Capítulo 2

"Não busco a perfeição em ninguém, porque não quero que busquem em mim." - Chorão.

VICENTE

UM ANOS ANTES.

- Como vai ser agora Henrique?

Ouço minha mãe falar, não abri meus olhos ainda, apesar da dor que estou sentindo, encarar o olhar de desapontamento do meu pai vai ser bem pior.

- Eu não sei Luiza, vou conversar com o casal que foi atingido no acidente, quem sabe eles aceitem dinheiro.

- Meus Deus, meu filho poderia ter morrido!

Sinto o peso das palavras de minha mãe, eu realmente poderia ter morrido.

- Você só se preocupa com esse inconsequente, foi ele quem provou o acidente Luiza, você viu o teor alcoólico no sangue do seus filho? - As palavras do meu pai som como um trovão, aumentando ainda mais minha dor de cabeça. - O casal que ele quase matou, estava indo para o trabalho, para o trabalho! Meu Deus eu nem sei como vou conversar com aqueles dois para oferecer dinheiro em troca de silencio.

O silencio que se faz no quarto me diz que meu pai está muito puto, que o melhor a fazer é continuar fingindo que estou dormindo, ouço seus passos pelo quarto, ele está agitado.

- O Vicente merecia ir preso!

Sinto meu peito apertar, há uma chance real de que meu pai me deixe ir para a cadeia, ele vem me avisando que se outra merda acontecesse, não iria me perdoar.

- Pelo amor de Deus Henrique. - Minha suplica. - O que vai ser do meu filhinho na cadeia em meio aquele monte de bandido.

Graças a Deus, minha mãe começa a interceder por mim.

- Seu filho é um delinquente também, e da pior espécie, ele bebeu e assumiu um volante, sabendo que poderia se matar ou matar um inocente, como quase aconteceu!

Minha cabeça dói ainda mais, as lembranças do acidente voltam no mesmo instante. Beto e eu estávamos em uma festa em uma boate muito exclusiva, eu bebi demais e ele também, acabei cedendo e usando pela primeira vez cocaína, nunca mais coloco nada dessas substancias no meu corpo, a sensação foi boa no inicio, mas depois vem uma loucura que nada faz parar.

Foi nessa hora que resolvemos ir embora, com a sensação de que alguém nos perseguia eu acelerei meu minha Ferrari nova, Beto ria também sob o efeito da droga, enquanto Bruna minha ex, que eu não me lembrava em que momento entrou no carro gritava.

- Vince por favor vai devagar.

Não dei atenção ao que ela falava, imerso no ódio que ela me desperta, na magoa que ainda sinto pelo que ela fez, deixo minha adrenalina correr solta pelo meu corpo, a sensação de perseguição era tão intensa que meu medo me fez acelerar ainda mais, ao mesmo tempo que eu curtia a sensação de liberdade provocada pela velocidade.

- Vince a gente vai bater. - Bruna gritou afivelando o cinto ao meu lado.

Entrei em uma curva correndo muito, não vi que sinal a minha frente estava fechado, só vi quando atingi a traseira de uma moto, não sei ao certo o que aconteceu, só lembro que o carro rodou com a freada brusca, quando girei o volante tentando tomar o controle, ele capotou.

- Pode abrir os olhos Vicente, sei que está acordado. - A voz de minha mãe ecoa pelo quarto.

Absorto em minhas lembranças não ouvi meu pai sair.

- Ele já saiu, se é pelo seu pai quem está procurando.

Minha mãe me encara séria, ela é muito boa em livrar minha barra, sempre foi assim, eu aprontava meu pai vinha me corrigir e ela intercedia por mim. Com certeza, ela deve ter convencido meu pai a livrar minha barra, mais uma vez.

- O que aconteceu Vicente? - Minha mãe pergunta se aproximando da cama de hospital.

- Eu não sei mãe. - Minto, claro que eu sabia o que tinha feito, mais uma loucura.

- Não sabe? - Ela estreita os olhos para me olhar. - Pois eu vou te contar o que aconteceu. Você bebeu e se drogou. - Desvio os olhos dela, por vergonha, sempre fiz muita merda na minha vida, mas usar drogas, foi a primeira vez. - Não adianta querer mentir os exames mostraram.

- Não disse que era mentira.

- Mas diria que eu te conheço bem. - Não retruco, porque certamente era o que eu faria. - Não satisfeito em "curtir" a farra com o bando de desocupado que você anda, pegou o volante e causou um acidente.

