A música vibrava no chão como uma segunda pulsação. Na sala comum do dormitório onde a festa acontecera, as luzes penduradas lançavam brilhos suaves nos copos de plástico que todos carregavam. O som da música, as risadas e os corpos se moviam fora de ritmo. Selena permanecera encostada na parede, com as costas apoiadas nos tijolos, uma limonada sem álcool nas mãos e a certeza de que partiria antes da meia-noite.
"Você não precisa ficar se não quiser", disse Daniela, sua colega de quarto, gritando com ela por cima do reggaeton. "Mas você prometeu pelo menos por um tempo."
"Um tempo", repetiu Selena, e sorriu para que Daniela parasse de se preocupar.
Ela tentou se concentrar nos detalhes que a acalmavam: as guirlandas de papel, a mesa de lanches, o garoto fazendo uma apresentação de dança.
Até que o ar mudou.
Era uma sensação tênue, mas distinta, como uma brisa entrando em um quarto que estava fechado há algum tempo. Um cheiro estranho pairava pela sala, cortando o aroma adocicado das bebidas. Alguns se viraram naquela direção por puro instinto. A música continuou, mas o som das vozes parou.
Eles entraram juntos.
Eram os trigêmeos Blackwell entrando pela porta. Cada um tinha uma garota no braço, mas pareciam estar sozinhos.
"Ótimo", murmurou Daniela, seu entusiasmo se misturando a um suspiro. "Agora a festa começou de verdade."
Selena tentou se encolher para que não fossem vistos. Ela levou o copo aos lábios sem beber.
Então aconteceu.
Adrian, que estava inclinado para a frente, ouvindo alguém sussurrar algo em seu ouvido, parou. Apenas um passo, mas o suficiente para tensionar seus ombros. Luciano virou a cabeça ligeiramente, como um animal captando um leve movimento. Elías piscou uma vez, lentamente, e seu olhar se ergueu acima da multidão, como se procurasse algo no firmamento.
O aroma de baunilha os alcançou.
Selena não sabia que seu cheiro era aquele. Mas, num instante, a presença dela os fez sentir um nome. E os três, ao mesmo tempo, se viraram para ela.
Os presentes se afastaram e alguém a cutucou com o cotovelo. O copo de Selena bateu na parede e a limonada espirrou em suas mãos. Ela congelou, com o coração disparado.
"Não desmaie", disse Daniela, brincando.
Luciano foi o primeiro a se aproximar, arrastando descuidadamente seu companheiro. Ele cumprimentava aqueles que via em seu caminho de uma maneira peculiar. Elías o seguiu um pouco mais atrás, com passos silenciosos e firmes. Adrián permaneceu no centro enquanto todos se afastavam.
"Vocês querem ir embora?", perguntou Daniela, bastante séria.
Selena balançou a cabeça, com a voz trêmula.
"Eu me sinto bem."
Os trigêmeos chegaram à mesa, bem perto de Selena. Luciano soltou seu parceiro e pegou um biscoito. Adrian ergueu os olhos e a encarou.
Selena sentiu o estômago revirar e o mundo se tornar distante. Houve um segundo em que ela pensou que eles poderiam se aproximar, dizer alguma coisa.
Luciano chegou primeiro.
"Eu não mordo. Bem, às vezes", ele explodiu, rindo.
A garota que já segurava sua mão a soltou com um olhar de irritação. Mas sua atenção estava em Selena desde que ele chegou.
"Qual é o seu nome?", perguntou ele sem invadir o espaço dela.
"Selena", disse ela.
"Luciano. Esse é Elias", ela indicou com o queixo. "E quem está fingindo não olhar para nós é Adrian."
Selena não conseguiu evitar olhar para ele, e ele também estava olhando para ela. "Quer beber alguma coisa?", interveio Elías.
"Não, obrigado", respondeu ele, agarrando o copo vazio.
"Você não está bem", afirmou Luciano. "Suas mãos estão tremendo."
Selena colocou o copo na mesa.
Adrián se aproximou e ficou ao lado de Selena. Ela sentiu uma cócega na nuca, a mesma eletricidade da aula de literatura, só que mais intensa. Deu-lhe sede.
"Oi", cumprimentou ele.
