NARRAÇÃO ANA
Escuto vozes em uma pequena discussão. Abro meus olhos e meu maior medo se torna verdade.
- Pai...
Sussurro em pânico tentando me levantar.
- Fique calma, meu amor!
Minha mãe diz calmamente, segurando minha mão.
Olho em volta e vejo Dora de frente para o meu pai. Era ela quem estava discutindo com ele.
- Como se sente?
Ele pergunta de forma grosseira como sempre.
- Bem!
Minha mãe sorri e acaricia meu rosto.
- Ótimo! Estamos voltando para casa, os médicos já te deram alta.
- Não... eu não posso !!!!!!!!!!!!!!!!
Quase grito sentindo o pânico tomar meu peito.
- Você pode e vai!
Responde com seus olhos raivosos.
- Pai, preciso me despedir da Clara e dos meus amigos.
- Eles não serão mais seus amigos quando formos embora, então não precisa se despedir deles.
Diz rudemente se virando para sair.
- Pai, por favor...
Peço me levantando da cama já sentindo a falta de ar me tomar. Não posso ir sem falar com ele, não posso deixá-lo assim. Se vira bruscamente e me olha firme.
- Sempre disse que você era uma pessoa fraca Ana, por causa da sua doença. Nunca fui a favor de suas vindas para o acampamento e olha o que deu. Você quase morreu!
- Estou bem, foi apenas mais uma crise.
Digo aos prantos.
- Mais uma crise que te levou a um resgate de urgência.
Meu peito começa a doer e o ar fugir do meu pulmão.
- Pai...
Tento falar, mas minhas forças começam a falhar.
- Ana...
Dora me ampara antes de cair.
- Eu... não... posso...
Ela me olha com pena, me vendo perder o ar.
- Eduardo...
Sussurro, vejo os médicos entrando e meu pai gritando com eles para me sedar. Encaro os olhos de Dora suplicando por ajuda e de repente tudo se torna escuridão.
*************
DOIS MESES DEPOIS
Parece que passou 100 anos desde o acampamento. Minhas crises pioraram e meu pai se tornou ainda mais severo. Me tirou o telefone e qualquer meio de comunicação com meus amigos. Ele acha que me afastando deles vou me esquecer e as crises sumir.
- Ana...
Minha mãe chama me tirando dos meus pensamentos. Seus olhos preocupados me fitam.
- Vem almoçar.
- Estou sem fome.
- Ana, você está fraca por causa das crises, precisa comer.
Fecho meus olhos me lembrando do pedido dele antes de vir embora. Ele pediu para eu ficar bem, mas não consigo.
- Como se me deixar ligar para a Clara.
- Ana...
- Por favor, mãe!
Peço já em lágrimas.
- Ligação rápida.
Limpo meus olhos e pego o celular da mão dela. Disco e espero ansiosa ela atender.
- Alô!
- Clara!
- Ana...
Sua voz é desesperada.
- Minha amiga, como você está?
- Bem!
Respondo sem controlar meu choro.
- Eduardo está te procurando como um louco, você sumiu!
Ele está me procurando... não desistiu de mim. O ar vai sumindo e minha mãe arranca o celular da minha mão.
- Ana, acalma!
Ela sussurra segurando minha mão.
- Clara, ela está tendo uma crise.
Avisa minha amiga no telefone e em seguida desliga. Me abraça e choro tentando imaginar como ele me encontraria. Nova York é longe demais de São Paulo e ele nunca me acharia aqui. Às vezes o vejo no canto do meu quarto ou na calçada em frente a minha casa e acho que estou enlouquecendo.
****************
Após me acalmar sigo com minha mãe para a cozinha comer. Meu pai já está sentado e sorri ao me ver.
- Como está?
Não estou falando com ele, faz dois meses que o ignoro.
- Está melhorando!
Minha mãe responde sorrindo forçado.
- Um dia vai entender que só quero seu bem.
Seguro a minha vontade de gritar com ele. Me trata como algo precioso que deve ser guardado em uma caixa longe de todos. Minha mãe diz que o motivo foram as crises. Me ver quase morrer o deixou assim, cuidadoso demais.
- Tente comer.