- Não me lembro bem de como foi o acidente. Minha mente pega fragmentos do que aconteceu, vejo tudo fora de ordem. Eu acertei a moto em cheio?

- Claro que não. Se não aquele pobre casal não estariam vivos.

Uma sensação de alivia me toma, graças a Deus não matei ninguém.

- Como foi? Não lembro como bati minha Ferrari.

Minha mãe passa as mãos pelos cabelos escovados e impecáveis como sempre, me olha molhando os lábios, eu posso ver a decepção em seu olhar.

- As câmeras de segurança mostraram que você tentou desviar, quando o carro começou a girar, atingiu a lateral da moto, lançando o casal alguns metros a frente, então você capotou uma vez.

- Minha Ferrari? - Pergunto sabendo que deu perda total.

- Sério Vicente, que sua preocupação é se a sua Ferrari está inteira?

Desvio os olhos, eu deveria perguntar sobre as pessoas primeiro, eu sei que fui um idiota, como sempre preocupado comigo mesmo.

- A Bruna e o Beto estão bem, só pequenas escoriações, já o casal a mulher que estava na garupa quebrou a perna, está em cirurgia, o marido quebrou o braço, seu pai foi vê-lo.

- Eles estão aqui?

Pergunto chocado, estamos em um hospital particular bem caro.

- Claro que estão, seu pai fez questão de pagar o tratamento deles, você queria o quê? Mandá-los para o SUS, para que a mulher perdesse a perna e depois nos processasse?

- Eu ouvi o que ele disse.

- É bom que tenha ouvido mesmo, seu pai não vai te dar outra chance Vicente, se você não tomar jeito ele vai te tirar da empresa e cortar seus benefícios, todos eles.

Sinto meu sangue talhar na veias, não estou preparado para perder tudo, minha vida é boa demais.

- Eu vou mudar mãe, eu vi o fim da vida de perto.

- Eu espero que mude Vicente. - Meu pai fala ao entrar no quarto. - Não estou disposto a te dar uma nova chance.

Capítulo 3

AMAYA

Cheguei em casa cansada o dia na empresa foi bem exaustivo hoje, há uma movimentação diferente na empresa, alguma coisa está acontecendo. Subo as escadas pensativa, papai passou o dia todo fora em uma reunião, que eu nem fiquei sabendo sobre o que se tratava.

Sinto os jatos quentes da água relaxarem meus músculos, fecho os olhos pensando em quanto tempo faz que não saio com ninguém, as batidas na porta me tiram a concentração.

- Estou no banho. - Grito para a pessoa. - A porta do banheiro se abre instantes depois. - Oi mãe.

- Oi meu bem, seu pai quer conversar com nós duas.

- Ele já chegou. - Pergunto fechando o registro do chuveiro, buscando a toalha para me secar.

- Chegou filha, e não está com uma cara muito boa.

- Vou deixar você terminar, não demora, estamos no escritório.

- Tudo bem mãe.

Visto uma calça de moletom, com uma camiseta, quero dormir cedo hoje. Enquanto desço as escadas fico pensando no que meu pai poderia querer falar comigo e minha mãe juntas, copm certeza coisa boa não é.

A conversa que roda nos corredores da empresa é que estamos falindo, não faço parte do conselho fiscal, muito menos morro de amores pelo diretor financeiro. Ouvi ontem uma funcionária falar sobre demissão em massa, claro que não acredito nessa bobagem, meu pai é um excelente administrador, não deixaria a empreso do m eu avô acabar assim, deixaria?

Paro em frente a enorme porta de madeira, meu coração está pesado, algo me diz que não são boas as noticias que vou ouvir. Dou duas batidas na porta antes de entrar.

- Oi pai. - Vou até dar um beijo e um abraço.

A figura de Paulo Salles, o homem imponente está de costas, parado na janela olhando o jardim, segurando seu inseparável charuto.

- Oi minha filha.

Ele se vira com o rosto cansado, tenta forçar um sorriso, que sai falho, ele me abraça com mais força que o normal, me fazendo entender que algo muito ruim aconteceu.

- Sente com sua mãe, a nossa conversa vai ser difícil!

Eu não sabia o quanto aquela conversa mudaria minha vida, o tamanho do sacrifício que eu faria para salvar nossa família.

- Vou direto ao ponto. - Meu pai ao se sentar na sua enorme cadeira de couro. - A empresa está falida.

