Capítulo 2

Pov Moira

A reserva, como Charles chamava, era uma antiga construção medieval que parecia prestes a cair a qualquer momento, tanto por sua altura e complexidade quanto por sua localização, no topo de uma colina verde, seu interior era quase inteiramente fei...

Charles bateu suas botas na entrada e se encaminhou para a mesa no centro onde encheu uma caneca grande com uma bebida caseira, hidromel talvez.

- Aceita? - ele me ofereceu a caneca.

- Não obrigada.

- Tem certeza? Vai te esquentar.

Eu não tinha dúvidas de que aquele homem poderia me esquentar de muitas maneiras e bebida não era uma delas mas antes que esses pensamentos me distraíssem outra vez eu apontei para o alçapão

- Para onde leva?

- Para baixo - ele riu, antes de vislumbrar meu olhar impassível - a reserva é lá embaixo.

- Não vamos perder tempo.

Charles deu de ombro e usou a mão que não segurava a caneca para agarrar a argola de ferro e puxar a porta em um movimento rápido, fazendo a madeira bater no chão levantando uma pequena nuvem de poeira.

- Primeiro as damas.

Eu passei por ele esfregando a terra que impregnou em meu blazer, o interior da montanha estava quente e úmido e pude respirar melhor sem que o ar frio queimasse minhas narinas.

Charles desceu em um salto, apoiou a caneca em um degrau e tirou sua jaqueta, revelando uma regata solta, por baixo, era possível ver seus ombros e nuca, como boa parte de suas costas.

- Por aqui - seguiu pelo corredor, era amplo e todo coberto de pedras, grandes portas de metal se elevavam quase até o teto, e sons de rosnados, assim como um calor característicos escapava pelas laterais.

- Prendem dragões aqui?

- Não prendemos, só os impedimos de sair.

- Muito engraçado.

- Nós cuidamos, muitos chegam aqui doentes e machucados, então tratamos deles antes de devolver para seu habitat.

- Parece perigoso.

- Você acha? - ele olhou por cima do ombro e sorriu, notei as diversas cicatrizes em seu corpo, queimaduras e cortes.

Minhas bochechas esquentaram e um calor mais intenso passou pelo meu estomago, me obrigando a tirar o blazer.

- Eles te fazem usar uniforme?

- Não, porque acha que estou de uniforme?

- Se veste assim por opção?

- É o mais apropriado pro meu cargo.

- Tudo bem mas essa é uma região inospta, Srta. Scringeour. Seria mais prudente usar algo que lhe permita correr, se necessário.

- Eu sou uma auror em exercício da função, não acho que alguém se meteria em meu caminho.

- Se você diz, mas saiba que há muito mais em Spring's Ville do que homens e bruxos - antes que eu pudesse responder, Charles segurou uma argola em uma porta grande e usou todo seu peso para abri-la - é aqui.

O interior cheirava a carne queimada e fuligem, tudo naquela reserva parecia ter algo com fogo.

Uma longa bancada se estendia pela sala e no topo haviam janelas estreitas e longas, estavamos na ponta da colina e era possível ver o céu que escurecia.

O ar entrava frio e implacável, contrastando com o calor da fornada á frente.

- Humm, acho que nunca vi uma mulher tão bonita nessa sala.

Encarei o homem que se dirigia a mim, ele se aproximou e tomou minha mão em um beijo áspero, era bonito e atlético e a sua atitude exagerada não o tornava menos atraente.

- Esse é Bentley Mordaque, nosso legista.

- E cozinheiro.

- Sou Moira Scringeour, auror.

O rapaz levantou uma sobrancelha mas logo voltou a sorrir.

- Uma auror e um legista, parece um conto de fadas.

Eu sorri e minhas bochechas coraram.

- Trouxeram o segundo? - Charles virou o restante de sua caneca enquanto esperava a resposta.

- Está bem ali - Mordaque apontou para uma segunda bancada tão grande quanto a primeira onde era possível ver um dragão mal coberto por um pano sujo de lama e sangue - o que houve com ele?

