Capítulo 2

Clara acordou com o cheiro de antisséptico.

O quarto do hospital era particular, caro e vazio. Ela estava sozinha. Seu corpo doía, uma dor surda e latejante que parecia irradiar de seus próprios ossos.

Uma enfermeira entrou, sua expressão uma mistura de pena e desaprovação.

"Você acordou. Ficou desacordada por um dia inteiro. Sinceramente, doar tanto sangue já estando anêmica... o que você estava pensando?"

Clara apenas ofereceu um sorriso fraco. O que havia para dizer?

A enfermeira suspirou, afofando seu travesseiro. "Você tem sorte. Pode receber alta esta tarde. Seu marido pagou por tudo."

Quando a enfermeira saiu, Clara a ouviu conversando com uma colega no corredor.

"Você acredita? Ela desmaia por doar sangue para a ex dele, e ele nem veio vê-la uma vez."

"Eu sei! Ele ficou no quarto da Sra. Fontes o tempo todo. Ele é tão devotado a ela. Queria ter um homem que me amasse tanto assim."

"É, mas coitada da esposa dele... fica aí deitada, sozinha."

As vozes desapareceram. Clara olhou pela janela, observando um pássaro solitário voar pelo céu cinzento.

A tarde veio e se foi. Caio nunca apareceu.

Sentindo-se tonta, Clara deu alta a si mesma do hospital. Ela teve que passar pelo quarto de Cassandra para chegar ao elevador.

A porta estava entreaberta.

Ela o viu. Caio estava sentado ao lado da cama de Cassandra, segurando sua mão, sua expressão mais suave e terna do que ela jamais vira. Ele estava descascando uma maçã para ela, seus movimentos cuidadosos e precisos. Ele nem sequer olhou para o corredor. Ele não sabia que ela estava lá. Ele não havia perguntado.

A cena era um tipo familiar de dor. Ela se virou e foi embora.

A casa estava fria e vazia. Parecia menos um lar e mais um museu de uma vida da qual ela nunca fez parte de verdade.

Ela tentou fazer uma xícara de chá, mas suas mãos tremiam demais. A xícara de porcelana escorregou de seu aperto e se estilhaçou no chão de mármore.

O som quebrou algo dentro dela. Uma única lágrima quente rolou por sua bochecha. Depois outra.

Ela se ajoelhou para pegar os cacos, e uma borda afiada cortou seu dedo. O sangue vermelho vivo brotou, um contraste gritante com sua pele pálida.

"Jairo," ela sussurrou, o nome um soluço doloroso. "Estou tão cansada."

Ela se lembrou de como Jairo sempre a repreendia por ser desastrada, como ele gentilmente pegava as coisas de suas mãos e as fazia ele mesmo, seu toque sempre tão quente.

Depois de limpar a bagunça, ela se levantou, respirando fundo. Quase lá, Clara. Só mais um pouco.

"Pelo que você está chorando agora?"

A voz fria a fez pular. Caio estava na porta, de braços cruzados, o rosto uma máscara de irritação.

"Fazendo cena pra mim? Doar sangue, desmaiar, agora isso? Você nunca se cansa desses joguinhos patéticos?"

Ela abriu a boca para argumentar, mas ele a cortou.

"Eu não me importo, Clara. Já te disse mil vezes. Eu nunca vou ter sentimentos por você."

Ela ficou em silêncio, o olhar caindo para o chão. Era mais fácil assim.

Seu silêncio pareceu irritá-lo ainda mais. Um músculo se contraiu em sua mandíbula.

"Por que você não chamou a empregada para limpar isso?" ele rosnou, mas então fez algo que a chocou. Ele avançou, a pegou nos braços e a levou escada acima.

Seu toque era rude, mas sua voz, quando falou novamente, era mais suave.

"Você é uma idiota. Deveria estar descansando."

Clara estava confusa demais para lutar. Ele a deitou na cama de seu quarto, um quarto em que ele nunca havia entrado em dez anos.

Ela olhou para o perfil dele, tão dolorosamente semelhante ao de Jairo. O mesmo maxilar forte, o mesmo cabelo escuro.

Sem pensar, ela estendeu a mão e agarrou seu pulso.

"Fica," ela sussurrou, a voz pequena e fraca. "Por favor. Só por esta noite."

Ele congelou, interpretando mal seu apelo. Um lampejo de algo — seria tentação? — cruzou seu rosto antes de ser substituído por sua máscara fria de sempre.

Naquele exato momento, seu telefone tocou, o som estridente quebrando o momento.

Ele atendeu. Era Cassandra. A voz dela, fraca e frágil, saiu pelo alto-falante.

"Caio... estou com medo. Você pode voltar?"

Caio olhou para Clara, um breve e fugaz momento de hesitação em seus olhos.

