Acredito que todo mundo já ouviu, nem que seja uma vez ou outra, que as crianças se espalham em seus pais. E afirmo, por experiência própria, que é a pura verdade.
Cresci vendo meus pais trabalhando, no que gostavam e meio que me vi fascinado também pela profissão e não me senti indeciso, quando chegou a hora de decidir o que queria.
Meu dia começava pouco antes das cinco da manhã com a minha higiene matinal e uma xícara de café, depois disso, vinha duas horas de estudo e geralmente entre as sete e sete meia, já estava pronto para tomar café.
E era quando meus pais levantavam.
Diferente do que algumas pessoas acham, eles nunca me obrigaram a seguir os passos deles, muito menos falava sem parar na profissão. Uma vez ou outra, perguntavam o que queríamos ser, aquela típica pergunta de quando se é criança e diz que quer ser astronauta, médico, bombeiro...
Acredito que desde meus sete anos, quando foi a primeira vez que disse que queria ser advogado, já tinha certeza do que queria. Inicialmente ao ouvir isso de mim, minha mãe não disse nada, apenas se retirou da cozinha e apenas meu pai continuou, dizendo o quanto era bom ouvir isso de mim.
Só depois, ela veio dizer que não importava qual profissão eu iria querer fazer, ainda seria filho dela e que se sentiria orgulhosa de mim.
Mantive minha decisão pelos anos seguintes e só então perceberam que eu não iria voltar atrás.
No meu último ano na escola particular que estudava, desde sempre, comecei os estudos em casa com toda força.
Apesar da minha escola estar preocupada com o vestibular que faríamos, nos ajudando, sentia que precisava fazer mais por mim, sabe? Me dedicar mais, já que sem esforço, não chegaria a lugar nenhum.
Parado em frente ao espelho, via o nervosismo estampado em meu rosto e também não era para menos. Havia prestado o vestibular a pouco tempo, estava apenas esperando a resposta e aquele dia seria o dia da minha formatura, aonde deixaria de ser um simples estudante, para ser o estudante de uma federal.
Meu pai nos fazia sonhar grande, então não aceitava menos que uma federal para mim, depois de todo o esforço que fiz, acreditava que essa seria a recompensa mais do certa.
O terno que estava vestindo havia sido alugado, apesar do meu pai querer que minha mãe comprasse um, ela e eu, achamos completamente desnecessário, pois por enquanto não víamos outro momento para usá-lo e ficaria dentro do guarda-roupa apenas ocupando espaço.
Era preto e um pouco justo nos ombros, mas havia servido perfeitamente.
Meu pai entra de repente no quarto, com certeza esquecendo que não era mais uma criança e que poderia me pegar fazendo alguma coisa que, seria um pouco vergonhoso para nós dois, segurando uma gravata vermelha.
- Essa vai ficar bem melhor - diz colocando em frente ao meu corpo e olhando para o espelho.
- Essa gravata não é sua? - pergunto, quando ele começa a colocá-la no meu pescoço.
- É sim. E ainda por cima, a minha da sorte - diz com um sorriso, fazendo o nó com maestria.
- Veio uma gravata com o terno - Um pouco sem graça e apagada, mas acho que iriam prestar atenção justamente na gravata.
- Essa vai ficar bem melhor em você - E disso não tinha dúvidas, já que era um vermelho puxando para o vinho, só que brilhante, com pequenos detalhes.
Era linda, realmente. E estava se destacando com facilidade no terno preto.
Meu pai tinha uma espécie de coleção de gravatas, com todas as cores, modelos e detalhes. As vezes eu via minha mãe o presenteando com alguma e apesar de ser gravata, eram caras, e também muitas vezes, ele comprava mais, aumentando sua coleção. Então não iria fazer muita falta, eu usar uma das mais bonitas naquele dia.
Quando ele termina, afaga meus ombros, arrumando o paletó, olhando em seguida para mim no espelho com um sorriso.
- Eu disse o quê? Tá bonitão.
Sorrio em resposta.
Ele começa a arrumar a gravata cinza no pescoço dele.
- A mãe vai chegar que horas?
- Ela vai nos encontrar lá.
