Capítulo 2

Nossa diferença é de um ano, mas Taisiya parece saber todas as respostas e eu sou tudo sobre dúvidas.

— Nossa cozinheira disse outro dia que eu sou uma alma velha. Ela estava me explicando, escondido da mamãe, algumas de suas crenças e disse que na religião dela, as pessoas reencarnam, por isso tem certeza de que eu estou na minha última reencarnação, porque meu coração é velho para a minha idade.

— Você é um anjo, isso sim. Se eu for para longe, se esse plano doido de fugir der certo mesmo, vou morrer de saudade. Não vê-la mais vai ser como perder metade do meu coração.

— É só até você estar segura. Então, poderá voltar para me encontrar.

— Não é o que sonhei para mim. Nem o convento e muito menos um marido, quero um palco e minhas sapatilhas.

— Confie em Deus. Você terá tudo isso. Vamos juntas falar com o papai. Ele não nos negará esse pedido — diz, segurando minhas mãos. — Assim, teremos três anos de vantagem para pensar no que fazer. Quem sabe até lá esse homem não arranje outra noiva e você ficará livre.

— Não serei livre para sempre. Só conseguirá esse feito porque sua vocação para a fé é verdadeira, assim como a minha é para a dança.

— Não vamos pensar tão lá na frente. Um dia de cada vez, o mais importante é que saiba que eu sempre vou te amar e proteger, Ana. Mesmo que estejamos longe, eu a protegerei.

Capítulo 2

Rússia

Três meses depois

— Eu não acredito que você resolveu ficar doente nas vésperas de irmos para o convento. — digo, fingindo que estou brincando, mas por dentro triste para caramba.

— Não é? Vou perder a festa da chegada. Combinei com a madre superiora um super baile para essa noite, mas vou ficar devendo — minha irmã diz entre tossidas e eu reviro os olhos.

Taisiya pegou uma virose e o médico não a autorizou a viajar enquanto não estiver cem por cento recuperada.

— Não quero ir sem você.

— Não é como se estivesse viajando para o purgatório, Ana. O papai conseguiu até mesmo que as freiras permitissem levar as sapatilhas para ensaiar em seu quarto.

Sento-me na cama, doida para abraçá-la, mas o doutor também disse não a contatos físicos entre nós ou eu poderia contaminar todas as freiras quando chegasse.

— Prometa que vai ficar boa logo — peço. — Não somos gêmeas por obra do acaso, mas eu juro que consigo sentir sua dor.

— Não seja dramática. Seu desejo é ser bailarina, não atriz, Ana.

— Sei que exagero às vezes, mas eu não estou brincando sobre como sentirei sua falta, Taisiya. Não me faça esperar demais.

— Anastacia, está na hora — meu pai fala da porta.

— Já estou indo, papai!

Ele sai para deixar que eu me despeça da minha irmã.

— Eu vou ficar boa logo e veja se não deixa as freiras de cabelos em pé querendo ensaiar de madrugada.

— Estou levando meu fone sem fio. Não vou fazer barulho. Se há alguém que vai revolucionar aquele convento, é você. Quando a imagino como freira, só me lembro daquele filme antigo, Mudança de Hábito.

— Me identifico — ela diz, sorrindo, mas logo volta a tossir.

— Nos vemos em no máximo uma semana? — pergunto, oferecendo o dedinho mínimo para que ela possa apertar com o seu.

— Pode apostar nisso. Sua vida não é tão divertida sem que eu esteja nela.

— Não é mesmo. Preciso de você, Taisiya.

Dois dias depois

— Anastacia, há alguém lá fora que deseja ver você — uma freira diz, entrando em meu quarto sem bater.

Isso não é incomum. Desde que cheguei fui orientada a nunca trancar a porta e embora me irrite, tenho obedecido porque quando Taisiya chegar, compartilhará o quarto comigo. Com a minha irmã aqui, nem vou me preocupar com as freiras me importunando de cinco em cinco minutos.

Nunca fui rebelde, sou uma garota normal. Em casa, papai me deixava emitir opiniões mesmo que às vezes me desse um puxão de orelha verbal quando achava que eu estava exagerando. Aqui eu não posso falar nada. Tenho que fingir ser agradecida até mesmo pelo ar que respiro e a única maneira de aguentar ficar nesse lugar pelos próximos três anos, será tendo minha irmã ao meu lado.

