Capa do Romance FILHOS DA LUA

FILHOS DA LUA

8.2 / 10.0
Roderick Wolf, o bilionário e Rei Supremo Alpha, governa dez alcateias com punho de ferro há séculos, sem desejar uma nova rainha. Na Austrália, supervisionando um resort que serve de refúgio sobrenatural, ele tromba com Liara Campbell. A veterinária escocesa é irônica, prefere animais a humanos e não se curva ao poder dele. Enquanto a atração cresce, segredos sobre a origem de Liara emergem. Selos antigos estão rompendo e inimigos espreitam para impedir que esse destino se cumpra.

FILHOS DA LUA Capítulo 1

O silêncio Era uma constante na vida de Roderick Likaius Wolf. Este silêncio não era como um copo vazio esperando ser cheio, mas sim um espaço denso, repleto de respeito e temor, onde algumas presenças não precisavam elevar a voz para serem obedecidas. Com trezentos e cinquenta anos, Roderick havia aprendido que o verdadeiro poder se assemelha a uma árvore cujas raízes se espalham silenciosamente pelo solo, estabelecendo-se de maneira sutil. Observando a cidade a partir da cobertura envidraçada, com as mãos escondidas nos bolsos de seu impecável terno, ele contemplava a noite se desdobrando como um manto familiar a seus pés. Os arranha-céus iluminados e o frenético movimento da vida urbana traçavam uma narrativa como um livro que os humanos jamais poderiam imaginar - a de quem realmente caminhava entre eles. Era desse modo que ele preferia viver.

- Prepare o jato, - disse em um tom baixo, firme e decisivo. O homem que o acompanhava permaneceu imóvel, não por impulso, mas em um gesto de lealdade, como um fiel escudeiro ao lado de um cavaleiro. Ele era o Beta, o único que ficava ao seu lado sem desviar o olhar.

- O jato está pronto, senhor. Partimos em quarenta minutos.

Roderick não se virou, mantendo os olhos fixos em seu reflexo no vidro, como um general que observa o campo de batalha antes da missão. Ele era um homem alto, quase medindo dois metros, cuja presença era tão imponente quanto a de um edifício em meio a arranha-céus. Embora seus ombros largos parecessem relaxados, eles escondiam um controle excepcional, semelhante a um maestro que, mesmo em uma pausa, espera pacientemente pelo momento certo para iniciar a sinfonia. Seus cabelos negros, levemente desgrenhados, estavam cortados em um comprimento equilibrado entre o curto e o longo, suficientemente domados para se adequarem ao rigor do ambiente corporativo, como um lobo que, embora selvagem, se adapta ao seu papel em uma alcateia. A barba aparada e o cavanhaque bem definido moldavam um rosto que, apesar da juventude, exibia a gravitas de experiências acumuladas ao longo do tempo, reminiscentes de um livro cujas páginas foram escritas com sabedoria adquirida.

- Quero ver o resort pessoalmente antes da inauguração, - declarou ele com convicção, como um capitão que exige uma inspeção antes de zarpar. - Não confio em relatórios quando se trata do meu território.

O Beta avançou um passo, permanecendo alerta, como um cão fiel que percebe o menor sinal de tensão.

- Tudo está conforme o planejado. A obra foi concluída antes do previsto e a segurança foi reforçada, sem qualquer sinal de movimentação suspeita nas redondezas.

Roderick virou-se lentamente, seus olhos âmbar- quase como uísque- encontrando os do Beta.

- E os guardiões? - Essa questão sempre foi essencial, como a fundação de um edifício que garante sua estabilidade.

- Estão posicionados adequadamente, - respondeu o Beta. - A alcateia local já reconheceu este território como parte de seu domínio, como um terreno familiar que não é questionado.

Roderick assentiu, satisfeito com a resposta.

- E quanto aos lobos selvagens?

Houve uma breve pausa, um sutil detalhe que não passou despercebido por Roderick.

- Eles estão... diferentes, - admitiu o Beta, escolhendo suas palavras com cuidado, como um artista que seleciona cuidadosamente as cores para uma tela.

- Diferentes em que sentido? - questionou Roderick, agora mais intrigado.

- Eles estão mais tranquilos e obedientes, sem sinais de estresse, - notou o Beta.

Uma sobrancelha de Roderick ergueu-se levemente, sinalizando seu crescente interesse.

- Isso é incomum, - comentou ele, sua atenção focada na situação.

- De fato, - concordou o Beta, seu olhar sério refletindo a gravidade do momento. - Considerando que são guardiões, eles geralmente não reagem bem a estranhos e, normalmente, mostram-se bastante indiferentes.

Roderick cruzou os braços, a curiosidade brotando como uma planta buscando luz.

- O que causou essa mudança?

