Ponto de Vista de Helena Monteiro:
Enzo não voltou para casa naquela noite. Eu não fiquei surpresa. O que me surpreendeu foi que, pela primeira vez em sete anos, dormi profundamente, sem ser interrompida pela ansiedade de esperar sua chave na fechadura. Foi um sono profundo e sem sonhos, e quando acordei, a luz da manhã filtrando pelas persianas parecia uma promessa.
O som de panelas na cozinha me tirou da minha paz recém-descoberta. Meu coração deu um salto familiar e reflexivo antes de eu me lembrar. Não importava mais.
Encontrei-o de pé junto ao fogão, reaquecendo as sobras do Dia de Ação de Graças que eu havia guardado na geladeira. O cheiro de peru e molho enchia o ar, uma zombaria do feriado que havíamos perdido.
"Bom dia", ele disse, sem olhar para mim. Ele colocou uma pilha de purê de batatas em um prato. "Pensei que poderíamos ter nosso Dia de Ação de Graças hoje. Para compensar ontem."
Ele deu uma mordida no peru, seus olhos se fechando em apreciação exagerada. "Uau, Helena. Você realmente se superou. Isso está incrível."
Eu o observei, uma estranha sensação de distanciamento se instalando em mim. Ele estava tentando. À sua maneira desajeitada e egocêntrica, esta era sua tentativa de um pedido de desculpas. No passado, este pequeno gesto teria sido suficiente para me fazer derreter, para perdoá-lo por qualquer deslize que ele tivesse cometido. Eu teria visto o esforço, não a inadequação.
Mas agora, tudo o que eu via era a performance.
"Não precisamos compensar nada, Enzo", eu disse, minha voz uniforme. "Acabou."
Seu garfo bateu no prato. Ele finalmente se virou para me olhar, uma carranca profunda vincando sua testa. "Helena, pare com isso. Isso não tem graça."
Ele limpou as mãos em um guardanapo e foi até a bancada, pegando uma pequena caixa branca amarrada com uma fita vermelha. Ele a empurrou em minha direção. "Aqui. Comprei algo para você."
Eu não me movi.
"É aquele cheesecake que você gosta", ele disse, sua voz assumindo um tom tenso e impaciente. "Da confeitaria do centro."
Uma pulsação aguda e dolorosa me atravessou. Ele achava que eu gostava de cheesecake. Bruna gostava de cheesecake. Eu era alérgica a laticínios. Depois de sete anos, ele ainda não sabia disso. Sete anos de eu recusando educadamente a sobremesa, de eu tirando o queijo da minha pizza, de eu lendo cuidadosamente os rótulos no supermercado. Sete anos, e ele não havia notado.
O peso desses sete anos de repente pareceu insuportável. Foi um desperdício. Um erro longo e prolongado construído sobre a base de sua fantasia e minha ilusão.
A mandíbula de Enzo se contraiu. A máscara charmosa e descontraída estava escorregando, revelando a arrogância crua por baixo. "Olha, Helena, estou tentando aqui. Eu disse que sentia muito. A Bruna até me disse que eu deveria voltar para casa e me redimir com você. Estou te dando uma chance de superar isso. Não force a barra."
Ele passou a mão pelo cabelo, um gesto de pura frustração. "Já terminamos com esse draminha? Espero que você pare de falar em terminar no futuro."
Meu silêncio pareceu perturbá-lo mais do que qualquer briga aos gritos jamais poderia. Eu apenas olhei para ele, realmente olhei para ele, e vi um estranho.
"Estou falando sério, Enzo", eu disse, minha voz baixa, mas firme. "Nós. Terminamos."
Nesse momento, o celular dele tocou. Uma música pop alegre e animada que eu nunca tinha ouvido antes. O toque da Bruna. Claro.
Toda a sua postura mudou. A irritação desapareceu, substituída por uma preocupação gentil que fez meu estômago revirar. "Oi", ele disse ao telefone, sua voz suave. "O que aconteceu?"
Uma pausa.
"Seu carro não pega? Ok, não se preocupe. Já estou indo aí."
Ele desligou e pegou as chaves da tigela perto da porta, seu rosto mais uma vez uma máscara fria e desdenhosa. Ele nem olhou para mim. "Terminamos essa conversa mais tarde", ele disse, sua voz seca e final.
E então ele se foi.
Eu não o vi sair. Não senti a pontada familiar de ser deixada para trás. Eu apenas senti... nada. A corda emocional que me prendeu a ele por tanto tempo finalmente se rompeu.
