Capítulo 2

Ponto de Vista de Helena Medeiros:

Dei minhas desculpas, com a cabeça latejando, e corri para o meu quarto. A casa grandiosa, geralmente preenchida por um silêncio sufocante, parecia vasta e vazia esta noite. Meu próprio quarto pequeno, um refúgio temporário, não oferecia conforto.

Assim que tranquei a porta, meu celular vibrou. Uma mensagem. De um número desconhecido. Meu coração se contorceu com uma premonição doentia. Eu abri. Uma foto granulada preencheu a tela. Franco, o rosto marcado pela preocupação, embalando Karina em seus braços. Ela estava pálida, a cabeça apoiada em seu ombro. A legenda abaixo da foto era uma adaga cruel: "Algumas pessoas simplesmente sabem como conseguir o que querem. Seu noivo escolheu seu verdadeiro amor esta noite. De novo."

Uma risada oca escapou dos meus lábios. Nenhuma surpresa. Eu já sabia. Isso apenas confirmava. Franco havia abandonado nossa festa de noivado por Karina. Não era uma emergência de negócios. Era ela.

Uma estranha dormência tomou conta de mim. Não havia mais dor, apenas uma pontada surda onde meu coração costumava estar. Lembrei-me de um tempo em que Franco me olhava daquele jeito, sua mãozinha segurando a minha com força enquanto estávamos à beira dos sonhos de infância. Ele me prometeu o para sempre. Isso foi há uma vida inteira. Ele era o para sempre de outra pessoa agora. A rocha de outra pessoa.

Meu nariz começou a sangrar de novo. Uma golfada, quente e pesada, manchando meus dedos de um carmesim profundo. Não era mais apenas um fiozinho. Era uma torrente. O pânico arranhou minha garganta. Tropecei em direção ao banheiro, procurando um lenço de papel. Água fria espirrou no meu rosto, mas o sangue continuava a vir. Pressionei papel higiênico firmemente contra minhas narinas, inclinando-me sobre a pia, observando a água ficar rosa, depois vermelha. Pareceu uma eternidade antes que finalmente diminuísse e parasse. Minha cabeça latejava. Meu estômago se revirava.

Uma batida forte na porta me assustou. "Helena? Está acordada?" Era Eduardo, sua voz severa, mas com um tremor subjacente.

Joguei mais água no rosto, tentando apagar as evidências. "Sim, sogro. Apenas descansando." Limpei a boca, sentindo o gosto de ferro.

Quando abri a porta, Eduardo estava lá, o rosto sombrio. "Desça para o escritório. Agora."

Eu o segui, minhas pernas parecendo chumbo. O ar estava denso de tensão. Franco já estava lá, de pé, rígido, diante de seu pai, a mandíbula cerrada. Os olhos de Eduardo, geralmente tão afiados, estavam reduzidos a fendas.

"Franco Bittencourt", bradou Eduardo, sua voz ecoando pela sala silenciosa. "Ajoelhe-se."

Os olhos de Franco se arregalaram em descrença. "Pai, não. Eu não posso." Seu orgulho, sempre seu ponto mais forte e mais fraco, se inflamou.

"Ajoelhe-se", repetiu Eduardo, a voz perigosamente baixa. "Você desonrou esta família esta noite. Você desonrou Helena."

Franco permaneceu rígido, as costas retas como uma vara. Ele não se curvaria. Não para ninguém. Nem mesmo para seu pai. A teimosia que o definia estava em plena exibição.

Eu assistia, um estranho cansaço tomando conta de mim. Tudo isso era por mim, esse espetáculo. Mas eu não o queria. Eu só queria desaparecer. Franco estava procurando seu verdadeiro amor. Eu estava apenas no caminho.

Eduardo se virou para mim, sua expressão suavizando um pouco. "Helena, suba. Você precisa descansar." Sua voz era gentil, um contraste gritante com o trovão que ele acabara de soltar em seu filho.