Respostas como aquela, já faziam parte do meu cotidiano. Por causa do trabalho, nem sempre minha mãe estava em casa nos horários combinados. Sempre alguma audiência durava mais do que outra e assim por diante, além de as vezes as testemunhas não aparecer ou acontecer algum imprevisto.
Algum tempo atrás, ela começou a sofrer atentados. Começou com “pequenos sustos”, o carro dela era fechado no meio da rua e homens gritavam alguma coisa para ela ou se não ela tinha os quatro pneus do carro furados e vidros quebrados.
Até que passaram de “inofensivos” para grave e isso a deixou ainda mais alerta, precisava blindar o segundo carro que tínhamos e contratar seguranças. Não para nós e sim para ela, que estava sempre na mira de bandidos.
Por causa do objetivo dela, que era condenador o máximo de traficantes possíveis, isto acabou meio que os irritando, pois sabiam que se fossem à julgamento com ela, acabariam presos.
Até aquele momento, era a juíza que mais prendia traficantes com bases de provas, ainda por cima uma negra que, ia contra tudo o que achavam.
Ela já havia morado em uma comunidade, sabia como funcionava as leis dos traficantes locais e nem por isso, os defendia, era alimentada por algo que eu nem sabia que, o que faziam além de colocar os moradores em risco, destruía qualquer um que passasse na frente deles.
- Vamos lá? - Meu pai pergunta, saindo do quarto.
Assinto seguindo ele.
O quarto em frente do meu estava fechado, precisei conter a vontade de abrir a porta, pois já sabia o que iria encontrar. Invés disso, segui meu pai para fora do apartamento.
Mesmo sendo uma simples entrega de canudo, estava nervoso, principalmente por não ser algo costumeiro meus pais aparecerem na escola. Não que isso fosse vergonha, mas era um orgulho para mim, ter pais como eles, ter um pai como o meu, que sempre esteve ao meu lado, se dedicando e dando seu melhor todos os dias.
Não tinha o quê reclamar. Só agradecer.
A distância da nossa casa, com o trânsito calmo, era de quarenta minutos e naquele dia, o trânsito resolveu cooperar.
Assim que o carro vira a esquina, percebo diversos carros, parados dos dois lados da rua, dificultando encontrarmos um lugar para estacionar.
Andamos lado a lado em direção a escola e neste meio, meu pai não perde tempo para cumprimentar algumas pessoas, sempre da melhor forma possível e com a simpatia que só ele tinha.
Mesmo a escola sendo grande, me senti em um formigueiro, havia pessoas por toda parte, conversando ao mesmo tempo, dificultando até o movimento de algumas.
Me afasto do meu pai em determinado momento, ao ver alguns dos meus colegas de turma, me adiantando em por minha beca.
- Se eu fosse uma mina, iria querer que me pegasse - diz João Guilherme, piscando para mim, conseguindo dessa forma que alguns sorrissem.
Não demora para que a cerimônia comece, ficamos lado a lado em cima do palco, por ordem alfabética para o hino nacional. Durante o hino, meus olhos vagam pela fileira de cadeiras acolchoadas vinho, procurando meu pai, o encontro, cantando baixo o hino nacional. O lugar ao seu lado está vago e não vejo minha mãe por nenhuma parte, nem no final do hino.
Quando começam a entregar os canudos, minha atenção continuava dividida entre o diretor que chamava os alunos e a porta do auditório. Constando que até aquele momento, não havia nenhum sinal dela.
Na minha vez, forço um sorriso e tiro a foto com ele, tentando demonstrar que a ausência dela não havia me destabilizado. Entendia que não era por quê ela queria e também sabia que na minha vez com meus filhos, também teria que passar por isso, mas mesmo assim, não deixava de não sentir a ausência dela.
Descendo os degraus do palco, noto quando uma mulher negra, alta, por conta dos saltos que calçava e com roupas claras que aperfeiçoavam ainda mais sua cor e suas curvas, entra no auditório, tirando o óculos de sol quadrado enquanto andava na minha direção.
Eu reconheceria minha mãe até em baixo de água e poderia dizer, com todo o respeito, que era apaixonado pela garra que tinha e por ela.
A medida que andava na minha direção, diversos olhares a acompanhou, mais de homens. Talvez fosse a energia que emanava do corpo dela ou o poder que ela tinha.