Olho para o relógio em minha mesinha de cabeceira. Uma hora da manhã.

O que a irmã quer comigo a essa hora?

Não tenho muito tempo para pensar porque em seguida ela liga a luz do abajur.

— O que está fazendo ainda deitada? Eu disse que há alguém que quer vê-

la.

Dentro da minha cabeça, eu reviro os olhos.

Será que acha que sou uma boneca? Estava dormindo profundamente e

agora ainda tento me situar no mundo.

— Já vou me levantar, irmã — falo, sem fazer ideia de quem é minha interlocutora porque meus olhos ainda não conseguem focar nada. — A senhora poderia me dizer quem quer me ver?

— Seu padrinho.

A resposta curta me faz ter a sensação de uma bola de ferro revirando em meu estômago.

Ruslan está aqui?

Ele é meu padrinho e também o ex-Pakhan da Organização e apesar de ainda ser uma menina, entendo uma coisa ou outra sobre a Irmandade, das conversas que ouvi do meu pai com seus homens. Sei que o Papa só viria me ver se algo muito sério tivesse acontecido. Ainda mais a essa hora.

O que passa pela minha cabeça é que Taisiya piorou e sinto meus olhos doerem de vontade de chorar.

— Anastacia!

Levanto-me em um pulo. Sem olhar para a freira, corro para o banheiro e pego atrás da porta a roupa que usei durante o dia: saia plissada xadrez até os tornozelos e camisa branca, de manga curta e botões. Mais sem graça, impossível. Ainda não uso hábito de noviça porque por enquanto, sou apenas uma estudante, já que aqui também é um internato só de meninas.

Saio apressada e ansiosa.

— Por favor, leve-me para vê-lo. Estou pronta.

A caminhada para encontrá-lo me traz sentimentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que quero ter a certeza de que a minha irmã está bem, temo pela resposta. Meu coração bate tão forte no peito que posso jurar que o sinto contra minha caixa torácica.

Quando chego à biblioteca, vejo meu padrinho de costas. Mesmo que há muitos anos, quando eu ainda era pequena, tenha passado o cargo para seu neto, o atual Pakhan Yerik, não há uma só alma em solo russo que não o tema.

Ruslan é um homem grande e somente sua presença já faz com que as pessoas abaixem a cabeça em respeito. Até mesmo Taisiya e Kristina pareciam desconfortáveis na frente dele, como se não soubessem como agir.

Eu, não. Ainda que saiba quem ele é porque desde pequena fui educada para ter respeito pelos homens da Organização, principalmente se tratando do nosso líder, eu nunca o temi. Ruslan sempre foi como um avô para mim, já que o meu próprio nunca cheguei a conhecer, de nenhum dos lados.

— Padrinho? — chamo.

Acho que ele já sabia que eu estava aqui. Meu pai sempre disse que o ex- Pakhan nunca dava as costas nem mesmo para um amigo e o fato de ter demorado para se virar, faz meu estômago ficar em nós.

Quando ele finalmente o faz, a maneira como me olha tira toda a força das minhas pernas. O que quer que tenha acontecido, não é uma boa notícia que me traz.

— Anastacia.

Ele estica a mão na minha direção para que eu a beije, como de costume. Ando até onde está só Deus sabe como porque todo meu corpo parece ter uma consistência gelatinosa.

Segurando a mão enorme nas minhas, beijo-a com carinho. Eu lhe dedico quase tanto amor quanto ao meu pai.

Quando volto a encará-lo, o que vejo faz as lágrimas começarem a cair sem controle.

— Taisiya? — pergunto, implorando na minha cabeça para que ele diga que

não.

Antes que me dê uma resposta, no entanto, várias peças do quebra-cabeça

que sua presença aqui representa, começam a se encaixar.

Se aconteceu algo à minha irmã, por que não é meu pai quem veio me contar e sim o meu padrinho?

— Taisiya? — insisto e a pergunta arranha minha garganta. Em uma única resposta, ele pode fazer meu mundo inteiro desaparecer.

Suas mãos vêm para o meu rosto e olha nos meus olhos quando finalmente

diz:

— Todos.