- Eu estou tentando descobrir. Onde está o primeiro? - respondi de imediato.

- Aqui. Bem, partes de dele.

Na bancada havia um par de asas cortadas e alguns pedaços grande de carne e pele assim como uma genitália, incluindo os enormes testículos onde meus olhos se demoraram.

- Não achou que fossem modestos, não é? - Mordaque apoiou as mãos sobre a bancada levantando mais o corpo - tendo em vista o tamanho do dragão.

- Só estou pensando - eu me virei bruscamente fazendo Charles que se postara atrás de mim, dar um passo atrás para me encarar - o que eles tem em comum além de serem dragões? Sexo? Idade? Raça?

- Nada.

- Interessante.

- Mórbido, você quer dizer - Mordaque puxava um carrinho com uma asa em direção á fornada.

- Espere - eu corri para impedir e acabei prendendo o salto, pela segunda vez, em um vão no assoalho e precisei me segurar em Charles que me apoiou firmemente com as mãos em minha cintura, quase o suficiente para me machucar, seu hálito perto o suficiente para me enebriar - Conhaque.

- O que disse.

- Conhaque - eu me ajeitei, ficando em pé - estava bebendo em horário de trabalho.

- Eu disse que era pra esquentar.

- E, Mordaque. Eu preciso dessa asa intacta - eu estendi a mão para Charles que não hesitou em me entregar o canivete suiço, eu peguei a escova e passei pelas asas, como eu imaginava elas escamaram e haviam os mesmos simbolos embaixo - Tire fotos.

- Não sei se notou, Srta. Scringeour mas está em um crematório dentro de uma montanha, não temos câmeras aqui.

- Precisamos avaliar.

- Pode voltar quando quiser, auror - Mordaque sorria de canto - eu quardo para você.

- Ou podemos levar o couro.

- Essas asas tem dez metros de envergadura, Weasley. Como sugere que eu as leve?

- Bem simples, docinho - o legista interveio - Vou separar pra você.

Ele sorriu e tirou uma longa faca do coldre, passando-a pelas asas bem acima dos ossos e a pele do animal se soltou facilmente, sem sangue ou qualquer fluído.

- Couro de asa de dragão - Charles enrolou e jogou sobre o ombro - muito resistente.

Voltei a vestir meu blazer assim que deixamos o subsolo, Charles fez o mesmo com sua jaqueta, o que foi uma pena e um aliviou ao mesmo tempo.

- Qual o próximo passo, Srta. Scringeour?

- Descobrir o que significa os símbolos. Tem alguma biblioteca aqui?

- Não, o povo dessa região não é muito de ler, sabe.

- Entendo, preciso de um favor do ministério, então. Tem uma coruja?

- Por sorte sua a Sra. Weasley fez questão de me presentear com uma, ela fica no meu quarto.

- Esposa?

- Mãe, eu não sou casado. Não é fácil com meu trabalho.

- Eu dúvido muito.

Ele se afastou subindo os degraus de dois em dois.

- Você vem?

- O quê?

- Eu disse que a coruja está no meu quarto.

- Claro - mantive a calma enquanto subia as escadas atrás dele, Charles parecia não se importa em ser visto de costas e eu não pude deixar de reparar nas marcas que suas coxas deixavam no jeans.

Ele me guiou até o último andar e por um estreito corredor, entrando na penúltima porta.

- Cuidado - ele avisou bem a tempo de eu me abaixar enquanto uma coruja cinza cruzava o quarto - pode escrever na cama ou usar a cômoda, o tinteiro está alí.

Eu passei pela cama com dificuldade, imaginando como um homem daquele tamanho se movia aqui dentro, peguei um pergaminho e a pena, usando a cômoda como apoio para anotar todos os livros que eu imagina ter algo referente aquele assunto.

Com a visão periférica eu podia ver o Weasley sentado na cama dando migalhas para a coruja que insistia em se esfregar no bíceps dele.

Sortuda.

- Gosta mesmo desses animais, não é?

- É mais fácil que lidar com humanos, eles não traem, não machucam.