- Desculpa pela demora - murmura, me abraçando com força, como costumava fazer quando se sentia culpada em não estar conosco, quando queria, beijando por fim o lado do meu rosto - Já chamaram você, não foi? - Ela nota o canudo na minha mão, ao baixar o olhar.
- Já sim, mas não importa - Olho para ela - Não tem nada mesmo aqui - Ela sorri levemente, passando a mão pela minha cabeça, o olhar indo para o auditório cheio.
Não demora para meu pai sair de entre as pessoas, tentando encerrar uma conversa que havia começado e mesmo vendo ele, ela continuou procurando alguma coisa e não precisei pensar muito para saber o quê.
Só não sabia como falar para ela. E não adiantava ir com rodeios, ela odiava rodeios e preferia que sempre fóssemos diretos.
- Ele não está aqui, mãe.
Ela olha para mim no mesmo instante, franzindo o cenho.
- Onde está o seu irmão, Lucas? - Até onde sabia, éramos gêmeos, não sabia qual de nós dois havia nascido e também não importava, mas tínhamos a responsabilidade de cuidar um do outro.
- Ele repetiu de ano, mãe.
O que me assustava na minha mãe e me deixava muito preocupado, é que ela não explodia de vez, entende? Simplesmente ela ficava parada, absorvendo o que havia dito e se preparando para o veredicto dela. As vezes, acho que ela esquecia que estava em casa e continuava atuando como juíza.
- Ele repetiu - Ela repete, mantendo o tom de voz e a expressão suave.
- É, mãe.
Depois de conseguir finalizar a conversa que estava tendo, meu pai se aproxima sorrido, acariciando o queixo dela como sempre faziam quando se encontrava. Entretanto, dessa vez, ela não retribuiu o carinho.
- O que foi? - Ele pergunta por fim.
- Você sabia que o Luan repetiu? - Ela questiona da forma mais direta possível.
Ele olha para mim e novamente para ela, sem conseguir disfarçar que sabia de tudo.
- O diretor me ligou, informando que ele não estava comparecendo às aulas.
- E por quê não me disse nada?
Observo ambos, sem deixar de notar que até para discutir, não pareciam que estavam discutindo.
- Você já anda tão ocupada e além do mais tentei conversar com ele.
- E você conversou com ele? - Ela não queria saber se estava ocupada ou não, o quê importava ali era se ele havia feito Luan voltar para a escola, mas essa resposta eu também já sabia e tive dó do meu pai.
- Luan já não é mais o mesmo, Gabriela. Não me escuta mais.
Ela solta o ar dos pulmões, fechando os olhos por alguns instantes.
- Era para ele estar aqui - murmura com a expressão triste.
Não precisava ser um gênio para perceber que ela estava decepcionada, não apenas com Luan, mas com ela. Toda vez que Luan saia da linha, ela acreditava que a culpa só era somente dela, que se passasse mais tempo dentro de casa, o apoiando e o auxiliando da mesma forma que meu pai fazia comigo, ele estaria no mesmo patamar que eu.
A frustração as vezes ficava estampada no rosto dela e era em momentos como este, que queria fazer ela entender que não era culpa dela, que já não éramos mais crianças e já estava na hora de começar a nos responsabilizarmos pelas nossas decisões.
Conhecia minha mãe o bastante, para saber que ela nunca faria isso, com nenhum dos de nós dois e enquanto tivesse alguma chance de nos trazer de volta para o caminho que estávamos trilhando.
Isso significava que ela não iria desistir do Luan, nem que para isso tivesse que ir no inferno para buscar ele.
- Onde você vai, Gabriela? - Meu pai pergunta, quando ela dá as costas para nós, andando em passos firmes para fora do auditório.
- Atrás do meu filho - diz sem nos olhar.
Meu pai respira fundo, soltando o ar dos pulmões, olhando para mim em seguida.
- É melhor a gente ir também, não acha, pai?
Ele balança a cabeça de um lado para o outro.
- Não - diz sem pensar muito - Não vamos acabar com seu dia, por causa das decisões mal tomadas do seu irmão - Ele dá dois tapinhas em minhas costas - Vá lá com seus amigos, estou por aqui.
