Capítulo 2

NARRAÇÃO ANA

Escuto vozes em uma pequena discussão. Abro meus olhos e meu maior medo se torna verdade.

- Pai...

Sussurro em pânico tentando me levantar.

- Fique calma, meu amor!

Minha mãe diz calmamente, segurando minha mão.

Olho em volta e vejo Dora de frente para o meu pai. Era ela quem estava discutindo com ele.

- Como se sente?

Ele pergunta de forma grosseira como sempre.

- Bem!

Minha mãe sorri e acaricia meu rosto.

- Ótimo! Estamos voltando para casa, os médicos já te deram alta.

- Não... eu não posso !!!!!!!!!!!!!!!!

Quase grito sentindo o pânico tomar meu peito.

- Você pode e vai!

Responde com seus olhos raivosos.

- Pai, preciso me despedir da Clara e dos meus amigos.

- Eles não serão mais seus amigos quando formos embora, então não precisa se despedir deles.

Diz rudemente se virando para sair.

- Pai, por favor...

Peço me levantando da cama já sentindo a falta de ar me tomar. Não posso ir sem falar com ele, não posso deixá-lo assim. Se vira bruscamente e me olha firme.

- Sempre disse que você era uma pessoa fraca Ana, por causa da sua doença. Nunca fui a favor de suas vindas para o acampamento e olha o que deu. Você quase morreu!

- Estou bem, foi apenas mais uma crise.

Digo aos prantos.

- Mais uma crise que te levou a um resgate de urgência.

Meu peito começa a doer e o ar fugir do meu pulmão.

- Pai...

Tento falar, mas minhas forças começam a falhar.

- Ana...

Dora me ampara antes de cair.

- Eu... não... posso...

Ela me olha com pena, me vendo perder o ar.

- Eduardo...

Sussurro, vejo os médicos entrando e meu pai gritando com eles para me sedar. Encaro os olhos de Dora suplicando por ajuda e de repente tudo se torna escuridão.

*************

DOIS MESES DEPOIS

Parece que passou 100 anos desde o acampamento. Minhas crises pioraram e meu pai se tornou ainda mais severo. Me tirou o telefone e qualquer meio de comunicação com meus amigos. Ele acha que me afastando deles vou me esquecer e as crises sumir.

- Ana...

Minha mãe chama me tirando dos meus pensamentos. Seus olhos preocupados me fitam.

- Vem almoçar.

- Estou sem fome.

- Ana, você está fraca por causa das crises, precisa comer.

Fecho meus olhos me lembrando do pedido dele antes de vir embora. Ele pediu para eu ficar bem, mas não consigo.

- Como se me deixar ligar para a Clara.

- Ana...

- Por favor, mãe!

Peço já em lágrimas.

- Ligação rápida.

Limpo meus olhos e pego o celular da mão dela. Disco e espero ansiosa ela atender.

- Alô!

- Clara!

- Ana...

Sua voz é desesperada.

- Minha amiga, como você está?

- Bem!

Respondo sem controlar meu choro.

- Eduardo está te procurando como um louco, você sumiu!

Ele está me procurando... não desistiu de mim. O ar vai sumindo e minha mãe arranca o celular da minha mão.

- Ana, acalma!

Ela sussurra segurando minha mão.

- Clara, ela está tendo uma crise.

Avisa minha amiga no telefone e em seguida desliga. Me abraça e choro tentando imaginar como ele me encontraria. Nova York é longe demais de São Paulo e ele nunca me acharia aqui. Às vezes o vejo no canto do meu quarto ou na calçada em frente a minha casa e acho que estou enlouquecendo.

****************

Após me acalmar sigo com minha mãe para a cozinha comer. Meu pai já está sentado e sorri ao me ver.

- Como está?

Não estou falando com ele, faz dois meses que o ignoro.

- Está melhorando!

Minha mãe responde sorrindo forçado.

- Um dia vai entender que só quero seu bem.

Seguro a minha vontade de gritar com ele. Me trata como algo precioso que deve ser guardado em uma caixa longe de todos. Minha mãe diz que o motivo foram as crises. Me ver quase morrer o deixou assim, cuidadoso demais.

