Capítulo 2

No dia seguinte, Vínia, Marx e Fly tinham mais uma típica conversa de final de prova e Marx, no seu imaculado narcisismo, se gabava da boa nota que com certeza teria, já que foi Mack que muito discretamente respondeu as questões da sua prova. Fly, a mais reservada e consciente do grupo, apresentou os planos mais concretos para as férias que celeremente se aproximavam, e as suas amigas, ou por confiarem nela, ou por acharem a tarefa de planificar férias demasiado trabalhosa, apenas concordavam com tudo que Fly sugeria, ambas quase sendo absorvidas pelas telas dos seus celulares.

Sem que elas notassem, Mack aproximou-se delas. Para o espanto das meninas, Mack se apresentava organizado como se estivesse prestes a participar de um evento solene, trazia umas calças de um azul sombrio, um terno de igual tonalidade e uma camisa preta, o seu sapato preto estava tão polido que era possível ver as nuvens efémeras do céu reflectidas na sua superfície. O seu cabelo, geralmente crespo e desgrenhado, estava cuidadosamente penteado a moda gentleman da Inglaterra e sobre sua cabeça um chapéu preto-vermelho dava-lhe um aspecto ainda mais cerimonial e de certa forma, oculto. Trazia com ele o seu álbum, bem polido e com a capa restaurada. Na capa frontal do Álbum encontravam-se as seguintes escritas: igzim meora satrus; e mais ao fundo da capa: satrus imina lorah.

Mack, que sempre pareceu maltrapilho e de postura vergada, hoje estava esbelto e imponente, exibindo os seus 1,89 m de altura e um sorriso sinistramente sedutor.

Ao aproximar-se, Mack muito cordialmente dirigiu-lhes a palavra:

– Meninas!

– Mack? – Perguntou Marx atónita. Ela não via o seu cachorrinho naquele momento, e sim um homem esmagadoramente sedutor.

– Sim, sou o Mack. Queridas, poderiam contar-me mais sobre as férias de verão que vocês pretendem?

– Claro Macky! – Disse Vínia quase hipnotizada.

– Vínia!!!! Você não pode simplesmente sair por aí partilhando nossos planos com qualquer um.

Marx ainda resistia ao charme de Mack, mesmo sentindo-se realmente tentada a passar a tarde com aquele cavalheiro bem na sua frente.

Mack lançou um olhar invasivo sobre Marx que a deixou completamente vulnerável ao misterioso charme daquele homenzinho. Ela mesma começou a contar para Mack sobre os planos para as férias.

Enquanto Vínia e Marx submergiam cada vez mais inconscientes no charme de Mack, Fly projectava um olhar perscrutador ao álbum que Mack trazia, principalmente às escritas em língua estranha que o álbum ostentava. Depois de um tempo, por algum motivo, Fly abandonou sorrateiramente o pátio e voltou para o edifício principal da escola, dirigiu-se à sala de computadores e lançou-se em pesquisas das quais só ela mesma poderia falar.

Depois de um tempo ouvindo as meninas, Mack voltou a falar, sua voz estava tão suave quanto os flocos de neve que impressionavam a todos no inverno.

– Se me permitem sugerir, a Ilha Erha fica mortiferamente linda no verão, as flores ganham vida e as árvores descrevem danças teatrais enquanto suas folhas assobiam sinergicamente. – As palavras de Mack tinham sempre esse toque sóbrio, quase como se ele as usasse simplesmente para expressar um desejo assassino, ou para enfatizar a imutabilidade da morte.

– Iha Erha? Onde ela fica? Nunca antes ouvira falar dela. – Marx mostrou-se bastante interessada na sugestão de Mack.

– É uma pequena ilha localizada mais no extremo setentrional daqui, as árvores lá são milenares, mas os seus troncos ainda carregam o vigor de crianças e as suas folhas gritam ao som dos ventos que por lá predominam.

– E você, já esteve lá Macky? – Mais uma vez Vínia tratou Mack como se os dois fossem amigos inegáveis.

– Sim, por acaso é lá onde fica o meu lar, minha família.

Enquanto a conversa entre Mack, Vínia e Marx decorria, Fly retornou das suas pesquisas, o seu semblante ostentava ligeira decepção. Chegou no exato momento em que Mack, explicava sobre o seu lar e sua família.

– Porquê sua família nunca veio visitar você? – Perguntou Fly seguindo o fluxo da conversa.

– Eles são bem discretos e reservados, preferem receber visitas do que visitar, e aposto que ficarão bem entusiasmados ao ver vocês por lá, talvez até tirem uma foto.