Hesitante, ainda permaneço alguns segundos parados, o suficiente para vê-lo ir até o grupo de pais e recomeçar uma conversa.
Não era só a minha mãe que estava preocupada com o meu irmão, eu também andava preocupado com ele. Costumávamos ser inseparáveis, fazíamos tudo juntos e até nos vestíamos iguais, mesmo nossa mãe não fazendo questão, mas só foi entrarmos na adolescência que tudo mudou, Luan mudou e com ele o comportamento dele que, deixou de ser uma pessoa que estava sempre sorrindo, para se tornar uma pessoa introvertida que, evitava a qualquer custo conversar com as pessoas que moravam com ele na mesma casa.
Até comigo ele mudou, me tratava como um estranho, quando eu queria que ele só fosse meu irmão e quando tentava me aproximar dele, ele me evitava.
Foi neste meio tempo, que as discussões começaram, entre ele e o meu pai. Isso sempre na ausência da nossa mãe, as brigas começavam sempre por besteira, um copo fora da pia, toalha molhada em cima da cama ou até entrar de sapato dentro de casa, até chegar no nível onde estavam trocando xingamentos e agressões físicas. Meu pai batia nele, acreditando que dessa forma, o faria voltar ao normal e meu irmão apenas absorvia tudo para si e não reagia, o quê era até bom, pois não sabia o que poderia acontecer, caso ele reagisse.
Por semanas, essa era a realidade quando minha mãe não estava em casa, até chegar no ponto de Luan não comparecer mais nas aulas e só aparecer quando queria em casa.
- Lucas! - João Guilherme grita - Vem! - Sem nenhuma animação, caminho até ele e mais quatro pessoas, desejando que aquela cerimônia acabasse o mais rápido possível.
Minha cabeça não estava mais ali, estava em casa, imaginando o que aconteceria quando minha mãe chegasse em casa e o questionasse sobre o que estava acontecendo. Temia que Luan fosse agressivo com ela, acabasse descontando toda a sua raiva que tinha do nosso pai nela, sem ela ter culpa de nada e isso acabaria abalando a conexão dos dois. Eu sabia que ela não tinha um preferido, mas Luan, diferente de mim, sempre se mostrou mais frágil, sempre precisou de mais atenção e idas ao médico por adoecer com uma facilidade impressionante.
Só queria que ele fosse ele mesmo, pelo menos com ela.
Vida só existia uma e depois que tudo se acabava, morria junto todas as coisas que um dia quis fazer mas, não fez, temendo decepcionar alguém ou não suprir expectativas.
A verdade é que chega uma hora, que percebe que já ultrapassou um certo limite e isso faz com que acorde e veja melhor a situação ao seu redor.
Não foi exatamente o quê aconteceu comigo, mas pelo menos tive meu despertar e vi que estava desperdiçando minha vida, tentando ser alguém que claramente não era eu e que não queria para minha vida.
Foi mais do que libertador, foi um alívio.
E naquela fase da minha vida, só queria viver como se não houvesse o amanhã, claro que sempre tinha e eu acordava com uma ressaca que dava para dividir para duas pessoas sem problema algum e repetia tudo de novo.
Só não podia parar novamente na UPA quase em coma alcoólico por beber mais do que meu corpo suportava. Na época, um ano atrás, acabei ficando em observação e o médico, junto com as enfermeiras queria desesperadamente entrar em contato com meus responsáveis e até acionar o conselho tutelar.
Acabei não vendo outra alternativa a não ser fugir da UPA pela porta dos fundos, quase nem me mantendo em pé direito por conta de tanta medicação que colocaram dentro de mim pelo soro. Algumas ruas depois, não aguentando, acabei deitando em uma calçada e acordando apenas quando o sol esquentou demais.
Para piorar o Uber não queria entrar na favela, nem eu pagando o dobro, o quê me fez andar até fora da favela para conseguir ir para casa.
Ainda por cima quando cheguei em casa, precisei ouvir um sermão do homem que me criou, ressaltando a todo momento que estava destruindo minha vida e que minha mãe acabaria morrendo de desgosto pelo jeito que as coisas estavam indo.
