A promessa de Heitor era uma mentira.
Ele disse que Juliana estava segura, que a mandara para casa. Mas quando Clara finalmente cambaleou de volta para casa, machucada e quebrada, a mansão estava vazia. Silenciosa. Juliana não estava lá. Suas ligações iam direto para a caixa postal. O pânico, frio e agudo, arranhou sua garganta.
Horas depois, quando o sol começava a manchar o céu de um cinza doentio, a porta da frente rangeu ao se abrir.
Juliana estava ali.
Suas roupas estavam rasgadas. Seu cabelo era um emaranhado de nós. Havia hematomas em seu pescoço, seus braços, suas pernas. A tinta dourada e prateada estava manchada de sujeira, lágrimas e sangue. Seus olhos, aqueles lindos olhos artísticos, estavam ocos. Vazios. Ela olhou para Clara, mas era como se estivesse olhando através dela, para algo horrível do outro lado.
Bárbara, a mãe adotiva de Clara, que estava passando um tempo com elas, desceu correndo as escadas. Ela viu Juliana e soltou um grito estrangulado, a mão voando para o coração antes de desabar no chão em um desmaio profundo.
O mundo se dissolveu em um borrão de sirenes, corredores de hospital e o cheiro estéril de antisséptico. Bárbara foi estabilizada, um leve problema cardíaco causado pelo choque. Mas Juliana... Juliana estava em estado catatônico, recusando-se a falar, seu corpo um mapa dos horrores que ela havia suportado.
Clara sentou-se ao lado da cama de sua filha, uma tempestade de dor e fúria assolando seu interior. Ela ligou para Heitor de novo e de novo, mas ele não atendeu. Ele era um fantasma.
Na manhã seguinte, ele apareceu. Entrou no quarto particular de Juliana no hospital como se estivesse fazendo uma visita casual. Ele parecia impecável em seu terno sob medida, nem um fio de cabelo fora do lugar.
"Você chamou a polícia?", ele perguntou, a voz desprovida de emoção.
"Sim", Clara cuspiu, a voz tremendo de raiva. "Eu contei tudo a eles. O que você fez. O que Karine armou. O que aqueles homens fizeram com ela."
A expressão de Heitor não mudou. "Cancele a denúncia."
"Nunca."
"Foi apenas um mal-entendido", disse ele, acenando com a mão de forma desdenhosa. "Karine estava apenas tentando... animar as coisas. Ela não achou que iria tão longe. Os homens se empolgaram."
"Ela tem dezesseis anos, Heitor! Dezesseis! Ela é uma criança!"
"Eu te compenso", disse ele, o tom entediado. Ele pegou seu talão de cheques. "Um milhão? Cinco? Diga um preço."
O som foi ensurdecedor. Não o do talão de cheques, mas o do tapa. A mão de Clara atingiu seu rosto, a força do golpe liberando uma fração de sua agonia.
Ele nem sequer vacilou. Apenas olhou para ela, um sorriso lento e frio se espalhando por seus lábios. "Você não deveria ter feito isso, Clara."
Ele pegou o celular. Apertou o play.
E a sala se encheu com o som. O som dos gritos de Juliana. O som de homens rindo. O som de tecido rasgando.
Clara se lançou para o telefone, um grito de animal selvagem rasgando sua garganta, mas os guardas dele, que haviam se materializado silenciosamente na porta, a agarraram, segurando-a.
"Veja bem", disse Heitor, sua voz um sussurro venenoso sobre os sons da violação de sua filha. "Se você não retirar as acusações, este vídeo se torna público. Pense na reputação da Juliana. No futuro dela. Na prestigiosa escola de artes em que ela acabou de entrar. Eles não vão querer uma aluna com esse tipo de... bagagem."
Ele estava usando a dor de sua filha como uma arma contra elas. De novo.
De repente, houve um pequeno som vindo da cama. Um gemido.
A cabeça de Clara se virou bruscamente.
Juliana estava sentada. Seus olhos não estavam mais vagos. Estavam fixos no telefone na mão de Heitor, arregalados com um horror novo e mais profundo. Ela tinha ouvido tudo.
Ela olhou para Clara. Seus lábios formaram uma única palavra. "Mãe."
E então ela se moveu.
Aconteceu tão rápido. Num instante, ela estava na cama. No outro, no parapeito da janela. A janela estava aberta, uma brisa fresca da manhã entrava.
"Juliana, não!", Clara gritou, lutando contra o aperto dos guardas.
Mas era tarde demais.
Com um olhar final, desoladoramente vazio, Juliana se inclinou para trás e desapareceu de vista.
Os gritos do pátio lá embaixo foram a última coisa que Clara ouviu antes que seu mundo ficasse completamente silencioso.
Um vazio se abriu na mente de Clara. Seu coração parou. Tudo parou.
Então, um grito primal rasgou seus pulmões. Ela se debateu contra os guardas, uma criatura selvagem de pura e inalterada agonia. Ela se libertou, se arrastando, caindo, rastejando em direção à porta.
Ela correu. Pelo corredor, passando por enfermeiras e médicos atônitos, escada abaixo, suas pernas se enrolando sob ela, fazendo-a cair. Ela se levantou, seu corpo uma sinfonia de dor, e continuou correndo.
