaneceu no braço de Flávia, um toque tão terno que revirou uma faca em meu estômago. Ele inclinou a cabeça, murmurando algo para ela, e ela riu, seus olhos brilhando. Era uma intimidade que eu passei um ano ansiando, um afeto que ele reservava exclusivamente para sua "amada" ex-namorada. A cena fez meu estômago revirar, uma mistura doentia de ciúme e desespero. Eu o observei, este homem com quem eu era casada, cujo olhar agora estava exclusivamente em outra mulher, uma mulher que se deleitava com sua atenção como uma criança mimada.
Uma pressão fria e sufocante subiu pela minha garganta. Senti como se estivesse me afogando em um mar de sua indiferença e do charme calculado dela. Meus pulmões queimavam, famintos por ar. Eu queria gritar, atacar, arrancar aquele sorriso presunçoso do rosto de Flávia, mas não podia. Não aqui. Não na frente da equipe de filmagem, que ainda estava diligentemente filmando cada beicinho e pose de Flávia.
Engoli em seco, forçando as lágrimas quentes a voltarem. Minha reputação profissional estava em jogo, a mesma coisa pela qual eu lutei tanto para reconquistar. Endireitei a coluna, empurrando para baixo a onda de humilhação e traição. "Dra. Aris", eu disse, minha voz surpreendentemente firme, "estou aqui para a vaga de assistente de pesquisa. Entendo a importância do projeto." Meus olhos se voltaram para Dante, um desafio silencioso em suas profundezas. "E garanto a você, meu compromisso é inabalável."
A Dra. Aris pareceu aliviada, embora uma sombra de preocupação ainda pairasse em seus olhos. "Excelente, Aliza. Fico feliz que você esteja a bordo. Este é um momento crítico para o projeto. Última chance, viu." Ela enfatizou a última parte, um aviso claro.
Assenti, reconhecendo a pressão não dita. Isso não era apenas um emprego; era minha tábua de salvação, minha identidade. Eu não deixaria ele, ou ela, tirar isso de mim. Apresentei minha proposta de pesquisa detalhada, delineando metodologias inovadoras, minha voz firme e clara. Falei com paixão, com convicção, sobre o potencial do Projeto Quimera. A ciência, a esperança que oferecia para a humanidade, fluiu através de mim, eclipsando momentaneamente a realidade amarga da minha vida pessoal.
Os membros do conselho, inicialmente céticos, começaram a assentir. A expressão da Dra. Aris mudou de preocupação para orgulho. Minha proposta era sólida, minha expertise inegável. Eles não podiam negar minhas qualificações, mesmo com a interferência flagrante de Dante. Quando a votação final foi feita, foi unânime. Eu estava dentro. Como assistente de pesquisa, sim, mas eu estava dentro. Uma pequena vitória, mas uma vitória mesmo assim.
Uma frágil sensação de triunfo floresceu em meu peito enquanto eu deixava o campus. Eu consegui. Lutei pelo meu lugar, pela minha paixão. Meus passos pareciam mais leves, um vislumbre de esperança retornando.
Ao me aproximar da mansão, notei uma agitação. Caixas, fitas e decoração de bebê estavam sendo carregadas para dentro. Meu coração deu um salto estranho. Eles estavam montando o berçário. A assistente de Dante, Sra. Evans, me encontrou na porta, seu rosto envolto em um sorriso caloroso.
"Sra. West, bem-vinda de volta! O Sr. West queria garantir que tudo estivesse perfeito para o quarto do bebê. Ele tem sido tão detalhista. Ele até enviou os esboços ele mesmo." Suas palavras, destinadas a serem reconfortantes, soaram vazias.
Forcei um sorriso, minha alegria pela aprovação do projeto subitamente ofuscada por um pavor familiar. Dante, detalhista com um berçário? O homem que nem conseguia se lembrar da minha cor favorita? Uma risada cínica ficou presa na minha garganta. Isso não era para mim. Isso era para a imagem, para o legado West.
Mais tarde, enquanto eu caminhava pelo quarto meio decorado, as cores pastel e os móveis minúsculos pareciam estranhos, sufocantes. Um medo pequeno e irracional me dominou. Uma criança. O filho dele. Eu havia perdido um, e agora a perspectiva de outro, de trazer uma nova vida a este mundo fraturado, parecia aterrorizante. Minha própria infância, um borrão de negligência emocional e ressentimentos não ditos, passou diante dos meus olhos. Meus pais, presos em sua própria guerra silenciosa, ofereceram pouco calor. Eu não queria repetir esse ciclo. Não por uma criança inocente. Não com Dante.
O toque do meu telefone me assustou. Era Dante. "Aliza", sua voz era seca, urgente. "A mídia descobriu sobre sua... condição. Está em toda parte. Precisamos controlar a narrativa."
Meu coração afundou. "O que você quer dizer?"
"Eles estão te pintando como uma interesseira calculista, tentando me prender com uma gravidez. E, claro, há sussurros sobre o acidente de Flávia e sua súbita perda de emprego. É uma bagunça." Seu tom era desprovido de simpatia, cheio apenas de irritação com o pesadelo de relações públicas. "Precisamos de uma frente unida. Há uma coletiva de imprensa hoje à noite. Esteja pronta."
"Uma coletiva de imprensa?" Minha voz estava fraca. "Dante, acabei de perder um bebê. E meu emprego. Não estou pronta para isso."