- Tente comer.

Minha mãe pede me vendo mexer o prato.

- Estou sem fome.

- Tente comer pelo menos um pouco.

Respiro fundo encarando meu prato.

- Amanhã é a inauguração da filial onde vou trabalhar. Quero todas vocês lindas.

- Claro, meu bem!

Minha mãe diz de forma doce.

- É aniversario do filho do dono, compre algo para ele.

- Vou levar Ana para passear um pouco e compramos.

- Não poupe dinheiro, quero impressionar o garoto.

**************

Levanto logo cedo e me arrumo.

- Esta bem para uma volta?

- Sim.

Digo arrumando meu cabelo.

- Então vamos.

****************

Caminhamos pelas ruas e um arrepio percorre meu corpo.

- Eduardo...

Sussurro sentindo sua presença e seu cheiro.

Olho para trás e vejo um garoto com malas entrando em um prédio pequeno e por um momento penso ser ele.

- Venha Ana!

Minha mãe grita me chamando. Entro em uma loja com ela que roda em busca de alguma coisa. Paro em frente a pequenos pingentes e começo a rir ao ver um peixe e um esquilo.

- Mãe, posso comprar esses dois?

Ela sorri me vendo feliz.

- Se te faz sorrir assim, pode.

A garota de trás do balcão pega os dois pingentes e uma corrente.

- Quero duas correntes.

Não sei como, mas uma será do meu amor. Ela coloca em uma bolsinha e me entrega. Minha mãe compra um relógio e paga tudo. Seguimos caladas até nossa casa. Assim que chego coloco os pingentes em meu pescoço pensando nele. Assim que completar 18 anos fujo, vou encontrar você esquilinho.

**********

A festa está movimentada e tudo muito bem decorado. Meu pai está feliz exibindo sua falsa família perfeita e eu apenas deixo meu sorriso no rosto como ele pediu. Ando por todo o local e dou graças a Deus quando vejo uma varanda.

- Vou ficar lá fora, preciso de ar.

Sussurro no ouvido da minha mãe.

- Você está bem?

Pergunta preocupada.

- Sim.

Sigo para a varanda e observo a noite estrelada. Minhas mãos seguem para os pingentes e aperto eles forte, fechando meus olhos. Eu queria você aqui...

- Ana...

Sua voz ecoa em meus ouvidos e me viro assustada. Meus olhos ardem e observo seu corpo parando em seus olhos. Não aguento mais ficar imaginando ele.

- Não quero mais imaginar você em todos os lugares.

Suas mãos tocam meu rosto e sinto um arrepio. Isso parece tão real.

- Eu sou real!

Acaricia meu rosto encarando meus olhos.

- Eduardo...

É ele... preciso sentir que é ele.. O puxo para os meus lábios e o beijo com saudade, com dor e amor.

- Eu tentei...

Sussurro em sua boca, Eduardo me prende em seus braços encostando minha cabeça em seu peito.

- Eu te amo! Agora nada vai me afastar de você. Eu juro!

Beija todo o meu rosto me fazendo rir.

- Foi o melhor presente de aniversario que já tive.

Fala sorrindo e sela nossos lábios.

- Você é o filho do chefe do meu pai?

Confirma com a cabeça, me afasto dele desesperada. Meu pai nunca me permitiria namorar o filho do chefe dele.

- O que foi?

Abraço ele forte segurando o pânico. Em dois meses faço 18 anos e ele não mandará mais em mim e não poderá me impedir de amá-lo.

- Quero te apresentar aos meus pais.

Diz me abraçando.

- Ainda não.

Sussurro em seu peito.

- O que está acontecendo, Ana?

Respiro fundo e ergo minha cabeça.

- Meu pai não vai gostar disso. Vamos manter nossa historia escondida por dois meses. Por favor!

- Seu pai te afastou de todos?

- Sim.

Ele alisa meu rosto.

- Por que dois meses?

- Meu aniversário!

Digo sorrindo.

- 18 anos e dona de seu nariz.

- Sim!

Ele sorri e me beija.

- Desde que seja minha para sempre.

- Para sempre!

Sussurro o beijando com calma, sentindo seu sabor maravilhoso.