Eu não discuti. Nem sequer olhei para Franco. Meu olhar estava fixo em algum ponto distante, qualquer coisa para evitar a tempestade que se formava em seus olhos. Virei-me e saí, o silêncio das escadas um alívio bem-vindo.

Não ouvi o que se seguiu. A pesada porta de carvalho do meu quarto abafou as palavras raivosas, o silêncio tenso. Eu só sabia que Franco não veio ver como eu estava.

Adormeci em um sono agitado, meu corpo doendo, minha mente repassando as humilhações da noite. Quando acordei, o quarto estava escuro, exceto por uma fresta de luar. Uma figura estava perto da janela, silhuetada contra o vidro. Franco.

Minha respiração engatou. Ele parecia... assombrado. Seu rosto estava obscurecido pelas sombras, mas eu podia sentir a intensidade de seu olhar. Por um momento fugaz, lembrei-me do menino que costumava entrar sorrateiramente no meu quarto depois de um pesadelo, sua mão quente procurando a minha. Aquele menino se fora há muito tempo.

"Você contou a ele, não foi?" Sua voz era baixa, perigosa. "Você correu para o meu pai, como sempre."

Tentei me sentar, minha cabeça girando. "Não, Franco, eu não contei. Eu juro." O pânico subiu pela minha garganta.

Ele deu um passo mais perto. "Não minta para mim, Helena. Ele sabia sobre a Karina. Sobre o hospital. Como mais ele saberia?" Sua acusação pairava pesada no ar.

"Eu não disse nada", sussurrei, minha voz rouca. Minha garganta parecia em carne viva.

"Ah, tenho certeza que não", ele zombou, o sarcasmo escorrendo de cada palavra. "Você apenas ficou lá, bancando a noiva pobre e injustiçada, deixando meu pai fazer o seu trabalho sujo. Típico. Não consegue nem lutar suas próprias batalhas." Ele gesticulou descontroladamente com a mão. "Karina está doente, Helena. Ela é delicada. E você está aqui fazendo uma cena, me acusando, me fazendo sentir culpado. Você não tem vergonha?"

Meu sangue gelou. Ele já havia me condenado. Não havia defesa. Nenhum apelo. Ele via o que queria ver. Eu era a vilã, o obstáculo, a fonte de todos os seus problemas. A verdade, a minha verdade, não importava.

Uma onda súbita de náusea me atingiu. Meu estômago se contraiu. Mal consegui chegar ao banheiro, segurando a boca, e vomitei no vaso sanitário, meu corpo tremendo com ânsias secas.

Ouvi a porta bater, um som ensurdecedor que vibrou pela casa silenciosa. Ele tinha ido embora. De novo.

Eu me levantei, meus joelhos fracos, e olhei no espelho. Meu rosto estava pálido, meus olhos fundos. Um fantasma. Consegui um sorriso amargo e torto. Que apropriado.

Meu olhar caiu para o canto do quarto, para a tábua solta do piso sob a cama. Ajoelhei-me, meus dedos desajeitados com o trinco, e puxei uma pilha de papéis. Um laudo médico. As palavras se embaralharam diante dos meus olhos, mas eu sabia o que diziam. Leucemia.

Guardei-o de volta, empurrando-o para o fundo das sombras. Ele nunca o encontraria. Ele nunca saberia.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Helena Medeiros:

A dor de cabeça era uma companhia constante, uma pontada surda atrás dos meus olhos que se intensificava a cada movimento. A comida não tinha apelo. Até o cheiro fazia meu estômago revirar. Eu ficava encolhida na cama, os lençóis emaranhados ao meu redor, desejando um fim para o ciclo vertiginoso de dor e náusea. Se não havia cura, eu só queria que acabasse logo. Sem mais luta. Sem mais fingimento.

