Capítulo 2

Ficamos caladas no banco de trás enquanto Iago e Matteo conversavam durante todo o caminho. Claro que eu preferia que ele interagisse comigo, mas pelo menos nós estávamos indo juntos para o mesmo lugar e havia uma chance de eu conseguir que conversássemos a sós mais tarde - era muito mais do que eu costumava ter, então estava disposta a só ver o lado bom.

Quando o carro parou em frente a uma casa com som alto, Iago desceu e se inclinou pela minha janela.

- Espero que se comporte, não sou a sua babá. - estava irritado porque me ter por perto significava ter alguém para prestar atenção.

Os dois foram andando na frente e, assim que ficamos sozinhas, Larissa segurou meu pulso com força.

- O que é isso? Não íamos comer? – sua voz exalava tensão.

- E vamos. – abri a porta do carro e desci como se já tivesse frequentado mil festas daquele topo – É só uma festa. Não estrague tudo.

O lado de dentro era um mar de corpos balançando ao som da música. Havia uma mesa com várias embalagens de pizza abertas, mas a quantidade de garrafas e copos era muito maior. Eu não precisava nem de mais um minuto para saber que não era meu tipo de diversão, mas se Matteo gostava eu ia suportar.

- Viu? – apontei para a comida, sabendo que nenhuma de nós teria coragem de tocar em nada daquilo, e Larissa revirou os olhos.

Iago já tinha um copo nas mãos e estava em um grupo de garotos. Matteo estava fora de vista.

- Você me fez perder ele. – reclamei, mas Larissa não me ouviu por causa do som alto.

Tentar andar entre adolescentes alterados e dançando era uma tarefa difícil de se cumprir, mas eu insisti a todo custo enquanto arrastava Larissa pela mão. Sério, que graça tinha isso? Um monte de gente suada se esfregando em você? E tudo isso para nem lembrar direito no dia seguinte?

Senti uma mão envolver minha cintura e me puxar para o lado com uma certa força. Cambaleei, pega de surpresa, e trombei com um garoto.

- Está sozinha, princesa? – seu hálito era forte o suficiente para arder meus olhos.

- Não. Me solte. – empurrei seu peito com as duas mãos, irritada com sua grosseria.

Só então, quando vi minhas mãos apoiadas naquela camiseta vermelha, percebi que eu havia me perdido de Larissa e comecei a ficar mais nervosa do que irritada. O garoto, que não devia ter mais do que dois ou três anos a mais que eu, estava com uma expressão maliciosa impossível de ignorar.

- Por que não conversamos em um lugar mais calmo? – ele começou a me puxar por entre as pessoas em direção a uma porta que só poderia ser um quarto.

- Não. – neguei, o empurrando sem muito sucesso.

- Qual é! Você vai gostar, eu garanto. – ele continuou me puxando - Vocês sempre gostam. - a outra mão apertou minha cintura.

Senti o desespero me fazer tremer. Eu precisava me soltar, precisava me afastar a todo custo da porta que ele estava mirando.

- Me solta! – gritei, mas minha voz se misturou com a música ao nosso redor e ninguém pareceu ver nada de errado.

- Não seja histérica. – agora ele estava sério, quase assustador, e o aperto em meu braço começou a doer de verdade.

Pensei na chance que teria se ficássemos a sós. Eu conseguiria lutar por quanto tempo? Tempo o suficiente para perder, com toda certeza. Ele não era uma montanha de músculos, mas dava para notar que era consideravelmente mais forte do que eu.

- Acho que a moça disse não. – escutei uma voz atrás de mim e um braço se colocou entre mim e o babaca.

Eu não podia ver o rosto de quem tentava me ajudar, mas aparentemente não assustava nem um pouco o outro garoto. Eles se encararam por cima do meu ombro por alguns instantes.

- Você não deveria se meter no que não é da sua conta. – os olhos do meu agressor se estreitaram. Era uma ameaça, e ele parecia disposto a brigar para valer.

