Capítulo 2

— Senhor Fassini! — Um jovem rapaz diz atrás de mim, me fazendo virar para encará-lo. Não acredito que aquele pirralho cresceu tanto assim! Penso tomado de surpresa. Ele tinha apenas 9 anos quando sai dessa casa.

— Doug? — indago e ele sorri.

— Sim, senhor. Eu vim para ajudá-lo com a sua mala — diz apontando o objeto perto da porta.

— Claro. — Ele caminha em direção da única mala que eu trouxe, pois não pretendo ficar muito tempo por aqui. O garoto segue para as escadas e eu vou até uma das janelas da sala e observo a pequena casa ao longe através dela. Passo longos minutos esperando que algo aconteça, mas nada acontece. Não vejo o senhor Genário, nem a senhora Luciana e nem ela.

— Pus sua mala no seu antigo quarto, patrão. — Doug diz me fazendo tirar os olhos da janela.

— Pare de me chamar assim! — resmungo com um tom rude e seco e volto o meu olhar para janela.

— Desculpe, senhor! — falou receoso, me fazendo fechar os olhos, tentando não perder a paciência.

— Querido? — A voz de Mariajú ecoa na sala quando penso em repreender o garoto mais uma vez. Eu me viro para olhá-la. A mulher parece receosa. — Sua mãe acordou, ela deseja vê-lo agora — avisa.

— Não! — falo rígido demais, trincando o meu maxilar e pressionando os dentes com força. Mariajú parece surpresa com a minha atitude. Ela balbucia, mas as palavras parecem não querer sair da sua boca. Tenho vontade de perguntar por ela, de saber como ela está. Saber se ainda mora aqui, mas não faço. — Vou para o meu quarto. Preciso tomar um banho e tirar essa roupa de cima de mim. Depois a vejo. _Digo andando com passos largos direto para as escadas.

— Mas, menino, sua mãe...— A empregada tenta protestar e eu paro os meus passos na metade do caminho, lançando-lhe um olhar duro.

— Basta, Mariajú, já disse, depois! — rosno demostrando a minha impaciência. Ela engole suas palavras e aceita, acenando com a cabeça e saindo da sala em seguida e Doug vai atrás dela. Eu olho de relance para a janela e sigo para as escadas.

O meu quarto. Mais que diabos! Este cômodo é o cenário mais forte de toda essa imensa casa. Onde eu estava com a cabeça quando pedi pra ficar aqui? Porque não fui para um hotel? Largo o sobretudo que estava sobre o meu antebraço, o dobro minuciosamente, o colocando em cima da cama gigante, que fica bem no centro do quarto. Faço o mesmo com o terno, a camisa e com a calça. Depois de tirar os sapatos lustrosos e as meias e sigo para o banheiro. Lá dentro, eu tiro a única peça que envolve o meu corpo e entro debaixo do chuveiro. A água fria é a melhor coisa nesse momento. Ela acalma as minhas emoções, estabiliza a minha sanidade e renova as minhas forças. Minutos depois, eu saio do banheiro envolvendo uma toalha na cintura e usando uma toalha menor para secar os meus cabelos. Ao entrar no quarto, meus olhos vão para cama e as lembranças de uma noite de amor me invade a mente imediatamente. Ainda consigo escutar os seus sons, ver o brilho dos seus olhos, sentir o seu calor em minha pele. Mais que porra!!! Eu preciso esquecê-la. Isso tudo é uma grande merda! Alguém bate a porta e eu ponho apenas um short folgado e peço que entre. Mariajú adentra o quarto com uma cara de pânico.

— O que houve?— pergunto encarando o seu rosto pálido.

— É a sua mãe. — Ela diz me deixando em alerta. — Ela não está bem. — Nem espero que termine, pois saio correndo para fora do quarto e em direção a primeira porta do longo corredor.

Dona Giovanna Fassini descobriu a alguns anos uma doença congênita no coração e desde então tem feito muitos tratamentos que não tem ajudado em nada. A cada dia ela foi perdendo suas forças e ficando cada vez mais fraca. Sim, tenho recebido notícias suas durante esses dois últimos anos através da Mariajú. Ela tem me pedido insistentemente para que eu voltasse para casa, mas eu não estava preparado, não ainda. Na verdade eu nunca estive preparado para esse dia e talvez eu nunca estivesse. Mas fiz das tripas coração para vir até aqui hoje, porque ela insistiu que tem algo para me dizer. O que ela teria para me dizer que eu já não saiba? Me perguntei por várias vezes. Entro no quarto e observo a minha deitada em sua cama, no meio dos lençóis brancos. Ela está assustadoramente magra, pálida e respirando através de uma máscara. A visão é de cortar o coração. lentamente eu vou até a sua cama e ela me estende uma mão trêmula. Eu a seguro me aproximando ainda mais. Sinto a sua pele gelada na minha e seus olhos claros se enchem de lágrimas. Me sinto um filho da puta por não ter vindo antes. Totalmente desarmado, eu me sento ao seu lado e de frente pra ela.