- E quanto aos dragões? Acho que podem machucar um bocado - apontei para o pescoço onde ele tinha outra cicatriz.

- São só incompreendidos.

- Ela pode levar, agora? É importante.

- Sim. Vamos, Justine. Precisa levar isso depressa - Charles pulou por cima da cama e me prendeu entre a cômoda e ele.

Sua presença era tão intimidadora e ao mesmo tempo me acolhia, entreguei o pergaminho enrolado e ele prendeu a pata da coruja, fazendo-a voar para fora da janela.

- Obrigada.

- Foi um prazer ajudar.

- Eu preciso ir agora.

- Sim, eu compreendo - Charles afastou o corpo deixando um espaço muito pequeno para passar e eu não sabia como travessar, por fim acabei virando de costa, o que não foi uma boa idéia. Ficou parecendo provocação.

- Bem - eu olhei por cima do ombro antes de passar pela porta - foi um prazer conhecê-lo.

- Igualmente, Srta Scringeour. Chame se precisar de mim?

Para qualquer tarefa?

- Claro, fique atento.

Charles fez questão de me acompanhar durante quase todo o trajeto de volta á vila, mesmo sem que o frio tornasse difícil conversar e a neblina densa mais ainda

A única hospedaria daquele lugar mais parecia um estabulo, ratos correndo libres pelo caibro no teto sem forro, as mesas sujas recebiam novos cardápios e o bar estava com os assentos lotados.

- Moira?

Minha atenção se voltou para o garoto na escada.

- Não temos escolha, temos?

- Sinto dizer que não. Como foi?

- Como eu esperava, as mortes foram obra da mesma pessoa.

- Comunicou o Sr. Philostrade?

- Não, ainda é cedo, preciso saber sobre aqueles símbolos.

- Ah, Moira. Era uma missão simples.

- Se quer simplicidade, Ioannou, sugiro que escolha outra profissão. Se vai trabalhar comigo, aceite que iremos até o fim.

- Tem razão - o garoto abaixou os olhos tristemente - a chave do quarto.

Peguei o objeto e subi, o quarto era ainda mais deplorável, com goteiras e uma janela quebrada por onde passava o ar gélido da noite.

Apanhei o cobertor na ponta de uma das duas camas, estava sujo e duro.

- Eu mereço - bufei e me deitei de costas cruzando os braços na frente do corpo e nem percebi quando adormeci.

Acordei com cheiro de café que fez meu estomago roncar.

- Café? - Dom me perguntou assim que abri os olhos.

Fitei a caneca manchada em sua mão.

- Não, obrigada.

- Você recebeu um telegrama do ministério.

- Já? - eu levantei rápido e apanhei o pequeno envelope na mesa, mas nada dos livros.

- O que diz?

- Nenhum dos livros que eu pedi estavam disponíveis.

- Hum, aposto que aqui não tem biblioteca.

- Tem a catedral - uma mulher gorda e rosada, vestindo uma roupa de camareira muito desbotada entrou no quarto sem bater e começou a esticar a cama - serviço de quarto - ela disse de forma casual.

- Que catedral?

- Na baía, depois do píer. Não conhecem?

- Eu não sou daqui.

Ela olhou para mim pela primeira vez.

- Ah, percebo agora. Bem, a baía é o lado mais movimentado dessa região, tem uma antiga catedral lá, foi destruída e saqueada mas duvido que esses vagabundos tenham levado os livros - ela deixou toalhas novas no banheiro antes de dar uma ultima olhada no quarto - prontinho, com licença.

Ela saiu nos deixando sozinhos.

- Acho que é perda de tempo. Se eram livros antigos certamente foram roubados.

- Também acho, mas vale a pena averiguar. Além do mais, ela disse que é movimentado, alguém pode saber de alguma coisa.

- Certo, vou me informar como faz pra chegar lá.

- Dom?

- Hum - ele parou na porta.

- Chame o Weasley.

Capítulo 3

Pov Moira

Não fazia sentido ficar a manhã toda no quarto, precisava sair e encontrar algo decente para comer.