Para a intuição de Fly, aquelas palavras pareceram terrivelmente agourentas e sinistras. Ela parecia ser a única que não estava assim tão impressionada com a performance de Mack, talvez por ser reservada, ou simplesmente por, mesmo sendo da mais alta classe social, nunca ter olhado Mack como um pedaço de lixo ou mendigo, no entanto também não via como alguém digno de interesse, ela sempre manteve uma posição meio neutra perante ele.

As palavras de Mack assustaram Fly, que logo depois arrastou as amigas que pareciam que dali nunca mas sairiam. Enquanto Fly arrastava suas amigas que a seguiam relutantes, Mack sorriu de forma gélida e despediu-se das três, como se estivesse a despedir de alguém cuja vida cessaria num futuro imediato.

– É sério meninas, aquele garoto tem um problema.

– Quem? – Perguntaram Marx e Vínia em uníssono.

– Como assim quem? O Mack claro. Porquê ele anda com aquele álbum de fotos vazio?

– Espera aí, você esteve com o Mack hoje?

– Ihhh!!! Olha só, a Fly virou madre agora, anda até conversando com mendigos. – Comentou Vínia no seu imensurável senso de humor.

A pergunta de Marx e o comentário de Vínia não tiveram graça para Fly, afinal de contas foram as duas que mais conversaram com Mack.

– Deixem de brincadeiras meninas. Acho melhor você parar de andar por aí com o Mack, existe algo intensamente obscuro naquele menino Marx, é sério. – As palavras de Fly demostravam preocupação ou talvez, um certo receio.

– Você precisa parar de ouvir podcasts do Stephan King, o Mack é só um ratinho de esgoto, nada mais, além do mais eu não preciso mais dele, a prova de amanhã é simples demais e já estava na hora de eu me livrar daquele lixo ambulante. Eu já não o suportava mesmo.

– Relaxe Mãezinha, a Mack vai deixar de andar com o namoradinho do esgoto. – Assegurou Vínia, sempre se servindo de frases cómicas, era o que ela achava dos seus comentários, para expressar suas ideias.

Fly percebeu que a postura das amigas mudou completamente, do mesmo jeito que mudou quando elas viram Mack mais cedo, elas, que antes mostravam um fascínio descontrolado por Mack, agora voltavam a entregá-lo como um maldito, nojento e sem utilidade alguma. Parecia que aquele momento foi um transe do qual as amigas finalmente acordaram, e não existiam resquícios de memória daquele momento nas mentes de Vínia e Marx; assim concluiu Fly.

Ela tentou insistir na conversa, mas quanto mais falava, mais parecia que tudo era apenas invenção da sua cabeça, e depois de algum tempo, ela mesma parecia não saber mais se se tratava de uma memória ou de uma criação nada agradável da sua cabeça.

No dia seguinte, depois da prova, nenhuma das três tinha certeza do que aconteceu no dia anterior, principalmente Fly, que tinha flashes de memória sobre alguma coisa ou coisa nenhuma, apenas lembravam de um dia normal, sem nada extraordinário. A conversa era sobre a última prova concluída, porém logo voltou então para o que mais importava, as férias.

Enquanto caminhavam e conversavam sobre o assunto, apareceu-lhes um senhor de estatura média, as suas mãos demonstravam muita experiência com o machado e florestas, no entanto o seu rosto quase juvenil era o de alguém esgotado pelo trabalho em cidades barulhentas, um rosto que queria logo sair daquela cidade e encontrar um cantinho quieto para repousar. O senhor trajava um terno branco como a neve, assim como suas calças e sapatos, por baixo do terno, uma camisa vermelha espreitava à moda Elvis Preslay, Vínia não perdeu a oportunidade de exibir mais uma vez o seu talento como comediante.

Pouco antes de passarem por ele, o senhor as interpelou, fazendo poucas cerimónias e com frases curtas, mas eloquentes, ofereceu-lhes panfletos turísticos de uma ilha ao norte dali, onde as árvores ficavam sedutoras no verão e as flores exibiam uma beleza digna de deuses. Ao ler o nome da ilha, Fly pensou tê-lo ouvido antes em algum lugar, perguntou as amigas, mas elas apenas disseram que deve ser uma nova formação geográfica que surgiu devido ao movimento das placas tectónicas ou sei lá, essas coisas acontecem muito ultimamente.

Enquanto debatiam, sem que notassem, o senhor simplesmente desapareceu, deixando para trás os seus panfletos.

– Antes que me esqueça, os meninos não virão. – Lembrou-se Fly. – O Dante tem de pousar para uma nova marca de perfumes, o Jazz precisa frequentar aulas de reforço e Francis vai viajar pelo mundo com os pais, enfim seremos só nós.

Marx e Vínia se mostraram um pouco decepcionadas com a notícia, mas logo Fly tentou mudar o cenário dizendo que uma viagem de meninas era exatamente o que elas precisavam para se distrair e fortalecer seus laços.

Continua...