Capítulo 3

Capítulo 3

Boston — Massachusetts

Três anos depois

— Parece entediado — Leonid fala, com ironia.

Essa é sua ideia distorcida de piada porque segundo ele, estou sempre entediado.

No começo, eu não compreendia muito bem quando ele me dizia coisas assim. Ou melhor, eu entendia ao pé da letra. Ler as pessoas não é o meu forte. Muito menos captar que nem todas as vezes suas palavras correspondem ao que meu interlocutor quer dizer, mas depois de quase duas décadas convivendo com o cretino, já sei diferenciar uma brincadeira de quando está falando sério.

— Foi muito divertido — o motorista, um novato, diz, se intrometendo na conversa ao olhar para trás.

Hoje em dia, é muito raro que eu vá às ruas resolver problemas. Principalmente porque estamos em guerra contra um cartel mexicano e Yerik deu ordem de que nos expuséssemos o mínimo possível. Dessa vez, entretanto, foi inevitável. Primeiro porque a merda voou no ventilador no meu território e segundo porque gosto de punir os traidores eu mesmo.

Muita coisa mudou desde a madrugada em que Ruslan me salvou da morte.

Leonid diz que sou quase humano agora.

Hoje em dia, eu já consigo entender um pouco mais das pessoas e suas emoções.

Medo, alegria, irritação. Sei detectar cada uma dessas vibrações.

Sentimentos, no entanto, ainda continuam sendo uma espécie de código secreto para mim.

Há algo, porém, que segue sendo o meu norte. Regras. Ainda sou obsessivamente apegado a elas.

Não dou uma segunda chance a quem quer que quebre as minhas.

— Você é muito bom com a faca, chefe. Não sobrou muitas partes deles que não parecessem bifes fatiados.

— Foco na estrada — comando e o garoto imediatamente se vira. Nossos olhos se encontram pelo retrovisor e vejo medo em seu semblante.

Não é algo que eu deseje. Na verdade, me é totalmente indiferente que me temam.

Alguns homens da Organização se regozijam de despertar o pavor de todos às suas voltas, para mim basta que obedeçam minhas ordens sem questionamentos e que nunca quebrem nossas malditas regras. Isso lhes garantirá uma morte honrosa, quando a hora chegar. Porque mais cedo ou mais tarde, ela chegará.

A vida de um comandado não é difícil. Ele obedece seus superiores e mantém a boca fechada. Em troca, o bolso estará sempre cheio. Tirando a parte de que os soldados podem ser abatidos a qualquer momento, claro. Mas quem entra para a Organização sabe que tem um alvo nas costas.

— Maxim — Leonid me chama outra vez, porque estou preso dentro da minha cabeça, como acontece na maior parte do tempo.

Seu tom muda e agora sei que está falando sério.

Todos os cinco homens com quem mais convivo, incluindo o ex-Pakhan, se preocupam comigo. Sempre foi assim, desde que me juntei à Irmandade, ainda adolescente.

Ruslan disse que é porque eu não falo muito. Mas depois de tanto tempo, já não era para terem se acostumado?

Talvez o único que consiga me entender seja Ruslan. No começo, era apenas ele com quem eu conversava e assim mesmo, não tinha muito a dizer. Nunca tive amigos, já que até que meu pai descobrisse minhas habilidades, eu vivia trancado na gaiola.

Depois que cuidaram dos meus ferimentos quando me resgataram, o ex- Pakhan quis saber por que enfrentei meu pai naquela noite, quando as chances de que ele me matasse eram grandes.

Eu falei a verdade. Não aceito que regras sejam quebradas porque elas geram mudanças. Gosto de fazer tudo igual. Da rotina. Ela permite que eu compreenda o mundo à minha volta.

— Achei que você se divertiria ao sairmos para brincar, como nos velhos tempos. — Ele continua.

— Não brincamos. Torturamos aqueles homens para que servissem como exemplo.

— Foi maneira de dizer. Volto-me para ele.

— Sangue não é divertido. Suja minhas roupas e agora vou ter que jogar esse terno fora.

— Tem dinheiro para comprar a empresa que faz esses ternos, irmão. É verdade, mas não gosto de nenhum tipo de sujeira ou desordem.

