Entrei na livraria com um sorriso no rosto. César estava ali me esperando, terminando de colocar alguns livros na pilha de História, não história de contar, História a matéria da escola, a mesma que ele estudava na faculdade. Ele usava o típico avental azul escuro da livraria, com a logo dela bem no peito. Eu sentei perto dos livros esotéricos e puxei o primeiro que apareceu na minha frente. Era um livro qualquer sobre Maçonaria que fomentava ainda mais as teorias de conspiração. Eu não me interessava muito sobre os maçons então devolvi o livro a estante e fiquei observando enquanto César cuidadosamente colocava os livros na prateleira e depois saía de lá, indo em direção aos fundos da loja.
Me levantei e fui rapidamente para o balcão, de onde eu conseguia vê-lo. E observei enquanto ele tirava os óculos quadrados, de armação grossa preta, limpava. Depois ele tirou o avental e foi até o banheiro, trocou a camisa de manga comprida, porque o ar da livraria era congelante, e a calça jeans por uma camiseta da banda Rage Against The Machine e uma bermuda cáqui.
Assim que ele ficou pronto, tornou-se a colocar tudo na mochila e foi me encontrar na frente do balcão.
— Vamos?
Ele me chamou com um sorrisão na cara. Me senti muito bem por estar ao seu lado, mas ao mesmo tempo tensa. Estava perto do dia da nota do ENEM. Ele provavelmente ia me levar para a beira do mar para tomar um sorvete, mas eu só pensava no 1000 na redação que eu queria tirar. Eu nem sabia que curso colocar no SISU, mas eu sabia que eu queria estar nas melhores faculdades.
Parte disso era oriundo das pressões da escola. Eu também sabia que se minha dúvida terminasse em Medicina ou Direito. Eu precisaria de notas altas, não precisaria?
César me pegou pela mão, adorava quando ele fazia isso, sempre que isso acontecia era uma sensação nova de calor correndo pelo meu corpo. Pensar em como a gente se conheceu era bizarro. No meio do caos, quando eu acreditava que nada iria dar certo, aparece uma centelha, uma luz, que me leva ao caminho do que é certo e do que eu deveria fazer.
O único problema é que César e eu ainda não estávamos namorando, isso me deixava fula da vida. Porque eu esperava que a gente pudesse ficar junto pra sempre, não que a gente não fosse ficar, mas acontece que a gente também não sabia muito que rumo tomar na nossa vida.
Nenhum de nós havia tido coragem o bastante para tocar no assunto “vamos namorar?”, apenas deixávamos ser. Uma vez vi um post na internet que dizia que para começar a namorar uma pessoa bastava levar ela para um churrasco de família que a magia iria acontecer. Só que, que magia estava acontecendo? Nenhuma! Eu me sentia uma tola qualquer que não sabia que rumo tomar.
Na verdade, eu nunca sabia que rumo tomar.
Às vezes eu ia lá e culpava meu signo, essa história de ser libriana não era uma coisa lá muito boa. Estava muito ligada a indecisão, a fazer o que vai agradar a maioria, ser diplomática.
Juro que fiz até meu mapa astral com uma amiga do César pra saber qual faculdade fazer. Segundo ela meu Meio do Céu é em Sagitário então eu seria uma ótima professora. Professora? Jamé, mané!
Pelo menos alguma coisa eu sabia que eu não queria.
Já era um bom começo, né?
— Você está muito tensa. — César comentou fazendo com que eu enrijecesse ainda mais.
— D-d-d-desculpa. — Gaguejei. Me senti perdidamente mal. Fui até a livraria, como fazia todos os dias, para ver o César quando me dei conta que aquele sentimento estava transparecendo.
— Eu fiz alguma coisa? — Mesmo por detrás das lentes dos óculos eu poderia ver que seus olhos brilharam de culpa. Desde a morte dos seus pais, César carregava uma culpa tremenda dentro de si. Ele achava que tudo era culpa dele.
— Não! Claro que não! É que eu tô tensa com a nota do ENEM... — Eu disse me sentindo meio encabulada de fazer aquilo, parecia bobo, mas para mim era de suma importância. Era como se minha vida dependesse daquilo. Talvez de fato dependesse.
— Ai que susto. — Ele comentou antes de continuar. — Ah, Mia... Relaxa. Olha, eu mesmo entrei com uma média razoável na federal. Você não precisa ser a melhor, e você sabe perfeitamente disso.
— Mas eu quero ser a melhor. — Eu disse, com tanto entusiasmo, dando ênfase no “quero” que pude ver que César quase se segurou para não revirar os olhos.
— Para a mim você é a melhor do mundo! Afinal, quem mais iria tirar seus dias de verão para me ver todos os dias no final do expediente? — Dei um sorriso fraco, ainda meio preocupada. Não dava para simplesmente relaxar. A coisa era muito mais profunda do que parecia.
