Mark estava boiando em cima de uma esteira flutuante na piscina, com óculos escuros e um copo de uma limonada gelada na mão. Eu estava sentado na borda, com os pés dentro da água, apenas aproveitando o sol.
Felizmente, ser momentaneamente expulso de casa em um domingo assim era quase uma sorte. Os pais de Mark sempre saiam e a casa ficava toda para nós, então eu não precisava lidar com os olhares de preocupação e pena de Lavinia.
- Eu chamei a Rebeka para vir para cá. Você não se importa, não é? – Mark ergueu os óculos.
- Não. – respondi com sinceridade.
Ela demorou para chegar, e quando Mark foi abrir a porta escutei os dois conversando em voz baixa.
- O que deu em você para dizer quem era para minha mãe? – ela reclamou, visivelmente irritada.
- O que eu deveria dizer? – ele retrucou, confuso – Se você tivesse um celular...
- Um dia. – Rebeka cortou – Quando eu juntar dinheiro suficiente.
- Demorou por isso? – as vozes estavam ficando mais claras, eles estavam logo atrás de mim.
- Óbvio. – ela suspirou – Oi, Renan.
- Oi. – respondi sem me virar.
Mark voltou para a esteira, e Rebeka sentou logo ao meu lado.
- Problemas em casa também? – perguntou numa voz baixa.
- Meu pai me chutou para fora. – sussurrei também – E você?
- Minha mãe está ficando louca por causa do namorado novo. – sua voz era controladamente irritada –
Um completo babaca, o peguei tentando me espiar no banheiro.
Rebeka jogou o cabelo castanho para trás, depois tirou a camiseta e ficou com a parte de cima de um biquíni rosa meio fluorescente.
- Pode passar o protetor nas minhas costas? – perguntou já se virando, passando a embalagem para as minhas mãos.
- Claro. – concordei um pouco preocupado.
Enquanto eu espalhava o creme nas costas dela, olhei de relance para Mark, mas ele não parecia se incomodar com o que estávamos fazendo. Não dava para ter certeza por causa dos óculos escuros, mas ele estava virado na nossa direção então não havia como não ver.
- Obrigada, Renan. – ela se endireitou novamente e começou a passar no restante do corpo – Não gosto muito de sol, mas não tem como negar uma piscina. Não acha?
- Claro. – balancei a cabeça afirmativamente.
- Você não fica vermelho com essa pele tão branca? – Rebeka apoiou o braço ao lado do meu, logo em cima da minha coxa.
Nosso contraste era grande. Sua pele era bronzeada e a minha tão branca que as veias se tornavam todas visíveis.
- Querem comer algo? – Mark nos interrompeu.
- Claro. – Rebeka logo ficou em pé, esquecendo que havia me feito uma pergunta.
Segui os dois para dentro da cozinha, onde Mark já estava colocando uma variedade imensa de comida em cima da mesa.
A garota era como eu, nunca negava uma oportunidade de comer, então por algum tempo apenas mastigamos tudo que foi possível. Eu sempre tentava parecer natural ao comer as coisas que nunca tive em casa, e podia perceber que ela fazia a mesma coisa.
- Você precisa trabalhar hoje? – Mark puxou assunto com Rebeka, apoiando a mão em sua perna.
- Preciso. – ela suspirou, ainda focada em mastigar.
- Onde você está agora? – perguntei verdadeiramente interessado.
- No quiosque de sorvete do shopping. – deu de ombros – Foi o melhor que consegui agora com o fim das aulas.
Eu também precisava me arranjar logo, pensei com desânimo. O fim do ensino médio marcava o início de uma longa jornada de trabalhos na minha família. Meu pai logo estaria exigindo que eu fizesse qualquer coisa que fosse para ter um dinheiro extra.
- Meu colega de trabalho está para sair. Se quiser posso indicar você. – Rebeka pareceu entender meu silêncio.
- Seria ótimo. – agradeci sinceramente.
Mark permaneceu em silêncio. Ele não precisava se preocupar com trabalho, no ano seguinte iniciaria alguma faculdade e continuaria sem se preocupar por mais alguns anos.