— Por que achou que seria divertido sairmos juntos como no passado?

— Não sente falta do trabalho nas ruas?

— Não. Nunca gostei daquilo. Prefiro o escritório — falo, começando a me irritar.

— Eu sei, gênio. Gosta de planejar e é bom nisso. Não estou querendo ser um filho da puta.

— Seria uma novidade.

— Está sendo irônico?

— Não. É só o que eu penso. Não conheço sua mãe, mas sei que é uma expressão que se usa quando alguém é um bastardo, e você é um.

Ele gargalha.

— Você é esquisito para caralho, Maxim e ainda assim, uma das minhas pessoas favoritas no mundo.

— Não tem como saber disso. Não conhece tanta gente assim para uma análise comparativa.

— Jesus, eu senti saudade de você, cara!

Olho para ele porque nunca sei quando está falando sério. Gosto tanto de Leonid quanto dos outros, mas com ele eu quase chego a ter conversas. Assim, acho que ele me fez falta também. Não deveria porque é um cara imprevisível, o que vai na contramão do que prefiro em minha vida.

Há muito tempo não nos concentramos mais em Atlanta. Desde que Yerik assumiu como Pakhan, os territórios foram divididos e cada um dos subchefes mais próximos — nós quatro — enviado para um estado-chave da Organização.

— Vai mesmo ter que sair da Califórnia? — pergunto.

No começo, a subchefia dele era em Seattle, mas não aguentou ficar muito tempo por lá. Se mudou meses depois do casamento de Dmitri[15] com Yulia[16] para a Califórnia.

Foi logo após a primeira guerra contra um cartel mexicano menor ser controlada. Há cerca de três meses, no entanto, o inferno explodiu. Dessa vez, contra o mais poderoso cartel de drogas da América do Norte, Los Morales[17].

Yerik ordenou que Leonid voltasse, já que era o único dos seus homens de confiança que permanecia no comando na costa oeste.

Há também um cuidado maior em relação às esposas e aos filhos. Os do Pakhan são os mais próximos da adolescência e principalmente seu garoto mais velho, anda meio incontrolável, segundo Talassa reclamou ao telefone comigo ontem.

É diferente quando nós somos ameaçados do que quando o perigo recai sobre a família. Acho que ninguém do alto escalão da Organização teme a morte, mas uma sensação estranha enche minha cabeça quando penso em um dos meus sobrinhos — os filhos de Yerik, de Grigori e de Dmitri — feridos.

— Vou ficar entre Atlanta e aqui com você. Não há muito o que ser feito na outra costa por ora. Já tem algum plano?

— Agora não — falo, porque além do novato, há um dos nossos homens conosco no carro.

Ele acena com a cabeça, porque entendeu o que eu não disse: não podemos confiar em qualquer um depois do vazamento de uma de nossas rotas que descobrimos hoje.

— Certo, e o que tem de bom nessa cidade?

— Quer uma mulher para foder?

— Você, como sempre, um lorde. Sim, amigo. Quero uma. Ou várias. — Ele ri. — Vamos à sua boate. Soube que há uma stripper nova por lá. Estou precisando me distrair depois dessa merda toda hoje.

— Divirta-se. Eu não posso. Tenho uma reunião com Ruslan. Preciso tomar um banho antes, no entanto.

— Ele está no país?

— Sim — digo simplesmente, sem explicar que não tenho a menor ideia de por que o antigo Pakhan deseja me ver.

— É por isso que quer ir em casa antes? Para se trocar? Sabe que o Papa não se importará com um pouco de sangue. — diz, olhando para minha roupa que contém somente alguns respingos que, no terno escuro, mal aparecem. Como bem disse o garoto há pouco, sou hábil com a faca. — Depois podemos ir juntos à boate. Acho que precisa transar também, cara. Seu humor está uma merda.

— Não, o que eu preciso é me limpar. Eu não gosto de sujeira e estou imundo.

Ele me encara em silêncio. Às vezes eu acho que ele sabe sobre o meu passado, mesmo que nunca tenha tocado no assunto. Eu não me importo.

Volto a olhar para fora da janela.

— Tudo bem, irmão. Vá cuidar da sua limpeza. Podemos sair amanhã.

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Faminto e sedento

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