Minha mãe pede me vendo mexer o prato.
- Estou sem fome.
- Tente comer pelo menos um pouco.
Respiro fundo encarando meu prato.
- Amanhã é a inauguração da filial onde vou trabalhar. Quero todas vocês lindas.
- Claro, meu bem!
Minha mãe diz de forma doce.
- É aniversario do filho do dono, compre algo para ele.
- Vou levar Ana para passear um pouco e compramos.
- Não poupe dinheiro, quero impressionar o garoto.
**************
Levanto logo cedo e me arrumo.
- Esta bem para uma volta?
- Sim.
Digo arrumando meu cabelo.
- Então vamos.
****************
Caminhamos pelas ruas e um arrepio percorre meu corpo.
- Eduardo...
Sussurro sentindo sua presença e seu cheiro.
Olho para trás e vejo um garoto com malas entrando em um prédio pequeno e por um momento penso ser ele.
- Venha Ana!
Minha mãe grita me chamando. Entro em uma loja com ela que roda em busca de alguma coisa. Paro em frente a pequenos pingentes e começo a rir ao ver um peixe e um esquilo.
- Mãe, posso comprar esses dois?
Ela sorri me vendo feliz.
- Se te faz sorrir assim, pode.
A garota de trás do balcão pega os dois pingentes e uma corrente.
- Quero duas correntes.
Não sei como, mas uma será do meu amor. Ela coloca em uma bolsinha e me entrega. Minha mãe compra um relógio e paga tudo. Seguimos caladas até nossa casa. Assim que chego coloco os pingentes em meu pescoço pensando nele. Assim que completar 18 anos fujo, vou encontrar você esquilinho.
**********
A festa está movimentada e tudo muito bem decorado. Meu pai está feliz exibindo sua falsa família perfeita e eu apenas deixo meu sorriso no rosto como ele pediu. Ando por todo o local e dou graças a Deus quando vejo uma varanda.
- Vou ficar lá fora, preciso de ar.
Sussurro no ouvido da minha mãe.
- Você está bem?
Pergunta preocupada.
- Sim.
Sigo para a varanda e observo a noite estrelada. Minhas mãos seguem para os pingentes e aperto eles forte, fechando meus olhos. Eu queria você aqui...
- Ana...
Sua voz ecoa em meus ouvidos e me viro assustada. Meus olhos ardem e observo seu corpo parando em seus olhos. Não aguento mais ficar imaginando ele.
- Não quero mais imaginar você em todos os lugares.
Suas mãos tocam meu rosto e sinto um arrepio. Isso parece tão real.
- Eu sou real!
Acaricia meu rosto encarando meus olhos.
- Eduardo...
É ele... preciso sentir que é ele.. O puxo para os meus lábios e o beijo com saudade, com dor e amor.
- Eu tentei...
Sussurro em sua boca, Eduardo me prende em seus braços encostando minha cabeça em seu peito.
- Eu te amo! Agora nada vai me afastar de você. Eu juro!
Beija todo o meu rosto me fazendo rir.
- Foi o melhor presente de aniversario que já tive.
Fala sorrindo e sela nossos lábios.
- Você é o filho do chefe do meu pai?
Confirma com a cabeça, me afasto dele desesperada. Meu pai nunca me permitiria namorar o filho do chefe dele.
- O que foi?
Abraço ele forte segurando o pânico. Em dois meses faço 18 anos e ele não mandará mais em mim e não poderá me impedir de amá-lo.
- Quero te apresentar aos meus pais.
Diz me abraçando.
- Ainda não.
Sussurro em seu peito.
- O que está acontecendo, Ana?
Respiro fundo e ergo minha cabeça.
- Meu pai não vai gostar disso. Vamos manter nossa historia escondida por dois meses. Por favor!
- Seu pai te afastou de todos?
- Sim.
Ele alisa meu rosto.
- Por que dois meses?
- Meu aniversário!
Digo sorrindo.
- 18 anos e dona de seu nariz.
- Sim!
Ele sorri e me beija.
- Desde que seja minha para sempre.
- Para sempre!
Sussurro o beijando com calma, sentindo seu sabor maravilhoso.