— Meu filho. — Ela diz emocionada e com a voz fraca.

— Oi, mãe! — sussurro.

— Você veio, meu menino — sussurra.

— Sim. — É tudo o que consigo dizer. Em algum momento ela para de falar e parece que vai morrer bem na minha frente.

— Eu vou chamar um médico — falo fazendo menção de me afastar da cama, mas ela segura a minha mão fazendo um não lento com a cabeça. — Mãe, por favor, você precisa — insisto.

— Não, Edgar, eu preciso falar. — Eu não entendo a sua relutância. — Querido, eu não tenho muito tempo.

— Tempo para quê?

— Para te contar o que realmente aconteceu. A Rose... a...

— Não quero saber dela! — Eu a corto impaciente. — Por que você quer falar sobre ela justo agora? — rosno irritado, tentando mais uma vez me afastar dela.

— Porque ela não fugiu, filho. — Ela diz agora com dificuldade. A respiração ainda mais curta. Eu solto a sua mão. O que ela está me dizendo? Que porra é essa?

— O que está me dizendo, mãe?— pergunto em um fio de voz. Dona Geovanna leva a máscara ao rosto e respira algumas vezes. Depois, ela a afasta a máscara e continua.

— Seu pai, Edgar, ele sabia de vocês, ele sempre soube. Ele sabia que você desistiria de tudo se soubesse... — Ela para de falar e puxa a respiração com dificuldade. Os lábios começam a ficar roxos.

— Alguém chame um médico! — grito dentro do quarto. — Mãe, me escute, não quero que fale mais nada, você precisa descansar...

— Não, Edgar, me deixe falar, é a minha última chance — insiste. Sem alternativa, aceito o que me pede.

— Rose estava grávida, filho — diz. O meu coração pula com violência dentro do meu peito e eu sinto o ar me faltar.

— Do que você está falando, mãe?!— questiono contendo uma dor que parece me rasgar por dentro.

— O seu pai descobriu tudo. Você tinha que ir para a faculdade, e ele não queria que você soubesse. — Uma lágrima escorre pela minha face e um nó aperta a minha garganta, impedindo que o ar passe.

— Isso já não importa mais, mãe, ela me deixou. — Deixo que a mágoa fale mais alto.

— Não, querido, ela não te deixou.— Suas palavras são como vários punhais, penetrando a minha carne e rasgando o meu peito e sem dó, entrando no meu coração, o fazendo sangrar. É inevitável. As lágrimas rolam pelo meu rosto como uma torrente.

— Por Deus, não me diga isso! — peço com desespero na alma.

— Enviamos você para os Estados Unidos no dia seguinte e ela não teve a menor chance, Edgar.— Não espero que ela termine a frase. Larguei a sua mão e levantei-me da cama bruscamente e me pus a andar de um lado para o outro do quarto, me sentindo traído por minha própria mãe. Vinte anos... Eu a julguei por vinte longos anos. A vi como uma traidora, a acusei de tudo de ruim que assolou a minha vida. Eu perdi vinte malditos anos das nossas vidas! Caminho desolado para a porta e saio do quarto a passos largos.

— Edgar, Edgar, filho? — A escuto me chamar, mas não posso... simplesmente não dá para olhá-la nos olhos agora. Desço as escadas apressado e alcanço a saída da casa procurando ar para respirar. Entro na garagem e caminho entre os automóveis de luxo e chego a única coisa que vai me dar a sensação de liberdade nesse momento. Puxo a capa preta jogando-a em qualquer lugar e observo a moto, uma Suzuki GSX 1000 por um curto espaço de tempo. Pego a chave no porta chaves que tem na parede e o capacete em uma prateleira e em segundos ganho a estrada. Saio sem rumo, sem direção, deixando que as lágrimas encham os meus olhos e embaçassem a minha visão. Rose... Meu Deus como eu pude? Como eles puderam? Sinto a dor lacinante arder dentro meu peito. Meu Deus, um filho! Isso é desesperador! Eu tenho um filho e se quer sabia disso. Enrico Fassini, destruiu mais um pedaço de mim. 