Por ele, não estava nem aí, ele não me descia e além do mais, achava que era meu dono e que poderia mandar em mim e desmandar quando quisesse e não era bem assim que as coisas funcionavam comigo. Já a minha mãe, a mulher que se dedicou em ser minha mãe, eu ainda nutria um certo respeito e era por causa dela que me sentia mal toda vez que entrava em casa, e agradecia mentalmente quando não a encontrava em casa, para ver o estado que eu chegava.
Mesmo com a conturbação que havia se instaurado em minha vida, eu a amava. E para mim já era mais do que o suficiente.
Mas deve estar se perguntando, por quê ando fazendo isso com a minha vida. Começou bem antes da adolescência, quando comecei a perceber que César tinha um cuidado maior com meu irmão, Lucas, tudo que ele ia fazer tinha que chamar o Lucas, queria saber se Lucas estava se alimentando bem, dormindo bem, em outras palavras, a preocupação dele era o Lucas.
No começo, achei que fosse normal, Lucas sempre foi uma pessoa criança que, chamava atenção das pessoas com facilidade. A simpatia em pessoa. Mas depois, percebi que César meio que fazia de próposito, principalmente quando estava com Lucas em algum lugar, sempre fazia questão de presenteá-lo e mostrar o quanto gostava dele e eu...sempre se dirigia à mim com uma certa rispidez, sua paciência comigo era zero e só bastava fazer alguma coisa errada, para simplesmente me castigar.
Quando minha mãe chegava, tudo mudava. Ele deixava de fazer esses tipo de coisa e nos tratava como igual, como ela fazia, sem nenhuma distinção e, quando eu precisava mais dela do que Lucas, ele sempre a cobrava para não ser assim comigo, pois isso acabaria de estragando e ela se arrependeria depois.
Ela não dava ouvidos para ele e só bastava chegar do trabalho e me ver quieto num quanto ou no meu quarto, que fazia questão de ir até mim e mesmo cansada, dar atenção a mim e as minhas atividades escolares, que diferente de Luan, que recebia a ajuda de César em todas, estavam para fazer.
A medida que fui crescendo, César continuou pegando no meu pé, continuou discutindo comigo por nada e então eu comecei a dar motivos para ele espumar de tanta raiva. Sabia que pela manhã, minha mãe não estava em casa, então deixava para chegar nesse horário, justamente o horário que deveria estar arrumado para ir para a escola.
César gritava aos quatro ventos que era minha obrigação ir para a escola e não ser um fardo para mim carregar. Isso acabou me dando uma ideia e no meio do ano, quando estávamos com provas por toda parte, estudando para vestibulares e numa tensão cotidiana, joguei a toalha, simplesmente fingia ir para a escola e não ia.
Não demorou para que minha ausência contínua fosse sentida durante as aulas, isso chamou atenção dos professores que entraram em contato com o diretor que, fez questão de entrar em contato com César e o questionar se estava doente, já que meu histórico escolar, tinha diversas internações durante os anos que se seguiram até minha idade “adulta”, o diretor achou que estava hospitalizado, mas não estava, né.
Quando cheguei em casa, depois da “aula”, César me esperava e naquele dia, fez questão de me bater e me lembrar que morava na casa dele e que enquanto estivesse ali, teria que dançar conforme a música dele.
Depois disso, o dinheiro que minha mãe dava por semana, foi cortado. Por ele, não por ela. Não tinha mais acesso ao cartão de crédito da minha mãe e comecei a ter que vender alguns pertences meus, para pelo menos conseguir sair de casa e pegar um ônibus, já que nem dinheiro para um táxi ou Uber eu tinha.
Sempre quando eu saia, tinha vontade de não voltar, mas não conseguia parar de pensar no jeito que ela ficaria quando chegasse e ele dissesse que havia ido embora. Era capaz dela colocar toda a polícia civil atrás de mim, rastrear meu celular, até me encontrar e me colocar em baixo das asas dela novamente, até o momento que ela teria que se afastar e César cairia em cima de mim com pau e pedra.
Mesmo assim, com tudo isso, ainda queria ir embora, ter meu próprio canto, mesmo que fosse bastante inferior do que já estava acostumado. Não importava. E foi com esse pensamento, que comecei a vender drogas nos bailes que tinha na Rocinha e Alemão, no começo não era muito, mais depois conseguir faturar a mesma quantia que a minha mãe me dava por semana.