- Tenho que chegar logo lá. – ela olhou para o relógio – Posso tomar banho aqui?
- Claro que sim. – Mark sorriu, levantando-se.
Fiquei sozinho por alguns minutos, mas demorei para perceber que provavelmente os dois estavam tomando banho juntos. Fui para a piscina novamente quando me dei conta, e tentei aproveitar a água.
- E aí? – Mark apareceu alguns minutos depois, com o cabelo bagunçado e molhado – Quer tomar um banho também? Posso te emprestar uma roupa.
- Aceito o banho. – impulsionei meu corpo para fora da piscina – Mas posso colocar a mesma roupa, está limpa.
- Você é quem sabe.
O banheiro de Mark, que eu já achava incrível por ficar no seu quarto, era maior do que a sala da minha casa e o chuveiro tinha uma pressão invejável. Eu nunca recusava tomar um banho relaxante como aquele.
- Tem algo que queira fazer hoje? – Mark perguntou assim que sai do banheiro – É um domingo meio parado.
- Nada em mente. – respondi indo me sentar ao lado dele na cama.
- Vou pedir alguma coisa para a gente almoçar. – ele pegou o celular e teclou por um tempo.
Ficamos um tempo passando os canais da televisão dele, até que a comida chegasse, depois nos sentamos outra vez na cozinha. Eu estava sendo mais bem alimentado naquele dia do que provavelmente seria a semana toda em casa.
- Gosta da Rebeka? – perguntei cuidadosamente.
Eu estava curioso. Mark não era de ter segredos comigo e, no entanto, eu não fazia ideia de que os dois estavam tendo algum tipo de interação. Não que ele não a conhecesse, mas com certeza não eram próximos.
- Ainda é cedo para dizer. – ele deu de ombros outra vez.
Balancei a cabeça, como quem dizia entender.
- Eu a encontrei na festa da Sabrina, semana retrasada. – Mark prosseguiu – Aquela em que você não quis ir.
“Não querer” era uma expressão muito forte. Na noite em questão meu pai havia chegado completamente bêbado em casa e atirado um pedaço de madeira na minha direção. Eu só não queria ter que explicar os hematomas no rosto.
- Eu nunca tinha prestado muita atenção na Rebeka. – Mark sorriu, girando o garfo em seu prato – Mas aquele naquele dia, ela estava completamente incrível.
Balancei a cabeça outra vez, agora sabendo melhor do que ele falava. Rebeka sempre havia sido bonita, mesmo sem a produção a que ele se referia.
- Mas é só isso por enquanto. – concluiu despreocupadamente.
Me peguei pensando se Rebeka o via do mesmo modo, ou se ela estava realmente gostando dele.
Deslumbrada deveria estar, com a casa, com as coisas que ele podia proporcionar.
- Você também deveria ter um celular. – a mudança de assunto me pegou desprevenido.
- Você sabe que sem emprego não vai ter como. – respondi com desânimo. Nem com emprego eu poderia comprar, já que teria que deixar uma boa parte do salário para as contas da casa.
- Não. – Mark ficou em pé de repente – Eu preciso de um novo. Eu compro e você fica com esse.
Não era de se espantar. Ele sempre me dava de tudo, não apenas refeições. A própria roupa que eu estava usando naquele instante havia sido um presente.
Abri a boca para recusar, afinal um celular parecia um presente um pouco caro demais, mas Mark fez sinal para que eu me calasse e saiu em disparada para seu quarto. Logo em seguida ele estava trocado e com as chaves do carro na mão.
O shopping era um lugar onde eu me sentia mais à vontade, já que eu sempre podia ir para lá e não gastar nenhum dinheiro, mas entrar nas lojas para ver celulares era algo com que eu não estava habituado.
Mark pegou um modelo moderno, o qual eu não entendia metade das funcionalidades, e logo me passou o seu antigo com um número novo e só meu.
- Vamos pegar um sorvete e ver a Rebeka. – ele me guiou até o quiosque.