Capítulo 3

Em algum lugar do Rio de Janeiro.

Luís Renato Alcântara.

— Tem certeza que quer fazer essa compra Luís? Não sei. O hotel está falido. — Meu sócio pergunta encarando o empreendimento praticamente em ruínas.

— Mas esse é o mérito Marcos. Pegamos o hotel falido. Fazemos uma boa reforma nele e fazemos ele produzir  — falo com entusiasmo na voz. Marcos dá de ombros e me encara especulativo.

— Qual é, Luís, nunca fizemos isso antes. Como sabe se vai dá certo? — inquire receoso. Dou de ombros.

— É só olhar as plantas, meu caro. O hotel tem potencial, olha essa área e esse espaço, o lugar onde ele está posicionado, ele é perfeito! A Ana pode fazer os projetos de melhoria nele e ele vai ficar igual aos nossos padrões. — Marcos começa a observar atentamente a planta. Meu celular começa a vibrar em cima da mesa de reuniões. Deixo Marcos olhando a planta e atendo a chamada.

— Luís Alcântara falando.

— Doutor Luís, é o Max.

— Ah! Oi, Max! Alguma novidade?

— Sim, encontrei a casa onde a senhora Rosa Falcão viveu quando criança.

— E sobre o pai da Ana?

— Edgar Fassani? Acabei de mandar um dossiê para o seu e-mail.

— Ótimo, Max! — falo saindo com passos apressados da sala de reuniões e sigo para o meu escritório. Janete minha atual secretária tenta falar algo, mas não lhe dou atenção e entro na minha sala, abrindo com ansiedade a tela do meu computador e em seguida a caixa de e-mails e lá está...

— Estou olhando o arquivo agora, Max — digo ainda ao telefone.

— Mais uma coisa, senhor.

— O quê?

— O senhor Fassini chegou ao Brasil a três dias. — Paro abruptamente o que estou fazendo. Porra isso é, meu Deus! Como vou contar tudo isso para Ana agora?

— Onde? — procuro saber.

— Goiás, senhor. O endereço já está no dossiê.

— Obrigado, Max! Fez um ótimo trabalho, como sempre!

— Disponha, senhor Alcântara, precisando, é só chamar. — Desligo o telefone e o largo sobre a mesa, ainda olhando para a tela do meu computador atentamente.

Dossiê.

Nome: Edgar Fassani. Idade: 45 anos Naturalidade: brasileira. Estudou na faculdade de Minnesota EUA. Atualmente reside em Hamburgo - Alemanha. Formado em administração.

Sobre os pais:

Mãe: Giovanna Fassini. Pai: Henrico Fassini. Endereço: Rua Niquelândia - 124 Anápolis- GO

Fico parado olhando para a tela do computador, praticamente paralisado. O que fazer com tamanha informação? A alguns anos, quando eu e Ana estávamos em nosso cantinho, após fazer amor com a minha esposa, ela parecia especialmente inquieta. Fui dando-lhe carinho e uma atenção especial, até que ela começou a falar-me sobre a sua mãe. Fazia tempo que não falava sobre ela, mas aquela semana era aniversário de sua morte e em um momento do seu desabafo, ela me contou um fato que até então eu desconhecia.

— Ela estava morrendo e foi a primeira vez que me falou dele.

— Dele quem? —Perguntei acariciando as costas nuas. Estávamos em uma casa de veraneio no meio das montanhas, deitados debaixo do cobertor no chão da sala e de frente para uma lareira acesa. Ao nosso lado, havia um balde com gelo, onde o vinho descansava e ao lado do balde, duas taças pela metade. Eu beijei o seu rosto delicado.

— Meu pai. — Ela disse.

—Seu... pai? —perguntei perdido. — Achei que não tinha mais ninguém — comentei completamente surpreso. Ela suspirou audível.

— Eu também achei... Mas depois que tudo se acalmou, eu tive tempo para pensar... Eu posso ter um pai por aí... e avós... — disse, mas não sei se estava feliz por isso, ou receosa, talvez os dois. Desde então, resolvi investigar, sem que ela soubesse e aqui estou eu com as informações que a levará até uma parte da sua família que ela nunca conheceu na vida.

Alguém bate a porta e eu fecho rapidamente a tela do computador.

—Me abandonou na sala de reuniões pra namorar, garanhão? — Marcos diz ao entrar na sala.

— Ah... eu... Não. Eu precisava... — gaguejo as palavras e ele me lança um olhar especulativo.

