"O vidente disse que estas crianças são amaldiçoadas" , a voz de Mateus era fria, sem qualquer traço da paixão que um dia nos uniu na escola de culinária.
Ele segurava meu braço com força, seus dedos cravados em minha pele.
"Elas trarão desgraça para nossa família, Sofia. Você precisa abortar."
Eu olhei para ele, para o homem com quem sonhei em abrir uma confeitaria, o chef promissor cujo sorriso um dia aqueceu minha alma.
Agora, seu rosto era uma máscara de gelo, seus olhos manipulados pelo medo e pela ambição de sua mãe.
"Não, Mateus, por favor" , eu supliquei, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "São nossos filhos, nossos gêmeos."
Meus soluços ecoavam no quarto silencioso, mas minhas palavras não o alcançavam.
Atrás dele, sua mãe, Helena, observava com um sorriso mal disfarçado.
Seu olhar era de puro triunfo. Ela, que sempre me odiou, que via meu talento na confeitaria como uma ameaça, finalmente tinha o que queria.
Ela me via de joelhos, destruída.
"É para o seu próprio bem, querida" , disse Helena, sua voz soando falsamente doce. "Estamos apenas protegendo a família."
Mateus não disse mais nada, ele apenas me arrastou para fora de casa, me empurrando para o carro.
A viagem até a clínica clandestina foi um borrão de terror e desespero.
Eu implorei, chorei, lembrei-o de nossos sonhos, do nosso amor, dos nomes que tínhamos escolhido para os bebês.
Ele permaneceu em silêncio, seu rosto virado para a janela, como se eu fosse uma estranha.
A dor do procedimento foi insuportável, mas nada se comparava à dor no meu coração, um vazio que se abriu onde meus filhos deveriam estar.
Quando tudo acabou, ele me levou de volta para casa, me jogando na cama como um saco de batatas.
Helena entrou no quarto logo depois, não com um copo de água ou uma palavra de conforto, mas com uma tigela de um líquido escuro e fedorento.
"Beba isso" , ela ordenou. "É uma sopa de purificação, para limpar a maldição que você trouxe para esta casa."
Eu me encolhi, o cheiro nauseante me revirando o estômago.
"Não vou beber isso" , eu sussurrei, minha voz fraca.
Helena riu, um som cruel.
"Ah, você vai sim."
Ela fez um sinal para Mateus, que se aproximou e segurou minha cabeça para trás.
Ele abriu minha boca à força enquanto Helena despejava o líquido amargo pela minha garganta.
Eu engasguei, tossi, o gosto horrível queimando meu esôfago.
Eles me observaram sofrer, seus rostos impassíveis.
Quando terminaram, saíram do quarto, trancando a porta atrás de si.
Fiquei sozinha na escuridão, meu corpo doendo, meu espírito quebrado.
A dor e a febre me consumiram.
Em meu delírio, eu vi dois pequenos rostos flutuando na penumbra.
Meus bebês.
Eles sorriam para mim, estendendo suas mãozinhas.
Eu tentei alcançá-los, chamando seus nomes em um sussurro.
"Mamãe está aqui", eu chorei.
Mas eles se afastaram, suas imagens se dissolvendo na escuridão, me deixando sozinha com o eco da minha dor.
Passei dias naquele quarto, um fantasma em minha própria casa.
A febre ia e vinha, e meu corpo ainda sangrava, um lembrete constante da minha perda.
Mateus mal entrava no quarto, e quando o fazia, seu rosto era uma máscara de repulsa.
Em uma tarde particularmente sombria, ele invadiu o quarto, seu rosto contorcido de raiva.
Ele jogou um travesseiro em mim.
"De quem são eles, Sofia?" ele gritou, sua voz cheia de veneno.
Eu o encarei, confusa e atordoada.
"Do que você está falando?"
"Os bebês!" ele rosnou. "Eles não podiam ser meus. O vidente disse que eram amaldiçoados. Você me traiu, não foi? Você dormiu com outro homem!"
O ar saiu dos meus pulmões.
A acusação era tão absurda, tão cruel, que por um momento não consegui respirar.
Este era o homem que eu amava, o pai dos filhos que ele mesmo me forçou a matar.
E agora ele me acusava de traição.
"Você enlouqueceu?" eu gritei, uma onda de raiva me dando uma força que eu não sabia que tinha. "Como você ousa? Depois de tudo que você me fez passar?"
Levantei-me da cama, minhas pernas trêmulas, mas minha determinação era de ferro.
"Você destruiu nossa família por causa de um charlatão e da sua mãe invejosa, e agora você me acusa disso?"
Eu tentei empurrá-lo para fora do quarto, mas ele era muito mais forte.
Ele agarrou meus pulsos, me sacudindo com força.
"Não minta para mim, sua vagabunda!"
Naquele momento, a porta se abriu.
Helena entrou, um sorriso de falsa preocupação no rosto.
Ao lado dela, havia uma mulher mais jovem, com um vestido caro e um olhar arrogante.
Eu a reconheci vagamente. Laura, uma antiga rival da escola de culinária, alguém que sempre me invejou.
E ela estava grávida.
Sua barriga estava proeminente, uma celebração de vida que era uma facada no meu luto.
"Mateus, querido, não se estresse" , disse Helena, passando a mão pelo braço do filho. "Olhe, Laura veio nos visitar. Ela tem ótimas notícias."
Laura sorriu, colocando a mão protetoramente sobre a barriga.
"Eu estou grávida, Mateus. E o filho é seu."
O mundo ao meu redor girou.
A traição era dupla, tripla, um monstro de mil cabeças.
A dor no meu coração era tão intensa que se tornou física.
Senti uma pontada aguda no peito, e a escuridão me engoliu.
Quando acordei, não estava mais no meu quarto.
Eu estava na sala de estar, ajoelhada em algo duro e pontiagudo.
Olhei para baixo e vi um tapete de sisal grosso e áspero, com pedaços de cascalho e espinhos entrelaçados. Cada movimento enviava ondas de dor pelas minhas pernas já feridas.
Helena e Laura estavam sentadas no sofá, tomando chá, me observando como se eu fosse um espetáculo.
Mateus não estava em lugar nenhum.
"Isso é para você aprender a ter humildade" , disse Helena, tomando um gole de seu chá. "Uma mulher adúltera e amaldiçoada precisa ser purificada."
Laura riu.
Ela se levantou e caminhou até mim.
Ela estava usando um dos aventais de chef de Mateus, um que eu mesma havia bordado para ele.
Ela o ajustou sobre a barriga, um gesto deliberado de provocação.
"Sabe, Sofia, Mateus sempre disse que eu entendo muito melhor as ambições dele do que você" , ela sussurrou, perto o suficiente para que só eu pudesse ouvir. "Ele precisa de uma mulher que o eleve, não de uma confeiteira de bairro que o ofusca."
Ela sorriu, um sorriso vitorioso.
"Agora, seja uma boa menina e reze pelo seu perdão."
Ela se virou e voltou para o sofá, deixando-me ajoelhada na dor e na humilhação, o símbolo do meu amor perdido agora usado como uma arma contra mim.