A garota estava em um momento calmo, encostada no balcão e sozinha. Provavelmente uma enorme quantidade de pessoas já havia passado por ela naquele horário, eu já havia visto a fila enorme que se formava no horário de almoço.
- Sério. É impossível fazer isso sozinha. Meu colega saiu hoje. – ela me disse assim que nos aproximamos
– Amanhã você vem comigo, já conversei com meu chefe.
Demorei um segundo para perceber que eu estava empregado.
- Muito obrigado! – exclamei, verdadeiramente agradecido pelo que ela havia feito.
- Vou ter que passar muito aqui para ver vocês dois. – Mark se inclinou para beijar levemente os lábios dela, sem qualquer preocupação, mas eu notei o olhar que Rebeka lançou ao redor.
Levamos algumas horas para voltar para a casa de Mark, já que ele aproveitou para comprar algumas roupas novas, e quando estacionamos na garagem, o carro dos pais dele já estava lá.
Mark fazia aniversário em agosto, então ele podia andar com o carro legalmente há quatro meses. Eu, que fazia aniversário no último dia do último mês, ainda não sabia como conseguiria sequer tirar minha habilitação, quanto mais ter um veículo só meu.
Lavinia veio animadamente ao nosso encontro, sem parecer nem reparar nas sacolas que o filho equilibrava nos braços.
- Você janta com a gente, não é, Renan?
- Claro. – concordei – Se quiserem.
- Claro que queremos. – Mark me cutucou.
- Mark, empreste umas roupas para ele. Nós vamos em um restaurante novo que abriu. – ela saiu quase saltitando.
Eu preferia comer em casa, mas depois de já ter concordado não havia uma forma de escapar, então fui até o quarto com Mark e deixei que ele colocasse uma sequencias de camisas na minha frente até decidir o que ficaria melhor em mim.
- A preta fica melhor. É isso. – decretou.
Coloquei as peças selecionadas e me olhei no espelho. Automaticamente eu ri.
- O que foi? – Mark estava vestindo uma camisa branca.
- Não sei, é estranho me ver assim. – virei de um lado para o outro, sentindo que nunca estivera tão bem vestido antes.
- Você está ótimo. – ele elogiou, sem se preocupar em me olhar outra vez.
- Vai levar Rebeka? – pensei em sentar na cama, mas desisti por medo de amassar o tecido da calça.
- Com meus pais? Jamais. – ele afastou a ideia com um tremor – Mamãe ficaria alucinada, pensando que ela é minha namorada. De toda forma, ela ainda deve estar trabalhando.
O restaurante não era tão chique quanto eu temia, mas todas as pessoas estavam muito bem arrumadas e a decoração era um pouco exagerada para os meus padrões. Fiquei com medo de esbarrar em algo e acabar quebrando.
Por um tempo nós apenas comemos - para minha alegria a comida era ótima -, mas depois Lavinia olhou para Mark com olhos brilhantes demais.
- Mark, sua irmã vai vir para casa. – anunciou com a voz alegre.
- Megan vai voltar? – Mark largou os talheres com um ruído.
Seu sorriso foi tão alegre quando os dos pais naquele momento, e eu me senti sobrando.
- Não é ótimo? – Eduardo estimulou o filho.
- Claro que é! Não sei nem por que ela quis estudar em um internato.
Eu lembrava vagamente de Megan. Um ano mais velha do que nós, loira e de olhos azuis – praticamente uma versão feminina de Mark.
- Bom, depois de passar um ano viajando, ela resolveu voltar para casa. – Eduardo prosseguiu o assunto.
- Isso é ótimo. – Mark repetiu, mais para si mesmo, enquanto pegava os talheres outra vez.
Sentados no banco de trás do carro, enquanto Lavinia e Eduardo cantarolavam uma música antiga, resolvi conversar sobre o assunto.
- Então, realmente animado com a volta de Megan?
- Claro que sim! Meus pais a visitaram há alguns meses, mas eu não a vejo há uns dois anos.
Balancei a cabeça, concordando, por mais que não entendesse. Eu tinha um irmão mais velho, Robert, mas não sabia nada dele há tanto tempo que já estava começando a acreditar que ele nem mesmo existia.
