Capítulo 2

Quando abri os olhos, o cheiro a desinfetante invadiu-me as narinas, forte e avassalador. O meu corpo doía, uma dor surda e profunda que vinha do meu útero vazio. O meu filho, que eu carregara durante nove meses, já não estava lá.

A minha mãe, Joana, estava sentada ao meu lado, o seu rosto pálido e marcado pela preocupação. Ela segurava a minha mão com força.

"Eva, querida, finalmente acordaste."

A sua voz era um sussurro rouco.

Olhei para o teto branco do hospital, tentando processar tudo. A memória do acidente de carro era um borrão de metal a contorcer-se e o som agudo de pneus a chiar. O outro carro tinha passado um sinal vermelho.

Eu estava a caminho da maternidade para a minha última consulta. Estava tão perto.

Peguei no meu telemóvel com a mão a tremer. Precisava de ligar ao meu marido, o Miguel. Ele precisava de saber.

O telemóvel dele chamou, chamou, chamou. Quando finalmente atendeu, o barulho de fundo era de música alta e risos.

"Eva? O que se passa? Estou um bocado ocupado agora."

A sua voz soava irritada, distante.

"Miguel, eu... eu sofri um acidente. Perdi o bebé."

As palavras saíram com dificuldade, cada uma delas um peso na minha garganta.

Houve um silêncio do outro lado da linha, que durou apenas um segundo. Depois, ouvi a voz da minha cunhada, a Sofia, a rir ao fundo.

"Miguel, querido, quem é? Anda cá, vamos cortar o bolo!"

A voz do Miguel voltou, apressada e sem qualquer emoção. "Olha, Eva, agora não posso falar. A Sofia está a celebrar o noivado, é uma noite importante para ela. Já chamei um táxi para ti. Fica aí, não te mexas."

E desligou.

Fiquei a olhar para o telemóvel, incrédula. A celebrar o noivado. O meu mundo tinha acabado de ruir, e ele estava a celebrar.

A minha mãe tirou-me o telemóvel da mão, o seu rosto uma máscara de fúria.

"Aquele desgraçado. Como é que ele se atreve?"

As lágrimas que eu estava a segurar começaram a cair, silenciosas e quentes. Eu não tinha perdido apenas o meu filho, tinha perdido a ilusão de um marido, de uma família.

O bebé era a única coisa que nos mantinha juntos. Tentámos durante anos. Ele era o nosso milagre. E agora, tinha desaparecido.

A decisão formou-se na minha mente, clara e fria como o gelo.

"Mãe," disse eu, a minha voz surpreendentemente firme. "Eu quero o divórcio."

Capítulo 3

Mal as palavras saíram da minha boca, a porta do quarto do hospital abriu-se de rompante. Era a minha sogra, a Lúcia, com o rosto vermelho de raiva. O Miguel devia ter-lhe ligado.

"Divórcio? Estás louca, Eva?"

Ela marchou até à minha cama, os seus olhos a fuzilarem-me.

"Acabaste de perder o meu neto e agora queres destruir a minha família? Não tens vergonha?"

A minha mãe levantou-se, colocando-se entre mim e a Lúcia.

"Lúcia, por favor, a Eva acabou de passar por uma cirurgia. Ela precisa de descansar."

"Descansar? Ela precisa é de juízo!" gritou a Lúcia, ignorando completamente a minha mãe. "O Miguel está a trabalhar tanto para vos dar uma vida boa! E tu retribuis assim? A Sofia está a viver um dos dias mais felizes da sua vida, e tu tinhas de estragar tudo com o teu drama!"

Drama. Perder o meu filho era drama.

"O seu filho estava numa festa enquanto eu estava a perder o nosso bebé," respondi, a minha voz a tremer de raiva contida. "Ele não se importou. Ele nem perguntou como eu estava."

"Claro que ele se importa! Ele está apenas a tentar manter as aparências pela irmã! A família vem em primeiro lugar, Eva. É algo que tu, pelos vistos, não entendes."

Ela cuspiu as palavras, cheias de veneno.

"A Sofia precisa do apoio dele! O noivo dela, o Pedro, é de uma família importante. Não podemos dar má impressão."

Então era isso. A imagem. A reputação da família era mais importante do que a minha dor, do que a vida do seu próprio neto.

"Saia," disse eu, a minha voz baixa mas firme. "Saia do meu quarto. Agora."

A Lúcia ficou boquiaberta, chocada com a minha ousadia.

"Como te atreves a falar assim comigo?"

"Eu disse para sair."

Desta vez, a minha mãe interveio com mais força. "Já a ouviu, Lúcia. Vá-se embora. A sua presença não é bem-vinda aqui."

A Lúcia olhou de mim para a minha mãe, o seu rosto contorcido numa máscara de desprezo.

"Vais arrepender-te disto, Eva. Vais ficar sozinha e miserável. O Miguel nunca te vai perdoar."

Com essa ameaça final, ela virou-se e saiu, batendo a porta com força atrás de si.

Fiquei a tremer, o meu corpo exausto e a minha mente a mil. A minha mãe abraçou-me, e eu finalmente deixei-me chorar, soluçando contra o seu ombro. O divórcio não era apenas uma escolha, era uma necessidade. Era a minha única forma de sobreviver.

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