- Tenho uma coisa para você.

Digo levando a mão ao meu pescoço e tirando o colar. Assim que mostro o vejo sorrir lindamente.

- Uma peixinha.

- Sim.

Coloco nele e mostro o meu.

- Um esquilinho.

- Assim estaremos sempre juntos.

Capítulo 3

NARRAÇÃO EDUARDO

- Tenho uma coisa para você.

Ana diz com um enorme sorriso levando a mão ao seu pescoço. Sua mão puxa uma corrente e então vejo o pingente de um peixe lindo.

- Uma peixinha!

Digo tocando o pingente.

- Sim!

Coloca em meu pescoço, sua mão puxa uma corrente de dentro do seu vestido. Começo a rir feito um idiota apaixonado ao ver o pingente dela.

- Um esquilinho!

- Assim estaremos sempre juntos.

Ela me abraça forte.

- Parabéns, meu amor!

Fecho meus olhos sentindo sua pele na minha. Ela foi o meu melhor presente hoje.

- Obrigado, não sabe como estou feliz passando esse dia ao seu lado.

Me afasto e seguro seu rosto.

- Eu amo você! Amo de um jeito tão louco e intenso que às vezes acho que meu coração só bate quando está ao seu lado.

Seus olhos estão cheios de lágrimas.

- Quando cheguei ao hospital para te ver e você não estava, quase enlouqueci. Meu coração parou de bater por dois meses.

Pego sua mão e levo ao meu peito.

- Ele voltou a bater quando te viu hoje.

Se ergue nas pontas dos pés e sela seus lábios ao meu. Abraço-a forte colando seu corpo ao meu, aprofundando nosso beijo. Suas mãos se enfiam em meu cabelo o puxando forte me fazendo suspirar em sua boca.

- Eu queria uma estufa agora.

Sussurra me fazendo sorrir.

- Queria qualquer lugar desde que fosse com você.

Ela sorri e me puxa para um canto na varanda.

- Você veio morar em Nova York?

Me pergunta sentando em um banco.

- Não.

Seus olhos perdem o brilho e me sento ao seu lado.

- Vai embora quando?

- Ana...

Seguro sua mão e respiro fundo.

- Preciso terminar meus estudos lá antes de vir definitivamente. Meus planos é vir morar aqui em dois meses, pra fazer faculdade e cuidar dessa empresa.

Agora é a vez dela respirar fundo.

- O que são mais dois meses?

Diz erguendo os ombros.

- Agora vou ter que mudar meus planos.

Diz olhando suas mãos.

- Quais eram seus planos?

Pergunto erguendo seu queixo.

- Estou tendo aulas particulares em casa, então vou conseguir terminar meus estudos na semana do meu aniversário.

Ela encara meus olhos.

- Estava planejando fugir para São Paulo, tentar bolsa em uma faculdade perto de um certo esquilinho e morar em um alojamento.

Me aproximo e seguro suas mãos com mais força.

- Não vai precisar fugir, podemos tentar a mesma faculdade aqui.

Sorri lindamente e morde os lábios.

- Ainda assim não posso ficar com meus pais, preciso sair de lá assim que puder.

- Ainda não entendo tudo isso. Por que seu pai te isola assim do mundo?

Ele não me pareceu um homem estúpido ou possessivo agora pouco.

- Minha mãe disse que ele entrou em pânico depois que eu quase morri em uma crise. Daquele dia em diante me trata como uma boneca de cristal.

- Eu te vi em crise, Ana!

Ela me encara.

- Naquele momento eu te vi frágil como um cristal. O medo de te perder foi grande.

- Não justifica a forma como ele me trata, Eduardo!

Seus olhos transmitem dor e medo.

- Lembra quando me perguntou sobre meus planos para o futuro?

- Sim.

- Eu te disse que não queria ter raiz, que não me via trancada em uma faculdade. Queria conhecer o mundo e viajar.

- O motivo para querer fugir é o seu pai.

Digo vendo-a confirmar com a cabeça. Ana se sente presa em uma gaiola e agora entendo sua vontade de conhecer tudo no acampamento. Sabia onde ficava tudo, amava a liberdade de lá.