A rua na vila estava iluminada e o sol tentava, inutilmente, passar entre as nuvens.

- Bom dia, senhora - um homem de aparência rude e visivelmente bêbado se apoiava na cerca de sua casa.

- Seu velho safado - a esposa gritou da janela.

Não era o tipo de lugar que eu andaria, com certeza, mas as crianças correndo despreocupadas na rua, davam mais alegria á vista.

Avistei uma casa com uma placa onde se lia "Ristorante" e comecei a salivar enquanto andava decidida até lá.

- Não comeria ali, se fosse você.

Me virei bruscamente já com a varinha em mãos apontada no pescoço do indivíduo.

- Hei, hei... calma, docinho.

- Mordaque - eu bufei.

- Surpresa em me ver tão cedo?

- Na verdade, sim. Não tem mais dragões para encinerar?

- Vim com Charles.

- Ele já chegou?

- Como assim? esperava por ele? Não, achamos que você podia querer o couro da asa do segundo dragão.

- Sim, eu quero.

- Mas esqueceu, não é tão experiente assim. Não é, docinho.

- Eu tenho nome, Moira Scringeour ou Srta. Scringeour para você.

- Não fica tão na defensiva, acho que podemos ser bons... amigos - ele deu uma piscadinha de lado - além do mais, não sei pronunciar esse nome.

- Duvido. Agora, se me der licença eu preciso comer.

- Vou aconselhá-la mais uma vez a não comer ali.

- Eles servem comida italiana, é melhor que a hospedaria.

Mordaque ficou sério por um segundo, com os olhos sombrios enquanto olhava rápido para a estalagem no começo da rua, mas logo voltou com seu ar cafajeste.

- Italiana?

- Sim, está escrito Ristaurante.

- O velho Wathe é quase analfabeto - ele riu - eles servem carne de baleia quando elas chegam mortas à margem.

- Repugnante - eu ajeitei meu blazer puxando a barra com força - melhor eu seguir meu caminho, com licença.

- Espera.

Eu continuei em em frente sem dar atenção até pisar em algo mole e viscoso. Eu não queria olhar, sabia onde havia pisado.

- As ruas não são assim tão limpas como no ministério, docinho.

- Acha isso engraçado?

- Não, mas devia considerar mudar de roupas. Aliás, se tiver dificuldade com isso, eu me ofereço para ajudar.

- Não há problema nenhum com as minhas roupas.

- Concordo, blazer e salto alto são realmente sexy, mas essa é uma cidade montanhosa, botas seriam mais confortáveis.

- Você é tão intrometido - e bonito.

- Só estou preocupado com seu bem estar - ele deu alguns passos para trás, balançando o corpo de um lado para outro - docinho.

Meu estômago roncava, bati os sapatos sujos no chão de terra e tomei o caminho de volta.

Pov Carlinhos

- Meio cruel fazer a moça andar da reserva até aqui ontem a noite, se temos a carroça.

- Não ia tirar os cavalos naquele frio, estavam dormindo - pulei no chão e desamarrei as cordas que prendiam o rolo de couro - além do mais, a Srta. Scringeour precisa entender como as coisas funcionam por aqui.

- E acha que ter os pés maltratados naqueles sapatos vai mudar alguma coisa? - Mordaque virou o corpo na carroça apoiando o cotovelo na coxa - ela é uma garota rica.

- Eu sei, mas é um começo. Anda, me ajuda com isso.

Ele levantou o couro enrolado e jogou sobre meus ombros.

- Quer que eu entre? - a relutância na sua voz era nítida.

- Não, compre algumas cenouras para os cavalos - enfiei a mão no bolso da jaqueta e joguei moedas para ele.

- Te espero aqui?

- É, vai ser rápido.

Seria difícil subir as escadas carregando duas asas de dragão mas não podia pedir que Mordaque me ajudasse, ele já se sentia mal o suficiente de ver a hospedaria de fora, não queria que a visse por dentro.