"Você estará pronta", ele retrucou, sua paciência se esgotando. "Isso não é sobre seus sentimentos, Aliza. Isso é sobre a West Enterprises. Isso é sobre proteger nossa imagem e, mais importante, proteger Flávia de mais escrutínio. Um bebê é uma ferramenta poderosa para a percepção pública. Mostra estabilidade, compromisso."
Suas palavras foram um calafrio amargo. Um bebê, uma ferramenta. Não um milagre, não um novo começo, mas uma estratégia de relações públicas. O último vestígio de calor em meu coração murchou e morreu.
Naquela noite, eu estava ao lado de Dante em um palco iluminado, um sorriso forçado estampado no rosto. Os flashes das câmeras eram ofuscantes, uma horda faminta de repórteres gritando perguntas. Minha mão repousava em meu estômago ainda plano, um gesto que eu esperava que transmitisse uma mãe serena e expectante. Era uma performance. Nosso casamento era uma performance.
"Sr. West", um repórter chamou, "há rumores de que você presenteou a Sra. Brennan com um raro colar de diamantes na semana passada. É verdade que sua esposa recebeu uma joia semelhante, ainda mais extravagante, como um símbolo de seu amor duradouro?"
O aperto de Dante na minha mão se intensificou, um aviso silencioso. Ele sorriu encantadoramente. "Claro. Minha esposa significa o mundo para mim. Ela não merece nada menos que o melhor." Ele se virou para mim, seu sorriso não alcançando seus olhos. "Não é mesmo, querida?"
A mentira tinha gosto de cinzas na minha boca. Eu não recebia uma única joia dele desde nosso anel de noivado forçado. O "pingente de estrela" era um adereço frágil em sua promessa infantil, uma bugiganga barata em comparação com os diamantes que adornavam Flávia. No entanto, eu sorri, uma imitação assustadoramente perfeita da dele. "Com certeza", murmurei, minha voz sacarina. A amargura, no entanto, era só minha.
Outro repórter interveio, sua pergunta mais afiada. "Sra. West, alguns tabloides sugerem que seu relacionamento com a Sra. Brennan está tenso, particularmente após o recente acidente dela. Como você se sente sobre o envolvimento da Sra. Brennan no projeto Quimera, dado o relacionamento anterior dela com seu marido?"
A mão de Dante apertou a minha, quase dolorosamente. Meu olhar encontrou o dele. Seus olhos continham uma ameaça silenciosa, uma ordem clara para seguir o jogo. Mas algo dentro de mim se quebrou. Os anos de negligência, a humilhação constante, a ferida fresca do meu aborto, e agora esse desrespeito flagrante. Era demais.
Respirei fundo, meu sorriso inabalável, mesmo com meu coração batendo um ritmo frenético contra minhas costelas. "Flávia Brennan é uma atriz talentosa", comecei, minha voz clara e calma. "Seu envolvimento traz uma valiosa visibilidade pública para importantes pesquisas científicas." Fiz uma pausa, deixando meu olhar se desviar para Dante, depois de volta para o repórter. "Quanto ao relacionamento passado dela com meu marido, é exatamente isso que é - o passado. Meu marido e eu estamos focados em nosso futuro. E em nosso filho."
Uma ondulação passou pelos repórteres. Os olhos de Dante se arregalaram, um lampejo de surpresa, talvez até de respeito relutante, em suas profundezas. Ele não esperava isso. Ele esperava que eu desmoronasse, gaguejasse, confirmasse suas suspeitas. Mas eu joguei o jogo dele, e eu ganhei. Por enquanto.
De volta à mansão, o silêncio parecia mais pesado do que o normal. Dante sentou-se à minha frente na sala de estar, rolando seu tablet. A seção de comentários de um artigo de notícias piscava na tela: Interesseira. Destruidora de lares. Ela claramente afastou Flávia. Olhe só como ela é presunçosa. A internet era um poço de ódio, alimentado pela narrativa de vítima cuidadosamente elaborada de Flávia.
Dante pigarreou. "Vou pedir para minha equipe lidar com isso. Vai passar." Sua voz era monótona, desprovida de conforto real.
Olhei para ele, meu coração uma dor oca. "Você acredita neles, Dante?" Minha voz era quase um sussurro. "Você acha que sou uma destruidora de lares? Que afastei Flávia?"
Ele não respondeu imediatamente, seu olhar fixo na tela, depois se desviou para a lareira bruxuleante. "Aliza", disse ele, sua voz tingida de um cansaço familiar, "você sabia o que era este casamento. Um pacto. Uma fusão. A empresa de biotecnologia em dificuldades da sua família, o império da minha família. Havia... expectativas." Ele finalmente encontrou meu olhar, seus olhos frios, distantes. "Flávia e eu... tínhamos uma história. Uma longa. Você estava ciente disso."
As palavras foram uma afirmação brutal dos meus medos mais profundos. Ele não negou. Ele não me defendeu. Ele simplesmente reiterou os termos do nosso contrato sem amor. Eu era a verdade inconveniente, a estranha que ousou perturbar sua narrativa cuidadosamente construída. Meu peito se apertou, uma nova onda de dor me invadindo. Eu esperava tolamente, mesmo depois de tudo, que ele pudesse, apenas pudesse, me ver como mais do que um acordo de negócios. Mas ele não via. Ele nunca veria. O silêncio se estendeu entre nós, denso com acusações não ditas e o gosto amargo de um amor que nunca foi verdadeiramente correspondido.