A luz da manhã que filtrava para a suíte principal era cinzenta e implacável. Cortava através das frestas das cortinas, atingindo Alexandre Valente diretamente nos olhos.
Ele gemeu, virando-se e enterrando o rosto na almofada. A cabeça latejava. O stress da noite anterior, a visita ao hospital, as lágrimas de Escarlate, o prazo da fusão - tudo pesava nas suas têmporas.
Estendeu a mão cegamente em direção à mesa de cabeceira. Esperava o calor de uma caneca de cerâmica. Eva trazia-lhe sempre café preto, exatamente às 6:30 da manhã. Fazia parte da engrenagem da vida dele. O café aparecia, as roupas estavam dispostas, a agenda sincronizada.
A mão dele não encontrou nada além de ar fresco.
Alexandre franziu a testa. Tateou a superfície. Vazia.
Abriu os olhos, semicerrando-os contra a luz. Sentou-se, uma irritação a crescer no peito.
Eva? chamou. A voz estava rouca de sono.
Silêncio.
O silêncio era diferente esta manhã. Não era a quietude de uma casa bem ordenada. Era o vazio de um vácuo.
Balançou as pernas para fora da cama. Foi então que viu.
Na almofada ao lado dele - a almofada onde Eva costumava dormir, encolhida numa bola para ocupar o mínimo de espaço possível - estava uma folha de papel. E em cima do papel, cintilando na luz pálida, estava a aliança de casamento dela.
Alexandre olhou fixamente. Por um momento, o cérebro recusou-se a processar os dados visuais. O anel parecia alienígena ali, separado do dedo dela.
Estendeu a mão e pegou no papel. O anel rolou e bateu no colchão com um baque suave.
Dissolução de Casamento.
Ele percorreu o documento com os olhos. O olhar saltou sobre o jargão jurídico. Rutura irreversível. Renúncia de bens. Efeito imediato.
Soltou um escárnio curto e incrédulo. Atirou o papel de volta para a cama.
Outro pedido de atenção, murmurou para o quarto vazio.
Ela tinha andado temperamental ultimamente. Silenciosa. Retraída. Ele assumiu que era por causa do aniversário. Sabia que o tinha falhado, mas certamente ela compreendia a gravidade da condição de Escarlate? Escarlate era família. Escarlate era... frágil. Eva devia ser a robusta. Aquela que não precisava de manutenção.
Levantou-se e saiu do quarto, apertando o cinto do roupão de seda. Esperava encontrá-la na cozinha, talvez amuada sobre o fogão, à espera que ele pedisse desculpa para o perdoar e servir o café.
Eva! Pára com este jogo infantil, chamou ao entrar na sala de estar. Não tenho tempo para dramas esta manhã.
A cozinha estava imaculada. As bancadas limpas. Não havia cheiro de café. Nenhum cheiro de torradas. Os eletrodomésticos estavam frios.
Alexandre parou no centro da sala. Uma centelha de inquietação genuína acendeu-se no seu estômago.
Então, a porta da Suíte de Hóspedes abriu-se.
Eva saiu.
Alexandre piscou. Ela parecia... diferente.
Usava uma gabardina apertada na cintura sobre roupas simples. O cabelo, geralmente naquele coque severo e desarrumado, estava solto, embora ainda sem estilo. Mas era a postura dela que o confundia. Não estava curvada. Não se estava a encolher. Mantinha-se com a coluna alongada, o queixo erguido.
Segurava uma mala, mas pousou-a junto à porta do quarto de hóspedes.
Vais a algum lado? perguntou Alexandre, a voz a pingar condescendência. Caminhou em direção à ilha da cozinha, encostando-se a ela para mostrar o quão indiferente estava. O drama é desnecessário, Eva. Arruma a mala.
Eva caminhou até à bancada para servir um copo de água. Não olhou para ele.
Eu assinei os papéis, Alexandre, disse ela. A voz estava calma. Inaturalmente calma. Quero sair.
Alexandre riu-se. Foi um som áspero, um latido. Sair? Não tens nada sem mim. Percebes isso, não percebes? És uma 'Cortez' apenas no nome. O teu pai não te vai aceitar de volta. Não tens emprego. Não tens dinheiro. Não tens apartamento.
Ele desencostou-se da bancada e deu um passo em direção a ela, usando a altura para intimidar. Elevava-se sobre ela, projetando uma sombra no rosto dela.
És uma substituta, Eva. Não te esqueças disso. Existes neste mundo porque eu permito. Porque eu precisava de uma esposa no papel.
Eva finalmente olhou para ele. Atrás das lentes grossas dos óculos, os olhos dela eram escuros e ilegíveis. Não havia raiva lá. Apenas uma vasta e vazia indiferença.
E tu és um tolo cego, disse ela.