Assim que passei pela porta fui recebido pelo proprietário que estava tão feliz em me ver quanto eu em vê-lo.

Homenzinho detestável.

- Weasley, espero que esteja com meu dinheiro.

- Na próxima semana.

- Disse isso o mês todo.

- Vou pagar duas prestações juntas, está bem?! Agora, preciso falar com Moira Scringeour.

- Não tem ninguém com esse nome aqui.

- A auror, talvez a reserva seja no nome do estagiário, Dominic Ioannou.

- Terceiro andar á esquerda - ele resmungou enquanto voltava para o bar.

- Idiota.

Como eu pensei, cheguei ao terceiro andar já ofegante e parei para tomar um ar, encostado na parede eu pude ver o quadro que tanto me incomodava.

A pintura em cores quentes dos pais e um filho, o cabelo amarelo do menino, tão vivo como se fosse real.

- Weasley?

Dominic subia a escada de onde eu tinha vindo.

- Ioannou? Estou procurando a Moira.

- Ela devia estar aqui, eu acabei de mandar uma coruja pra você.

Ele fez sinal para que eu o seguisse e fiz isso mantendo alguma distância.

- Porque me mandou uma coruja? - entrei no quarto carregando o couro e o joguei em cima da cama que despencou no chão com os quatro pés quebrados e uma nuvem de poeira.

Olhei para Ioannou já me preparando pra me explicar mas ele deu de ombros.

- Essa é da Moira.

- Ela não vai gostar - ele ficou olhando com indiferença para o móvel no chão - então?

- Ah, sim. Não conseguimos os livros mas Moira tem um palpite, soubemos de uma catedral, queremos que nos leve até lá.

- Não.

- Não?

- Não está acostumado com essa palavra?

- A Moira é uma auror em exercício da função - ele tomou um ar autoritário e nada simpático enquanto se mantinha pomposo, era engraçado - e você um especialista ao serviço dela.

- Em dragões, não em expedições.

Ele torceu o nariz e ficou ainda mais nervoso, se continuasse se segurando poderia facilmente explodir. A porta atrás de mim se abriu e minha atenção se voltou para ela.

Moira entrou no quarto bravejando e arrancando as roupas.

- O que eles pensam que eu sou - blazer.

- Moira? - Ioannou levantou a mão tentando chamar sua atenção, em vão.

- Se eles querem que eu me vista como uma camponesa - a camisa branca.

- Moira, espera.

- É exatamente o que vou fazer - o fecho do sutiã.

Ela era bonita, as poucas mulheres na reserva eram mais brutas que eu mas Moira era delicada, feminina e eu pensava em como ela poderia ser doce em baixo daquela pose de auror.

Mesmo assim seria errado olhar o corpo dela dessa maneira sem que ela ao menos soubesse, limpei a garganta em duas tossidas rápidas.

Ela se virou assustada cobrindo os seios com as mãos e tentou falar alguma coisa várias vezes mas acabou desistindo quando viu que as palavras não saíam.

- O Sr. Weasley está aqui.

- Eu estou vendo, Dom. Obrigada.

Ela me encarou, dei alguns passos lentos em sua direção até ficar lado a lado com ela e me abaixei para perto de seu ouvido.

- No seu lugar, eu teria continuado o show.

Saí para o corredor me sentindo provocado, as roupas apertando na virilha. Lá embaixo, Mordaque dava cenouras aos cavalos.

- Missão cumprida?

- Sim, e espero que essa seja a última asa de dragão que temos que retirar.

- Weasley? Weasley? - Moira corria para a rua agora usando um suéter mesmo que ainda fosse possível ver que não usava sutiã.

- Em que posso ajudá-la?

- Meus olhos são aqui em cima - ela bravejou chamando minha atenção - Dominic me contou da sua recusa em me servir e devo dizer que é inaceitável.

- Você goste ou não, Srta. Scringeour. Eu não vou fazer uma expedição perigosa pela montanha, ainda mais com pessoas inexperientes.

- Não sou inexperiente.

- E aprendeu sobre exploração e escalagem na sua escola de aurores ou nas aulas de etiqueta?

