O aroma de especiarias preenchia a sala de jantar enquanto Josh servia os pratos. Lana observava discretamente Ethan do outro lado da mesa, estudando cada detalhe de seu rosto que não havia mudado com o tempo – os olhos escuros e penetrantes, a mandíbula marcada que se contraía quando ele sorria, os lábios perfeitamente desenhados. Agora, com a proximidade, ela notava detalhes que sua memória adolescente não havia registrado: uma pequena cicatriz quase imperceptível acima da sobrancelha direita, a maneira como seus dedos longos e fortes seguravam a taça de vinho, o modo como sua camisa se ajustava perfeitamente aos ombros largos.
"Então, Ethan," Josh comentou enquanto se sentava, "conte a Lana sobre aquele projeto em Dubai. Ela vai adorar ouvir sobre o conceito de design sustentável que você implementou."
Ethan sorriu, seus olhos encontrando os de Lana por um breve momento antes de começar a falar. "Foi um desafio interessante. O cliente queria algo inovador, mas que respeitasse as tradições locais."
Enquanto ele falava sobre o projeto, Lana não conseguia deixar de admirar a paixão em sua voz. Seus ancestrais de Xangai haviam lhe dado não apenas os traços asiáticos marcantes, mas também uma apreciação profunda pela harmonia entre tradição e inovação.
"Impressionante," ela comentou quando ele terminou, tomando um gole de vinho para disfarçar o calor que subia pelo seu pescoço. "Sempre soube que você chegaria longe. Lembro de ver seus desenhos quando você e Josh estudavam juntos."
"Você prestava atenção?" Ethan perguntou, uma sobrancelha levemente erguida.
"Mais do que você imagina," ela respondeu, sustentando seu olhar com uma confiança que não possuía aos quinze anos.
Josh riu, completamente alheio à tensão que crescia entre eles. "Lana praticamente idolatrava você. Tinha um crush gigantesco, não é mesmo, maninha?"
Lana sentiu o rosto esquentar, mas manteve a compostura. "Eu era uma adolescente impressionável.
Qualquer cara mais velho que aparecesse com um caderno de desenhos me fascinava."
"Qualquer cara?" Ethan provocou, um sorriso discreto brincando em seus lábios.
"Bem, talvez não qualquer um," ela concedeu, permitindo que um sorriso sugestivo se formasse em seu rosto.
Josh levantou-se, quebrando o momento. "Vou buscar a sobremesa. Não comecem a falar mal de mim enquanto estou fora."
Quando Josh desapareceu na cozinha, um silêncio carregado caiu sobre a mesa. Lana aproveitou a oportunidade, inclinando-se ligeiramente para frente.
"Então, Wang & Co. Ouvi dizer que é um dos escritórios mais prestigiados de Nova York agora."
Ethan assentiu, seus olhos nunca deixando os dela. "Temos crescido consistentemente nos últimos anos."
"Impressionante," ela comentou, girando a taça entre os dedos. "Pensei em voltar para a Europa, mas decidi ficar em Nova York."
"Mesmo?" Ele parecia genuinamente interessado. "Josh mencionou que você estava fazendo muito sucesso por lá."
"Estava," ela confirmou. "Mas Nova York sempre será meu lar. Além disso..." ela fez uma pausa deliberada, "há coisas inacabadas aqui."
O olhar de Ethan escureceu quase imperceptivelmente. "Que tipo de coisas?"
Lana sorriu, saboreando o momento. "Sonhos antigos. Desejos não realizados."
Ela observou com satisfação quando ele engoliu em seco, seu pomo-de-adão movendo-se lentamente. Seus dedos brincavam com a borda da taça, e ela se perguntou se ele estava imaginando aqueles mesmos dedos percorrendo sua pele.
"Lana," ele começou, sua voz mais baixa e rouca, "você sabe que-"
"Tiramisu!" Josh anunciou, retornando com uma bandeja. "Receita da Sra. Romano, nossa vizinha italiana. Não é autêntico como o que você comia na Itália, Lana, mas é o melhor que temos."
