Estava saindo apressado do supermercado quando ouvi um forte barulho, seguido pelo solavanco do meu corpo.
-Pura que pariu... Bateram no meu carro.
Desci espumando de raiva, caralho eu estava parado esperando a minha vez de passar pela cancela e alguém caceta assim a traseira.
-Cara você tá cego ? Gritei batendo no capô do carro que ainda tava grudado na traseira do meu.
Então ela desceu... Por um instante esqueci da batida só para olhar para ela, linda, morena, pele de seda, cabelos longos e extremamente lisos, impecáveis.
-Me desculpa ! Eu me distraí por um momento, não vi que estava tão próximo... Não se preocupa, eu pago tudo.
Percebi que ela estava trêmula, até sua voz, incrivelmente doce, estava descompassada.
-Calma... Você está bem ? Eu que peço desculpas por ter perdido o controle e gritado com você.
-Mas você tem razão, eu não prestei atenção, novamente desculpa.
Falou enquanto voltava parcialmente para dentro do carro e alcançava o celular no banco do carona.
-Me passa seu contato, eu te mando um oi no whatsapp... Você pode levar para consertar e me passar o valor que faço um pix para você.
Eu falei a ela meu número, mas enquanto ela anotava eu só consegui reparar nas unhas perfeitas, pintadas com um tom de bege eu acho.
Mãos pequenas, delicadas... Vestido bonito, aparentemente de marca e uma boca milimetricamente desenhada por Deus provavelmente.
-Qual o seu nome ?
-Otávio !
-Vou te mandar um whatsApp e você registra meu número... Pode levar aonde quiser para arrumar e me mandar a conta.
-Vou anotar aqui, como você chama ? Perguntei mais intencionado em saber seu nome do que preocupado com meu carro.
-Natalie... Com E no final ! Disse enquanto esboçou um leve sorriso.
-Nome bonito ! Retruquei encarando-a.
Ela percebeu, baixou os olhos e sorriu agradecendo.
-Preciso ir... Me liga ou manda mensagem depois que levar o carro ao conserto.
-Você está bem para dirigir ? Perguntei percebendo que ainda tremia.
-Sim, eu só assustei...precisamos sair daqui, as pessoas atrás já estão impacientes.
Só aí me dei conta que estávamos fechando a saída.
Entrei no meu carro e ela no dela, mas confesso que minha vontade era de ficar ali, admirando e escutando o som gostoso de sua voz.
Quando ela virou a direita, enquanto eu estava dobrando a esquerda foi que eu me manquei... Caralho ! Estou atrasado.
Tive que correr, quando cheguei no centro de cultura, a apresentação já tinha começado.
Corri os olhos e encontrei a Lilian na segunda fila da platéia.
Cheguei até ela tentando não atrapalhar muito as pessoas presentes.
-Desculpa o atraso. Falei me sentando ao lado dela, na cadeira previamente determinada para os pais.
-Como se fosse novidade... Respondeu sem me olhar.
-Tive um acidente, bateram no meu carro... Era caminho daqui, então passei antes no mercado, na saída uma mulher bateu em mim.
-Fica quieto que as pessoas querem escutar.
-Cadê ela ? Cochichei.
-Ela é a segunda flor da esquerda não tá vendo ?
-Ela está vestida de flor igual todas as outras, como eu poderia saber ?
-Ela está com o rosto a mostra Otávio ! Tenha santa paciência.
-Agora eu já vi, mas daqui não dá para ter certeza.
Ela revirou os olhos e continuou olhando para frente.
Espetáculo de abertura da primavera do colégio da minha filha ! Tinha pelo menos umas 20 flores da mesma cor que a Leonora naquele palco e a Lilian me julgando porque não consegui identificá-la.
Enquanto eu assistia aquelas 35 crianças cantando músicas de sol, flores e frutas, pensava intensamente naquela linda mulher.
Algo nela me chamou atenção demais... A postura perfeita e a forma de se vestir completamente alinhada, era um contraste com a voz doce e delicada que ela tem.
Quando a apresentação terminou eu fui levantar, mas a Lilian me repreendeu.
-Onde você pensa que vai ?
-Embora... Não acabou já ?
-A apresentação da Lê sim, mas tem das outras classes e escolas.
-Eu vim para ver a minha filha, não os filhos dos outros... Vou lá atrás vê-la e vou para casa, tenho trabalho a fazer essa noite.
-Eu não sei como eu consegui ser casada com você por cinco anos.
-Tenho a mesma opinião. Falei levantando e saindo dali.
