Capítulo 2

O sol da manhã ardia nos olhos de June.

Ela estava apoiada nos travesseiros duros do hospital, encarando a tela de seu celular.

A manchete do site de notícias de entretenimento a encarava de volta: O Casal de Ouro do Império Compton.

Abaixo, havia uma foto em alta resolução de Cole e Alycia na gala da noite anterior. Eles estavam rindo, com as cabeças próximas.

A porta do quarto privativo foi escancarada com uma força violenta. Bateu na parede com um estrondo.

Cole entrou no quarto a passos largos.

Ele ainda usava a calça de smoking e a camisa social da noite anterior. Sua gravata estava frouxa. O cheiro forte de uísque caro e do perfume floral de Alycia impregnava suas roupas, preenchendo o quarto de hospital estéril.

Ele não olhou para o prontuário médico pendurado aos pés da cama. Não olhou para o acesso intravenoso preso com fita em sua mão pálida.

Seu maxilar estava cerrado. Ele parou bem ao lado da cama dela, fuzilando-a com o olhar.

— Já terminou de dar seu chilique? — exigiu Cole, sua voz carregada de veneno. — Usar uma sala de emergência para chamar minha atenção? Você atingiu um novo nível de baixeza, June.

June ergueu o olhar para ele.

Seu rosto, o rosto que ela amara por quatro anos, de repente parecia completamente estranho para ela.

— Saia — disse June. Sua voz estava fraca, mas o tom era puro gelo.

Os olhos de Cole se estreitaram. Ele estava acostumado com as súplicas dela. Estava acostumado com sua submissão silenciosa. Essa súbita rebeldia pareceu um desafio direto à sua autoridade.

Ele se inclinou para mais perto, sua mão grande se esticando para agarrar o queixo dela. Seus dedos cravaram em sua pele.

— Você é minha esposa — desdenhou Cole, seu hálito quente contra o rosto dela. — Tenho todo o direito de estar neste quarto.

June tentou afastar o rosto, mas estava fraca demais. — Não me toque.

Cole soltou uma risada sombria e zombeteira. — Você encenou todo este drama para me arrastar até aqui, da noite mais importante do meu ano. Não finja que não queria que eu tocasse em você.

Ele soltou o queixo dela e, de repente, empurrou seus ombros de volta contra os travesseiros, seu peso pressionando a estrutura da cama. O movimento foi brusco, um castigo por sua rebeldia.

O pânico tomou o peito de June.

— Pare! — ela gritou, suas mãos voando para proteger seu abdômen recém-suturado. — Eu acabei de passar por uma cirurgia!

O preconceito de Cole era um filtro espesso, bloqueando toda a razão. Para ele, aquilo era apenas mais uma mentira, mais um ato dramático para manipulá-lo. Ele se esticou sobre ela, seu joelho pressionando com força o colchão para ganhar apoio, com a intenção de intimidá-la até o silêncio.

A pressão súbita e brusca na cama irradiou diretamente para seu tronco. Um som agudo, de algo se rasgando, pareceu ecoar na cabeça de June.

Um clarão ofuscante de agonia rasgou seu estômago. Os pontos que seguravam sua carne se arrebentaram sob a tensão indireta, mas poderosa.

— Ah! — gritou June, suas costas arqueando para fora da cama. Seu rosto ficou da cor de cinzas.

Cole congelou. Ele sentiu o corpo dela ficar completamente rígido sob suas mãos.

Ele olhou para baixo.

Uma mancha vermelho-escura estava florescendo rapidamente na camisola branca do hospital, bem sobre a parte inferior de seu abdômen. O sangue encharcou o tecido, manchando os lençóis brancos e imaculados sob ela.

Cole recuou rapidamente, seus olhos se arregalando por uma fração de segundo.

Mas o choque desapareceu rapidamente atrás de uma muralha de indiferença fria. Ele ajustou os punhos da camisa, recusando-se a acreditar que havia causado algum dano real.

— Era isso que você queria? — desdenhou Cole, olhando para o sangue. — Fazer uma bagunça? Você é patética.

Seu celular vibrou no bolso. Era um toque personalizado. O toque de Alycia.

Cole o pegou e atendeu imediatamente. A dureza em seu rosto se desfez instantaneamente.

— Oi, Alycia — disse ele suavemente, virando as costas para June. — Os médicos estão dizendo que foi só um susto leve, ela está fazendo drama. Eu sei. Estou saindo agora mesmo. Já chego aí.

Ele encerrou a ligação e olhou por cima do ombro para June.

— Limpe-se — ordenou ele friamente. — Pare de envergonhar o nome Compton.

Ele saiu do quarto, deixando a porta pesada bater e fechar atrás de si.

