Capítulo 2

Sofia sentiu o estômago revirar mais uma vez. A onda de náusea subiu pela garganta, um lembrete amargo e constante do milagre que carregava no ventre. Ela se apoiou na bancada de mármore frio da cozinha, respirando fundo, tentando controlar o mal-estar que a perseguia desde o amanhecer. Foram anos de tentativas, de tratamentos de fertilização in vitro que desgastaram seu corpo e sua mente, de sacrifícios incontáveis para realizar o sonho de ter um filho com Pedro, seu marido. A baixa contagem de espermatozoides dele tornava o processo um desafio monumental, mas eles finalmente conseguiram. Grávida. A palavra deveria soar como música, mas hoje, soava como um alarme silencioso.

Do outro lado da sala, Pedro se arrumava para o trabalho, assobiando uma melodia qualquer, completamente alheio ao desconforto dela. Ele ajustou a gravata de seda, borrifou seu perfume caro, o cheiro amadeirado preenchendo o apartamento luxuoso em São Paulo.

"Você parece pálida, Sofia."

Ele disse isso sem olhar para ela, concentrado em seu reflexo no espelho do corredor.

"É só o enjoo matinal," ela respondeu, a voz fraca. "A médica disse que é normal."

"Ah, sim. Normal."

Ele pegou sua pasta de couro e as chaves do carro. Não houve um toque, um gesto de carinho, nem mesmo um olhar de preocupação. Apenas a pressa de quem tem um compromisso mais importante. E Sofia sabia qual era o compromisso.

Horas mais tarde, sozinha no silêncio do apartamento, a náusea deu uma trégua. Sofia pegou o celular, um hábito quase automático, e abriu o Instagram. O feed estava cheio de vidas perfeitas, viagens exóticas e cafés da manhã fotogênicos. Então, ela viu. O post de Camila, a secretária de Pedro.

Uma foto de duas taças de champanhe erguidas, com a vista noturna de São Paulo ao fundo. Na legenda, as palavras que fizeram o ar faltar nos pulmões de Sofia: "Comemorando nosso terceiro aniversário. Obrigada por tudo, meu amor."

Mas não foi a legenda que a destruiu. Foi o relógio no pulso masculino que segurava uma das taças. Um modelo exclusivo, que Sofia deu a Pedro no aniversário de casamento deles. Inconfundível.

O choque inicial deu lugar a uma fúria fria. As peças do quebra-cabeça se encaixaram com uma clareza brutal. As reuniões tarde da noite, as viagens de negócios de última hora, a distância emocional que se instalara entre eles. Não era estresse do trabalho. Era outra mulher.

Quando Pedro chegou em casa naquela noite, Sofia o esperava na sala de estar, o celular na mão, a foto de Camila aberta na tela.

"O que é isso, Pedro?"

Ele olhou para a tela, e pela primeira vez em muito tempo, perdeu a compostura. Um lampejo de pânico cruzou seu rosto antes de ser substituído por uma irritação defensiva.

"É só uma brincadeira da Camila. Você sabe como ela é."

"Brincadeira? 'Nosso terceiro aniversário' , Pedro? O relógio. O relógio que eu te dei."

A voz dela tremia, mas não de tristeza. De raiva.

Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo como se estivesse lidando com uma criança birrenta.

"Olha, Sofia, você está grávida, sensível. Não faça um drama por nada. Camila tem me ajudado muito no escritório, ela está cuidando de mim enquanto você fica aí, passando mal e reclamando o dia todo."

Aquelas palavras. "Cuidando dele." Como se os anos de sacrifício dela, as injeções, os hormônios, a dor física e emocional para lhe dar um herdeiro não significassem nada. Como se a gravidez, o sonho deles, fosse um fardo, uma reclamação. Naquele instante, algo dentro de Sofia se quebrou de forma definitiva. O amor, a esperança, a esposa dedicada. Tudo se transformou em pó.

Ela olhou para o rosto dele, o homem com quem dividiu a vida, e viu um estranho. Um estranho egoísta e cruel. A futilidade de sua situação a atingiu com a força de um soco. Ela estava sozinha. O filho que carregava, fruto de tanto esforço, era um elo com um homem que não a merecia. Um homem que celebrava um caso enquanto ela vomitava de enjoo.

A decisão se formou em sua mente, clara e afiada. Acabou. Mas não seria um final silencioso. Não seria um divórcio amigável. Ela não era apenas Sofia, a esposa traída. Ela era Sofia de Albuquerque Moraes. Herdeira de um dos maiores impérios imobiliários do Rio de Janeiro, um poder que ela deixou para trás por amor a Pedro. Um poder que agora ela usaria para se reerguer.

Enquanto Pedro tomava banho, aliviado por ter, em sua visão, encerrado a discussão, Sofia foi para o escritório. Ela discou um número que não usava há anos. A chamada foi atendida no primeiro toque.

"Alô?" a voz do outro lado era profissional e familiar.