Fui até aquela espécie de camarim que tinha atrás do palco e pedi ajuda a umas das orientadoras.
-Oi, boa tarde ! Eu sou o pai de uma dessas lindas flores... Posso ver a minha filha um pouquinho !
-Sim, claro ! Quem é a sua flor ? Perguntou gentilmente.
Nisso vi a professora dela se aproximar.
-Amanda, ele é pai da Leonora ! Procura ela para nós por gentileza. Ela pediu.
A moça se afastou indo em direção a um grupo de flores, frutas e animais um pouco mais para frente.
-Simões que prazer te ver por aqui... Faz tempo que não aparece !
-Você sabe muito bem o porque eu não vim mais as festinhas e apresentações. Falei em tom sério.
-Não é por minha causa é ?
-Sinica ! Você provocou toda aquela situação e ainda se faz de desentendida...
-Papai ! Escutei a vozinha fina da minha filha gritar enquanto corria para mim.
-Lelê ! Meu amor....que flor mais linda que eu tenho. Falei enquanto a pegava no colo.
-Você me viu no palco papai ?
-Claro que eu vi amor, a flor mais linda de toda a primavera !
-Meu amor, contou para o seu pai que vai ter um irmãozinho ?
-Não... Eu vou ter um irmãozinho ou irmãzinha papai ! Falou alegre.
-Ah é ? Que legal filha ! Respondi surpreso... A Lilian está grávida e eu não sabia.
-A Lelê me contou hoje também ! Falou a Juliana em tom de deboche.
Na hora pensei: O maior erro da minha vida foi ter dormido com essa mulher.
Logo que saí de casa, nem divorciado estava ainda, caí na besteira de ficar com a professora da minha filha, a mesma fez questão de espalhar entre todas as mães até chegar na Lilian, acabando assim com qualquer chance de reatarmos o casamento.
Além disso ela era casada, o marido foi no quartel atrás de mim quando a própria confirmou a ele os boatos que surgiram no portão da escola.
Desde então me mantenho o mais longe possível da escola e principalmente da Juliana.
-Calem a boca ! Gritei nervosa enquanto as três tagarelavam na minha cabeça.
Não prestei atenção, não percebi o carro da frente parar na cancela do estacionamento, quando me dei conta já tinha batido na traseira dele.
Fiquei imóvel segurando o volante com as duas mãos e vendo aquele homem grande e forte esbravejar enquanto dava tapas no capô do meu carro.
Nisso elas se calaram... Só a Angel foi capaz de ficar comigo e me ajudar a falar calmamente com aquele homem.
-Me desculpa ! Eu me distraí por um momento, não vi que estava tão próximo... Não se preocupa, eu pago tudo.
Falei descendo do carro e sentindo meu corpo todo tremer.
Quando ele percebeu que era uma mulher quem havia batido no carro dele se acalmou, baixou o tom de voz e me perguntou se eu estava bem...
Nesse momento eu reparei na beleza daquele homem alto, corpo atlético e um olhar profundo.
Cara a cara com ele, escutei minha voz interna gritar "gostoso" dentro da minha cabeça.
Enquanto ele anotava meu contato, eu o admirei e meus pensamentos vaguearam em construir castelos.
Ele é ruivo e eu sempre fui louca para ser mãe de uma menina ruiva... Pensei enquanto o analisava detalhadamente.
Pronto ! Resolvido o problema da batida... Ele vai mandar consertar, eu vou pagar e acabou.
Meu desejo dizia ao contrário, acabei de provocar um acidente, mas eu estava feliz, pois agora ele tem como me achar.
Foi só entrar no carro para que a reunião de tagarelas voltassem a se manifestar.
Gravei a placa do carro e o cheiro do perfume dele está tão forte na minha lembrança que ainda posso sentí-lo.
-Otávio ! O que será que ele faz ? Tava bem vestido, social, blazer de alfaiataria... Mas percebi tatuagens nas mãos, ante braços e no peito, acima da gola da camisa justa o suficiente para marcar os músculos.
-Não parecia um executivo com aquelas tatuagens ! Disse a Fernanda colocando suas regras sob um cara que acabamos de conhecer.
-Que nada a ver, as pessoas tatuadas podem ser o que quiserem ! Retruquei em voz alta.
-Gosto de tatuagens ! Opinou a pequena
-Eu gosto é daquele corpo tatuado. Lú mais uma vez dando o ar da graça.
Eu tinha mandado um "oi" mas ele não mandou nada de volta.
Já havia passado mais de uma hora do contratempo quando ele me ligou, mas de um número fixo.