— Qual foi? — Marcos pergunta dando alguns passos em direção da minha mesa.

— O quê? — Ele rola os olhos.

— Qual é, Luis, fala sério, cara! Você nunca gaguejou na vida. Desembucha — pede com seu habitual tom debochado, se acomodando na cadeira a minha frente. Encaro o meu amigo e penso se deveria me abrir com ele. Penso que mal nenhum faria, desde que ele mantenha a sua boca fechada.

— Encontrei o pai biológico da Ana — falo de uma vez. O cara arqueia as sobrancelhas perplexo.

— Como é, o pai biolo... A Ana tem um pai biológico? — inquire embasbacado.

— E quem não tem, retardado? —Ele rir.

— Vivo, imbecil. Eu quis dizer vivo — esclarece.

—Tem. — Me encosto em minha cadeira e suspiro.

— E ela não sabe?

—Não, quer dizer, ela sabe da existência dele, mas não tem certeza se está vivo, entendeu?

— E qual o problema em contar? — pergunta com desdém.

— Eu investiguei sem que ela soubesse e não sei como vai receber essa notícia — digo. Ele dá de ombros.

— Bom meu, amigo, você investigou, encontrou suas respostas e não é justo ficar calado. Esse segredo não lhe pertence. — Ele diz e pela primeira vez vejo o meu amigo levar um assunto a sério de verdade. Pondero as palavras do meu amigo por alguns segundos. Ele está certo e pensando assim, assinto em concordância.

— Você está certo, Marcos, vou contar tudo pra ela ainda hoje.

— Bom, garoto! — diz erguendo o seu corpo da cadeira e afaga os meus cabelos espalhando os fios para todos os lados.

— Vai se fuder, Marcos! — ralho, fingindo irritação e ele gargalha.

— Olhei a planta. —Ele muda de assunto. —Se você acredita no projeto, eu também acredito. Quando podemos fechar a compra? — sorrio amplamente.

— Posso pedir para Janete marcar um almoço amanhã —sugiro e sorri.

— Faça isso, estou indo para casa. Minha morena tem uma surpresa pra mim essa noite. — Ele pisca um olho cúmplice pra mim.

— Será que é mais um filho? — Brinco. Ele põe as mãos nos bolsos e me encara sério.

— Não diz isso nem brincando, Luís. Da última vez, eu a deixei em casa em pleno trabalho de parto, de tão perdido que eu fiquei — resmunga.

— Ainda me acabo de rir quando me lembro disso. No que estava pensando, Marcos Albuquerque?

— Em nada senhor, certinho. Saindo, você vem? — pergunta.

— Vou, só preciso imprimir isso aqui. — Aperto o botão de enter e em poucos minutos tenho o dossiê montado em minhas mãos.

Paro meu carro no estacionamento da minha casa e Marcos para o seu ao lado do meu. Pego a pasta executiva que está no banco do carona e saio do carro em seguida e assim que entro na imensa sala de visitas posso ver o trio que mais amo nesse mundo através da enorme janela de vidro transparente. Jonathan, Cristal e Caio estão brincando na piscina com alguns amigos de escola. Sorrio e aceno para os meus filhos através da janela. Depois sigo atravessando a sala e no caminho, Delia avisa que a senhora Alcântara está no terceiro andar da casa com algumas amigas.

—Imagino que a minha morena esteja junto. —Meu amigo comenta parando ao meu lado.

—Não duvido, essas duas não se desgrudam nunca! — falo com um tom de brincadeira e subimos as escadas. Do início do largo corredor já posso vê-la e acredite. Após esses oito anos de casados, ainda fico impactado com a sua beleza. Ana tem uma beleza suave, angelical. Um sorriso que ainda me deixa amolecido. Por isso faço tudo o que me pede. É linda... O meu anjo. Sorrio quando os nossos olhos se encontram e de repente me vejo preso em um mundo só nosso. Nada parece existir quando seus olhos amendoados prendem os meus. Porra, como se pode amar alguém tanto assim?

— Bonitão? — A voz da Mônica ressoa quando ver o marido se aproximando. Eu chego perto da minha garota e a puxo para um beijo cálido, sem nenhuma cerimônia ou aviso prévio.

— Hiiii, chegou o esquadrão masculino para acabar com a festa das meninas! — Minha irmã, Lilian reclama e só então percebo sua presença ali.

— Olá, pra você também irmãzinha! —retruco irônico, me afastando da minha esposa e a beijando no rosto. — Preciso falar com você — falo com um tom baixo e sério para que apenas ela me escute.