O Beta respirou fundo, como quem se prepara para soltar uma informação valiosa que poderia iluminar a dúvida.

- Contratamos a veterinária, como você pediu.

- E? - questionou Roderick, ansioso por mais detalhes.

- Eles a tratam como se fossem... cachorrinhos, - respondeu o Beta, com incredulidade evidente na voz.

Para Roderick, a palavra parecia tão fora do lugar quanto um gato tentando latir.

- Cachorrinhos? - ele repetiu, com um leve ceticismo na voz.

- Exatamente, - confirmou o Beta. - Ela se relaciona com eles de maneira destemida, como um mestre que comanda uma orquestra, sem subserviência ou agressividade. Os animais se aproximam, obedecem a suas instruções e até permitem que ela os toque, como se soubessem que ela tem o carinho de um cuidador. Alguns chegam a se deitar aos pés dela, buscando conforto.

Um sentimento desconhecido começou a emergir em Roderick, embora ele tentasse rapidamente reprimir essa sensação, como se tentasse esconder uma sombra sob a luz do sol.

- E quanto às pessoas? - ele perguntou, curioso.

- Ah, não tão bem, - disse o Beta, deixando escapar um leve sorriso. - Ela tende a ser arisca e reservada, mostrando pouca paciência para interações humanas - imagine uma ave que prefere ficar em seu galho seguro do que se aproximar de um humano estranho.

Roderick começou a andar de um lado para o outro, perdido em pensamentos.

- Talvez isso explique a conexão, - ele murmurou. - Os animais têm um talento especial para perceber o que os humanos tentam ocultar, como se fossem detetives em busca da verdade em uma sala cheia de segredos.

- Quando chegarmos, o senhor poderá conhecê-la, - informou o Beta. Roderick apenas assentiu, ainda mergulhado em seus pensamentos.

- Vamos ver, - respondeu ele.

O jato atravessava o céu como um pincel traçando a tela da vontade de Roderick. Durante a viagem, ele analisou mapas digitais, relatórios de segurança e dados climáticos, mas sua mente parecia uma onda distante, longe da praia da realidade. Ele refletia sobre os clãs, a pressão por uma rainha e sua própria história - como um livro com páginas em branco sobre um casamento arranjado que não gerou herdeiros, uma companheira que não foi sua escolha, e a solidão que acompanha o poder, como uma sombra persistente.

Havia sido viúvo por cem anos, como uma flor que parecia nunca florescer novamente após a morte de sua luz.

Ainda assim, Roderick encontrava realização em seus empreendimentos. Os resorts que administrava não eram apenas negócios; eram como oásis em um deserto, funcionando como santuários. Nesses espaços, vampiros, licantropos e outras criaturas podiam existir sem serem observados, onde podiam descansar, negociar e sobreviver. Para os humanos, o que se via era apenas luxo e beleza natural, enquanto as criaturas da noite entendiam que ali era um refúgio seguro, como um abrigo na tempestade.

A Austrália, com sua floresta primitiva e energia vibrante, oferecia uma posição estratégica, assim como um castelo em um terreno elevado. Uma das alcateias mais poderosas da região a protegía há gerações, como uma muralha protetora. O novo resort seria inaugurado naquela noite, e Roderick sentia a necessidade de tocar a terra antes de receber qualquer convidado, como um artista que precisa sentir a textura da tela antes de começar a pintar.

Assim que o jato pousou, uma onda de calor denso e úmido o envolveu, como se a própria terra o estivesse saudando. Roderick respirou profundamente, sentindo que aquele ambiente vibrante o reconhecia.

- Está tudo preparado, - comentou o Beta ao seu lado.

Ele contemplou o horizonte, observando a vegetação exuberante e a atmosfera silenciosa que pulsava com vida.

- Vamos para o resort, - afirmou.

Enquanto caminhava pelo local, avaliava cada aspecto: a arquitetura que se integrava perfeitamente à natureza, as rotas de fuga meticulosamente planejadas, os pontos de observação estratégicos e as posições da alcateia. Tudo parecia estar em perfeita harmonia.

- A recepção será hoje à noite? - perguntou.

- Sim, com convidados já confirmados: vampiros, licantropos e híbridos.

- E os humanos? - indagou Roderick, a curiosidade transparecendo em sua voz.

- Apenas aqueles que não têm a menor ideia do que estão presenciando.

Um sorriso de canto surgiu no rosto de Roderick.

- Excelente.

Ele deu alguns passos adiante, sentindo a pulsação da terra sob seus pés, como se estivesse sintonizado com as batidas do coração do lugar.

- Quero visitar o canil dos lobos selvagens.

O Beta, sem hesitar, respondeu:

- Claro.

E assim, enquanto se dirigiam aos guardiões, o destino começava a se desenrolar.

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