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Capítulo 3

Terminadas as provas do dia seguinte, as férias estavam oficialmente declaradas, não demorou muito para que as amigas corressem para casa, dessem um beijo nos seus pais e se aprontassem para a viajem que não mais podia esperar, a Ilha Erha era o destino, havia um tipo de sugestão hipnótica na mente das meninas que as seduzia a lá ir.

As amigas preferiram fazer uma viagem de carro, para elas seria ideal e assim tinham muito mais para ver. Contrataram um motorista especializado na orientação de turistas, o homem não falava muito, mas mostrava ter muito conhecimento sobre rotas de viagens e lugares dignos de apreciação. A primeira paragem foi no MobyDick Square, um aquário especialmente dedicado a baleias. Enquanto apreciavam aqueles nadadores colossais, Marx começava a ter relances de memória de um cavalheiro meio misterioso com quem conversou há dois dias, mas não deu importância, para uma pessoa como ela, cavalheiros querendo namorá-la era simplesmente comum.

– Vocês perceberam que o Mack não foi a escola hoje? Ele não é o tipo que perde uma prova, mesmo por doença.

– Você anda falando muito do Mack, isso é estranho para uma pessoa que nunca se importou com ele, Fly.

Vínia preferiu continuar olhando as baleias enquanto as amigas conversavam.

– Eu só acho estranho ele sumir num dia da prova, ele não faltava até nas punições correctivas. O que será que aconteceu com ele?

– Haff! Esqueça isso Fly, vamos só curtir o momento sem falar de fantasmas ou aberrações, ou Mack, simplesmente.

– É… você está certa, estou sendo estranhamente paranóica com ele, ele é só um rapazinho estranho. Cadê a Vínia?

– Vendo as baleias fazendo baleísses. Vamos lá buscá-la, já está bem tarde e precisamos encontrar um hotel para descansar.

Enquanto observava uma baleia adulta nadando despreocupada, Vínia viu dentro do aquário, ou achou ter visto, uma criança de uniforme escolar, com lancheira e pasta escolar sendo arrastada por uma corda que descrevia um círculo em volta do seu pescoço presa à uma das nadadeiras da baleia. Enquanto a baleia nadava, a criança convulsionava e tentava apelar por socorro enquanto a água invadia-lhe os pulmões e a sufocava. Vínia gritou o mais alto que os seus pulmões permitiram, porém por mais que ela gritasse, o som simplesmente morria na sua garganta.

Quando Marx e Fly a alcançaram, ela estava inconsciente e pálida, o motorista apareceu prontamente e a levou nos braços para o carro. Depois de algumas horas, Vínia viu-se deitada numa cama de hotel, sendo atentamente observada por um médico e suas amigas que mal conseguiram esconder o alívio ao vê-la acordar.

– O que aconteceu Vínia? – Perguntou Fly um pouco assustada. – Encontrámos você completamente desmaiada e pálida, como se tivesse visto assombração.

A sua cabeça doía fortemente, mas Vínia se esforçou para responder à preocupação das amigas.

– Eu desmaiei? Ah, aí! Minha cabeça parece uma bigorna recebendo golpes do martelo. Eu só me lembro de observar uma baleia muito velha, depois disso tudo ficou completamente confuso e incompreensível.

– Mesmo nesse estado ela não perde a graça, acho que podemos nos despreocupar um pouco, ela está bem, só precisa de um pouco de descanso. – As palavras de Marx serviram para aliviar Fly.

O médico explicou que é normal perder a memória logo depois de uma pancada ou queda seguida de desmaio, mas não era algo com que se preocupar, logo ela voltaria ao normal e recobraria a memória perdida.

Logo no irromper do sol, o motorista bateu na porta do quarto das meninas.

– Está tudo pronto para a viagem, partamos logo, ainda temos terreno por percorrer antes de chegar ao nosso destino final.

Alguns momentos depois as meninas deram check-out no hotel e seguiram sua viagem. Dentre as muitas paragens que fizeram, as que mais foram do interesse das meninas foram uma exposição de moda francesa, um parque de diversões, uma floresta e pedra, um spa no qual passaram mais uma noite e um hospital onde Vínia fez alguns exames.

Quando a leve escuridão anunciava a chegada da noite, o motorista e as viajantes chegaram à um pequeno posto de aluguer de barcos, onde as meninas alugaram uma embarcação um pouco exagerada para apenas três pessoas, terminada a transação, o motorista levou a bagagem ao barco e depois despediu-se das suas contratantes. A partir dali seria um marinheiro o condutor delas. A embarcação era um iate luxuoso, pronto para uma viagem calma e confortável pelos mares, logo as meninas se acomodaram e descansaram enquanto o marinheiro as levava para uma ilha paradisíaca, Erha.

Continua...

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ILHA ERHA

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