- O que está acontecendo aqui? – a voz de meu irmão nunca produziu tamanha felicidade em mim.

- Iago? – me virei, finalmente solta das garras que me prendiam.

- Izzie? – seus olhos estavam preocupados de um jeito que nunca vi.

Me joguei em seus braços chorando de alívio. Iago me abraçou, o que também não era comum, e senti o cheiro de seu perfume misturado com o cheio de alguma bebida.

- Tire ela daqui. – o garoto que me defendeu disse. Sua voz estava séria e não demonstrava nenhum medo.

Iago me tirou de lá com facilidade, empurrando as pessoas do nosso caminho com um braço sem se preocupar em pedir para favor, enquanto o outro me envolvia protetoramente. Saímos para o lado de fora da casa e eu me sentei em um sofá na varanda. Todo meu corpo tremia e as lágrimas não paravam de sair.

- Ele fez alguma coisa com você? – a voz de Iago estava sombria, do tipo que buscaria vingança se necessário - Qualquer coisa por menor que seja, você precisa me contar.

- Não. – gaguejei – Mas foi por pouco.

Nesse momento a porta se abriu com um estrondo e Larissa e Matteo surgiram.

- Izzie! – minha amiga exclamou, correndo para sentar ao meu lado e me abraçar. Não dava nem pra saber qual das duas tremia mais.

- Você está bem? – Matteo se abaixou para olhar diretamente nos meus olhos. Fiquei surpresa por notar uma expressão parecida com a de Iago em seu rosto.

- Foi por pouco. – Iago repetiu minhas palavras quando eu não consegui responder.

Eles trocaram um olhar significativo e Matteo segurou minhas mãos.

- Vai ficar tudo bem. – disse, e meu coração acelerou -Vamos para casa.

Iago me ajudou a levantar, depois me colocou no banco da frente com o melhor amigo. Gostei de estar ali, mesmo que as condições para isso tivessem sido as piores possíveis.

Fomos direto para casa, apenas com o som do carro ligado. Nenhum de nós parecia disposto a conversar sobre o que poderia ter acontecido, embora eu quase pudesse sentir o pânico de Larissa e a raiva de Iago. Matteo era um mistério com sua expressão fechada e os olhos atentos na rua.

Nos separamos assim que entramos em casa, indo para os respectivos quartos. A noite não tinha dado em nada, mas eu só podia agradecer por não ter acontecido nada de ruim comigo.

- Fiquei apavorada. – Larissa suspirou, se jogando sentada na minha cama – Quando vi aquele garoto puxando você, só o que pensei em fazer foi correr para procurar ajuda. - ela tremeu.

- Está tudo bem, Lari. – a tranquilizei, embora o pensamento também me desse calafrios – Felizmente deu tudo certo.

Ela passou a mão pelo rosto.

- Eu sabia que não era uma boa ideia. Nós nunca mais vamos a lugar nenhum com esses dois.

- Olha, nós nem chegamos a comer. Vou até a cozinha pegar algo. - eu só queria que Larissa não ficasse mal demais com isso e nunca mais quisesse fazer nada fora de casa.

- Ok. – ela deitou na cama e colocou o braço por cima dos olhos.

Saí silenciosamente do quarto e fui até a cozinha. A porta da geladeira já estava aberta, então me preparei para algum sermão de Iago - claro que ele iria discutir por eu não ter aceitado sua palavra de ficar em casa.

- Escuta, eu sei que você não queria me levar. – comecei antes que ele gritasse – Mas eu estou crescida agora e não posso ficar trancada em casa para sempre. Sou uma mulher agora. - declarei com orgulho.

- Eu sei. – a porta se fechou e Matteo me encarou com um sorriso.

Senti meu rosto ficar vermelho.

- Matteo. – minhas mãos cobriram minha boca.

