As portas automáticas do edifício de vidro obsidiana se abriram, e Alvorada saiu para o ar cortante de outubro. O porteiro, um homem chamado Henry que sempre olhava para ela com uma mistura de pena e desdém, moveu-se para chamar um táxi.
- Não precisa, Henry - disse Alvorada, sua voz cortando o ruído do tráfego matinal. Ela não parou de andar. Ela agarrou a alça de sua mala de couro surrada e virou à direita, longe da fila de carros pretos esperando.
Henry congelou, a mão meio levantada. Ele a viu ir, confuso. A Sra. Quilate nunca caminhava.
Alvorada movia-se com propósito. A cidade estava acordando. O cheiro de escapamento, castanhas assadas e concreto úmido enchia seus pulmões. Era arenoso, sujo e real. Era melhor do que o ar higienizado com aroma de lavanda da cobertura.
Ela precisava clarear a mente. A adrenalina do confronto com Quilate estava desaparecendo, deixando para trás uma clareza fria. Ela não tinha casa. Ela não tinha emprego. Ela tinha dezenove dólares no bolso e um laptop que estava três anos obsoleto.
Mas ela tinha sua mente. E ela tinha um mapa do futuro gravado em suas sinapses.
Ela virou em uma rua lateral, pegando um atalho em direção à estação de metrô. Os prédios aqui eram mais velhos, as sombras mais longas. Esta era a costura entre o distrito ultra-rico e o resto do mundo.
Um grito estilhaçou o silêncio da manhã.
Foi agudo, aterrorizado e cortado abruptamente.
Alvorada parou. Seu corpo reagiu antes de seu cérebro. Seu peso mudou para a planta dos pés. Em sua vida passada - antes de Quilate, antes da fachada de esposa troféu - ela havia aprendido a sobreviver em lugares muito piores do que este. E na vida que ela vivera antes de sua morte, ela havia aprendido habilidades que não pertenciam a uma sala de reuniões.
Ela olhou para a boca de um beco estreito a cerca de seis metros à frente. Sombras dançavam contra a parede de tijolos.
Ela não deveria se envolver. Ela era uma mulher sozinha com uma mala. Ela deveria continuar andando.
Mas o grito ecoou em sua memória, sobrepondo-se aos seus próprios gritos silenciosos da cama do hospital.
Alvorada largou a alça da mala. Ela se moveu em direção ao beco, seus passos silenciosos na calçada.
Nas profundezas das sombras, três homens haviam encurralado uma jovem garota. Ela parecia uma estudante universitária - mochila, moletom grande demais, terror arregalado nos olhos. Um homem a prendia contra uma caçamba de lixo. Os outros dois riam, um deles abrindo e fechando um canivete. Clique. Clique. Clique.
Do outro lado da rua, estacionado na penumbra sob um andaime, estava um elegante Maybach preto. Suas janelas eram tingidas tão escuras que pareciam vazios.
Dentro do carro, Cinza estava sentado no banco traseiro, um tablet apoiado no joelho. A tela exibia um relatório financeiro complexo sobre as flutuações do mercado asiático. Seu rosto era uma máscara de indiferença, os ângulos agudos de sua mandíbula iluminados pela luz azul da tela.
- Chefe - disse seu motorista, um homem estoico chamado Abismo, com a voz tensa. - Há uma situação no beco. Devo ligar para a polícia?
Cinza não olhou para cima imediatamente. - Se desejar. - Sua voz era um barítono baixo, suave e frio como pedra polida. Ele tinha visto violência suficiente no mundo dos negócios para ser insensível ao tipo físico.
Mas então, um movimento capturou sua visão periférica.
Uma mulher.
Ela entrou no quadro da entrada do beco. Ela era esbelta, vestida com um casaco simples que parecia fino demais para o clima. Ela não parecia uma heroína. Ela parecia uma vítima esperando para acontecer.
Cinza baixou o tablet. Ele observou.
Alvorada não gritou. Ela não anunciou sua presença. Ela pegou uma garrafa de vidro do chão.
Ela a jogou.
A garrafa se espatifou contra a parede a centímetros da cabeça do homem com a faca. Cacos de vidro choveram. Os homens se viraram, assustados.
- Caiam fora - disse Alvorada. Seu tom era de conversa, até entediado.
O homem com a faca riu. Foi um som feio e úmido. - Olha só isso, rapazes. Uma voluntária.
Ele avançou para ela.
No carro, Abismo arfou. - Meu Deus, ela vai ser morta.
Cinza se inclinou para frente, os olhos se estreitando.
O bandido estocou a faca em direção ao estômago de Alvorada.
Alvorada não recuou. Ela entrou no espaço. Seu movimento foi um borrão. Ela não tentou dominá-lo pela força; ela não tinha força para isso agora. Em vez disso, ela usou física. Sua mão esquerda disparou, pegando o pulso do homem, guiando o próprio impulso dele para passar por ela.
Houve um estalo nauseante.
O homem gritou, largando a faca.
Alvorada não parou. Ela usou o impulso dele, girando-o e batendo o rosto dele na parede de tijolos. Ele desmoronou como um saco de papel molhado.
O segundo homem rugiu e atacou. Alvorada se abaixou sob seu golpe selvagem. Ela subiu por dentro da guarda dele, dirigindo o cotovelo no plexo solar dele. Não foi um golpe de nocaute, mas foi preciso o suficiente para roubar o fôlego dele. Enquanto ele se dobrava, ela desferiu um chute seco na lateral do joelho dele.
Ele foi ao chão uivando.