- Tenho uma coisa para você.
Digo levando a mão ao meu pescoço e tirando o colar. Assim que mostro o vejo sorrir lindamente.
- Uma peixinha.
- Sim.
Coloco nele e mostro o meu.
- Um esquilinho.
- Assim estaremos sempre juntos.
NARRAÇÃO EDUARDO
- Tenho uma coisa para você.
Ana diz com um enorme sorriso levando a mão ao seu pescoço. Sua mão puxa uma corrente e então vejo o pingente de um peixe lindo.
- Uma peixinha!
Digo tocando o pingente.
- Sim!
Coloca em meu pescoço, sua mão puxa uma corrente de dentro do seu vestido. Começo a rir feito um idiota apaixonado ao ver o pingente dela.
- Um esquilinho!
- Assim estaremos sempre juntos.
Ela me abraça forte.
- Parabéns, meu amor!
Fecho meus olhos sentindo sua pele na minha. Ela foi o meu melhor presente hoje.
- Obrigado, não sabe como estou feliz passando esse dia ao seu lado.
Me afasto e seguro seu rosto.
- Eu amo você! Amo de um jeito tão louco e intenso que às vezes acho que meu coração só bate quando está ao seu lado.
Seus olhos estão cheios de lágrimas.
- Quando cheguei ao hospital para te ver e você não estava, quase enlouqueci. Meu coração parou de bater por dois meses.
Pego sua mão e levo ao meu peito.
- Ele voltou a bater quando te viu hoje.
Se ergue nas pontas dos pés e sela seus lábios ao meu. Abraço-a forte colando seu corpo ao meu, aprofundando nosso beijo. Suas mãos se enfiam em meu cabelo o puxando forte me fazendo suspirar em sua boca.
- Eu queria uma estufa agora.
Sussurra me fazendo sorrir.
- Queria qualquer lugar desde que fosse com você.
Ela sorri e me puxa para um canto na varanda.
- Você veio morar em Nova York?
Me pergunta sentando em um banco.
- Não.
Seus olhos perdem o brilho e me sento ao seu lado.
- Vai embora quando?
- Ana...
Seguro sua mão e respiro fundo.
- Preciso terminar meus estudos lá antes de vir definitivamente. Meus planos é vir morar aqui em dois meses, pra fazer faculdade e cuidar dessa empresa.
Agora é a vez dela respirar fundo.
- O que são mais dois meses?
Diz erguendo os ombros.
- Agora vou ter que mudar meus planos.
Diz olhando suas mãos.
- Quais eram seus planos?
Pergunto erguendo seu queixo.
- Estou tendo aulas particulares em casa, então vou conseguir terminar meus estudos na semana do meu aniversário.
Ela encara meus olhos.
- Estava planejando fugir para São Paulo, tentar bolsa em uma faculdade perto de um certo esquilinho e morar em um alojamento.
Me aproximo e seguro suas mãos com mais força.
- Não vai precisar fugir, podemos tentar a mesma faculdade aqui.
Sorri lindamente e morde os lábios.
- Ainda assim não posso ficar com meus pais, preciso sair de lá assim que puder.
- Ainda não entendo tudo isso. Por que seu pai te isola assim do mundo?
Ele não me pareceu um homem estúpido ou possessivo agora pouco.
- Minha mãe disse que ele entrou em pânico depois que eu quase morri em uma crise. Daquele dia em diante me trata como uma boneca de cristal.
- Eu te vi em crise, Ana!
Ela me encara.
- Naquele momento eu te vi frágil como um cristal. O medo de te perder foi grande.
- Não justifica a forma como ele me trata, Eduardo!
Seus olhos transmitem dor e medo.
- Lembra quando me perguntou sobre meus planos para o futuro?
- Sim.
- Eu te disse que não queria ter raiz, que não me via trancada em uma faculdade. Queria conhecer o mundo e viajar.
- O motivo para querer fugir é o seu pai.
Digo vendo-a confirmar com a cabeça. Ana se sente presa em uma gaiola e agora entendo sua vontade de conhecer tudo no acampamento. Sabia onde ficava tudo, amava a liberdade de lá.