O momento quebrado, Ethan recostou-se na cadeira, passando a mão pelo cabelo perfeitamente arrumado. Lana notou como seus músculos se flexionavam sob o tecido da camisa com o movimento, e imaginou como seria sentir aqueles braços fortes ao seu redor.
"Então," Josh continuou, completamente alheio à tensão, "Lana, você já contou a Ethan sobre Sara? Elas mantiveram contato todos esses anos, sabia? Mesmo com Lana na Itália."
"Sara?" Ethan perguntou, parecendo grato pela mudança de assunto.
"Minha melhor amiga do ensino médio," Lana explicou. "Ela era líder de torcida comigo."
"Ah, sim," Ethan assentiu, um brilho de reconhecimento em seus olhos. "A loira?"
"Você se lembra dela?" Lana perguntou, uma pontada de ciúme irracional surgindo em seu peito.
"Lembro de vocês duas sempre juntas," ele respondeu diplomaticamente. "Difícil esquecer."
Josh riu. "Ethan sempre foi diplomático. Nunca quis admitir que achava as suas amigas atraentes."
"Algumas regras não devem ser quebradas," Ethan comentou, seus olhos encontrando os de Lana com intensidade. "Especialmente quando envolvem pessoas que importam."
O duplo sentido não passou despercebido por Lana. Ela sabia exatamente o que ele queria dizer – a irmã do melhor amigo era território proibido. Mas ela não era mais uma adolescente, e regras podiam ser reescritas.
"As regras mudam com o tempo," ela respondeu suavemente. "O que era proibido ontem pode ser permitido hoje."
Josh olhou de um para o outro, finalmente percebendo algo estranho no ar. "Estou perdendo alguma coisa aqui?"
"Nada importante," Ethan respondeu rapidamente, desviando o olhar. "Apenas filosofando sobre como as coisas mudam com o tempo."
"Por falar em mudanças," Lana interveio, "estou pensando em comprar um loft. Algo em um bairro bom, perto do centro."
"Sério?" Josh pareceu surpreso. "Pensei que ficaria aqui por um tempo."
"Preciso do meu próprio espaço," ela explicou. "Além disso, pretendo ficar em Nova York permanentemente agora."
Ela não perdeu o olhar que Ethan lhe lançou ao ouvir isso – uma mistura de surpresa e algo mais, algo que fez seu coração acelerar.
"Se precisar de ajuda com reforma ou design de interiores, conheço algumas pessoas," Ethan ofereceu, sua voz casual, mas seus olhos intensos.
"Na verdade," Lana sorriu, "estava esperando que você pudesse me ajudar pessoalmente. Quem melhor que o renomado Ethan Wang para garantir que meu novo lar seja perfeito?"
Josh riu. "Cuidado, Ethan. Quando Lana coloca algo na cabeça, ela não desiste facilmente."
"Estou começando a perceber isso," Ethan murmurou, seus olhos nunca deixando os dela.
O restante do jantar transcorreu em uma dança cuidadosa de palavras e olhares. Para Josh, era apenas uma reunião agradável entre velhos amigos. Para Lana e Ethan, cada palavra carregava duplos sentidos, cada olhar continha promessas não ditas.
Quando a noite chegou ao fim e Ethan se preparava para sair, Lana o acompanhou até a porta enquanto Josh recolhia os últimos pratos.
"Foi bom te ver novamente, Lana," Ethan disse, sua voz baixa para que apenas ela pudesse ouvir. "Você... mudou."
"Para melhor, espero," ela respondeu, deliberadamente se aproximando um pouco mais do que seria apropriado.
"Definitivamente," ele confirmou, seus olhos percorrendo brevemente seu corpo antes de retornarem ao seu rosto. "Mas algumas coisas nunca mudam."
"Como o quê?"
"Como o fato de você ser a irmã do meu melhor amigo," ele respondeu, um tom de advertência em sua voz.