Passei o resto do feriado prolongado no meu escritório, organizando metodicamente meus arquivos de projeto e empacotando meus pertences pessoais. Na segunda-feira, eu apresentaria minha demissão. Eu deixaria Curitiba e nunca mais olharia para trás.
Naquela noite, sentindo uma estranha mistura de libertação e vazio, decidi fazer algo por mim mesma. Havia um restaurante novo e badalado no centro que eu queria experimentar há meses. Pedi ao Enzo para me levar lá no meu aniversário, mas ele disse que era muito caro, muito pretensioso. Acabamos na nossa lanchonete de sempre.
Hoje à noite, eu iria sozinha.
O restaurante estava vibrando com vida, o ar cheio de sons de taças tilintando e conversas felizes. Encontrei uma pequena mesa no canto e pedi tudo no menu que me atraiu, coisas que Enzo teria zombado.
E então eu os vi.
Eles estavam sentados em um reservado aconchegante perto da janela, tão próximos que seus ombros se tocavam. A mesa estava repleta de comida — todos os pratos favoritos da Bruna, notei com uma amargura distante. Passei anos atendendo ao paladar sem graça de Enzo, e lá estava ele, comendo alegremente comida tailandesa apimentada porque era o que ela queria.
Bruna pegou um rolinho primavera, deu uma pequena mordida e, com um sorriso brincalhão, o levou aos lábios de Enzo. Ele se inclinou e deu uma mordida, suas bochechas corando levemente.
Foi um gesto pequeno e íntimo, mas me atingiu com a força de um golpe físico. Enzo nunca foi tímido. Ele era confiante, às vezes ao ponto da arrogância. Mas naquele momento, com Bruna, ele parecia... envergonhado. Era um lado dele que eu nunca tinha visto, reservado apenas para a pessoa por quem ele estava genuína e profundamente apaixonado.
Ele disse algo para ela, sua expressão uma mistura de nervosismo e esperança. Eu não conseguia ouvir as palavras, mas sabia o que ele estava pedindo. Ele queria tirar uma foto. Uma foto que ele pudesse guardar, uma memória tangível deste momento perfeito com a garota dos seus sonhos.
Bruna riu e empurrou seu ombro de brincadeira. Então, seus olhos percorreram o salão e pousaram diretamente em mim.
Ponto de Vista de Helena Monteiro:
A expressão de Bruna era de pura surpresa teatral, mas seus olhos continham um brilho de diversão cruel. Ela estava gostando disso. Ela esperava uma cena, uma repetição das inúmeras vezes em que eu desmoronei no passado, minha compostura se estilhaçando ao vê-la com Enzo.
Pensei em todos os momentos em que ele a escolheu em vez de mim. Minha formatura da faculdade, que ele perdeu porque Bruna precisava de uma carona para o aeroporto. Nosso quinto aniversário, que ele interrompeu porque Bruna brigou com seu namorado ioiô. As inúmeras noites em que fiquei acordada, esperando que ele voltasse de "animá-la".
Todas as vezes, eu o confrontei. Minha voz se elevava, embargada de lágrimas e acusações. "Por que ela é sempre mais importante do que eu? Você ao menos me ama, Enzo?"
E ele sempre respondia com a mesma paciência fria e distante. "Não seja ridícula, Helena. Ela é minha melhor amiga. Você está sendo insegura."
Ele me fazia sentir como se eu fosse a louca, a exigente. E eu, desesperada por seu amor, sempre, eventualmente, recuava.
Olhando para eles agora, neste restaurante para onde ele se recusou a me levar, uma percepção fria me invadiu. Ele não queria vir aqui comigo porque este era o lugar deles. Um lugar que ele estava guardando para ela.
Minha dor era invisível para ele porque ele simplesmente não se importava o suficiente para vê-la. E meus ataques de histeria serviam apenas de entretenimento para Bruna.
Desta vez, não.
Respirei fundo, levantei-me e caminhei até a mesa deles. Um sorriso plácido estava fixo em meu rosto.
"Oi", eu disse, minha voz leve e agradável. "Parece que vocês estão se divertindo. Querem que eu tire uma foto para vocês?"
Enzo congelou, um pedaço de camarão a meio caminho da boca. A cor sumiu de seu rosto, seu constrangimento rapidamente se transformando em um lampejo de raiva. Ele parecia encurralado, como uma criança pega com a mão no pote de biscoitos.