— Está tudo bem? Por que precisa falar comigo? — Ana inquire com preocupação. Suspiro.

— Podemos ir ao escritório, é importante — peço. Ela avalia o meu rosto. —Tudo bem! Meninas, eu volto logo. — Ana avisa. Ela segura a minha mão e me puxa para fora do cômodo. No caminho me aproveito da minha deliciosa mulher, que está usando um vestidinho de algodão grafite, soltinho da cintura para baixo. Aprecio o balançar bunda arredondada, sacudindo levemente o vestido enquanto anda na minha frente. Paramos em frente a porta do escritório da nossa casa e solto a sua mão, abrindo a porta para lhe dar passagem. Ela entra e olha direto para o sofá de couro negro com um sorriso sugestivo. Safada! — E então, sobre o que o meu marido lindo quer conversar? — indaga com um olhar malicioso. Ela realmente pensa que eu arrumei uma desculpa para trazê-la até aqui? Sorrio. Só queria.

—Eu tenho algo para te mostrar.

— O que é? — pergunta se desfazendo do meu termo e o largando com cuidado em cima do divã.

— Um documento.— Hesito. Ela ergue o olhar e me dá um sorriso significativo.

— Quer que eu trabalhe na minha folga, doutor Alcântara? — sussurra ao pé do meu ouvido. Porra! Ela quer tirar a minha sanidade, só pode! Seguro em seus braços a afastando um pouco e ela me encara atônita.

— É sério, pequena, eu realmente preciso te mostrar uma coisa —insisto. Ana se afasta e me lança um olhar confuso, receoso.

—Tá bom então, o que você tem pra me mostrar? — Agora ela parece curiosa.

— Espere aqui, eu volto logo —  peço e ela assente. Saio do escritório rapidamente e volto até o meu carro, abro rapidamente a porta do carona e pego a minha pasta e tiro o envelope com o dossiê. Respiro fundo. Começo a me arrepender de ter feito isso. Logo agora que tudo está tão calmo! Volto para o escritório e encontro os olhos especulativos da minha esposa, que vão para minha mão que segura o papel pardo.

— O que é isto? —indaga curiosa.

— Antes de te entregar, quero que saiba que eu só fiz isso porque eu te amo  — confesso, cheio de receios.

— Você está me deixando com medo, Luís — sibila. Eu lhe estendo o envelope e ela o segura, o olhando por algum tempo. Em silêncio, Ana se afasta de mim e vai até a sua mesa do outro lado do escritório. Ela tira as folhas de dentro do envelope e o descarta o sobre a mesa de vidro e fica um tempo ali parada, olhando atentamente as letras negras no papel branco. Os minutos de silêncio, são como o inferno pra mim e quando termina e ergue os seus olhos pra mim, me amaldiçoou imediatamente, ao vê-los marejados. Engulo em seco. Sabia que não devia ter feito isso. Puxo a respiração quando vejo uma lágrima escapar dos seus olhos e em seguida os soluços..

— Você o encontrou — sussurra.

— Sim —  digo no mesmo tom. Ela se senta no sofá como se de repente o chão lhe faltasse e eu rapidamente vou ao seu encontro, me sentando ao seu lado, segurando sua mão livre e a beijo. — Você está bem?. —Procuro saber, cuidadoso, cauteloso.

— Não sei. Era bem mais fácil pra mim quando ele não tinha um nome e agora... —Ela não termina a frase. Suspiro baixinho.

— Ana, só vamos fazer o que você quiser — falo. Cacete, se arrependimento matasse!

— Eu posso ter uma família... além da que tenho com você... — gagueja com a voz trêmula.

— Sim, querida. — Apenas concordo beijando carinhosamente os seus cabelos. De repente ela se levanta e vai até a janela.

— E se ele não quiser me conhecer? — inquire com voz baixa. Eu me levanto vou até a minha pequena, a abraçando por trás e aspiro o seu perfume.

— Então ele é muito idiota, porque você é uma mulher maravilhosa! — sussurro. Ela me dá um meio sorriso.

— Preciso pensar um pouco, Luís — pede.

— Claro, amor.

— Será que você pode me deixar sozinha? — Ela pede para minha surpresa e eu hesito no mesmo instante. — Por favor, querido, eu só preciso absorver tudo isso aqui —insiste e eu concordo, mesmo contra a minha vontade.

— Estarei do outro lado dessa porta, se precisar, é só me chamar — falo. Ela assente. Eu a beijo de leve e saio da sala, fechando a porta em seguida.

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