Nem tudo estava perdido, no final das contas e eu só precisei vender alguns pinos de cocaína e maconha.
Mas não era mil maravilhas, tinha que tomar cuidado com a polícia e as batidas que faziam, tirando isso, estava tudo bem e em pouco tempo, teria dinheiro para dar um tempo e ter um lugar para mim por ali.
O porteiro me cumprimenta assim que passo pelo portão, me acompanhando com os olhos até o elevador. Não conseguia andar em linha reta, por alguma razão sobrenatural, meu corpo ficava oscilando de um lado para o outro. No interior do elevador, mesmo encostado na parede em frente a porta, minha cabeça rodava sem parar e ânsia de vômito aumentou, precisei de toda a força do mundo para evitar de vomitar ali mesmo e a conta chegar para minha mãe.
Os passos continuaram oscilando enquanto andava para o apartamento, demorei o dobro do tempo para conseguir colocara chave na fechadura e entrar. O silêncio estava por toda parte e mesmo que quisesse lembrar aonde estava todo mundo, não conseguia, e ao mesmo tempo não me importava, pelo menos ninguém iria me fazer perguntas.
Abro a porta do meu quarto abruptamente, quase caindo ao fazer isso, parando poucos passos depois ao ver minha mãe sentada na beirada da cama.
As vezes queria que ela gritasse comigo, que dissesse o quão decepcionante estava sendo na vida dela. Mas ela não dizia e nem transparecia isso, sua expressão era sempre de calma.
- Oi, mãe - digo enrolando a voz, só então ao dizer essas duas palavras, notei que não tinha mais controle sobre a ânsia de vômito e se não correndo para o banheiro naquele momento, vomitaria o quarto inteiro.
Foi isso que fiz, corri em disparada para o banheiro em meu quarto e me inclinei sobre a privada, vomitando toda a mistura de bebidas que havia feito durante a noite. Começava com cerveja, depois vinha bebida quente, cerveja de novo e assim por diante, até eu não aguentar nem ficar mais em pé e acabando deitando em algum canto, sujeito a ser morto.
Não percebo quando ela levanta e vem na minha direção, apenas sinto sua mão um pouco calejada e ao mesmo tempo macia em meu rosto, limpando o suor que se acumulava em minha testa.
Pacientemente, ela espera até que eu termine, depois me ajuda a tirar minha roupa que estava mais do que suja, um pano de chão deveria estar mais limpo e ainda de cueca, me coloco em baixo do chuveiro, precisando me escorar na parede para não cair.
Além da minha cabeça doendo, minha barriga também doía e toda vez que fazia força para vomitar, não saia nada. Por um momento minha mãe sumiu e fiquei aliviado por não estar ali presenciando aquilo, mas sua ausência só aconteceu por pouco mais de dez minutos, depois ela apareceu com a minha toalha, desligou o chuveiro e secou meu cabelo como se eu fosse novamente criança, depois me entregou uma camiseta, cueca e short e esperou do lado de fora do banheiro.
Correndo o risco de bater minha cabeça na pia, consegui por a cueca e o short, assim que saio do banheiro, ela me entrega uma xícara de café e me ajuda sentar nos pés da cama.
Nunca bebi um café tão amargo na minha vida, estava horrível aquilo e acabei questionando mentalmente se ela havia lembrado de colocar o açúcar.
Termino de beber, o virando todo na boca, deitando de qualquer jeito na cama. Isso só fez com que minha cabeça rodasse mais, como se a cama estivesse rodando sem parar.
Ouço minha mãe tirar os sapatos e se deitar em minhas costas, em seguida sua mão volta para minha cabeça e uma canção suave surge em meus ouvidos.
Ela costumava cantá-la quando estava doente e temendo me perder para a doença. Cantava a noite toda e só se apartava de mim, quando precisava fazer alguma coisa para eu comer.
Meu corpo começou a tremer, com certeza por causa do frio, gentilmente ela me cobriu, sem parar de cantarolar, como se estivesse hipnotizada por aquele momento. Muitas vezes, quando ela pegava no sono, sentia seus braços ao meu redor com força, como se quisesse impedir que alguma coisa ruim acontecesse comigo ou simplesmente que eu sumisse.