Meus olhos se desviaram para as marcas fracas de agulha no dorso da minha mão. As palavras do médico ecoavam em minha mente, uma batida implacável. "Você precisa contar para sua família, Helena. Isso não é algo que você pode enfrentar sozinha. O tratamento... é agressivo. E os riscos são significativos."

"Quão significativos?", eu perguntei, minha voz mal um sussurro. O médico desviou o olhar, seu silêncio uma resposta mais pesada do que qualquer palavra poderia ser.

Eu olhei para o meu celular, meu polegar pairando sobre o nome de Franco. Uma esperança desesperada, pequena e vacilante, me incitou a ligar. A contar a ele. A quebrar este segredo terrível. E se, apenas e se, saber o fizesse ver? O fizesse se importar?

Pressionei o botão de chamada. Tocou uma, duas vezes, e então um clique. Caixa postal. Ele havia desligado. Minha esperança, frágil como era, se desfez em pó. Ele nem deixou tocar. Ele apenas me rejeitou, instantaneamente.

Uma nova onda de desamparo me invadiu. Eu não conseguiria fazer isso sozinha. Meus dedos, tremendo levemente, encontraram outro contato. Caio. Meu melhor amigo. Minha rocha.

Ele atendeu no segundo toque, sua voz cheia de sua energia barulhenta de sempre. "Helena! E aí, garota? Tudo bem?"

"Caio", consegui dizer, minha voz falhando. "Eu... eu preciso de você."

Ele chegou em menos de uma hora, sua risada estrondosa de sempre substituída por uma carranca quieta e preocupada. Raramente permitíamos que nossos dois mundos colidissem. Caio, com sua energia sem limites e charme fácil, sempre se chocou com a formalidade rígida de Franco. Franco via Caio como um brutamontes sem refinamento, uma má influência. Caio via Franco como um idiota frio e arrogante. Eu geralmente os mantinha separados, um delicado ato de equilíbrio que agora havia desmoronado.

Ele vestia uma camiseta de banda desbotada e jeans rasgados, um contraste gritante com as paredes brancas e estéreis do hospital. As pessoas se viravam enquanto ele atravessava a sala de espera, um toque vibrante de cor em um mundo de tons suaves.

"Está piorando, Helena?", ele perguntou, a voz baixa, seus olhos examinando meu rosto com uma intensidade quase desesperada.

Eu balancei a cabeça, evitando seu olhar. "Não. Apenas... um check-up de rotina." Outra mentira. Vinha tão facilmente agora.

Passamos pela rotina familiar: coleta de sangue, retirada de medicamentos. Sentei-me na sala de infusão, o gotejamento constante do soro um estranho conforto. O calor do cobertor, o zumbido baixo das máquinas ao meu redor, me embalaram em um estado sonolento. Fechei os olhos, buscando um momento de paz.

Quando os abri novamente, a bolsa estava vazia. Caio tinha sumido. A enfermeira, uma jovem apressada, veio até mim. "Senhorita Medeiros, seu soro acabou. Você não deveria ter adormecido, sabe." Seu tom era ríspido.

"Desculpe", murmurei, minha voz grossa de sono. "Eu estava tão cansada."

Sua expressão suavizou. "Ah, querida. Eu entendo." Seu toque foi surpreendentemente gentil enquanto ela removia a agulha, deixando uma pequena e ardente lembrança na minha pele.

Juntei minhas coisas, meus membros pesados, e fui para o laboratório para outra rodada de exames. Meu estômago roncou, uma dor oca. Senti-me tonta, o corredor branco girando ao meu redor. Apoiei-me na parede, respirando fundo e de forma trêmula.

Foi quando eu os vi.

Franco. E Karina.

Eles saíram da porta marcada como "Consultório de Psiquiatria", a cabeça de Karina baixa, o braço de Franco protetoramente ao redor dela. Seu rosto era uma máscara de ternura, a testa franzida de preocupação. Ele a olhava do jeito que costumava me olhar, antes que tudo murchasse e morresse.

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