- Porque acha que fiz aulas de etiqueta? - Moira estava na defensiva e a conversa se tornou quase uma discussão.

- É filha do ministro, não é?!

- Vejo que fez sua lição de casa, no entanto, não pense que me conhece.

- Que seja - dei de ombros enquanto arrumava o interior da carroça - mas não há nada na caredral. Seria inútil.

- Eu tenho uma intuição.

- É vidente?

- Não.

- Anote isso - eu disse para o garoto atrás dela que trazia uma prancheta e uma pena - Não vou levar vocês por um palpite. Encontre outra pessoa.

Um estrondo alto como uma explosão seguido de gritos foi ouvido de uma rua próxima, corri junto a Mordaque até o local.

No meio da rua um dragão repousava, me aproximei a tempo de sentir o vapor quente da sua última respiração, meu peito apertou.

Um grito ensurdecedor fez os curiosos cobriram os ouvidos e correrem desesperados mas eu estava habituado com esse som.

- O que é isso? - Moira gritou com as mãos sobre as orelhas.

- É um filhote - eu apontei para o céu onde um dragão enorme circulava e berrava - e aquela é a mãe, está furiosa.

- O que faremos?

- Eu não sei, Mordaque - olhei para o rosto impassível de Moira - estejam prontos ao anoitecer, no cais.

Pov Charles

O cais ficava no interior da vila, o outro lado da baía era tão longe que não dava para avista-lo nem mesmo com a luneta. Desviei o olhar da imensidão e me sentei sobre um barril velho enquanto esperava, a primeira pessoa a aparecer não era bem quem eu imaginava.

- Você não vai - enfatizei para Mordaque quando o vi se empoleirar no pier.

- Se ele vai eu também vou.

Bentley apontou para o cachorro de porte médio ao meu lado. Brutus era um cão velho e quase surdo da raça Bloodhound.

- É um cão farejador, é útil.

- Eu também, posso carregar suas coisas - ele pegou a mochila de couro ao meu pé e colocou no ombro - ou distrair a auror. Por falar nisso, onde ela está?

- Espero que a caminho.

Brutus se deitou de barriga e esticou o queixo no chão, deixando as orelhas esparramadas.

- Sério, porque trouxe o cão?

- Acredito que a senhorita Scringeour não tenha muito apreço pelos animais que estamos tentando salvar, talvez algo mais próximo e familiar desperte nela esse interesse.

- Ah claro - ele disse ironicamente - até por que Baelfire e dragões tem muitas semelhanças. Um cospe fogo e o outro tem incontinência urinária... sério, Charles... esse cão tem uns cem anos.

- Não ligue pra ele - eu falei para o cão que mal levantou a cabeça - Bentley tem se sentido muito oprimido ultimamente.

- Agora sei porque esse pulguento está aqui, vai usá-lo pra provocar a auror, como faz comigo.

- Não sei do que está falando.

Ter Mordaque aqui não me deixava muito a vontade, o caminho até a catedral era cruel, implacável e suas motivações eram emotivas demais, para dizer o mínimo.

Mas ele tinha razão, Moira precisava se situar de onde estava e com quem estava lidando mas minha mãe criou um cavalheiro, jamais diria coisas tão desagradáveis para ela, não diretamente.

Me surpreendi quando ela apareceu com seu assistente, aparatando á alguns metros de nós, ela usava botas e mal tinham salto, couro e uma saia longa que dava total liberdade de movimento, parecia outra pessoa.

Uma pessoa com quem eu adoraria me ver sozinho.

- Boa tarde, Sr. weasley - ela ainda mantinha a pose - Mordaque? Estou surpresa, esperava uma equipe mais qualificada.

Eu ri com a ingênuidade dela.

- Não se preocupe, temos um cachorro - Bentley respondeu.

- E armas - bati com a mão espalmada no no coldre.

- Uma espada?

- Nunca se sabe, não é? Essa é uma região...

- Inospta. Já usou essa palavra Sr. Weasley.

