Dizem que os nossos sonhos nos movem a ir mais longe em busca de realizá-los. Eu tenho vários e resolvi lutar para realizar os meus. O primeiro deles, no entanto, é dar uma vida melhor à minha família, que se resume a duas mulheres fortes: a minha avó e a minha tia. Foram essas mulheres que me adotaram como filha e me criaram com tanto amor, ensinando-me o que é certo e errado, a ser simples, honesta e a ter humildade acima de qualquer coisa.
Contei para elas o desejo de vir para a capital em busca de uma vida melhor para nós três e recebi o apoio das duas para seguir em frente.
Mas, ao chegar na cidade de Orlando, me deparei com uma vida mais difícil do que pensei que seria. Comecei morando de favor com uma mulher chamada Rita. Vivi dias de inferno na sua casa porque o seu marido vivia dando em cima de mim. O meu único propósito no momento era sair da casa dela antes de arrumar mais problemas. Decidi ir trabalhar de faxineira no shopping para pagar o aluguel de um pequeno apartamento.
De forma humilde, me despedi e agradeci à senhora Rita e fui embora o mais rápido possível da sua casa.
Os primeiros dias morando sozinha foram horríveis porque eu chorava muito, me sentia impotente e quase passando fome. Nessa época, soube que a minha avó teve um AVC e necessitava de cuidados especiais. Eu só comia pão para poder mandar um pouco do que eu ganhava para custear o seu tratamento, e nos falávamos sempre por telefone nas horas vagas.
Com o passar dos meses, foi ficando mais difícil conseguir um emprego melhor, já que a maioria dos empregos exigia ter ensino superior e, infelizmente, eu não tinha. Isso dificultou demais a minha vida aqui. Mas, trabalhando de faxineira, eu conheci alguns colegas que trabalhavam no shopping e, graças ao segurança de uma grande loja de perfumes, consegui entrar numa vaga de vendedora ofertada pela dona, ganhando um pouco mais do que como faxineira. Abracei a oportunidade com unhas e dentes, porque eu só queria ganhar mais.
Nesse novo trabalho, aprendi a me virar sozinha, porque as minhas colegas de profissão me viraram as costas. Mas, com muita persistência, atendia os clientes muito bem e, aos poucos, fui adquirindo clientes que só queriam ser atendidos por mim. Um deles é o senhor Emilton Dylon, um homem da alta sociedade que, sempre ao comprar o seu perfume, me dava generosas gorjetas, e eu aceitava porque era um grande complemento à minha renda. Isso causava mais inveja nas outras vendedoras. Mas, com o tempo, ele sumiu e não o vi mais. Sinceramente, eu não sei o que houve com ele.
Mas, com o passar dos meses, continuei trabalhando. Ao sair da loja para ir tomar um café, Suyane me aborda.
- Cadê a melhor vendedora? Já atingiu a meta do dia? - Suyane fala em tom de deboche.
- O que você quer? Acho que você está com medo de mim.
- Jamais vou ter medo de você, Sâmia, uma pessoa que só almoça bolacha com café - Suyane fala rindo.
Quando ela fala isso, é como se uma faca atingisse o meu peito, porque só Deus sabe o porquê de tanto sacrifício, e eu fechava os olhos em silêncio.
- O que você tem a ver com isso? Você não gosta de mim, então me deixa em paz - Falo com a voz embargada.
- Você é uma morta de fome - Suyane fala, saindo.
A minha vontade era de falar umas verdades na cara dela, mas tive que engolir o meu choro e a vontade de voar no pescoço dela por estar num lugar público. Pedi logo uma xícara de chá, em vez de café, para acalmar os meus nervos.
- Por que eu sofro tanto? - Pergunto-me.
Sou uma pessoa que agradece muito a Deus por simplesmente existir, mas tem horas que, sozinha, eu me faço essa pergunta: "Por que sofro tanto? Qual o intuito de tanta dificuldade?". Tomei o meu chá e, em seguida, voltei para a loja. Atendi alguns clientes sorrindo, com vontade de chorar. Hoje é um dos dias que, se eu fosse despedida, não faria diferença.
No final do expediente, não consegui bater a meta. Lógico, a Suyane foi a melhor do dia e eu tive que aplaudi-la. Na hora de ir embora, fui chamada à atenção da minha chefe com as demais vendedoras.
- Eu vim hoje chamar a atenção de vocês, as que não bateram a meta. Precisamos alcançar mais vendas - a nossa chefe fala.
Em silêncio, ouço o que ela fala. Desde que entrei nessa loja para trabalhar, só ouço que preciso vender mais e mais. Ninguém nunca nos perguntou se estamos bem. Isso tem me enlouquecido e o pior é que não consigo desabafar com ninguém. Fui embora do shopping a pé e chorando.
Quando cheguei no meu pequeno apartamento, titia me manda uma mensagem avisando que vovó foi internada novamente, mesmo após tantos tratamentos. Comecei a chorar porque tenho a sensação de que nada do que eu fiz adiantou. Liguei imediatamente para a tia Zita, que se encontra no hospital, e, infelizmente, ela falou que a minha vó teve outro AVC e os médicos disseram que só um milagre agora pode salvar a vida dela. Eu me vejo de mãos atadas por não poder ir ver as duas, a não ser que eu peça demissão ou um verdadeiro milagre aconteça.