Selena permaneceu em silêncio e Daniela interveio para ajudá-la.
"Somos alunos do primeiro semestre. Selena está estudando Literatura e eu, Arquitetura."
"Muito interessante", comentou Elías com sinceridade, olhando para Daniela e sorrindo.
Adrián não tirava os olhos de Selena.
"Tem cheiro de..." começou Adrián.
Luciano riu um pouco.
"Baunilha."
Selena engoliu em seco; seu perfume era o mais barato. Vendiam no supermercado. Ele sabia que sentia cheiro de baunilha; ainda assim, hesitou.
"Dance comigo", pediu Luciano.
"Não", respondeu Selena.
Luciano ergueu uma sobrancelha, encantado.
"Eu gosto."
"Deixe-a", exigiu Elías.
Luciano respondeu com uma careta, dando um passo para trás.
"Eu só queria ser legal com ela."
Adrian não sorriu; ele virou a cabeça como se estivesse ouvindo algo que ninguém mais estava ouvindo. Um segundo depois, houve um vazio.
Ele a conhecia.
Ele a conhecia de uma forma que não conseguia explicar.
"Não", Adrian balançou a cabeça.
Luciano olhou para ele, rindo. Elías voltou sua atenção para a porta, alerta para algo se aproximando.
"Você não deveria estar aqui", disse ele finalmente.
Selena piscou, sem entender.
"Você não deveria estar conosco."
Não em tom ameaçador, mas como um aviso. - Selena respondeu sem medo.
"Não estou com você", corrigiu ele. "Estou no meu muro."
Luciano queria aplaudir; estava encantado com Selena. Elías olhou para Adrián, esperando que ele escolhesse as palavras com cuidado. Adrián respirou fundo, revelando sua fraqueza por ela.
"Vamos", disse ele, olhando para os irmãos.
"Vamos para o seu muro?", perguntou Luciano, zombeteiramente.
"Luciano", alertou Elías.
Adrián se virou sem responder; eles avançaram e saíram da sala.
"Você está bem?" A curiosidade de Daniela despertou, pois ela havia se distraído com um garoto de sua turma.
"Sim", ela mal conseguiu dizer.
A música aumentou e todos continuaram dançando.
Ela não entendia o que havia acontecido. Só sabia que, quando o visse novamente, o mundo pareceria se curvar diante dele.
A festa havia perdido o brilho, suor e cansaço eram perceptíveis em alguns rostos. Enquanto isso, outro grupo continuava se divertindo como no início. O salão comunal estava cheio de gente e fumaça artificial quando Selena decidiu que precisava sair para tomar um ar fresco. Daniela queria se juntar a ela, mas não queria. Ela balançou a cabeça e saiu sozinha para o pátio, um pouco pálida.
Lá fora, o ar estava frio e úmido; alguns pedaços de copos e pratos descuidados jaziam sobre as mesas. A música estava mais baixa e ela se sentiu aliviada. Ela se apoiou no corrimão e deixou a brisa secar o suor do pescoço. Ela afastou o cabelo e fechou os olhos, aproveitando a noite. Ela estimou que cerca de quinze minutos seriam suficientes para se sentir confortável para entrar novamente.
Não demorou um minuto.
O portão do pátio se abriu e os três entraram, como se a noite tivesse acabado de começar. Luciano com seu sorriso travesso, Elías com sua calma característica e, entre eles, Adrián, cuja mera presença o fazia passar sem precisar dizer nada.
"Você está fugindo? O que está fazendo aqui sozinha?", perguntou Luciano, aproximando-se o suficiente para que seu perfume roçasse sua pele.
"Estou apenas tomando um ar fresco, não estou fugindo de nada nem de ninguém", respondeu Selena, ainda segurando o corrimão.
Elías permaneceu atento, observando a natureza, e Adrián parou na frente dela. Ele mal a olhou sem dizer nada, e ela sentiu o espaço entre eles diminuir. No entanto, ele se manteve firme, sem se mover.
Selena ficou nervosa, engoliu em seco e evitou o olhar dele. Sentindo-se inquieta e segura ao mesmo tempo. Uma contradição muito estranha para ela.
"Você não deveria estar conosco", repetiu Adrián. "Acho que já te disse isso."