O terceiro homem, aquele segurando a garota, a soltou e recuou, os olhos arregalados de descrença. Ele olhou para seus dois camaradas caídos, depois para a mulher esbelta parada calmamente em meio à carnificina.
- Sugiro que você corra - disse Alvorada. Ela ajustou o casaco, alisando uma ruga na manga.
O terceiro homem se virou e disparou pelo beco.
A estudante universitária escorregou para o chão, soluçando.
No Maybach, o silêncio reinava.
A boca de Abismo estava ligeiramente aberta. - Você viu isso? Aquilo foi... eficiente. Quem é ela?
Cinza encarava a mulher. Ele repassou a luta em sua mente. Eficiência. Zero desperdício de movimento. Ela lutava como alguém que sabia exatamente onde o corpo humano era fraco, compensando sua falta de massa com uma precisão aterrorizante.
- Chefe, a polícia está chegando - notou Abismo enquanto sirenes uivavam à distância. - Intervimos?
Cinza observou enquanto uma viatura parava no meio-fio, bloqueando a entrada do beco. Dois policiais saíram, armas em punho.
- Não - disse Cinza, a voz desprovida de emoção. - Somos apenas testemunhas. Espere aqui até os policiais tomarem nosso depoimento. Não interaja com ela.
Ele observou Alvorada se ajoelhar ao lado da garota que chorava. Ele a viu checar as pupilas da garota, as mãos firmes. Ela olhou para cima, os olhos varrendo a rua até travarem nas janelas pretas do carro dele.
Ela não podia vê-lo, mas ele sentiu que ela sabia que ele estava lá.
Cinza sentiu um formigamento estranho e frio na base do crânio. Curiosidade. Uma coisa perigosa.
- Abismo - disse Cinza calmamente.
- Senhor?
- Depois que a polícia nos liberar, descubra quem ela é.
A delegacia era uma colmeia caótica de miséria e burocracia. As luzes fluorescentes no teto zumbiam com uma frequência indutora de dor de cabeça. O ar cheirava a café velho, cera de chão e corpos não lavados.
Alvorada sentou-se em um banco de madeira dura, a mala enfiada protetoramente entre as pernas. Ela tinha dado seu depoimento. Os policiais estavam impressionados, mas desconfiados. Uma mulher do tamanho dela derrubar dois agressores armados levantava questões que eles não podiam responder.
Do outro lado da sala, perto do escritório do Capitão, estava Cinza. Ele havia sido trazido separadamente para fornecer um relato de testemunha. Ele estava em uma bolha de silêncio; o caos da delegacia parecia se separar ao redor dele. O terno dele custava mais do que o orçamento anual da delegacia.
Ele não tinha falado com ela. Ele não tinha oferecido uma carona. Ele simplesmente a observara com aqueles olhos cinzentos e frios enquanto a polícia os conduzia para carros separados.
Agora, ao terminar de falar com o Capitão, ele se virou. Ele caminhou em direção à saída, seu caminho passando pelo banco dela.
Ele parou.
Alvorada olhou para cima. De perto, ele era ainda mais imponente. Mas ela também viu a tensão na mandíbula dele, a leve palidez de sua pele.
- Você tem um instinto de sobrevivência único - disse Cinza. Não foi um elogio; foi uma observação.
- Necessário nesta cidade - respondeu Alvorada, a voz fria.
Cinza olhou para os nós dos dedos machucados dela. Então seu olhar vagou para o rosto dela. Ele parecia estar procurando por algo - medo, orgulho, reconhecimento. Ele não encontrou nada disso.
Ele levou a mão para ajustar a abotoadura, a mão tremendo ligeiramente. Foi um movimento microscópico, uma falha em sua compostura perfeita.
Os olhos de Alvorada se estreitaram. Ela não o tocou. Ela não precisava. Ela viu como as pupilas dele estavam ligeiramente desiguais em reação às luzes fortes. Ela viu o brilho de suor frio na têmpora dele, apesar do ar fresco.
- Você deveria ver um médico sobre esse tremor - disse ela suavemente. - E a enxaqueca envolvendo seu olho esquerdo.
Cinza congelou. Suas mãos pararam na abotoadura. Seus olhos se aguçaram, o cinza escurecendo como uma tempestade.
- Como é?
- Seu nervo mediano não é o problema - continuou Alvorada, baixando a voz para que os policiais próximos não ouvissem. - É inflamação sistêmica desencadeando um pico neural. Você está tomando café demais e não dorme. Isso está degradando a bainha de mielina.
Cinza a encarou. O ar entre eles ficou pesado. Ele tinha consultado os melhores especialistas na Suíça. Nenhum deles o havia diagnosticado com um olhar em uma delegacia suja.
- Quem é você? - ele exigiu, a voz baixa e perigosa.
- Apenas uma testemunha - disse Alvorada. Ela se levantou, pegando a mala. - Tente magnésio e raiz de valeriana. E durma.
Ela não esperou pela resposta dele. Ela caminhou em direção à saída, os saltos clicando ritmicamente no linóleo.
Cinza ficou enraizado no lugar. A dor em sua cabeça latejava, um lembrete brutal de que ela estava certa.
Abismo apareceu ao lado dele. - O carro está pronto, chefe.
Cinza não se moveu imediatamente. Ele observou as portas automáticas se fecharem atrás dela.
- Abismo - disse Cinza.
- Senhor?
- Esqueça a checagem padrão. Quero um dossiê completo. Onde ela nasceu, o que ela lê e quem a ensinou medicina.
- Sim, senhor. O senhor pegou o nome dela?
- Alvorada - murmurou Cinza, testando o peso da palavra. - Encontre-a.