Uma vez estava apertado demais e sem acordá-la, consegui levantar, mas no meio do xixi, ela acordou apavorada e começou a me chamar aos gritos e chorando, mesmo eu saindo do banheiro e dizendo que estava ali, ela parecia estar dormindo ou não estava me ouvindo. Só parou quando me sentei em sua frente e toquei seu braço, a sacudindo, só então ela me olhou com os olhos cheios de lágrimas e me abraçou, um abraço forte mas macio, que acalmava qualquer coisa que estava sentindo.
Com ela, me sentia seguro, não temia que nada pudesse me ferir. Via ela como uma muralha, alta, imponente ao meu redor, infelizmente quando não estava por perto, me sentia completamente vunerável e não conseguia me defender, era como se minhas forças sumissem.
Pego no sono mais rápido do que queria, quando me dou conta já estou acordando e sinto ela ainda em minhas costas e sua mão sobre minha cabeça. Minha cabeça já não estava doendo, mas ainda havia um incômodo persistente em meu estômago.
Tento levantar sem acordá-la, mas falho na primeira tentativa. Já passava das oito da noite e não era para ela estar ainda vestida como se fosse trabalhar e de maquiagem.
- Tá tarde, mãe - murmuro.
Ela franze o cenho, massageando as têmporas.
- Está com dor de cabeça? Acho que tenho remédio no meu quarto.
- A cabeça tá boa.
- Vou pegar mesmo assim - diz, saindo do quarto arrastando os pés, segurando os sapatos em uma das mãos.
Quando ela volta, é com um comprimido e um copo de água. Tomo o remédio e a metade da água rapidamente.
- Obrigado.
Ela inspira profundamente.
- Vou falar com o diretor, tá bom? - diz mantendo o tom de voz neutro - Vou ver se consegue fazer as últimas provas. Não pode perder a metade de um ano.
- Mãe - digo calmamente - Não precisa, tá?
- Claro que precisa, Luan. Meu filho, estudo, educação é a chave de tudo, sem educação o ser humano não vai muito longe.
- E se eu quiser pular essa parte? - Me arrisco em perguntar.
Ela coloca uma mão em meu ombro, olhando dentro dos meus olhos.
- Você tem todo o direito de pensar no que irá fazer, mas depois de se formar no ensino médio - diz sem alterar o tom de voz - Depois disso, se quiser viver da sua arte na praia, tudo bem. Só que precisa se formar no ensino médio primeiro - Ela ergue as sobrancelhas - Entendeu?
Queria gritar que não e que faria o que eu queria dali em diante, mas não consegui, simplesmente travei e esqueci por completo os planos que havia feito. Naquele momento, ela me fez enxergar que era o melhor a se fazer, apesar de tudo e com os planos que tinha feito.
- Tá bom, mãe.
Ela dá um meio sorriso, afagando o lado do meu rosto.
- Vou falar com o diretor amanhã - Repete com o olhar cansado e sonolento, se fixando no vazio - Agora vá dormir, já está tarde - Dito isto, ela sai do quarto, fechando a porta ao sair.
Era só uma prova, uma prova, e me formaria e depois poderia fazer o quê eu quisesse, que ninguém especialmente o César, poderia dizer alguma coisa. E eu poderia fazer aquela prova de boa, não havia estudo muito nos últimos meses, mas estava crente que iria conseguir ainda passar com uma boa noite e deixar minha mãe sossegada, já que estava fazendo isso, somente por ela, mas ninguém.
Naquele momento, me dei conta que o quê fosse que eu tivesse planejado, só conseguiria chegar até lá, se fosse bem naquela prova, se não fosse, já estava me vendo sendo meio que obrigado ou iludido pela minha mãe, a refazer todo o ano que havia perdido.
Não conseguia ser otimista o bastante, para acreditar que aquilo iria acabar bem. Eu não era o Lucas, não era tão dedicado como ele e nem tinha toda a concentração dele para estudar. Meu negócio ultimamente era ganhar dinheiro, quanto mais melhor, e não tinha tempo para estudar, era perca de tempo. O quê eu precisava era de dinheiro, sem que precisasse depender de ninguém para isso e só conseguiria isso, se me dedicasse somente ao que eu já estava fazendo.