Selena ergueu o queixo.
"E, no entanto, você está aqui. Eu cheguei primeiro."
Luciano soltou uma risada suave. Elias olhou para baixo ao vê-la.
Adrian se aproximou um pouco mais e inspirou.
"Companheiro", disse ele. A palavra não era para ela, mas para si mesmo.
Selena franziu a testa.
"O que você quer dizer com isso?", perguntou ela.
Luciano estalou os dedos. Elias tentou se colocar entre eles para evitar um confronto.
Adrian sustentou o olhar dela e, por um momento, Selena viu sua hesitação.
"Significa que existe um vínculo entre nós. Mas é um erro. Não pode ser. Nada pode existir entre nós."
"Um erro? Eu não sou um erro."
"Claro, você mal é humano. Você não pode ser meu Companheiro. Não entende?"
"Uma piada do universo", brincou Luciano.
Elias cerrou os dentes.
Adrian não tirava os olhos de Selena.
"Te machucaria estar perto de mim, é outro mundo", acrescentou Adrián.
A raiva tomou conta de Selena.
"Você não decide a que mundo eu pertenço", gritou ela para ele.
"O destino decide, mas desta vez ela estava errada."
Selena se lembrou de todas as vezes que fora ignorada na vida.
O silêncio durou alguns minutos. Adrián respirou pelo nariz como se o cheiro dela fosse uma provocação.
"Você não pode sair com a gente, não se misture."
"Você não pode me proibir de usar as áreas comuns."
"É só um conselho. Recomendo que você ouça."
"Ok, não se preocupe, não vou me misturar com você."
Ela caminhou entre os três, roçando o braço de Adrián sem nem olhar para ele. Sem pedir permissão ou desculpas. Ela chegou à porta do pátio e voltou para a festa.
Luciano riu baixinho.
"Ela é um amor", comentou, saboreando a si mesmo.
"Não é para você", disse Adrian secamente.
"Não para você, mano", ele retrucou, procurando briga.
Selena atravessou a sala procurando a saída. Daniela a alcançou perto da escada.
"O que aconteceu? Aonde você vai? Ainda é cedo."
"Nada, vou para casa. Não quero ficar aqui."
"Ok, eu te acompanho."
"Não, fique, te mando uma mensagem quando chegar, não se preocupe."
Daniela pensou por um momento, mas não queria contradizê-la.
Correu em direção ao corredor do dormitório. Teve a impressão de que alguém a observava e fechou rapidamente a porta do quarto, trancando-a. Encostou-se na madeira e respirou fundo quantas vezes fossem necessárias para se acalmar.
Ela estava chateada; não sentia vontade de chorar.
Lavou o rosto com água fria e ficou em frente ao espelho. Olhou para si mesma e se lembrou das palavras de Adrian.
"Eu não sou um erro."
Ela apagou a luz e se deitou, e como na noite anterior, sonhou com a floresta. O uivo e a luz pareciam mais próximos, como se a estivessem observando. Ela caminhou descalça sobre a terra fria e úmida e observou seus pés afundarem. Cheirava a chuva e baunilha, e o vento chicoteava seus cabelos soltos.
"Você não é para nós, você não pertence a este lugar", disse uma voz ao longe.
"Eu não sou, eu não disse isso. Chega disso."
No momento em que ela negou, a imagem se desfez e ela acordou.
*
Na festa, os trigêmeos ainda estavam no pátio.
Luciano verificava suas mensagens sem muito interesse. Elías caminhava, chutando copos no chão. Adrián se inclinou exatamente onde Selena estivera segurando suas mãos alguns minutos antes.
"Você foi cruel com ela", reclamou Elías.
"Fui claro, não cruel", respondeu Adrián.
-Às vezes, dizer as coisas dessa maneira é cruel.
A noite continuou como se nada tivesse acontecido. Selena, em sua cama, abriu os olhos, sentindo um batimento cardíaco estranho que não parecia ser o seu.
Ela agarrou o lençol, sentindo-se mal pela forma como havia sido rejeitada.
E sem saber por quê, decidiu recomeçar, porque por trás daquela rejeição havia medo, ela podia senti-lo. Era só o começo.