Capítulo Dois
Havia momentos em que Alina nem sabia o que estava acontecendo ao seu redor. Às vezes o
tempo parava, e outras vezes o dia corria sem que ela percebesse. Ela se levantava, ia para a
cama, e não tinha ideia do que tinha acontecido naquele intervalo de tempo.
Kristof e Timur não a perdiam de vista. Ela vagava sem rumo pelo local seguro, um
apartamento pequeno, mas bem mobiliado nos arredores da cidade e tentou se concentrar no que
faria em seguida.
Uma pequena mala de roupas a esperava no apartamento. Quando a polícia finalmente
liberou a cena do crime, ela conseguiu voltar para buscar mais coisas, mas seus guarda-costas não
a deixaram ficar, e ela realmente não queria.
O céu estava nublado no dia do funeral. Alina se sentou no banco, espremida entre Timur e
Kristof; seu tio Vadik, o gêmeo de seu pai e seu único parente vivo, sentou-se no banco atrás deles.
Ela não tinha ouvido falar dele desde o assassinato.
Um tiro de 38 na têmpora. Alina tinha estado perto de armas toda a sua vida. Ela podia
facilmente imaginar a arma que acabou com a vida de seu pai. As autoridades disseram que o
assassino provavelmente usou um silenciador e atirou em seu pai poucos minutos antes de ela entrar
na área da piscina. Ele estava morto antes mesmo de cair na água.
Ela tentou se confortar no fato de que ele não sofreu, mas isso não aliviava sua dor. Seu pai
estava morto. Sua última conversa com ele tinha sido cheia de raiva.
"Por quê? Por que você quer se mudar? Por que você quer me deixar?"
"Papai, eu sou adulta. Você acha que eu iria viver aqui para sempre? A faculdade terminou. Eu
quero explorar o mundo. Eu quero ter a minha própria casa."
"Eu não vou impedi-la."
"Mas você está! Você está impedindo que alguém aceite minhas propostas! Eu sei que você está!
Você está me deixando louca! Você está me tratando como uma prisioneira!"
Um nó apertou em sua garganta, e ela tentou engoli-lo. Agora não era o momento de
desmoronar.
"Alina?", sussurrou Timur. "Você quer sair e tomar um pouco de ar?"
"Já está quase acabando?", perguntou. "Eu não consigo respirar."
Ele a envolveu com um braço e a apertou suavemente. "Sim, quase. Aguente firme."
Timur e Kristof estavam com seu pai desde que ela era criança. Na época, eles eram
adolescentes arrogantes procurando crescer dentro da máfia, mas agora eram praticamente da
família. Saber que eles estavam cuidando dela era o único conforto que ela tinha. Eram como seus
dois irmãos mais velhos. Ela confiava neles.
Finalmente, uma oração silenciosa terminou o funeral, e ela se levantou. Agora ela só tinha
que suportar o enterro no cemitério, e ela finalmente seria capaz de deitar em sua cama com uma
garrafa de vinho e tentar afogar suas dores.
Alina se voltou para olhar a congregação. O lugar estava lotado. O território de seu pai
era grande, e embora o seu negócio estivesse encharcado de violência e sangue, ele protegia
aqueles que precisavam. Metade da cidade tinha aparecido para prestar homenagem, e parecia
que todos os olhos estavam sobre ela.
"Você acha que ele está aqui?" Ela murmurou, sem expressão. "Acha que o homem que
assassinou meu pai está me observando?"
"Vamos," Timur disse enquanto indicou para que ela andasse. "Esse momento não é sobre o
assassino. É sobre o seu pai, certo? Concentre-se nisso."
Assentindo com a cabeça, ela engoliu seco e entrou no corredor. Todos inclinaram a cabeça
e esperaram até ela chegar na porta. Todos menos um. Ela parou quando alguém passou em sua
frente para abrir a porta.
"Senhorita Petrov", disse ele com a voz grave.