"Helena? Que diabos você está fazendo aqui?", ele sibilou, sua voz baixa e furiosa. "Você está me seguindo? É exatamente disso que estou falando. Você é tão sufocante."
Ele bateu seus hashis na mesa. "É por isso que você mandou aquela mensagem ridícula? Para me fazer sentir culpado? Não posso nem jantar com uma amiga sem você fazer uma cena. Não é à toa que preciso de espaço."
A pura hipocrisia de suas palavras era de tirar o fôlego. Foi ele quem abandonou nosso Dia de Ação de Graças por essa "amiga". Era ele quem estava sentado em um reservado romântico, compartilhando comida da maneira mais íntima possível. E eu era a que estava fazendo uma cena?
"Eu só vim jantar, Enzo", eu disse, minha voz ainda calma. A firmeza dela pareceu perturbá-lo mais do que qualquer gritaria teria feito.
"E nós terminamos. Lembra? O que você faz, e com quem você faz, não é da minha conta."
O rosto perfeitamente maquiado de Bruna registrou um lampejo de surpresa. Esta não era a reação que ela esperava. Ela rapidamente se recuperou, colocando uma expressão preocupada.
"Helena, não diga isso", ela arrulhou, sua voz pingando falsa simpatia. "Você só está chateada. O Enzo só estava me fazendo companhia porque eu não estava me sentindo bem. Ele estava preocupado com você o tempo todo."
Era a mesma performance manipuladora e açucarada que ela sempre dava. A donzela em perigo que por acaso precisava da atenção constante do meu namorado. Eu costumava agonizar com suas palavras, tentando decifrar seu significado oculto. Agora, elas apenas soavam patéticas.
Eu a ignorei completamente. Meu assunto era com Enzo, e esse assunto estava encerrado.
"Aproveitem a refeição", eu disse, virando-me para longe deles. Caminhei até uma mesa vazia do outro lado do salão e me sentei, de costas para eles.
No passado, eu teria saído furiosa, cega pelas lágrimas. Teria passado a noite repassando a cena na minha cabeça, dissecando cada palavra, cada olhar, me torturando. Mas esta noite foi diferente. Eu não estava errada. Eu só queria comer a droga do meu jantar.
O garçom veio, e eu pedi com uma nova sensação de liberdade, escolhendo todos os pratos que eu realmente amava sem pensar nas preferências de mais ninguém. A comida chegou, e estava gloriosa. Picante, saborosa e toda minha. Saboreei cada mordida, um pequeno sorriso genuíno no rosto. Eu havia negado a mim mesma tantas coisas por tanto tempo. Não mais.
Enquanto eu comia, a conversa deles chegou até mim.
"Ela nunca foi assim antes", disse Bruna, sua voz um sussurro de palco. "Você não está mais sabendo lidar com ela, Enzo."
Eu podia imaginar o beicinho em seu rosto, o desafio sutil em seu tom.
"Quando você costumava vir até mim, chateado com alguma garota que tinha uma queda por você", ela continuou, sua voz tingida de nostalgia, "você apenas comprava um presentinho para ela, dizia algumas palavras bonitas, e ela ficava feliz de novo. Você perdeu o jeito."
Houve uma longa pausa. Prendi a respiração, esperando pela defesa de Enzo.
"Ela não é como elas", ele disse finalmente, sua voz baixa e tensa. "Você não pode comparar a Helena com elas."
Um garfo bateu no meu prato. O molho de pimenta picante de repente pareceu fogo na minha língua, e meus olhos começaram a lacrimejar. Rapidamente tomei um gole de água, tentando engolir o nó que se formou na minha garganta.
Sete anos. Sete anos de devoção, de sacrifício, de amor incondicional, e tudo o que ganhei foi isso. Um elogio indireto que ainda me colocava léguas abaixo dela.
Passei tanto tempo do nosso relacionamento me perguntando o que havia de errado comigo. Por que eu não era suficiente? Eu não era bonita o suficiente, não era inteligente o suficiente, não era interessante o suficiente? Tentei tanto ser a namorada perfeita, esperando que um dia ele finalmente me visse, realmente me visse, e me escolhesse sem reservas.
Agora eu sabia. Nunca foi sobre mim. Nunca foi minha culpa.
Seu coração havia sido entregue muito antes de eu entrar em cena. Eu estava apenas tentando preencher um espaço que nunca foi destinado a mim.
A percepção foi uma pílula amarga, mas também foi libertadora. O vício que eu tinha em sua aprovação, o desejo constante por seu afeto — tinha acabado.
Eu estava finalmente livre.