O insulto foi tão inesperado que Alexandre congelou. Eva nunca o insultava. Eva nunca respondia.
Como disse? a voz dele desceu uma oitava, tornando-se perigosa.
Não sou uma substituta, disse ela, a voz firme. E certamente não sou tua. Já não. Ficarei na suíte de hóspedes até os advogados finalizarem os detalhes. Não tenho interesse em tornar isto um espetáculo público.
O temperamento de Alexandre estalou. Estendeu a mão e agarrou o braço dela. Não foi um golpe, mas foi um aperto de posse. Uma ordem para ficar.
Pede desculpa, rosnou ele. Pede desculpa e vai fazer o raio do café.
A ordem pairou no ar.
Algo mudou nos olhos de Eva. O embaciamento desapareceu. Uma faísca de aço frio e duro substituiu-o.
Ela não se afastou violentamente. Não gritou. Simplesmente olhou para a mão dele no braço dela como se fosse um trapo sujo.
Com um movimento subtil, quase impercetível do pulso - uma técnica que exigia anos de treino - ela quebrou o aperto dele. Foi sem esforço.
Deu um passo atrás, alisando a manga.
Não sou tua criada, Alexandre, disse ela. A voz não tremeu. E acabei.
Alexandre ficou ali, com a mão ainda suspensa no ar. Olhou para a própria palma, depois para ela. Como é que ela tinha feito aquilo? Ela era fraca. Ela era desajeitada.
Tu... começou ele, mas as palavras morreram na garganta.
Eva não esperou que ele terminasse. Virou costas, a gabardina a rodopiar à volta das pernas.
Caminhou para a porta da frente.
Onde vais? exigiu Alexandre, a autoridade a escorregar.
Sair, disse ela simplesmente.
Abriu a porta e entrou no corredor. A porta fechou-se com um clique atrás dela, deixando Alexandre parado no meio da sua cozinha perfeita e vazia, um frio estranho a instalar-se no peito onde a certeza costumava estar.
Alexandre irrompeu de volta para o quarto principal. A raiva era agora uma coisa física, um nó apertado no peito que tornava difícil respirar. Agarrou nos papéis do divórcio da cama onde os tinha descartado.
Precisava de os ler. Precisava de encontrar a lacuna, o erro, a coisa que pudesse usar para esmagar esta rebelião. Ela não podia simplesmente fazer check-out do casamento como se fosse um hotel.
Percorreu o documento novamente, com os olhos a arder. Saltou as renúncias financeiras. Procurou a causa.
Motivos para o Divórcio.
Os olhos pararam. Piscou, pensando que tinha lido mal a caligrafia elegante e cursiva.
Diferenças irreconciliáveis e Disfunção Funcional Conjugal.
Alexandre congelou. O papel amarrotou-se no aperto cada vez mais forte.
Disfunção? sussurrou a palavra. Sabia a cinza.
Ela estava a gozar com ele. Estava a insinuar... aquilo?
Lembrou-se das noites que tinha passado nesta cama, virando-lhe as costas. Não porque não conseguisse ter desempenho, mas porque não queria. Tinha-se retido como uma forma de lealdade a Escarlate, uma espécie distorcida de castidade. E Eva - a quieta, a ratinha Eva - estava a chamar-lhe disfunção?
Com um rugido de frustração, Alexandre agarrou numa jarra de cristal da mesa de cabeceira e atirou-a contra a parede oposta. Desfez-se em mil estilhaços cintilantes, chovendo sobre o tapete felpudo.
A oito quilómetros dali, na Quinta Avenida, o sol rompia as nuvens.
Eva estava parada à porta da loja principal da Chanel. Já não usava a gabardina. Estava dobrada sobre o braço. Usava uma t-shirt branca simples e calças de ganga que tinha vestido na casa de banho de um Starbucks.
Uma mulher com cabelo ruivo brilhante e um sorriso capaz de parar o trânsito veio a correr pelo passeio. Sofia.
Eva! gritou Sofia, ignorando os olhares dignos dos compradores do Upper East Side. Atirou os braços à volta de Eva, apertando com força. Fizeste mesmo? Entregaste-lhe os papéis?
Eva retribuiu o abraço, sentindo o perfume caro de Sofia e o cheiro reconfortante da lealdade. Afastou-se e sorriu. Levou a mão ao rosto e tirou os óculos. Dobrou-os e guardou-os na mala.
Fiz, disse Eva. O mundo parecia mais nítido, mais brilhante. Ela não precisava dos óculos; não eram graduados, apenas um adereço que tinha adotado para parecer mais com a rapariga estudiosa e aborrecida que a madrasta queria que ela fosse.
Sofia arfou, olhando para o rosto de Eva. Deus, esqueci-me. Esqueci-me de como és linda sem essas coisas a esconder os olhos. Essas pestanas são ilegais, Eva.