Alina ergueu os olhos e o observou. Alto. Cabelo escuro. Olhos de um azul cristalino
devastador e um corpo que a distraiu momentaneamente. Ela o via ocasionalmente saindo de
reuniões fechadas com seu pai, mas nunca prestou atenção nele. Ela nem sabia o seu nome.
Aqueles olhos penetrantes nunca deixaram os dela enquanto ele segurava a porta aberta e
esperava que ela passasse.
"Obrigada", disse ela suavemente.
Ele assentiu solenemente, mas não disse mais nada. Kristof continuava a pressioná-la para a
frente, mas Timur parou para falar com o estranho em voz baixa. Por um momento fugaz, ela se
perguntou se aquele lindo homem teria matado seu pai. Ele estaria brincando com ela agora?
"Quem é ele?", perguntou ela, parando e virando a cabeça. Timur já estava se juntando a
eles.
"Seu nome é Nikolai Sokolov", resmungou Kristof em voz baixa. "Vamos, Alina. Temos de ir.
Todo mundo está esperando por você."
Obedientemente, ela baixou a cabeça e seguiu seus guarda-costas para fora. Eles a
acompanharam em ambos os lados, e ela observava com curiosidade a multidão em busca de
possíveis ameaças.
"Você realmente não acha que alguém me atacaria aqui, no enterro do meu pai, não é?"
"É sua primeira vez ao ar livre em dias", lembrou Timur. "Se eles tiverem pressa, sim, não há
dúvida de que eles irão atrás de você no funeral de seu pai."
As palavras a fizeram estremecer, e ela voltou a se recolher. Um sentimento mais intenso—
raiva—rapidamente anulou sua dor e seu medo. Ela deveria ser livre para chorar a morte de seu
pai, mas em vez disso, ela tinha que temer pela própria vida.
Poucos carros seguiram da igreja ortodoxa até o túmulo. A descida do caixão na sepultura
era somente para aqueles mais próximos de Yuri. Além de Vadik, todos eram sócios dos negócios.
Ao crescer, Alina passava boa parte do tempo se comportando mal porque achava que seu pai
amava mais seus homens do que ela. Era estranho ter que compartilhar aquele momento com eles.
O sol aqueceu sua pele quando ela se aproximou do túmulo, e ela franziu a testa. As nuvens
tinham desaparecido. Aquilo não parecia certo. O vento deveria uivar e os trovões ressoarem, mas
em vez disso, o dia estava rapidamente se tornando agradável. Até mesmo bonito.
Apenas mais um lembrete de que a vida não parou simplesmente porque ela estava
perdida.
"Vou dar uma olhada no local", disse Kristof em voz baixa.
Timur assentiu, e Alina percebeu que ele estava inquieto. Ela tomou seu braço, mais por
conforto do que por necessidade, e o deixou levá-la até as cadeiras metálicas dobráveis que
estavam alinhadas em frente ao túmulo aberto. Mais uma vez, ela seria forçada a se sentar na
frente e no centro.
Puxando seus óculos escuros para fora de sua bolsa, ela os colocou em seu rosto e olhou ao
redor. Pelo menos agora ela se sentia um pouco mais escondida. Um pouco mais segura.
A maioria das pessoas que saíam dos carros estacionados atrás dela era um tanto
familiares. Guardas. Sócios de negócios, suas esposas. Ela ouvia seus sussurros silenciosos e virava
a cabeça para ver quem estava ali. Um homem se destacou, e ela inalou bruscamente.
Nikolai Sokolov. O que ele estava fazendo aqui? Um par de homens seguiram atrás dele.
Seu olhar a provocou enquanto vagava pelo seu corpo, e Alina sentiu algum alívio por ele não
poder ver seus olhos.
Seu rosto endureceu, e ele franziu a testa e virou a cabeça. Alina olhou fixamente quando
Kristof fez um sinal para o homem e sussurrou algo em seu ouvido. Nikolai assentiu e Kristof dirigiu-
se para a parte de trás do cemitério.
"Alina?" Timur perguntou suavemente.
