Ponto de Vista: Helena
Enquanto eu estava de luto, Kael cobria Daiane de presentes — uma nova cobertura com vista para a cidade, um carro esportivo vermelho-cereja, a vida que eu deveria ter.
Eu via as fotos online, uma galeria do meu futuro roubado que servia como um contraste gritante e doloroso para a minha realidade.
Paguei o caixão simples de Léo com meu cartão de crédito. Levei suas cinzas em um pequeno barco e as espalhei no mar cinzento e agitado.
Sozinha.
Kael não foi ao funeral. Ele nem sequer ligou.
Ele enviou um arranjo absurdamente grande de lírios brancos, uma flor que sempre detestei. Joguei no lixo sem nem olhar o cartão.
Ele finalmente ligou três dias depois.
Sua voz era impossivelmente casual, como se estivesse perguntando sobre o tempo.
"Oi. Sinto muito pelo seu irmão."
Um nó frio e duro se apertou no meu estômago.
"Você escolheu um santuário de gatos em vez da vida dele", eu disse, minha voz sem emoção.
Ele suspirou, um som de pura exasperação. "Helena, foi uma boa jogada de imagem. Você tem que pensar no quadro geral."
Ouvi Daiane rir ao fundo, um som agudo e tilintante que me deu arrepios.
"Vamos comprar anéis mais tarde, amor?", ela arrulhou.
A última brasa vacilante de amor que eu tinha por Kael morreu naquele momento.
Simplesmente... se apagou.
No dia seguinte, pedi ao meu advogado para preparar os papéis do divórcio. Kael me fez assinar um acordo pré-nupcial anos atrás, um que me deixava com quase nada.
Com uma mão que não tremia, assinei meu nome de solteira, Helena Ramos, e enviei uma foto do documento para o contato jurídico que o pessoal de Josué havia fornecido.
Eu só queria acabar com aquilo.
Havia algumas coisas de Léo no primeiro e minúsculo apartamento que Kael e eu compartilhamos, antes do dinheiro e do poder. Eu tinha que pegá-las antes que se perdessem para sempre.
Ao me aproximar do prédio antigo, minha respiração ficou presa na garganta. A Mercedes-Maybach preta de Kael estava estacionada bem embaixo da nossa antiga janela, um predador elegante em uma parte esquecida da cidade.
Meus próprios pés me levaram pelas escadas rangentes, minha mão tremendo enquanto eu encaixava a chave antiga que ainda guardava no meu chaveiro na fechadura.
A porta se abriu com um rangido, e eu os vi.
Kael tinha Daiane pressionada contra a parede — a mesma parede onde nossa primeira foto juntos costumava ficar. Ele a beijava, as mãos emaranhadas em seu cabelo loiro, com uma paixão que eu não via nele há anos.
Eu congelei, uma estátua esculpida de sombra no corredor, incapaz de respirar.
"Comprei o quarteirão inteiro", Kael murmurou contra os lábios dela, sua voz densa de possessividade. "Vou demolir tudo para construir uma nova torre. A cobertura é sua."
Ele estava me apagando. Apagando *nós*.
Ele estava literalmente demolindo nosso passado para construir um futuro para ela.
Ponto de Vista: Helena
Meu pé prendeu em uma tira de metal solta no chão. O som agudo ecoou no pequeno apartamento, e eles se separaram num pulo.
Kael se virou, seus olhos se fixando em mim na porta. Por uma fração de segundo, vi um lampejo de algo — preocupação, talvez até culpa — antes de ser engolido por pura irritação.
"Helena? Que diabos você está fazendo aqui?"
Daiane saiu de trás dele, um sorriso doentiamente doce estampado no rosto. Sua voz era pura atuação.
"Ah, Helena. Eu sinto muito, muito mesmo por... você sabe. O colégio. Éramos apenas crianças."
"Não ouse", eu disparei, a única palavra cortando sua atuação como um caco de vidro.
O rosto dela se desfez instantaneamente. Ela se virou e se derreteu contra o peito de Kael, seus ombros tremendo com soluços teatrais.
"Eu só estava tentando ser legal."
Os braços de Kael a envolveram protetoramente, seu olhar endurecendo ao pousar em mim.
"Qual é o seu problema? Deixa isso pra lá."
Minha mente voltou ao vestiário do colégio. Daiane e suas amigas me seguraram, a ponta fria e afiada de um compasso cravando na pele macia do meu pulso enquanto ela gravava a palavra "Inútil" na minha carne. A cicatriz ainda estava lá, uma linha pálida e irregular que eu via todos os dias.
Lembrei-me de Kael me encontrando chorando na biblioteca depois. Ele pegou minha mão, seu polegar traçando a marca vermelha e irritada, e me prometeu, com a voz num rosnado baixo: "Um dia, eu vou acabar com ela por você, Helena. Eu juro."
Outra mentira linda e vazia.
"Entra no carro", Kael ordenou, sua voz não deixando espaço para discussão.
Daiane interveio, enxugando uma lágrima inexistente. "Sim, vamos todos juntos. Podemos ser amigos."
Ela estendeu a mão para o meu braço, suas unhas perfeitamente feitas cravando deliberadamente na pele sensível ao redor da minha antiga cicatriz.
A dor, aguda e familiar, disparou pelo meu braço. Eu recuei por instinto, puxando meu braço de seu toque.
Meu recuo a fez tropeçar para trás. Ela caiu com um suspiro dramático, desabando no chão em um monte, e para quem visse, parecia que eu a tinha empurrado.