Eva riu-se. Parecia enferrujado, mas bom.
Então, qual é o plano? perguntou Sofia, de olho na montra da Chanel. Vamos estoirar o limite de crédito dele? Por favor, diz-me que sim.
Eva abanou a cabeça, um sorriso pequeno e secreto a brincar nos lábios. Não. Deixei os cartões dele na bancada.
O queixo de Sofia caiu. O quê? Eva, precisas de recursos! Não podes começar uma guerra com os bolsos vazios.
Eva meteu a mão na mala e tirou um cartão preto fosco e elegante. Não era um Amex. Era emitido por um banco privado suíço, sem nome, apenas um chip e um número de série.
Tenho recursos, disse Eva calmamente. As contas do Oráculo estiveram adormecidas durante três anos. Está na hora de as acordar.
Os olhos de Sofia arregalaram-se, depois estreitaram-se num sorriso malandro. Ah. Ah, pois. Esqueço-me sempre que és secretamente mais rica que Deus. Isto vai ser divertido.
Vamos magoá-lo onde conta, disse Sofia, enganchando o braço no de Eva. No ego.
Empurraram as portas de vidro da Chanel. O ar condicionado estava fresco e cheirava a couro e dinheiro.
Eva não olhou para as etiquetas de preço. Durante três anos, tinha usado o que lhe diziam para usar. Bege. Cinzento. Modesto.
Caminhou até um charriot e tirou um vestido. Era verde-esmeralda, de seda, com umas costas que mergulhavam perigosamente baixo.
A assistente de vendas correu para lá, olhando com ceticismo para as calças de ganga de Eva. Posso ajudar, menina?
Vou experimentar este, disse Eva. E traga-me os saltos a combinar. Tamanho trinta e sete.
Dez minutos depois, Eva saiu do provador. A seda agarrava-se às curvas dela como uma segunda pele. O verde fazia os olhos cor de avelã sobressaírem, transformando-os em piscinas de ouro e floresta.
O queixo da assistente de vendas caiu ligeiramente. Foi... foi feito para si, menina.
Vou levar, disse Eva. Entregou o cartão preto fosco.
A assistente hesitou, olhando para o cartão sem nome. Não tenho a certeza se o nosso sistema aceita...
Experimente, disse Eva com confiança.
Bip. Aprovado.
Moveram-se como um furacão. Jimmy Choo. Prada. Yves Saint Laurent.
Num salão de luxo, Eva sentou-se na cadeira. Corte-o, disse ao cabeleireiro.
Tudo? perguntou o cabeleireiro, segurando o cabelo longo e pesado.
Tudo.
As tesouras brilharam. Madeixas de cabelo castanho caíram no chão. Quando a cadeira girou, Eva olhou para si mesma. O cabelo era agora um bob elegante e afiado que emoldurava a linha do maxilar. Fazia o pescoço parecer longo e elegante.
A maquilhadora aplicou uma camada de batom vermelho sangue ousado.
Eva olhou fixamente para o espelho. A ratinha tinha desaparecido. A mulher que olhava de volta parecia perigosa.
Na sala de reuniões da Valente Global, a atmosfera era sufocante.
Alexandre estava sentado à cabeceira da longa mesa de mogno. Doze membros do conselho discutiam as projeções trimestrais. Alexandre olhava para um gráfico, mas não o via. Via o lugar vazio na sua mesa de cabeceira.
O telemóvel, colocado virado para cima na mesa, permanecia teimosamente silencioso.
Verificou-o. Nenhuma notificação.
Franziu a testa. Normalmente, o cartão suplementar de Eva acionava alertas no telemóvel dele para cada ida ao supermercado, cada conta da lavandaria.
Ela tinha desaparecido há horas. Certamente precisava de comer? De apanhar um táxi? De reservar um hotel?
Abriu a aplicação do banco.
Cartão Suplementar Terminado em 4098: Estado - Inativo.
Última transação: há 3 dias. Whole Foods. $45.00.
Ela não estava a gastar o dinheiro dele.
Uma estranha inquietação subiu pela espinha dele. Se ela não estava a usar o dinheiro dele, como é que sobrevivia? Tinha dinheiro escondido? Estava a pedir a amigos?
Ou... ela não precisava dele de todo?
O pensamento foi intrusivo e indesejado.
Sr. Valente? O Diretor Financeiro pigarreou. Em relação à aquisição...
Alexandre levantou a cabeça bruscamente. Prossiga.
Meteu o telemóvel no bolso. Disse a si mesmo que não se importava. Se ela queria passar fome nas ruas de Manhattan para provar um ponto, que passasse. Ela voltaria a rastejar quando a realidade batesse.
Mas à medida que a reunião se arrastava, ele não conseguia afastar a imagem dos olhos frios e indiferentes dela na cozinha.