"Quem é esse homem?" Alina perguntou enquanto o deixava guiá-la até as cadeiras.
Sentada, ela nunca tirou sua atenção de Nikolai.
"Já lhe dissemos. O nome dele é—"
"Não o nome dele", ela cortou rapidamente. "Ele é importante. Por quê?"
Antes que Timur pudesse responder, uma sombra caiu sobre eles, e Alina olhou para cima.
Vadik Petrov se sentou ao lado dela e pegou sua mão.
"Minha doce Alina", ele sussurrou enquanto beijava sua mão.
"Tio," Alina reconheceu desconfortavelmente. Houve uma época em que seu tio sempre
estava por perto, mas quanto mais velha ela ficava, mais ela percebia que havia um
desentendimento entre Vadik e seu pai. Yuri nunca falou sobre isso, e Vadik sempre participava das
atividades da família, mas eles nunca eram muito amigáveis um com o outro.
"Sinto muito por não estar muito perto, mas tenho observado você", disse Vadik em voz
baixa. "Eu vou me assegurar de que você fique segura."
Com o que aconteceu com Yuri, e nenhum filho para assumir, Vadik deveria ter sido o
próximo na fila como novo líder, mas pelo que ela tinha visto ele nunca tinha mostrado muito
interesse nisso. Ela não tinha realmente notado sua ausência, já que não estava acostumada à sua
presença. Provavelmente ele tinha muitas coisas a fazer.
"Tudo bem, tio. Eu entendo", disse ela com um sorriso trêmulo. Vadik era o irmão mais novo
de seu pai, mas apenas por alguns minutos. Eram gêmeos fraternos, mas não havia como confundir
a semelhança. Embora seu pai estivesse grisalho nas laterais da cabeça e enrugado ao redor dos
olhos e Vadik pintasse o cabelo, Alina podia ver Yuri quando olhava para Vadik.
Isso fez seu coração doer.
Uma vez que todos estavam sentados, o padre avançou para fazer as declarações finais.
Sua voz parecia distante, muda, e só quando todos se levantaram que Alina percebeu que o
homem tinha terminado de falar. Parecia que ela tinha tijolos amarrados a seus pés ao avançar até
um monte de rosas posicionadas em um pequeno móvel ao lado do caixão. Tomando uma
cautelosamente pelo caule, ela ficou na beira do túmulo e respirou fundo.
"Eu apagaria cada briga se pudesse," ela sussurrou para o caixão. "Eu abraçaria cada
segundo que tivemos juntos. Nunca me ocorreu que eu teria que viver sem você. Sinto sua falta,
papai."
Lançando a rosa sobre o caixão, ela enxugou as lágrimas que escorriam por seus olhos e se
virou para caminhar lentamente de volta para os carros.
"Alina! Pare," Timur chamou de repente. Ela ouviu o pânico em sua voz e congelou. Ele
imediatamente a agarrou pelo braço e a puxou para trás.
"O quê?" Ela perguntou freneticamente. Os homens já estavam alcançando as armas
escondidas sob seus paletós. "O que foi?"
Olhando por trás dele, ela observou conforme um Bentley preto passava lentamente pelos
carros. Suas janelas escuras tornavam impossível ver o interior, mas ela podia sentir o perigo e a
tensão no ar. Quaisquer que fossem as intenções do motorista, elas não eram boas.
Quando finalmente se afastou de vista, Alina relaxou. "Como você soube?" Ela sussurrou.
"É meu trabalho cuidar de você", disse ele em voz baixa. "Não é seguro para você".
"Você continua dizendo isso".
Ele sorriu indulgentemente e balançou a cabeça. "Quero dizer, não é seguro você ficar sob
meus cuidados. Não mais. Você precisa de mais proteção do que nós podemos fornecer. Alina, eu
acho que você precisa ficar próxima do novo líder até que possamos resolver as coisas. Já
falamos com ele, e ele concordou.
"Tio Vadik?" Alina disse com uma careta. "Quer dizer, acho que tudo bem."