- Izzie. – sua cabeça se inclinou levemente para o lado, achando graça.

Tentei lembrar de quando tínhamos ficado sozinhos pela última vez, mas acho que nunca tinha acontecido. Não estraga tudo, não estraga tudo. É a melhor chance que você já teve. – foi só o que pensei.

- Desculpa, pensei que fosse meu irmão. – sorri, sem graça.

Matteo se aproximou, subitamente sério, e colocou as mãos nos meus ombros. Seu toque era firme, mas muito delicado.

- Você está mesmo bem? Não está escondendo nada?

Meu coração deu pulos alegres, nervosos e surpresos. Matteo nunca me tocava – tirando passar a mão pelo topo da minha cabeça, mas isso nem contava.

- Sim, sim... – tentei não gaguejar com o nervosismo – Foi horrível, mas não aconteceu nada.

- Não sei o que eu faria se alguma coisa acontecesse com você. – ele me puxou para um abraço.

Enterrei o rosto em seu peito, em êxtase, e aspirei seu perfume. Matteo era quente, confortável e eu parecia me encaixar perfeitamente ao seu corpo.

Quando ele se afastou suavemente, eu já sabia o que viria. Finalmente ia acontecer. Quase me perder tinha aberto os olhos dele e mostrado quanto tempo estávamos perdendo.

Ele se inclinou na minha direção e fechei os meus olhos, segurando a respiração.

- Você é como uma irmãzinha para mim. – seus lábios pousaram na minha testa.

Capítulo 3

Girei meu canudo pelo milkshake de morango lentamente, espalhando o conteúdo pelas laterais do copo meticulosamente.

- Você não pode ficar desse jeito. – Larissa me repreendeu.

- Irmãzinha. – repeti pela milésima vez desde a noite anterior. Claro que eu já suspeitava, mas ouvir era mil vezes pior. – Não acredito. – gemi, largando o canudo para esconder o rosto com as mãos.

- Não é tão ruim assim. – ela tentou me animar – Ele se importa com você. Ficou super preocupado que algo pudesse ter acontecido ontem. Eu mesma o encontrei e vi o desespero.

Baixei as mãos para lançar um olhar irritado.

- Ele não beijaria uma irmã.

Larissa encolheu os ombros, sem argumentar. Eu poderia continuar reclamando infinitamente, achar inúmeros problemas com a frase de Matteo, mas um garoto parou ao nosso lado na mesa.

- Oi. – ele olhou diretamente na minha direção com certa intensidade.

Olhei para Larissa, sem compreender.

- Eu só queria saber se você está bem. – ele prosseguiu, sério.

- Eu? – apontei para mim - Eu mesma?

- Sim. – ele franziu a testa, confuso.

- Nós nos conhecemos?

O rosto não era nada familiar. Os olhos eram escuros e tinham olheiras suaves, e os cabelos estavam um pouco crescidos, sem corte. Estava vestido de forma simples, com roupas básicas e levemente amassadas. Parecia um pouco desleixado, do tipo que não se importa muito com a própria aparência. Não era um garoto em quem eu fosse reparar, disso eu tinha certeza.

- Isabela, eu te ajudei ontem na festa. – ele esclareceu, um pouco perplexo por eu não recordar.

- Ah! Foi você? – exclamei, ficando em pé – Muito obrigada por aquilo. Foi horrível, realmente desesperador e angustiante. Eu estava tão nervosa, nem olhei para você. – fiz uma pausa – Espera aí. Como você sabe o meu nome?

Larissa olhou para ele com curiosidade também.

- Eu... – o garoto encolheu os ombros, sem jeito – Sempre morei perto de vocês, eu vi você a vida toda.

Aquilo era muito estranho. Eu nunca tinha visto ele em lugar nenhum.

- Qual seu nome? – felizmente Larissa era a mais educada de nós duas.

- Vitor. – ele olhou para ela.