Clara viu. Ela entendeu. Ela soltou o pulso dele.

"Vai," ela disse, a voz neutra. "Ela precisa de você."

Ele pareceu quase aliviado. Ele estendeu a mão, os dedos roçando seu cabelo em um gesto surpreendentemente gentil.

"Eu volto mais tarde," ele prometeu.

Então ele se virou e saiu do quarto sem um segundo olhar.

Ele não voltou.

Capítulo 3

Caio voltou na tarde seguinte.

Ele não estava sozinho.

Clara desceu as escadas e encontrou Cassandra Fontes aninhada no sofá, enrolada em um cobertor de caxemira, parecendo pálida e frágil.

"Clara," disse Cassandra, a voz um sussurro doce e inocente. "Espero que não se importe. O médico disse que preciso de alguém para cuidar de mim, e o Caio insistiu que eu ficasse aqui."

Clara sabia que era mentira. Caio nunca "insistiria" em algo tão problemático. Isso era obra da própria Cassandra.

"Não me importo," disse Clara em voz baixa.

Caio desceu as escadas então, ajustando o cobertor nos ombros de Cassandra com uma ternura que fez o estômago de Clara se contrair.

"Clara," ele disse, sem olhar para ela. "Cassandra precisa descansar. Você pode cuidar dela."

Não era um pedido. Era uma ordem.

Cassandra sorriu docemente. "Oh, eu não poderia impor. Tenho certeza de que a Clara ainda está fraca de... tudo."

"Ela está bem," disse Caio, o tom desdenhoso. "Ela não tem nada melhor para fazer de qualquer maneira."

As palavras foram um soco casual no estômago. Ele a via como nada mais que uma serva, uma conveniência.

Clara mordeu o lábio, sentindo o gosto de sangue. Ela assentiu em silêncio.

"Estou com um pouco de fome," disse Cassandra, olhando para Clara com olhos grandes e inocentes. "Você poderia me fazer um mingau? Do tipo que você faz para o Caio. Ele diz que é o favorito dele."

As mãos de Clara se fecharam em punhos. Ela nunca havia cozinhado para ninguém além de Jairo e, por extensão, Caio. Ela era uma artista, uma pintora. Tinha sido mimada e cuidada a vida inteira.

Ela queria dizer não. Queria gritar.

Mas então sentiu os olhos de Caio sobre ela, frios e ameaçadores.

Ela abriu os punhos e se virou para a cozinha sem uma palavra.

Levou meia hora para fazer o mingau. Quando ela o trouxe, Caio havia saído, atendendo a uma ligação de trabalho em seu escritório.

Cassandra estava sozinha na sala de estar. A máscara doce e frágil havia desaparecido. Seus olhos eram afiados e zombeteiros.

"Você realmente é uma cachorrinha patética, sabia?" ela debochou. "Dez anos, e ele ainda te trata como lixo."

Clara colocou a tigela na mesa de centro.

Cassandra torceu o nariz em desgosto. "Isso está muito quente. Não consigo comer. Faça de novo."

Clara hesitou. Ela pegou a tigela, com a intenção de voltar para a cozinha.

De repente, Cassandra arrancou a tigela de suas mãos e deliberadamente derramou o mingau quente em seu próprio braço.

Ela soltou um grito agudo.

"Ahh! Queima!"

Caio saiu correndo de seu escritório, o rosto sombrio de fúria. Ele viu Cassandra segurando seu braço vermelho e escaldado e Clara de pé sobre ela com a tigela vazia.

Ele não perguntou o que aconteceu. Ele avançou e agarrou o pulso de Clara, seu aperto como um torno.

"Que porra você fez?" ele rugiu.

Cassandra já estava chorando, a voz embargada por lágrimas falsas. "Não é culpa dela, Caio! Eu só disse que estava um pouco quente... não queria deixá-la com raiva."

"Eu não..." Clara começou, mas Caio já a estava sacudindo, os olhos em chamas.

"Cala a boca! Eu te avisei. Eu te avisei para não tocar nela."

Ele jogou a mão dela para longe com tanta força que ela cambaleou para trás, batendo na parede. O impacto fez seus dentes rangerem.

Ele cuidadosamente levantou Cassandra em seus braços, a voz suavizando. "Está tudo bem. Vou chamar um médico."

Enquanto a carregava para longe, Cassandra olhou por cima do ombro dele para Clara. Seus lábios se curvaram em um sorriso triunfante e vicioso.

Clara deslizou pela parede, o corpo tremendo. A luta se esvaiu dela, deixando apenas uma exaustão vasta e oca.

Ela abraçou os joelhos, encolhendo-se.

"Jairo," ela sussurrou no silêncio. "Por favor... venha me buscar."

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