"Não o Vadik," uma nova voz disse grosseiramente. "Você vai ficar comigo."
Seus olhos se arregalaram ao ver Nikolai. Ele ficou quase perto demais, e ela sentiu o calor
irradiando dele. Ele era intimidador. Irresistível.
Intoxicante.
"Timur?", ela perguntou hesitante. "Eu não entendo."
"Seu pai nomeou Nikolai como seu sucessor há dois meses. Tudo está em seu nome agora. Ele
assumirá a máfia, e ele será capaz de protegê-la."
Ela franziu o a testa e olhou para seu tio. "Por que meu pai não faria o meu tio seu
sucessor?"
"Vadik vê algo muito diferente para o próprio futuro", disse Timur em uma voz neutra.
"Timur e Kristof têm feito bem protegendo você, mas até que o assassino de seu pai seja
pego, você ainda está em grave perigo. Você deveria ficar comigo", disse Nikolai em voz baixa.
"Eu não te conheço," ela disse hesitantemente.
"Você não precisa," ele respondeu grosseiramente. "Mas é importante que você fique viva.
Se essa transição der certo, preciso provar que posso proteger o que é meu."
Ela estreitou os olhos. "Eu não sou sua."
Um pequeno sorriso puxou os lábios dele. "Você é filha do meu antecessor. Isso
automaticamente faz de você minha. Ficar comigo ou não é escolha sua, mas isso não me fará ir
embora. Sua segurança é minha prioridade número um."
"Manter-me viva e ganhar a lealdade dos seguidores do meu pai", murmurou ela. "Isso é um
pouco de frio, você não acha?"
"As minhas intenções importam?"
Timur pôs uma mão em seu braço. "Por favor, Alina. Eu imploro que você aceite sua proteção.
Eu ainda estarei cuidando de você."
Alina podia ver os sinais de cansaço no rosto de Timur. Ele provavelmente tinha dormido
muito pouco nos últimos dias. Ele e Kristof estavam constantemente em alerta. Seria ridículo não
concordar com um pouco mais de ajuda, mas Nikolai a fazia se sentir tão pequena. Ela
instintivamente queria fugir dele.
"Você vai se mudar para a minha casa?", ela perguntou em voz baixa. Por alguma razão,
ela odiava a ideia de ele estar no mesmo lugar onde ela cresceu.
"Não. Essa casa pertence a você. Você pode fazer com ela o que quiser".
As pessoas lhes davam olhares curiosos enquanto saíam do cemitério. Se ela permanecesse
muito mais tempo, logo seriam os únicos por lá.
"Tudo bem," ela disse finalmente. A palavra fez com que seu coração saltasse no peito, mas
ela não sabia se era porque ela estava confiando sua vida a um estranho ou se era o pensamento
de estar tão perto dele.
"Que bom. Timur, Kristof e dois dos meus homens vão escoltá-la de volta para a sua casa
para que possa pegar suas coisas. Espero você em minha casa ao pôr-do-sol.
Com essa observação, ele voltou para os carros e a deixou sozinha. Alina de repente teve a
sensação de que ele a via como nada além de uma ferramenta.
E ele parecia frio e calculista o suficiente para usá-la.
Você tem um coração tão grande, princesa. Seu primeiro instinto é confiar em todos. Eu
gostaria que as coisas pudessem ser assim. Eu gostaria que você levasse uma vida na qual a única
coisa em perigo fosse o seu coração, mas você deve ter cuidado. Essa é sua primeira lição, minha
querida. Você deve cuidar em quem confia.
"O que eu faço, papai? Você confiou nele. Eu devo confiar também?"
Capítulo Três
Timur atravessou os portões de ferro exatamente quando o sol estava se pondo. Matizes
suaves de dourado e rosa pintaram o céu, mas ela não conseguia desfrutar da beleza. Se ela
pudesse fazer o que quisesse, ela ainda estaria em sua casa fazendo as malas. Havia algo terrível
em deixar sua própria casa. Irônico, considerando que ela lutou muito com seu pai para sair de lá
nos últimos meses. Agora ela foi ordenada a sair, e sentia como se seus pés estivessem enterrados
no cimento.