Ela irrompeu no pátio no momento em que os paramédicos estavam levantando um corpo pequeno e quebrado para uma maca.
Juliana.
A força deixou os membros de Clara. Ela desabou no pavimento frio, o mundo girando em seu eixo.
Então, ela a viu. Karine Lima. Vestida com roupas cirúrgicas, caminhando com propósito em direção à entrada da emergência para onde estavam levando Juliana.
"Não", sussurrou Clara. Uma força nova e aterrorizante surgiu através dela. Ela se levantou cambaleando e correu, agarrando o braço de Karine.
"Fique longe dela", Clara rosnou, sua voz um grunhido baixo. "Você não vai tocar na minha filha."
Karine olhou para ela, o rosto uma máscara de preocupação profissional, mas seus olhos continham uma centelha de triunfo. "Sra. Soares, eu entendo que você está chateada. Mas eu sou médica aqui. Sou a especialista de trauma de plantão. Preciso ir até a minha paciente."
"Você não é cirurgiã! É uma pesquisadora! Você não tem qualificação para isso!", Clara implorou, virando-se para Heitor, que os havia seguido. "Heitor, por favor. Não a deixe fazer isso. Chame o Dr. Evans. Ele é o melhor."
Heitor hesitou. Por uma fração de segundo, ela viu um lampejo do antigo Heitor, um fantasma do homem que as amara.
Mas então Karine se virou para ele, seus olhos se enchendo de lágrimas de crocodilo. "Heitor, querido, ela não confia em mim. Depois de tudo que você fez por mim... pela minha pesquisa... ela acha que eu faria mal à própria filha dela?"
O lampejo se foi. Seu rosto endureceu.
"Solte-a, Clara", disse ele, a voz ríspida e final. Ele empurrou Clara, a mão áspera em seu braço machucado.
Ele e Karine entraram na emergência, as portas se fechando atrás deles, deixando Clara sozinha no corredor estéril, a luz vermelha acima da porta um olho malévolo e pulsante.
Ela se lembrou de como Heitor ajudou Juliana com suas inscrições para a escola de artes, ficando acordado até tarde para revisar seu portfólio, dizendo a ela que era a artista mais talentosa que ele já conhecera. Ele estava tão orgulhoso.
Como poderia ser o mesmo homem?
A espera foi uma eternidade. Cada tique-taque do relógio era uma martelada em seu coração. Finalmente, a luz se apagou. As portas se abriram.
Karine emergiu, tirando as luvas ensanguentadas com um ar praticado de competência cansada. Heitor estava logo atrás dela.
"Ela está viva", anunciou Karine, um sorrisinho presunçoso brincando em seus lábios. "Mas os danos foram extensos. Trauma grave na coluna e na cabeça. Ela vai viver, mas... ficará em estado vegetativo permanente."
"O quê?" A palavra foi um suspiro engasgado. "Não. Isso não é possível. A queda não foi tão alta."
"Você está questionando meu diagnóstico profissional?", perguntou Karine, a voz afiada. "Você não é mais cirurgiã, Clara. Lembra? Você renunciou."
Clara a encarou, sem palavras. Ela procurou outros médicos, antigos colegas que ainda a olhavam com pena. Eles revisaram os prontuários, os exames. Todos confirmaram. A cirurgia salvara a vida de Juliana, mas houve... complicações. Danos sutis e irreversíveis. Sua filha se fora, uma casca que respirava deixada em seu lugar.
Bárbara estava acordada quando Clara voltou ao seu quarto. O rosto da mulher mais velha era uma máscara de dor.
"A culpa é minha", chorou Clara, seu corpo finalmente tremendo com soluços. "Eu deveria tê-la protegido. Eu o trouxe para nossas vidas." Ela cravou as unhas em seus próprios braços, querendo sentir dor, qualquer dor, para se distrair do abismo em sua alma.
"Não", disse Bárbara, a voz fraca, mas firme. Ela agarrou a mão de Clara, impedindo a automutilação. "A culpa não é sua. É dele."
Os olhos de Bárbara, geralmente tão calorosos, estavam duros como pedra. "Temos que ir embora, Clara. Temos que fugir dele."
"Não podemos", sussurrou Clara. "Ele vai nos encontrar. Ele controla tudo."
"Seu pai... ele era um diplomata. Ele tinha contatos", disse Bárbara, a voz baixa e urgente. "Ele sempre teve planos de contingência. Para nós. Existe uma saída. Eu prometo. Eu vou nos tirar daqui."
Uma semente minúscula e frágil de esperança criou raiz na terra árida do coração de Clara.
Enquanto ajudava Bárbara a arrumar uma pequena mala, ela ouviu duas enfermeiras cochichando no corredor.
"Você ouviu sobre a cirurgia da Cline? Aquela antes da garota Soares?"
"Aquela em que ela perfurou a artéria esplênica? Sim. O paciente quase sangrou até a morte na mesa. Disseram que ela foi imprudente. Entrou em pânico."
O mundo parou. Karine não era apenas desqualificada. Ela era incompetente. Ela era perigosa.
E Heitor a deixara operar sua filha.