- Eu sou a Larissa. – ela apontou para uma cadeira – Por que não se senta com a gente?

Enquanto Vitor se acomodava, voltei a me sentar. Não queria que Larissa tivesse convidado, agora eu não poderia continuar falando sobre o fiasco com Matteo e como eu poderia consertar a forma como ele me via, mas eu era educada o suficiente para não expulsar o coitado.

- Então, Vitor... – minha amiga puxou assunto quando percebeu que eu ficaria calada – Você também estuda com a gente? Ou é em outra escola?

- Ah, claro. Eu estudo sim. – aquilo pareceu ser o suficiente para disparar o garoto em um monólogo – Conheço Iago também, cheguei a jogar bola com ele no recreio da escola uma vez. Só que eu sou péssimo, então entendo que ele não tenha me chamado outra vez nem mesmo por piedade. Mas foi bem legal ele ter me dado uma chance, de qualquer modo. Não é todo mundo que faz isso.

Não pude conter um sorrisinho. Aquilo era a cara do meu irmão, acolher os necessitados, mas deixar para lá quando não tinha o retorno esperado. Iago era tão previsível...

- E quem não conhece o Matteo, não é? – Vitor prosseguiu, sorrindo gentilmente – Todo mundo quer ser amigo dele, ou par romântico. – riu, balançando a cabeça de um lado para o outro como se achasse isso um exagero.

Tentei manter minha expressão neutra. Eu não era mais uma, eu era a pessoa certa.

- Acho que a escola não vai ser a mesma sem os dois lá no ano que vem. – finalmente ele se calou. Os olhos foram para mim instantaneamente.

O silêncio reinou por um instante, quebrado apenas pelos sons da sorveteria ao nosso redor. Ainda era cedo e o movimento era bem baixo, algumas famílias buscando uma sobremesa para o almoço apenas.

- Bom... – eu me levantei – Acho melhor nós irmos. Temos que almoçar e tal.

- Ah, é. – Larissa pareceu entender que eu não estava muito disposta a jogar conversa fora com um estranho – Nós temos que ir mesmo.

- Tudo bem. – Vitor pareceu desapontado por um instante, mas sorriu outra vez – Foi um prazer falar com vocês duas.

- Igualmente. – escutei Larissa dizer, mas eu já estava me afastando.

Quando ela me alcançou eu nem me lembrava mais do garoto que tinha me salvado na noite anterior. Tinha coisas muito mais importantes para pensar.

- Tem que ter um jeito, Lari. – foi a primeira coisa que falei – Ele tem que me ver como uma mulher. Nós não temos os mesmos genes, pelo amor de Deus!

- De novo isso. – Larissa gemeu dramaticamente.

- Do que mais eu poderia falar? – parei na calçada para poder encará-la.

- Você reparou naquele garoto? – ela apontou na direção da sorveteria.

- O que tem? – cruzei os braços na frente do peito sem vontade nenhuma daquela conversa. Quem se importava com aquele garoto?

- O que tem? – ela repetiu, incrédula – Izzie, ele... Nossa, ele... – gaguejou.

Tentei ficar séria, mas não consegui.

- Estou falando sério! – Larissa ficou indignada – O Vitor tem alguma coisa com você.

Aí mesmo que soltei uma gargalhada.

- Alguma coisa? – falei com sarcasmo – Ele me pareceu alguém sem amigos. Muito carente, um pouco solitário… Obviamente ele não tem uma "coisa". - fiz aspas no ar com os dedos.

A expressão de Larissa se tornou séria, de um jeito que ela só fazia quando realmente acreditava em alguma coisa. Geralmente eu ficava sem graça nessas ocasiões, e não foi diferente.

- Eu não quis... – tentei me explicar – Olha, ele parece um garoto bacana.

- Bacana? – ela ficou incrédula outra vez.

- Ah, Lari. – recomecei a andar – Eu tenho coisas melhores para me preocupar.

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