Quando não puderam demorar mais, Timur agarrou suas malas e ameaçou levá-la ao carro
se ela não seguisse em frente. Seus olhos eram simpáticos, mas seu tom era sério. Eles estacionaram
na frente da casa de Nikolai vinte minutos depois
"Ele cuidará de você, Alina", disse Timur suavemente.
"Como você sabe disso?" Ela exigiu. "Há quanto tempo você o conhece? Você o conhece
bem?"
"Conheço Nikolai desde que ele tinha quinze anos", disse Timur suavemente. "Ele respeitava
seu pai, e acho que seu pai o via como um filho. Eu confiaria a minha vida a esse homem, estão eu
certamente confio nele para cuidar da sua."
Olhando pela janela, ela estudou a casa dele. Era menor que o de seu pai, mas não menos
guardada. Onde seu pai tinha plantas caras importadas de todo o país, a propriedade de Nikolai
era bem mantida, mas não tão elaborada.
"Se ele conhecia meu pai por tanto tempo, como é que eu não o conheço? Eu só o vi algumas
vezes," ela resmungou enquanto escorava suas costas no assento. Ela sabia que ela estava agindo
como uma criança mimada, mas ela estava começando a ver sombras ameaçadoras em tudo.
Timur ficou inquieto, e Alina lançou a ele um olhar de suspeita. "O quê? O que você não está
me dizendo?" Ela perguntou ansiosamente.
"Alina, você pode pensar que sabe tudo sobre os negócios de seu pai, mas ele o protegeu
das piores atividades da máfia. Ele fez com que você não fosse contaminada".
"Do que você está falando? Pensei que ele queria que eu soubesse mais sobre o negócio.
Para me envolver? Achei que era por isso que ele não me deixava ir embora".
Balançando a cabeça, Timur lhe deu um sorriso triste. "Seu pai era duro com você às vezes,
mas nunca foi porque ele queria você envolvida nos negócios. Eu não acho que ele alguma vez
pensou seriamente na ideia."
Alina estava sem palavras. "Eu não entendo," ela sussurrou. "Ele perguntou…"
"Claro que sim. Era o seu legado, e se você quisesse, ele teria feito tudo em seu poder para
ajeitar as coisas para você. Mas estava claro que você não queria, então ele preparou alguém.
Nikolai Sokolov. Yuri te protegeu desde o momento em que você nasceu, e não tenho dúvidas de
que Nikolai fará o mesmo.
A dor de ouvir sobre seu pai tirou o ar de seus pulmões, e ela lutou para respirar. Houve
momentos em que ela pensou que superaria a sua morte, e então havia outros, como agora,
quando ela temia que seu coração simplesmente parasse de bater com o peso de tudo aquilo.
Lutando para encontrar uma âncora antes que a dor a afastasse do momento, ela olhou para a
casa novamente. "Ele é casado? Ele tem filhos? O que eles pensam de eu me mudar? E se eu os
colocar em perigo?"
"Essa é a minha garota", disse Timur com um sorriso. Sempre pensando nos outros. Com
exceção de sua equipe, Nikolai vive sozinho."
Era uma casa muito grande para apenas um homem, mas, novamente, sua própria casa era
muito expansiva para ela e seu pai. Nikolai era um homem importante. Ele teria que se apresentar
como tal.
Agora que seu pai estava morto.
"Como você sabe que ele não matou o meu pai?" Ela sussurrou.
"Ele não fez isso. Eu sei."
Seu olhar pousou em uma janela no segundo andar, e ela ofegou. Nikolai estava do outro
lado, olhando para eles. Por um momento, ela poderia ter jurado que eles fizeram contato visual,
mas isso era ridículo. Não havia jeito de vê-la quando ainda estava no carro.