"João, é a Sofia."

Houve um segundo de silêncio surpreso, seguido de um tom de respeito imediato.

"Senhora Sofia. Que surpresa. Em que posso ajudar?"

João era o braço direito de seu pai, o homem que administrava os detalhes do império Albuquerque Moraes.

"Eu vou voltar para o Rio. Preciso que prepare tudo. Meu apartamento, minha sala na empresa. Reative todas as minhas credenciais."

"Imediatamente, senhora. Aconteceu alguma coisa?"

Sofia olhou para a porta fechada do banheiro, de onde vinha o som do chuveiro e do assobio indiferente de Pedro. Um sorriso frio tocou seus lábios.

"Aconteceu, João. Eu apenas me lembrei de quem eu sou."

Capítulo 3

A clínica era silenciosa e decorada em tons pastéis, um esforço para acalmar os nervos dos pacientes. Mas para Sofia, o ambiente parecia estéril e frio. Ela estava sentada em uma poltrona de couro, as mãos entrelaçadas sobre o colo, o olhar fixo em um ponto qualquer da parede. A decisão, tomada na noite anterior em um acesso de clareza gélida, agora pesava sobre ela com uma realidade esmagadora.

Dra. Lúcia, a médica que a acompanhou durante todo o processo de fertilização, sentou-se à sua frente. Seus olhos, normalmente cheios de otimismo profissional, agora continham uma profunda preocupação.

"Sofia, eu recebi sua ligação. Eu preciso perguntar de novo: você tem certeza absoluta disso?"

A voz da médica era gentil, mas firme.

"Eu sei o quanto você lutou por essa gravidez. Nós lutamos juntas. Abortar agora... é uma decisão irreversível."

Sofia ergueu os olhos e encontrou o olhar da médica. Não havia lágrimas, apenas uma determinação sombria.

"Eu lutei por uma família, doutora. Não por um elo com um homem que me traiu e humilhou. O que eu carrego aqui," ela pousou a mão sobre o ventre, "deixou de ser um sonho. Tornou-se uma âncora que me prende a uma vida de mentiras. Eu preciso cortar essa âncora para não afundar."

Dra. Lúcia suspirou, reconhecendo a dor por trás da firmeza. Ela sabia que não era seu papel julgar, mas o lado humano de sua profissão tornava a situação difícil. Ela tinha visto a alegria de Sofia quando o teste de gravidez deu positivo, a esperança renovada a cada ultrassom. Ver tudo isso desmoronar era desolador.

"Eu entendo. Ou melhor, eu tento entender a sua dor," disse a médica, pegando os formulários de consentimento. "Vamos agendar o procedimento para a próxima semana. Preciso que você assine aqui."

Sofia pegou a caneta. A mão dela não tremeu. Cada letra de sua assinatura era um passo para longe de Pedro, para longe da mulher que ela tinha sido.

Enquanto preenchia a papelada, seu celular vibrou na bolsa. Era uma mensagem de Pedro. Ela abriu, o coração endurecido.

"Estou indo para um happy hour com o pessoal do escritório. Não me espere para o jantar. Não se esqueça de comprar meu vinho preferido para o fim de semana, o estoque acabou."

A banalidade da mensagem era um insulto. Ele estava com ela, com Camila, celebrando sua vida dupla enquanto Sofia assinava os papéis para apagar o último vestígio do futuro que eles supostamente construiriam juntos. Ela não respondeu. Apenas deletou a mensagem.

Minutos depois, outra notificação. Um número desconhecido. Uma foto.

Era Camila, sorrindo para a câmera do celular. Ela estava no banheiro do apartamento de Sofia e Pedro. Inconfundível. O papel de parede, os frascos de perfume de Sofia na bancada. Camila usava um dos robes de seda de Sofia, ligeiramente aberto, insinuante. A legenda era curta e venenosa.

"Ele diz que seda fica melhor em mim. E que meu cheiro é mais excitante que o seu."

A provocação era tão direta, tão vil, que por um momento Sofia sentiu o ar lhe faltar. A invasão de seu espaço mais íntimo, a apropriação de suas coisas, a crueldade calculada. A antiga Sofia teria chorado, teria se sentido diminuída. A nova Sofia sentiu a raiva se transformar em combustível.

Ela não respondeu com raiva. Ela respondeu com poder. Digitou uma resposta rápida, sem emoção.

"Fique com o robe. Fique com o homem. Restos não me interessam. Aproveite bem a vida que você está roubando. Você vai precisar de sorte."

Antes que Camila pudesse responder, Sofia bloqueou o número. Ela se levantou, entregou os papéis assinados para a recepcionista da Dra. Lúcia e saiu da clínica. O ar de São Paulo nunca pareceu tão poluído. Ela caminhou pela rua, a cabeça erguida. O procedimento estava marcado. O contato com Pedro, rompido em seu coração. A guerra estava apenas começando, e ela não seria mais a vítima. Ela seria a estrategista.

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