- Eu não posso correr o mundo com você, Ana!
Suas mãos tocam meu rosto com delicadeza.
- Eu não preciso sair por ai para ver o mundo Eduardo, quando ele está bem aqui na minha frente.
Seus olhos agora voltam a brilhar.
- Meu mundo é você, meu lugar é ao seu lado.
Puxo seu corpo para mim e beijo sua boca agora com violência e desejo. Ela é tão incrível e perfeita! Quero Ana para mim pela eternidade.
- Ana...
A voz de uma mulher surge e Ana me empurra assustada.
- Minha mãe.
Diz se levantando do banco nervosa.
- Ana, acalma!
Sussurro segurando sua mão e ela se afasta em pânico.
- Filha...
Uma senhora bem vestida e sorridente surge.
- Você está bem?
- Sim, mamãe!
A mulher me olha.
- Já fez um amigo?
- Eduardo Velásquez.
Digo erguendo minha mão.
- O aniversariante, prazer Eduardo! Sou Carla, esposa do Valter.
Ana está pálida e isso me preocupa.
- Parabéns... desejo felicidades!
- Obrigado!
Ela agora se vira para Ana.
- Você está pálida, meu bem.
- Estou bem!
Ana fala baixo sem conseguir me olhar.
- Eduardo me desculpe, mas vamos ter que deixá-lo por um momento, minha filha parece não estar bem.
- Sem problemas.
Carla abraça a filha e segue para dentro da festa, vejo ir ao banheiro. Ando para dentro e me posiciono perto do banheiro caso ela precise de ajuda.
- Filho...
Meu pai me chama sorrindo, encaro a porta do banheiro e depois ele. Respiro fundo e sigo para o seu lado.
- Valter estava me explicando os detalhes da construção. Seria interessante saber como sua futura empresa foi construída.
- Claro!
Valter começa a sua explicação, mas minha cabeça e olhos estão naquele banheiro. Sorri algumas vezes mostrando interesse e então a porta se abre. Ana sai com sua mãe e se aproximam da gente.
- Filha, você está bem?
Para de falar olhando Ana que está menos pálida que antes.
- Sim, papai!
Ela diz de cabeça baixa.
- Quer ir embora?
- Não...
Responde erguendo a cabeça o encarando.
- A festa está ótima.
Seus olhos se voltam para mim.
- Quando quiser ir, me avise meu bem.
- Sim!
Ele volta a falar sobre a obra e meus olhos estão colados em dois lindos olhos azuis. Ela morde os lábios reprimindo um sorriso e levo minha mão ao meu pingente. Fica vermelha e segura o dela também. Meu pai faz uma pergunta e Valter vira-se para ele. Aproveito e me aproximo de Ana já que sua mãe conversa com a minha. Paro ao seu lado colando nossos ombros. Minha mão vai para trás do meu corpo assim como a dela. Nossos dedos começam a se roçar e ela sorri.
- Quero te ver amanhã.
Sussurro abaixando minha cabeça.
- Não sei se vou conseguir sair de casa sozinha.
- Vou embora à noite e preciso te ver antes de ir.
Nossos dedos se entrelaçam e ela suspira.
- Minha casa fica cinco minutos do Central Park.
- Meu apartamento também.
Digo sorrindo.
- Se eu conseguir sair será à tarde.
- Não me importo se for por apenas cinco minutos.
- Vai embora e só volta daqui dois meses?
Pergunta olhando seus pais que ainda conversam com os meus.
- Acho que venho antes.
- Vou tentar aparecer no parque ás 14hs.
- Eu vou te esperar.
Valter nos olha e Ana solta a minha mão se afastando.
- Acho que está na hora de ir.
Ele diz com um olhar sombrio e Ana respira fundo.
- Claro! Ana, venha meu bem!
Sua mãe diz sorrindo, ela me olha e se aproxima. Me da um abraço simples.
- Eu te amo!
Sussurra e me solta seguindo até seus pais. Observo ser abraçada por sua mãe e então ela some pelas portas da empresa. Seguro meu pingente forte e fecho meus olhos. Ainda não estamos juntos como eu queria, mas pelo menos já sei onde e como ela está.