Pelo menos para mim.
O que me deixava mais irritada era que justamente quando saíamos ele pegava na minha mão como se fôssemos um casal oficializado, mas não éramos. E eu queria tanto que isso se tornasse real e oficial.
Ele parou num quiosque e pediu um suco de laranja, eu pedi uma Tequila Sunrise. César era um Straight Edge, ele seguia uma linha do movimento punk/hardcore que pregava o não-uso de nenhuma droga (legal ou ilegal) isso incluía álcool e cigarros. Mas ele respeitava minha escolha de tomar umazinha às vezes.
Os pais de César morreram num acidente de carro após uma festa de formatura onde os dois beberam todas. Ele sobreviveu por ser o único que estava usando cinto de segurança. Ele se sente culpado desde sempre, pois acreditava que havia sido culpa dele não ter avisado aos pais que deveriam ter colocado cinto.
Além disso ele era muito fã de música punk, visto pelas camisas de banda e pelos bordados termocolados em suas jaquetas jeans.
Ele culpava a bebida e a si mesmo pela morte dos pais, ele também perdeu os avós que cuidavam dele depois da morte dos pais um por câncer de boca a outra por câncer de pulmão. Tudo por conta do cigarro.
Por isso ele resolveu nunca usar droga, nenhum tipo. Na lógica dele, se as legais faziam mal, as ilegais deveriam fazer mais mal ainda.
Quando eu bebia eu sempre tomava cuidado para beber pouco, para não deixa-lo preocupado.
Vivíamos um amor cuidadoso.
— Já pensou em procurar algum profissional da psicologia? Pra ver se você consegue dominar essa sensação de querer ser a melhor em tudo sem necessidade? Além do mais pode te ajudar a escolher algo que você queira.
Fiquei cerca de cinco segundos olhando para a cara de César com os olhos arregalados . Ele fez como se não fosse com ele e deu um gole no suco.
— César, você está me chamando de louca? — Aquela foi a vez dele arregalar os olhos e olhar com cara de surpresa para mim.
— Não, Mia! Calma! Estou apenas sugerindo que você precisa de um apoio para essas crises existenciais. — Revirei os olhos e puxei o líquido do meu drink pelo canudinho.
— É sério, meu bem. — César falou com uma voz tão suave, tão amorosa, que foi impossível não me derreter.
Eu estava sentada na cadeira da psicóloga. Ela sorria um sorriso irritante. Eu me sentia um lixo naquele momento. Não sei por que, mas eu me forçava a dizer coisas da minha vida pra ela quando não havia nada do que dizer.
Esse negócio de ENEM estava me matando e era um saco.
—Posso ir embora? — Perguntei e ela me olhou com dúvida, “como assim você quer ir embora?” era a pergunta que estava implícita em seu olhar.
—Por que você quer ir, meu bem? — Ela me fez revirar os olhos, aquilo foi maior que eu, sei que era super escroto da minha parte, mas foi maior do que eu.
A verdade é que eu estava fazendo aquilo pelo César, mais por ele do que por mim, na verdade, só por ele do que por mim. É ruim quando a gente faz as coisas forçadas e por isso mesmo eu estava querendo fugir daquela situação.
— Eu não estou me sentindo confortável. — Eu disse, tentando não fazer como se minha voz soasse como se eu estivesse dizendo o óbvio. Porra, essa mulher gostava de fazer jogo duro.
— Se quiser ir, pode. Mas essa consulta será cobrada na íntegra. — Me levantei do sofá, tirei minha carteira do bolso e coloquei o dinheiro dela em cima da mesinha de centro.
— Aqui está. Muito obrigada. — “Muito obrigada é o caralho” eu pensei enquanto saía porta a fora. Depois de descer o elevador do prédio da moça fiquei caminhando por umas boas horas até encontrar algo pra fazer.
Primeiro passei no café onde eu gostava de passar minhas horas, mas todo o dinheiro que eu tinha em mãos naquele momento havia ido embora com a minha psicóloga, então passei no banco pra sacar mais uma grana e... sei lá comer algo na rua.
Minha mente estava a mil, naquela tarde sairia a nota e eu não sabia muito bem se eu queria vê-la. Eu dei meus dados para o César para que ele visse por mim, que se a nota fosse ruim ele poderia deixar pra lá.
Depois de sair do banco eu estava prestes a ir pra qualquer outro lugar enrolar, mas eu recebi uma mensagem dele. Era uma imagem, de primeira eu pensei que fosse algum tipo de foto dele na livraria, mas quando eu cliquei para ler a mensagem era simplesmente minha nota do ENEM.