Pensei seriamente em voltar para casa, mas sabia que ainda era cedo demais e meu pai poderia discutir comigo outra vez, então quando me dei conta já estava sentado na cama de Mark usando as roupas de antes.
Meu amigo revirava seu guarda-roupa, tirando várias peças para encaixar as novas, e eu já havia percebido que me daria todas elas.
- Quer que eu coloque nessa sacola? – ele não esperou resposta para iniciar o movimento.
- Obrigado. – agradeci – De verdade.
- Que é isso? – ele deu um tapinha nas minhas costas – Somo como irmãos.
Mark era cuidadoso comigo. A primeira roupa que me deu, eu nunca me esqueci, foi um casaco vermelho após uma semana que havíamos nos conhecido. Eu estava com frio na escola, mesmo usando a melhor roupa de frio da época, e ele simplesmente tirou e me disse que era presente.
Ele era assim. Apesar de conseguir gastar altas quantias num tempo assustadoramente curto, também distribuía presentes sem precisar pensar. Seus pais não eram muito diferentes, e eu tinha certeza que Mark havia aprendido com eles.
- Talvez seja melhor eu ir para casa agora. – falei sem nenhum ânimo, sabendo que já era tarde o suficiente para meu pai ter despachado a namorada.
- Pode ficar, se quiser. Você sabe. – Mark disse, sentado ao meu lado com os olhos vidrados na televisão.
Eu adoraria ficar, claro. Mas meu pai seria terrível quando eu voltasse, dizendo que eu estava virando as costas para a família. Era tudo completamente sem cabimento, já que era ele mesmo que sempre me afastava, mas eu já tinha desistido de tentar entender.
Saí pela porta da frente, para poder me despedir e agradecer aos pais de Mark mais uma vez, e depois andei lentamente para casa.
Tudo estava silencioso quando entrei, mas os indícios do domingo festivo de meu pai estavam por todo lugar. A casa estava terrivelmente bagunçada e com os mais variados cheiros, então apenas pulei por cima da confusão e me escondi no quarto.
Quando meu pai acordou na manhã seguinte, mal humorado e com dor de cabeça, eu já havia limpado a maior parte da bagunça. Eu não fazia isso por ele, mas por mim mesmo, eu merecia ter um pouco de organização em meio ao caos das nossas vidas.
- Vou ir trabalhar, garoto. – sua voz estava rouca.
- Tudo bem. – procurei não o encarar – Só para avisar... Arrumei um emprego, começo hoje.
- Ótimo. – retrucou, já abrindo a porta da frente.
Respirei aliviado quando a porta se fechou. Era tudo tão mais simples quando meu pai não estava, mesmo que ficar em casa fizesse eu sentir muita falta de minha mãe.
Rebeka apareceu para irmos juntos trabalhar, já com uniforme que eu deveria usar em mãos, e sentou na sala enquanto eu me trocava no quarto.
- Aqui é mais familiar para mim. – sorriu de lado.
- É, posso entender. – fechei a porta do meu quarto antes de sairmos.
Fomos andando lado a lado. O shopping não ficava muito longe, seria uma caminhada de mais ou menos meia hora.
- Mark é mesmo o cara legal que parece? – ela me perguntou, de um jeito despreocupado demais para alguém que não estava desconfiada.
- É. – confirmei com lealdade – Nós nos conhecemos há muito tempo. Ele é ótimo.
- A casa é incrível, não é? Eu nunca tinha visto nada assim antes. – havia animação em sua voz – A primeira vez fiquei completamente perdida. É tudo tão lindo.
Não respondi nada. Eu podia entender o deslumbramento dela, eu mesmo já passara por aquilo no começo, mas fiquei me perguntando se esse era o maior atrativo de Mark em sua opinião.
- Você gosta dele? – perguntei depois de alguns minutos.
- Você conhece, Mark. – Rebeka deu uma risadinha – Ele é um cara legal, atencioso e... não sei, ele é uma pessoa especial.
Fiquei com a impressão de que a garota estava muito mais interessada nele do que ele nela, mas não disse nada.