Timur seguiu seu olhar e franziu a testa. "É melhor irmos", ele murmurou. Saindo do carro, ele
pegou suas malas e esperou pacientemente que ela se juntasse a ele.
Enquanto subiam os degraus que levavam à varanda, Alina escolheu automaticamente os
lugares onde ela veria guardas. Um em cada canto da casa de três andares. Não haveria dúvida
de encontrar o mesmo número atrás da casa, mais câmeras nas árvores e um sensor ao longo da
calçada.
Quando adolescente, Alina aprendeu os hábitos dos homens de seu pai, e quando via uma
abertura, ela se abaixava em sua janela, descia por uma árvore e saia em direção à rua. Foi
quando ela descobriu o sensor ao longo da calçada. Quando ela chegou ao portão, havia três
homens apontando suas armas para ela.
Seu pai estava furioso. Ele mandou cortarem a árvore que dava em sua janela naquela
mesma noite, e ela sempre se sentiu muito culpada por causa disso. Se não tivesse desobedecido as
ordens, a árvore poderia ter ficado mais alta e florescido. Ela chorou por causa disso, e Yuri tinha
acabado de dizer a ela que da próxima vez que ela quisesse desobedecer suas ordens, ela
deveria pensar sobre a árvore.
Isso funcionou por cerca de um ano. Então Alina completou dezesseis anos, e a única coisa
que uma adolescente queria era a sua liberdade. A rebeldia se tornou algo diário.
As portas da frente se abriram, e um cavalheiro mais velho acenou com a cabeça. "Senhorita
Petrov. Eu sou Danik, assistente do Sr. Sokolov. Seria um prazer acomodar a senhorita em seu
quarto.
Assistente? Ele parecia mais um mordomo, mas Alina não comentou. Ela forçou um sorriso e
assentiu com a cabeça. "Obrigada, mas você não precisa me chamar de senhorita Petrov. Alina
está bom.
"É claro." Danik pegou uma das malas das mãos de Timur e subiu a grande escada em
espiral. Alina se apressou atrás dele, mas seu pescoço se esticou para captar todos os detalhes que
podia. Estruturalmente falando, a casa de Nikolai era magnífica. Belíssimos acabamentos em
madeira, sancas refinadas, corrimão lindamente esculpido. Um imponente lustre pendia do teto.
Decorativamente falando, a entrada era apagada. Era minimamente decorada com algumas
pinturas, mas nada feito por artistas que ela reconhecia, e nada que tenha falado emocionalmente
com ela. Uma mesa lateral logo ao lado da porta, e um espelho estava pendurado acima dela,
mas o lugar não apresentava nenhum livro ou estátuas. Os tapetes eram simples e nenhum dos
lustres eram ornamentados.
Tirando o tamanho enorme, o lugar parecia normal.
Era uma casa onde ele poderia viver com alguém que ele amava e criar alguns filhos. Não
era a casa de um homem que acabava de assumir uma das mais perigosas organizações
criminosas do país.
Casamento e filhos? Alina piscou e sacudiu a cabeça. De onde tinha vindo esse pensamento?
Arrastando o olhar para longe, ela se apressou atrás de Danik. Embora o homem fosse velho, ele
andava rapidamente.
"Temos uma suíte separada para hóspedes, mas o Sr. Sokolov pensou que você poderia se
sentir mais confortável perto dele. Seu quarto é anexo à suíte dele. Há dois outros quartos neste
andar, mas eles geralmente estão vazios."
"Anexo? O que você quer dizer?", ela perguntou apressadamente enquanto entrava no
quarto. Antes que ele pudesse responder, ela parou e ficou boquiaberta. A cama com dossel
estava coberta por um tecido fino e transparente. O cobertor era branco com bordado em
dourado, e deslumbrantes almofadas amontoadas na cabeceira da cama. Tudo no quarto, da
espreguiçadeira à parede até os detalhes da janela, era branco com detalhes em dourado. Era
tão feminino.
Era onde uma mulher íntima dele ficaria.