Meu coração disparou a ver aquilo. Minha nota da redação tinha sido 970 e minha média era de 850. Eu poderia simplesmente entrar pro curso que eu queria. O dinheiro investido pelos meus pais havia valido a pena.
Mas ainda sim, eu não sabia o que fazer com essa nota.
Mesmo assim eu saí correndo entre os carros da rua e fui encontrar César na livraria, que era próxima dali.
Eu chorava enquanto corria, podia sentir minhas lágrimas caindo. Aquele choro tinha um pouco de alegria, mas também tinha um pouco de desespero. O SISU era daqui um mês e eu não sabia que cursos colocar ali.
Na minha cidade tinha uma universidade federal e uma estadual, pelo menos aí uns 20 cursos pra escolher, e eu simplesmente não sabia.
Cheguei na livraria e os sininhos dela fizeram um barulho mais alto do que normalmente, principalmente pela força na qual eu abri a porta. César estava atendendo uma senhora de meia idade e os dois tomaram um susto com minha chegada.
Ele deu um sorriso que logo se desfez. Pediu licença a moça e veio em minha direção, ele me abraçou enquanto eu chorava de soluçar nos braços dele. Ele beijou meus cabelos e os bagunçou enquanto fazia carinho.
— Você está feliz? — Ele me perguntou.
— Estou.
— Então porque seu choro tem mais cara de tristeza de que felicidade? — Sua pergunta veio como uma facada no meu peito.
— Eu tô com medo, Cé. – Ele respirou fundo e pediu licença a mim, foi até atrás do balcão. A chefe dele ficava lá o dia todo jogando paciência e pôquer no computador. Ele levou uns cinco minutos, a senhora que ele estava atendendo me olhava com uma cara de “é doida” e eu nem ligava.
Ele voltou sem o avental da loja e com calça jeans, sua habitual mochila e uma camisa de protesto ao atual governo federal. A camisa era vermelha, combinava com a minha, que era uma dele inclusive, da banda Audioslave.
Ele me pegou pela mão e me levou pro Burger King, além de ser um punk straight edge ele era vegetariano. Não era vegano ainda, porque era apaixonado por derivados de leite, e isso inclui queijo.
Apesar de ser um cara totalmente anti-capitalista, César tinha que admitir que a rede de fast food era a única na cidade que oferecia um lanche vegetariano barato.
Até nosso pedido chegar ele não disse nada. Depois que dei uma mordida generosa no sanduíche ele começou a falar pra que eu pudesse ficar mais a vontade.
— Tá com medo de quê? — Ele perguntou com curiosidade enquanto o queijo da carne vegetariano criva uma linha da sua boca até o hambúrguer.
— De ter tirado esse notão e aproveitar. —Ele ergueu uma sobrancelha.
— Quais matérias você gostava na escola?
— Todas? — Respondi a pergunta com uma pergunta/resposta. Ele riu, sua risada era gostosa e eu acabei por rir também.
— Ok sua nota mais baixa no ENEM foi em matemática, podemos eliminá-la? — Fiz que sim com a cabeça.
— Nada de exatas. — Isso eu já sabia que eu não queria.
— Sua nota mais alta foi em Linguagens. A estadual oferece três cursos variados em Letras. Português/Literatura, Português/Espanhol e Português/Inglês.
Eu fiz meu ENEM em espanhol, fiz cursinho e tinha diploma internacional na língua, eu comecei a me imaginar professora, mas algo ainda me deixava muito incomodada. Eu poderia ser tradutora também.
Havia uma grande editora na cidade e eles podem estar precisando de uma tradutora.
Ok, mas devo admitir que maioria dos livros estrangeiros vêm dos EUA ou do Reino Unido.
Não sei, minha mente estava confusa demais.
— É uma boa, mas acho que a gente podia criar mais opções.
— Se você quiser sair da cidade, tudo bem. A gente se relaciona a distância. — César era um doce de homem, meu farol, meu porto seguro. Aquela era só uma das barras que ele estava segurando comigo.
Ele ajeitou os óculos no rosto e sorriu pra mim.
— Se eu ficar longe de você eu surto. — Ele deu um sorriso meio borocochô.
— Você não pode ser dependente de mim, Mia. — Respirei fundo e olhei triste pra batatinha.
— Poxa, mas você...
— Por que você acha que eu falei pra você procurar uma psicóloga? Você tem muitos problemas, Mia. Mas eu não vou durar muito. E se a gente terminar? E se eu morrer? — Eu não queria admitir que ele estava certo, mas ele estava.
— Quando a gente terminar aqui a gente pode ir pra sua casa ouvir música? — Ele sorriu, eu gostava dos troços barulhentos que ele ouvia, apesar de manter na minha playlist pessoal algo mais brando.
— Podemos, meu bem.