- Natalie ? Aqui é o Otávio, tudo bem ? Estou ligando para perguntar se você se acalmou ? Não consegui nem mandar mensagem antes, estava numa apresentação de escola da minha filha...
-Boa noite ! Sim, eu estou bem... Obrigada por perguntar. Você tem uma filha ? Que legal, qual a idade dela ?
Perguntei já pensando no fato dele ser casado, ter esposa e filhos.
- Tenho sim ! Ela tem cinco anos e se chama Leonora.
- Que nome forte ! Lindo.
-Para minha sorte eu ganhei no par ou ímpar da mãe dela, senão a coitadinha chamaria Belinda.
-Eu acho bonito também.
-Significa "serpente". Respondeu
-Nossa... Então você está certo em não querer esse nome na sua filha.
-Ela é tão doce, tão fofa que em nada combinaria com uma cobra.
-Se bem que eu gosto de cobras ! Mas realmente não combina com uma menininha.
-Gosta de cobras ? Sério ? Geralmente mulheres tem pavor...
-Eu gosto, na verdade não tenho problemas com nenhum dos animais que causam repulsa nas mulheres, exceto por aranhas ! Tenho fobia, pânico... Mas sapos, cobras, ratos e morcegos não me incomodam em nada, acho todos bonitos.
-Que diferente ! E interessante.
-Me desculpa novamente pelo seu carro... Ainda não acredito que bati em você parado.
-Acontece ! Fica tranquila.
- O ruim é o transtorno que eu vou fazer você passar... Ficar dias sem carro.
-Não me incomoda, o tanto que eu trabalho, acabo usando o carro bem pouco, geralmente uso a viatura.
-Viatura ? Você é policial ?
-Sim, delegado !
- Eu fiquei pensando em qual profissão você poderia ter, mas não pensei nem de longe em delegado.
-Pois é... Sou delegado há oito anos já.
-Nunca conheci um delegado...
-Agora conhece ! Eu também fiquei me perguntando sua profissão sabia ? Tão impecávelmente vestida e maquiada.
-Eu sou diretora financeira de uma rede de farmácias.
-Olha só a coincidência....
-Qual ? Perguntei surpresa.
-Também nunca conheci uma diretora financeira ! Falou rindo.
-Agora conhece ! Respondi com as mesmas palavras dele.
-Gostei de conhecer. Respondeu
Eu senti meu coração disparar nesse momento.
-Eu também gostei de conhecer um delegado ! Respondi repetindo as palavras da Luíza que estavam ecoando dentro de mim.
-Desculpa a pergunta e me perdoe se achar invasiva, mas você é casada ?
-Não ! Solteira e você ?
-Divorciado !
Um alívio tomou conta de mim e ao mesmo tempo me perguntei se era sério que eu estava feliz por ele não ser comprometido.
-Tem filhos ?
-Não também ! Solteira e sem filhos... Antes eu não queria ter, após completar 30 anos, comecei a considerar a possibilidade de uma produção independente.
-Sério ? Não prefere o método tradicional ?
-Sim, claro que sim ! Porém eu estou solteira há mais de um ano, então o método tradicional está um pouco fora de cogitação no momento.
-Tá nada, só você procurar direitinho um candidato.
-Você só tem a Leonora de filha ou tem mais ?
-Somente ela, nas pretendo ter mais uma, se Deus quiser ! Quero ser pai da Tamara ainda.
-Já tem até o nome ? Que legal... Você tem bom gosto para escolher inclusive.
-Gosto desse nome ! Faz mais de dois anos que escolhi... Ainda tava casado e queria uma segunda filha, mas não deu certo.
-Porque separou ? Se quiser falar é claro...
-Meu trabalho ! Ela alegava muita ausência minha... Agora ela tem outro namorado que trabalha online de casa, e está grávida novamente, segundo a Lelê me contou hoje.
-Gosta dela ainda ?
-Não mais...
Percebi que estávamos a um tempão conversando e que eu já estava invadindo muito a privacidade dele, parei de perguntar sobre a ex.
- Bom, eu também já tenho o nome da minha filha pré definido... Quero Maitê.
-Se eu fosse o pai da sua filha, iríamos tirar no par ou ímpar também ! Retrucou.
-Se você me desse uma filha ruiva, até te deixaria colocar o nome que quisesse.
Falei isso no impulso e senti meu rosto queimar... Sorte que não estávamos cara a cara.
-Se você me desse essa oportunidade... Podia chamar Maitê mesmo, já gosto até mais do que Tamara !
É impressão minha ou nós estamos flertando ? Pensei e um sorriso enorme enfeitou os meus lábios.