Danik abriu a porta para exibir um banheiro deslumbrante com pedras escuras. Uma imensa
banheira adornava o canto, e ao lado dela ficava a abertura para o que só poderia ser um
grande chuveiro. Com um piso de azulejos, não precisava de porta ou cortina. Do outro lado havia
um espelho de parede e duas pias. O banheiro parecia novo, como se não tivesse sido utilizado.
"A porta do outro lado se conecta ao quarto do Sr. Sokolov. Ela é trancada em ambos os
lados, mas o Sr. Sokolov tem uma chave, por isso, se houver uma emergência, ele ainda será capaz
de chegar até você.
"Uma chave," Alina resmungou. "Espere um minuto, eu devo partilhar um chuveiro com ele? Eu
nem o conheço!"
O velho olhou calmamente para ela. "Sua segurança é uma alta prioridade aqui, e Sokolov
quer que você se sinta segura. Há um banheiro no corredor se você quiser usá-lo em vez deste."
O alívio tomou conta dela, e ela assentiu. Ela definitivamente iria usar o banheiro do
corredor. Nikolai não era o tipo de homem que ela gostaria de ter por perto quando estivesse nua.
Só de pensar nisso suas bochechas se aqueceram.
De repente, lembrando-se de vê-lo na janela, ela olhou fixamente para a porta fechada. Ele
estaria lá agora? Por que ele não saiu para recebê-la?
"O jantar será servido em uma hora, se você deseja desfazer as malas e descansar. Você é
bem-vinda a explorar a casa como quiser, mas você não pode sair sem uma escolta."
"Espere, eu não posso andar no quintal?" Ela perguntou com uma careta. Ela estava presa lá
dentro?
"Não sem uma escolta, repetiu ele. "Tenho certeza que se você pedir com antecedência, será
fornecida uma para você. Há uma carta sobre o criado-mudo para você. Vou deixar você se
acomodar.
Antes que ela pudesse lhe perguntar qualquer outra coisa, ele saiu pela porta. Ela notou que
Timur também não estava por lá.
"Excelente. Me deixar na casa de algum estranho e me abandonar no momento em que eu
chegar aqui. Que adorável recepção. Eu me sinto tão segura aqui", ela murmurou sarcasticamente
enquanto pegava o envelope. Ele tinha seu nome e sobrenome escritos, fazendo-a parecer tão
formal como o assistente que a tinha acompanhado até ali. "E haveria uma outra Alina?"
Abrindo-a, ela tirou os sapatos e se sentou desajeitadamente no sofá. A mobília era tão
bonita que ela tinha medo de que fosse estragar só de olhar. Chutando seus sapatos, ela deitou a
cabeça para os lados para aliviar a tensão e olhou para a carta.
Em poucos segundos, ela estava no banheiro e batendo na porta dele com raiva.
* * *
Nikolai não pôde deixar de sorrir quando ouviu o bater da porta. Ele não sabia se era a
acomodação ou a carta que a perturbava, mas ele estava preparado para ambos.
Abrindo a porta totalmente, ele olhou para ela. "Da próxima vez que você bater na minha
porta assim, é melhor você estar em sério perigo", ele a ameaçou com a voz grave.
Ele esperava que seus olhos se arregalassem de medo, mas, em vez disso, apertaram-se de
raiva. Ela empurrou a carta contra o seu peito e o empurrou para dentro. Tomado de surpresa, ele
tropeçou para trás.
"Que diabos é isso?", ela gritou enquanto caminhava para seu quarto. "Uma lista de regras?
Eu não sou adolescente em um internato, Sr. Sokolov. Eu sou uma mulher adulta, e eu não quero
saber de me submeter a regras. Primeiro me dizem que eu não posso sair sem uma escolta. Agora
eu tenho um horário e um toque de recolher? Se essa é a sua ideia de hospitalidade, você pode
enfiá-la no seu..."