Subi para o quarto de Gael às pressas, com a governanta me seguindo e pedindo calma. Se tem alguma coisa que não tenho mais é calma com Gael. Bati com força na porta, mas ele não abriu.
- Abre a porta, Gael. Eu já descobri que você foi expulso da escola por bater num colega.
- Como o senhor descobriu? Gael é inocente! - Raquel interveio, rapidamente.
- Não se meta, Raquel. A nossa conversa é depois - Gritei.
- Gael, se não abrir a porta, eu vou derrubá-la agora - Falei pausadamente.
A porta se abriu. Gael me encarava de homem para homem, algo que nunca havia feito, com os olhos inchados de tanto chorar.
- O que mais o senhor vai fazer, além de arrombar a porta? Vai me agredir? O senhor só se importa comigo quando acontece o pior.
- Deixe de drama, Gael. Na sua idade, eu já era homem o suficiente e nunca fui chamado a atenção por agredir ninguém.
- Eu fui insultado da pior forma que alguém pode ser! Queria que eu ficasse calado e simplesmente ouvisse que sou órfão por nunca ter meus pais presentes na escola? - Gael desabafou.
Por um momento, fiquei sem voz e sem força para respondê-lo. As lembranças do passado voltaram com tudo: minha ex-esposa com Gael nos braços e eu todo feliz, pois ele era a realização do meu sonho de ser pai. Mas não era o sonho de Cíntia.
- Gael, você não é órfão. Para que tanto mimimi? Nada justifica sua agressividade. Eu vou te avisar só esta vez: se acontecer de novo, você irá para uma escola pública - Falei, saindo da frente dele.
O telefone da escola ligava incessantemente. Atendi a diretora, que me informou que Gael estava expulso e precisava de outra instituição. Pedi desculpas a ela em nome dele e prestei meu apoio ao garoto machucado que, segundo ela, fraturou o nariz.
Pus as mãos na cabeça, vermelho de raiva. Mandei Anita chamar Raquel, que logo veio ao meu escritório.
- Raquel, achou mesmo que ia conseguir esconder de mim que Gael foi expulso? Ele fraturou o nariz de um colega.
- Senhor, me perdoe, mas eu amo essas crianças.
- Raquel, desse jeito você está estragando eles. Gael é um adolescente que precisa acordar para a vida. E tem mais: mais uma mentira e você será demitida - Falei. Raquel saiu do meu escritório.
Minha vida desmorona dia após dia. Nenhum dinheiro é o suficiente para endireitar as coisas.
Gael foi transferido para outra escola. Mais uma vez, o alertei: mais um vacilo e ele irá para uma escola pública.
Minha tia Leide insiste em me visitar, e eu sempre adio, pois sei que a vinda dela será outro problema. Não quero ser ignorante com ninguém, mas odeio pessoas se metendo na minha vida, e ela é uma delas. O aniversário dela se aproxima, e ela quer que as crianças me acompanhem. Já falei com Gael e Talita sobre irmos, e, mesmo contra a vontade deles, meus filhos não têm escolha. Eles odeiam essas reuniões familiares; acho que puxaram a mim nesse quesito. Já a mãe deles adora festas. Eu ia contra a minha vontade acompanhá-la. No entanto, há comemorações imperdíveis, e esta é uma delas.
A semana passou rápido. Não recebi reclamações de Gael, o que mostra que ele está gostando da nova escola.
Quando cheguei do trabalho, o vi conversando com uma garota no jardim. Desci do carro e, ao entrar na sala, Anita abriu a porta para mim.
- Senhor Haniel, seja bem-vindo. O almoço está quase pronto - Anita falou.
- Quem é a garota que está no jardim? - perguntei imediatamente.
- Neta da senhora Raquel! Se eu fosse o senhor, não deixaria ela trazer familiares para a mansão - Anita comentou.
Eu a encarei por tamanha audácia.
- Quem manda aqui ainda sou eu. Não preciso dos seus conselhos para ditar regras do que pode ou não acontecer. Retire-se, por favor - Falei, ríspido, pois detesto palpites de funcionários.
Sentei sozinho na mesa, Raquel serviu meu almoço e, quando ficamos a sós, perguntei o que a garota fazia ali àquela hora.
- Quem é a garota que estava no jardim conversando com Gael? - perguntei, e Raquel me olhou nervosa.
- Senhor, eu posso explicar por que trouxe minha neta hoje para o trabalho.
- Não precisa se explicar. Ela estuda?
- Sim, estuda, mas está passando por um problema psicológico. Me perdoe por tê-la trazido comigo. Eu não tinha saída - Raquel falou, emocionada.
- Tudo bem, Raquel. Agora, vá chamar Talita e Gael para almoçar comigo - peço mais calmo.
Não entendi de primeira essa aproximação de Gael com a neta de Raquel. Passei a mão nos cabelos. Não posso negar assistência a quem praticamente criou meus filhos. Enfim, pretendo não me envolver nos problemas emocionais dos outros; os meus eu curei trabalhando.
Ainda ao redor da mesa, Gael chegou primeiro e, em seguida, Talita, ambos de cara fechada. Eu logo tratei de lembrá-los que no final de semana conto com a companhia deles para ir ao aniversário da tia Leide. Não responderam sim, nem não. Afinal, eles não têm escolha. Terão que ir na marra.