- Eu não posso correr o mundo com você, Ana!

Suas mãos tocam meu rosto com delicadeza.

- Eu não preciso sair por ai para ver o mundo Eduardo, quando ele está bem aqui na minha frente.

Seus olhos agora voltam a brilhar.

- Meu mundo é você, meu lugar é ao seu lado.

Puxo seu corpo para mim e beijo sua boca agora com violência e desejo. Ela é tão incrível e perfeita! Quero Ana para mim pela eternidade.

- Ana...

A voz de uma mulher surge e Ana me empurra assustada.

- Minha mãe.

Diz se levantando do banco nervosa.

- Ana, acalma!

Sussurro segurando sua mão e ela se afasta em pânico.

- Filha...

Uma senhora bem vestida e sorridente surge.

- Você está bem?

- Sim, mamãe!

A mulher me olha.

- Já fez um amigo?

- Eduardo Velásquez.

Digo erguendo minha mão.

- O aniversariante, prazer Eduardo! Sou Carla, esposa do Valter.

Ana está pálida e isso me preocupa.

- Parabéns... desejo felicidades!

- Obrigado!

Ela agora se vira para Ana.

- Você está pálida, meu bem.

- Estou bem!

Ana fala baixo sem conseguir me olhar.

- Eduardo me desculpe, mas vamos ter que deixá-lo por um momento, minha filha parece não estar bem.

- Sem problemas.

Carla abraça a filha e segue para dentro da festa, vejo ir ao banheiro. Ando para dentro e me posiciono perto do banheiro caso ela precise de ajuda.

- Filho...

Meu pai me chama sorrindo, encaro a porta do banheiro e depois ele. Respiro fundo e sigo para o seu lado.

- Valter estava me explicando os detalhes da construção. Seria interessante saber como sua futura empresa foi construída.

- Claro!

Valter começa a sua explicação, mas minha cabeça e olhos estão naquele banheiro. Sorri algumas vezes mostrando interesse e então a porta se abre. Ana sai com sua mãe e se aproximam da gente.

- Filha, você está bem?

Para de falar olhando Ana que está menos pálida que antes.

- Sim, papai!

Ela diz de cabeça baixa.

- Quer ir embora?

- Não...

Responde erguendo a cabeça o encarando.

- A festa está ótima.

Seus olhos se voltam para mim.

- Quando quiser ir, me avise meu bem.

- Sim!

Ele volta a falar sobre a obra e meus olhos estão colados em dois lindos olhos azuis. Ela morde os lábios reprimindo um sorriso e levo minha mão ao meu pingente. Fica vermelha e segura o dela também. Meu pai faz uma pergunta e Valter vira-se para ele. Aproveito e me aproximo de Ana já que sua mãe conversa com a minha. Paro ao seu lado colando nossos ombros. Minha mão vai para trás do meu corpo assim como a dela. Nossos dedos começam a se roçar e ela sorri.

- Quero te ver amanhã.

Sussurro abaixando minha cabeça.

- Não sei se vou conseguir sair de casa sozinha.

- Vou embora à noite e preciso te ver antes de ir.

Nossos dedos se entrelaçam e ela suspira.

- Minha casa fica cinco minutos do Central Park.

- Meu apartamento também.

Digo sorrindo.

- Se eu conseguir sair será à tarde.

- Não me importo se for por apenas cinco minutos.

- Vai embora e só volta daqui dois meses?

Pergunta olhando seus pais que ainda conversam com os meus.

- Acho que venho antes.

- Vou tentar aparecer no parque ás 14hs.

- Eu vou te esperar.

Valter nos olha e Ana solta a minha mão se afastando.

- Acho que está na hora de ir.

Ele diz com um olhar sombrio e Ana respira fundo.

- Claro! Ana, venha meu bem!

Sua mãe diz sorrindo, ela me olha e se aproxima. Me da um abraço simples.

- Eu te amo!

Sussurra e me solta seguindo até seus pais. Observo ser abraçada por sua mãe e então ela some pelas portas da empresa. Seguro meu pingente forte e fecho meus olhos. Ainda não estamos juntos como eu queria, mas pelo menos já sei onde e como ela está.

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