Lana sorriu, inclinando-se para ajustar levemente a os botões de sua camisa, seus dedos roçando deliberadamente contra seu peito. Ela sentiu sua respiração falhar por um instante.
"E como o fato de você não conseguir esconder seu desejo por mim," ela sussurrou, "assim como eu não consigo esconder o meu por você."
Antes que ele pudesse responder, ela se afastou, deixando-o na porta com uma expressão que misturava desejo e conflito. Enquanto observava pela janela Ethan entrar em seu carro e partir, Lana sabia que a batalha havia apenas começado. Ele poderia resistir por enquanto, escondendo-se atrás de regras e lealdades, mas ela estava determinada a quebrar cada uma de suas defesas.
Afinal, algumas paixões eram fortes demais para serem negadas, não importava quantas regras estivessem no caminho.
O sol da manhã filtrava-se pelas cortinas do quarto de Lana enquanto ela observava o teto, repassando mentalmente os eventos da noite anterior. O jantar, os olhares trocados com Ethan, a eletricidade no ar quando ficaram sozinhos por um momento. Ela sorriu, esticando-se languidamente na cama. Seu plano estava apenas começando.
Seu telefone vibrou na mesa de cabeceira. Era Sara.
"Então? Como foi o grande reencontro?" A voz animada de sua melhor amiga ecoou pelo alto-falante.
Lana riu, sentando-se na cama. "Exatamente como eu esperava. Ele tentou fingir que não estava interessado, mas não conseguia tirar os olhos de mim."
"Detalhes, Smith. Preciso de detalhes!"
"Ele está ainda mais gato, Sara. Aqueles anos só o deixaram mais... maduro e viril. E aquela mandíbula, meu Deus." Lana suspirou dramaticamente. "E quando ficamos sozinhos por um momento, eu praticamente senti o coração dele acelerando quando me aproximei."
"E o Josh? Percebeu alguma coisa?"
"Josh é completamente alheio, como sempre." Lana balançou a cabeça, lembrando-se da expressão despreocupada do irmão.
"Mas tenho novidades. Estou pensando em procurar um loft para comprar. Preciso do meu próprio espaço se quero levar esse plano adiante."
"E quanto ao trabalho? Já decidiu o que vai fazer?"
Um sorriso malicioso formou-se nos lábios de Lana. "Por enquanto, vou me concentrar em me estabelecer novamente em Nova York. O resto virá naturalmente."
Sara riu. "Conheço esse tom. Você já tem algo em mente.
"Talvez," Lana respondeu enigmaticamente. "Mas primeiro, preciso de um lugar só meu."
Após desligar, Lana abriu seu laptop e começou a pesquisar imóveis. Precisava de algo sofisticado, em um bairro elegante, não muito longe do centro. Algo que refletisse quem ela havia se tornado – uma mulher confiante, bem-sucedida e determinada.
Uma hora e várias xícaras de café depois, ela tinha uma lista de cinco propriedades para visitar. Fechou o laptop com um sorriso satisfeito e desceu para encontrar Josh na cozinha.
"Bom dia, dorminhoca," ele brincou, empurrando uma caneca de café em sua direção. "Pensei que ia hibernar o dia todo."
"Marquei algumas visitas a imóveis para hoje à tarde." ela respondeu, aceitando o café gratamente.
Josh ergueu as sobrancelhas. "Já? Você não perde tempo."
"Nunca perdi." Ela sorriu, tomando um gole. "Por falar nisso, você conhece bons bairros para lofts? Quero algo espaçoso, com caráter."
"Tribeca tem opções interessantes," Josh sugeriu. "Ou talvez SoHo. Ethan provavelmente saberia melhor, sendo arquiteto e tudo mais."
Lana assentiu, fingindo considerar a sugestão casualmente. "Talvez eu pergunte a ele da próxima vez que o vir."
Josh deu de ombros, voltando sua atenção para o jornal. "Então, vai passar o dia todo procurando apartamento?"