Antes que ela terminasse a frase, ele a agarrou pelos braços. A carta voou para o chão, e
ele a empurrou até que suas costas bateram em sua cômoda e efetivamente a prendesse entre ela
e seu corpo. Ele imediatamente reagiu à forma como suas curvas se moldaram contra ele, e ele
teve que engolir uma série de palavrões. Ainda assim, ele não estava prestes a soltá-la até que
ela soubesse muito bem o que era esperado dela.
"Senhorita Petrov, posso lhe assegurar que ninguém nesta casa a confundirá com nada além
de uma mulher adulta," disse ele com voz sedosa. Os olhos dela se arregalaram, e ele sorriu
friamente para ela. Bom. Talvez agora ela pudesse entender. "Os homens desta casa são
assassinos treinados. Eles têm um trabalho: protegê-la. Essas regras tornam mais fácil para eles
fazerem exatamente isso. Você tem um horário porque eu não estou sempre aqui em casa, e meus
homens estão ocupados. Você vai fazer as suas refeições quando eu quiser, e você será capaz de
andar pelo terreno nos horários designados, porque é quando eu tenho homens o suficiente ao
redor para protegê-la. E você tem um toque de recolher porque eu quero que erros sejam
cometidos porque você está andando por aí às duas horas da manhã. Erros causariam mortes. Eu
fui claro?
Havia fogo em seus olhos quando finalmente encontraram os dele. "Eu acho que eu prefiro
não ter a sua proteção", ela rosnou.
"Então você vai morrer. Soltando-a, ele recuou e cruzou os braços. "Você é mais do que
bem-vinda para sair. Você não é uma prisioneira aqui. Mas se você quebrar qualquer dessas
regras e colocar meus homens em perigo, você será expulsa."
Alina engoliu seco e virou a cabeça para a porta. Nikolai podia ver a tentação em seus
olhos, mas também havia medo e algo que ele entendia muito bem.
Dor.
Naquele momento, ele amaldiçoou a própria pressa. A mulher tinha acabado de enterrar seu
pai e teve seu mundo inteiro virado de cabeça para baixo. Se ele pelo menos um pouco
cavalheiro, ele teria pegado um pouco mais leve com ela.
Mas ninguém jamais havia chamado Nikolai Sokolov de cavalheiro.
"Estamos de acordo?" Ele perguntou, com a voz ainda fria.
Ela não vacilou, e ele ficou surpreso e aliviado. Ele nunca seria capaz de lidar com isso se
ela fosse fraca.
"Eu trouxe dois dos meus guarda-costas," ela disse rigidamente. "Isso deve ser o suficiente
para me deixar sair da casa mais de uma vez por semana."
"Timur e Kristof não trabalham para você. Eles trabalham para mim".
A mandíbula dela se contraiu, e ela endireitou os ombros. "Com licença," ela murmurou.
"Diga as palavras, Alina. Estamos de acordo?", ele perguntou.
Ela congelou. Por um momento, ele não pensou que ela cumpriria. "De acordo", disse ela
finalmente.
"Estas são as mesmas regras que Kristof e Timur teriam, e você não pensaria duas vezes em
seguir suas ordens", ele lembrou. "A única razão pela qual você está se ofendendo com isso é
porque você não confia em mim. Eu sugiro que você supere isso, Alina. Podemos ficar juntos por um
tempo".
Ela saiu do quarto e fechou a porta.
Com ela segura do outro lado da porta fechada, o desejo o atingiu com toda a força, e ele
quase desabotoou suas calças e aliviou a si mesmo bem ali. Que diabos ele estava pensando,
deixando-a ficar tão perto dele? As suítes do outro lado da casa eram tão seguras quanto. Era
impossível que alguém penetrasse sua segurança externa, e mais ainda que subisse as escadas e
entrasse em seu quarto. Saber que todas aquelas curvas macias estavam descansando do outro
lado da parede seria um tormento.
"Droga, Yuri", ele sussurrou. "Por que diabos você teve que ser morto? Por que você me
colocou nesta posição?"
Não houve resposta.