June ficou na cama, ofegando por ar. A dor física era excruciante, mas a náusea que revirava seu estômago era pior. Ela se sentia fisicamente doente com o pensamento de que um dia permitiu que aquele homem a tocasse.

Ela estendeu a mão trêmula e bateu com força no botão de chamar a enfermeira.

Uma enfermeira entrou correndo segundos depois. Quando viu a poça de sangue nos lençóis, ela ofegou e correu para o corredor, gritando por um médico.

A equipe médica entrou às pressas. Eles rasgaram a camisola e começaram a aplicar pressão no local da cirurgia rompido. — Ela está com hemorragia de novo! Peguem o carrinho de parada! Chamem o Dr. Evans, agora!

Em meio ao caos, June não emitiu um som. Ela encarava o teto. Seus olhos, antes suaves e suplicantes, endureceram como vidro afiado.

Quando o sangramento foi contido e ela foi estabilizada pela segunda vez em menos de doze horas, o médico saiu com um aviso severo de que ela deveria permanecer em repouso absoluto na cama por pelo menos mais uma semana. Qualquer movimento brusco poderia ser fatal.

June esperou até que o quarto estivesse vazio. Cada músculo de seu tronco gritava em protesto, mas ela o ignorou.

Ela pegou sua pequena bolsa na mesa de cabeceira. Tirou de dentro uma pilha de papéis dobrados que havia preparado semanas antes.

O acordo de divórcio.

Ela se esticou e arrancou a agulha do soro do dorso da mão. Uma gota de sangue brotou e caiu, aterrissando diretamente na linha da assinatura do papel.

June pegou uma caneta. Sua mão tremia, mas ela pressionou a ponta com força contra o papel, assinando seu nome sobre a gota de sangue.

Então, ela olhou para a mão esquerda. O enorme anel de diamante parecia pesado. Parecia uma algema.

Ela o tirou. Ele deslizou facilmente por sua junta.

Ela colocou o anel bem no centro dos papéis do divórcio, deixando-o na mesa de cabeceira, onde não pudesse passar despercebido.

Ela pegou o celular e mandou uma mensagem para sua melhor amiga, Vera.

Acabou. Preciso sair daqui.

June não esperou por uma resposta. Ignorou as ordens do médico. Pegou suas próprias roupas da pequena mala de pernoite que a Sra. Lynch havia arrumado de qualquer jeito.

Ela se vestiu, mordendo o lábio com tanta força que sentiu o gosto de sangue para não gritar de dor. Cada movimento era uma tortura lenta e agonizante.

Ela saiu do quarto, apoiando-se pesadamente na parede para se sustentar.

Quando finalmente passou pelas portas de vidro deslizantes do saguão do hospital, o vento frio de Nova York atingiu seu rosto.

Ela olhou para o prédio uma última vez. E jurou a si mesma, naquele exato momento, que nunca mais sangraria por Cole Compton.

Capítulo 3

Um Porsche Cayenne vermelho-cereja freou bruscamente, os pneus cantando no asfalto bem em frente à entrada do hospital.

Vera Vance abriu a porta do motorista com força e correu ao redor do capô.

Quando viu June parada na calçada, balançando como um fantasma ao vento, Vera soltou um suspiro agudo. O rosto de June estava completamente sem cor, e uma mancha recente de sangue vermelho-escuro estava vazando através de seu casaco.

"Meu Deus, June!" Vera gritou, segurando June no exato momento em que seus joelhos cederam. "O que aconteceu? Onde diabos está o Cole?"

June apoiou a cabeça no ombro de Vera. Um sorriso fraco e amargo tocou seus lábios.

"Até o inferno é melhor do que estar lá dentro", June sussurrou.

"Você está sangrando através do casaco!" Vera gritou, ignorando a tentativa de June de andar. Ela passou o braço pela cintura de June e praticamente a carregou para o banco do passageiro do Porsche.

Vera não a levou para a propriedade dos Compton. Não a levou para seu próprio apartamento. Ela engatou a marcha com força e acelerou em direção ao Mount Sinai, um hospital particular onde tinha contatos.

Dentro do carro, o aquecedor estava no máximo. Vera segurava o volante com força, os nós dos dedos brancos, lágrimas de pura raiva queimando em seus olhos.

"Eu vou matar ele", Vera murmurou, costurando perigosamente pelo trânsito de Manhattan. "Vou arrancar o coração dele com minhas próprias mãos."

June deitou a cabeça no assento de couro frio. Sua visão estava turva.

Quando o carro passou por um solavanco, uma nova onda de dor a atingiu, e sua mente retrocedeu.

Dez anos atrás.