"Esse é o plano," ela respondeu. "Quero me estabelecer o quanto antes."
"Faz sentido," ele comentou distraidamente. "Avise se precisar de ajuda com a mudança."
Algumas horas depois, Lana estava no táxi a caminho do primeiro imóvel. Seu telefone tocou – um número desconhecido.
"Lana Smith," ela atendeu profissionalmente.
"Srta. Smith? Aqui é Michael Torres, da Wang & Co Arquitetura."
Lana endireitou-se no assento, surpresa. "Sim?"
"Recebi seu portfólio através de um contato mútuo na Itália – Alessandra Ricci. Ela falou muito bem do seu trabalho em Milão."
Alessandra havia sido uma de suas clientes mais importantes na Itália, uma socialite com conexões em todo o mundo.
"Alessandra é maravilhosa," Lana respondeu, sorrindo ao lembrar-se da mulher elegante. "Como ela está?"
"Muito bem. Na verdade, ela está planejando um apartamento aqui em Nova York e especificamente pediu que você fosse a designer de interiores do projeto. Quando soube que você havia retornado à cidade, ela entrou em contato comigo."
Lana sentiu uma onda de excitação. Isso era inesperado, mas perfeitamente alinhado com seus planos.
"Estou lisonjeada," ela respondeu. "Adoraria trabalhar com Alessandra novamente." "Excelente. Poderíamos marcar uma reunião na próxima semana para discutir os detalhes? Seria um projeto conjunto entre nosso escritório e você como designer independente."
"Parece perfeito," Lana concordou, sua mente já calculando as possibilidades. Wang & Co. O escritório de Ethan. "Segunda-feira seria conveniente?"
"Segunda-feira, 10h. Anotado. Enviarei um e-mail com o endereço e detalhes preliminares."
Após desligar, Lana não conseguiu conter um sorriso triunfante. O destino parecia estar conspirando a seu favor. Ela nem precisaria inventar uma desculpa para estar no território de Ethan – uma oportunidade havia literalmente caído em seu colo.
O primeiro imóvel que visitou era bonito, mas pequeno demais. O segundo tinha problemas estruturais que a corretora tentou minimizar. O terceiro era promissor, mas a localização não era ideal.
"Tenho mais dois para mostrar," disse a corretora, consultando seu tablet. "O próximo é em Tribeca, como você pediu. Um pouco acima do seu orçamento, mas..."
"Vamos ver," Lana decidiu, lembrando-se da sugestão de Josh.
O momento em que entrou no loft, ela soube. Amplo, com janelas do chão ao teto que inundavam o espaço com luz natural, piso de madeira original e colunas de ferro expostas que davam caráter ao ambiente. A cozinha era moderna, com bancadas de mármore e eletrodomésticos de aço inoxidável. O quarto principal tinha um closet espaçoso e uma vista para o rio.
"Vou ficar com este," ela disse à corretora surpresa. "Pode preparar a papelada."
Enquanto a corretora fazia ligações, Lana caminhou até a janela, observando a cidade abaixo. Nova York. Ela estava de volta, e desta vez, como uma mulher que sabia exatamente o que queria – e como consegui-lo.
Seu telefone vibrou com uma mensagem. Era Josh.
"Como está a caça ao apartamento?"
Ela sorriu, digitando uma resposta. "Encontrei o lugar perfeito em Tribeca. Espaçoso, elegante, com personalidade."
"Rápida como sempre," respondeu Josh. "Jantar para comemorar hoje à noite?"
"Com certeza" ela digitou e então guardou seu celular.
Enquanto assinava os documentos preliminares para o loft, Lana não pôde deixar de sorrir. As peças estavam se movendo exatamente como ela queria, mesmo sem sua intervenção direta. Talvez fosse destino, afinal.
Ou talvez fosse simplesmente o universo reconhecendo que algumas paixões eram fortes demais para serem negadas, não importava quantas regras estivessem no caminho.