Minha cabeça começa a girar, sinto o chão sumir debaixo dos meus pés, não pode ser, a empresa está falida, nós estamos falidos!

- Como assim querido? - Minha pergunta assustada, colocando em palavras o que eu não fui capaz de fazer.

- Estamos falidos Lúcia. - Ele diz e solta um lufo de ar. - Nós perderemos tudo em pouco tempo.

Minha cabeça está girando com a informação, tento raciocinar, tentando entender como foi que chegamos a esse ponto, como foi que isso aconteceu?

- Pai, a seis meses atrás nosso balanço anual foi super positivo, como isso aconteceu?

Não entendo na ultima reunião geral da diretoria, os resultados apresentados foram magníficos, estávamos prosperando muito.

- Foi o Antônio.

E então minha ficha cai, não era preciso dizer mais nada. Antônio Oliveira da Silva, o contador de confiança de papai e diretor financeiro, seu braço direito, o pau para toda obra, o amigo de sempre! O que eu via? Um homem invejoso que ansiava tomar o lugar do meu pai dentro da empresa dele, toda vez que eu dizia que Antônio não era de confiança, que papai depositava confiança demais naquele homem, ele me respondia que era coisa da minha cabeça, que o Antônio era seu amigo desde a época da faculdade, nunca faria algo para nos prejudicar, que estava vendo coisas onde não existia.

- Como pai?

Sinto meu coração pesar, a PWS indústrias S/A, foi fundada por meu avô Pedro em 1955, é uma empresa sólida, no mercado interno e externo, sempre vendemos muito, somos competitivos no mercado, como isso aconteceu?

- A verdade Amaya é que eu não vi, Antônio vinha nos roubando há anos, estamos em estado de

misericórdia, perdemos vários contratos grandes por descumprir prazos, eu não sei o que fazer, estou chegando ao meu limite!

- Podemos solicitar um empréstimo pai? - Tento ajudar a encontrar uma solução.

- Filha. - Ele me olha com pesar, agora posso ver suas olheiras. - Estamos devendo ao banco também, eu não sei ainda a dimensão de tudo, estamos analisando, mas é pior do que podemos

imaginar. A única solução imediata que vejo é tentar vender algumas propriedades antes de decretarem nossa falência, acho que será o suficiente para pagar os funcionários e tentar

recuperar alguns contratos, não vou me dar por vencido tão fácil.

Muito menos eu esperaria o contrario vindo dele. Papai sempre foi um lutador, nunca se deu por vencido, ele se dedicou muito para manter o legado da empresa do meu avô, não vai ser uma tempestade que irá derrubar nossas estruturas.

- Eu sei que não pai.

- Vamos começar cortando o máximo de despesas, até as mais bobas, só assim vamos conseguir resolver essa situação.

Minha mãe se levanta já chorando, ela vai até meu pai se senta em seu colo, abraça a ele ela chora.

- Ah querido, conte comigo.

Levanto do sofá e me junto a eles no abraço, estamos todos emocionados, nunca pensei que passaríamos por uma situação como essa, tenho certeza que unidos vamos dar a volta por cima, nossa família não vai se deixar abater.

- Vamos passar por isso juntos.

Papai parece adivinhar meus pensamentos, ele se levanta para beijar minha testa, ele nos acolhe em seus braços, mamãe eu ficamos ali sentindo a segurança que só ele nos dá. Enquanto alisa nossas costas, fico imaginado o sentimento de desespero que ele deve estar sentindo, uma vez que para mim está sendo assustador, para ele é bem pior.

Os dias se arrastam, apesar de papai ter conseguido vender uma fazendo, um prédio comercial, algumas outras propriedades menores, antes de termos nossos bens bloqueados, só foi o suficiente para pagarmos as dívidas trabalhistas e os gastos mais urgentes da empresa e da nossa casa, a justiça resolveu determinar que não podemos mexer em mais nada, até ser analisada a situação da empresa.

Só de pensar no quanto Antônio nos moldou ao seu bel prazer me deixa furiosa, em todas as reuniões da empresa era sempre o cretino quem explicava tudo, então contávamos na verdade que ela nos apresentava com gráficos e dados confiáveis. Apesar de sempre ter um pé atrás com a pessoa dele, o lado profissional era bem moldado a nos mostrar o que queríamos ver, nunca tive uma base solida para questionar seu comportamento a não ser minha intuição nada em Antônio denunciava seu mal caráter.

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