- Essa é a graça com as palavras Srta. Scringeour - me levantei ficando bem á frente dela, perto de mim Moira parecia ainda mais pequena - você pode usar, elas não gastam.

Ela engoliu em seco mas não expressou nenhuma emoção. Atrás dela, mais uma vez, Dominic tremeu e seus olhos se arregalaram como se fosse explodir mas as palavras se recusaram de sair da sua boca.

- Que seja - era Moira quem falava - desfaça o feitiço de desilusão, vamos logo com isso.

- Não há feitiço.

- E onde está o barco?

- Estará aqui - peguei o relógio no bolso e examinei por alguns segundos - agora.

O píer começou a tremer e Moira se desequilibrou, caindo sobre mim, a segurei pelos cotovelos e sorri ao ver sua expressão assustada me encarando. Seus olhos subiram de onde os meus estavam e se concentraram atrás de mim.

- Moira, isso é um navio subaquático - Dominic parecia muito preocupado - é uma violação do Estatuto Internacional de Sigilo em Magia.

- Eu percebi, Dom - ela se soltou de mim dando dois passos atrás para me olhar de forma confortável - não viajaremos de forma ilegal.

- Se acalme, vamos pela superficie.

Uma rampa de madeira caiu formando um caminho entre o píer e o navio e no topo dela apareceram dois indivíduos, um subordinado quieto e a capitã com um largo sorriso e um charuto na boca.

- Espere, Brutus - falei com o cão que ainda nem havia se levantado e dei um breve olhar para Moira - deixe as damas irem na frente.

Ela sacudiu o cabelo e levantou o queixo.

- Dominic, pegue a prancheta.

O assistente lutou contra a pasta e mais ainda contra a pena que entregou para Moira assim que chegamos ao topo da rampa e entramos no navio.

- Bem vindos á bordo - a capitã se dirigiu ás pessoas que ela não conhecia - eu sou Acacia Santierra, capitã do Estrela do Norte - ela deu alguns passos até Moira - mas você pode me chamar de mamãe.

- Moira Scringeur - respondeu duramente enquanto assinava o documento que Dominic havia pego na pasta e o entregou á capitã.

- O que é isso?

- Uma multa, navios subaquáticos são ilegais.

O rosto de Acacia se fechou e seus olhos se estreitaram enquanto chega perigosamente ainda mais perto de Moira.

Ela pegou o documento e levantou entre seus rostos e então o rasgou vagarosamente, me vi na obrigação de intervir antes que a viagem acabasse sem nem começar.

- Acacia, posso ver o plano de bordo?

- Claro, acho que terminamos aqui.

Moira mais parecia de gesso, não demonstrava nenhum sentimento mas suas mãos trêmulas me diziam que estava com medo, Mordaque já havia entrado no convés e ela seguiu no mesmo caminho.

- Pode levar a bagagem, serviçal? - disse em tom cortês o assistente - marujo?

- Esse é Einar, ele não fala - respondi olhando do subordinado para Dominic - ou escuta, na verdade, acho que ele nem entende nossa língua.

Acacia fez um gesto rápido e o homem que até então, não havia movido um músculo se colocou para frente apanhando as malas do chão com muita facilidade.

- Vai me dizer porque vão até a bahia? - Acacia disse assim que ficamos sozinhos.

A rampa começou a se recolhei de volta ao convés.

- Tenho que levar a auror até a Catedral.

- Não há nada lá, Charlie.

- Ela tem uma intuição e pra ser bem sincero, eu também.

- Isso é perigoso e ainda mais com o menino.

- Ele vai ficar bem.

- Devia deixá-lo no barco, posso inventar alguma coisa.

- É melhor que Bentley fique comigo. Vai ser bom ter um amigo por perto, de qualquer maneira.

- Vejo que não foi a única companhia que trouxe?

Franzi os cantos do olhos, sem entender o que ela quis dizer e Acacia apontou para o horizonte onde um dragão voava rápido, pela curvatura da asa e pelo tamanho arriscaria dizer que era um Barriga-de-Ferro Ucraniano.

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