O som de metal se contorcendo e vidro se estilhaçando. A chuva lavando o sangue da rodovia. O dia em que seus pais morreram.

Ela se lembrava de estar parada na chuva, uma garota de quinze anos que não tinha mais nada. Seu tio, Richard Erickson, havia enfiado uma pilha de documentos legais em seu rosto, declarando a falência da família e a expulsando de sua própria casa.

Ela havia desabado no pavimento molhado.

Então, um garoto saiu de um carro preto. Ele tinha o rosto de um anjo. Ajoelhou-se na lama, entregando-lhe um lenço de linho branco que cheirava a cedro e chuva. Ele a olhou com uma piedade e bondade tão profundas.

Aquele garoto tinha sido sua razão de viver na última década.

June abriu os olhos no presente, a memória se desvanecendo na dura realidade do painel do carro.

"Eu pensei que ele era meu salvador", June murmurou no silêncio do carro. "Eu estava errada. Estava apaixonada por um fantasma."

Vera olhou para ela, confusa, mas focada demais na direção para perguntar.

Elas chegaram ao hospital particular. Os contatos de Vera evitaram completamente a sala de espera. June foi levada às pressas para uma suíte VIP.

O médico de plantão examinou os pontos rompidos. Seu rosto ficou vermelho de raiva.

"Isso é um trauma secundário grave", o médico disse bruscamente, olhando para Vera. "Quem fez isso com ela? Isso exige um boletim de ocorrência."

Vera estava parada junto à janela, com os braços cruzados com tanta força que suas unhas cravavam em sua própria pele. "Eu cuido da polícia. Apenas conserte-a."

Eles penduraram uma bolsa de transfusão de sangue e suturaram novamente a ferida. O analgésico finalmente fez efeito, levando June a um sono profundo e sem sonhos.

Quando June acordou, o quarto estava silencioso. Vera estava sentada em uma cadeira ao lado da cama, com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.

Vendo June acordada, Vera imediatamente serviu um copo de água morna e o levou aos lábios dela.

"Você assinou os papéis do divórcio?" Vera perguntou, com a voz rouca.

June engoliu a água e assentiu. "Assinei. Estou saindo sem nada."

Vera pulou da cadeira, com os olhos arregalados. "O quê? Você está louca? É o dinheiro dos Compton! Você deu a ele quatro anos da sua vida e está saindo de mãos abanando?"

June olhou para sua melhor amiga. Seus olhos estavam completamente calmos, desprovidos do pânico e da tristeza que a assombraram por anos.

"Eu não preciso do dinheiro dele, Vera", June disse baixinho. "Eu só quero apagar o nome dele da minha vida."

Vera a encarou. Ela sabia que June era um gênio — a conhecia desde a faculdade — mas a observara desempenhar o papel de uma dona de casa submissa por tanto tempo que quase se esquecera de quem June realmente era.

June estendeu a mão e agarrou o pulso de Vera. "Faça-me um favor. Vá ao meu antigo depósito. Traga-me meu antigo laptop. Aquele preto e grosso."

Vera franziu a testa, confusa. "Seu laptop da faculdade? Por quê?"

"Apenas traga."

Duas horas depois, Vera voltou com um laptop preto, pesado e ultrapassado.

June o colocou em seu colo. Ela apertou o botão de ligar. A tela piscou e acendeu.

Seus dedos voavam pelo teclado, digitando uma complexa sequência de código em uma janela de terminal preta. Uma tela de login altamente criptografada apareceu.

Vera se inclinou, semicerrando os olhos para a tela. Ela não conseguia entender uma única linha do código, mas a velocidade com que June digitava lhe causou um arrepio na espinha.

Nesse momento, a TV na parede da sala VIP mudou para o noticiário da noite.

Um repórter enfiava um microfone no rosto de Cole enquanto ele saía de um prédio corporativo.

"Sr. Compton! Sua esposa esteve notavelmente ausente da gala ontem à noite. Está tudo bem com o seu casamento?"

Na tela, Cole parou. Ele ajeitou o paletó, seu rosto uma máscara de preocupação perfeita e educada.

"Minha esposa está se sentindo um pouco indisposta", Cole mentiu suavemente para a câmera. "Ela está descansando em casa. Obrigado pela sua preocupação."

Vera pegou o controle remoto da TV e o atirou na tela. O plástico se estilhaçou contra o vidro, deixando uma rachadura em forma de teia de aranha no rosto sorridente de Cole.

"Hipócrita desgraçado!" Vera gritou.

June não se abalou com o barulho. Ela olhou para a tela rachada, seus dedos pousados na tecla Enter de seu laptop.

"Deixe-o sorrir", disse June, sua voz baixando para um sussurro mortal. "Ele não vai sorrir por muito mais tempo."

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