Capítulo 2

São Paulo, dois anos antes...

— Onde está? Onde está? — Bella deixou de lado a muleta para se apoiar no imenso armário no quarto dos pais. Suas pernas engessadas atrapalhavam muito o movimento, mas ela queria encontrar o álbum de fotografias da família para incluir sua foto com o gesso cheio de assinaturas dos seus colegas. Como era de se esperar, sua tentativa ocasionou em uma queda que lhe arrancou lágrimas abundantes de dor.

Na tentativa de se levantar, ela puxou a porta que acabou se fechando. Por alguns instantes, Bella apenas ficou no chão acompanhada pelo choro silencioso, pois seu pai odiava ouvir as filhas chorando, de tal forma que elas aprenderam a serem silenciosas em suas dores. Seu cabelos cacheados se soltaram do coque mal feito e grudavam no seu rosto molhado.

Quando finalmente decidiu se levantar, Bella ouviu a porta sendo fechada bruscamente e a voz grave do seu pai.

— Que merda foi aquela, Francine? De risadinhas com o vizinho? Perdão a noção?

Bella decidiu olhar por uma fresta no exato momento em que sua mãe era jogada contra o chão.

— Nem que precise de uma surra diária, vai aprender a respeitar o homem que tem em casa.

Um urro de dor escapou da boca de Francine quando sentiu o impacto do pé dele em sua barriga. Ele a chutou algumas vezes antes de arrancar as suas roupas e possui-la.

De dentro do armário, Bella chorava e tentava em vão não olhar pela fresta ou tapar os ouvidos para não ouvir os lamentos da mãe ou os gemidos insanos misturados com insultos do pai. Estava tão presa na cena macabra que continuou vendo-a mesmo depois que seu pai saiu do quarto resmungando sobre o jantar ainda não estar pronto.

Ela estava paralisada e acabou deixando seus soluços ganharem vida, já não conseguia controlar.

O barulho fez Francine ir até o armário e escancarar a porta. Seu coração se partiu ao ver o estado da filha. E soube que ela no mínimo ouviu o que aconteceu, ao que foi submetida por um ciúmes sem motivo. Ao que era submetida sempre que Marcos tinha uma de suas crises de ciúmes ou raiva.

Notando o desespero da filha, ela a abraçou.

— Está tudo bem, meu amor!

— A porta não fechava. Eu não tive culpa. — Bella tentava justificar em meio ao pranto. Se sentia envergonhada por presenciar tal ato, se sentia irada.

— Está tudo bem. — Francine disse enquanto acariciava o rosto da filha e tirava os fios de cabelo colocando atrás da orelha.

— Mamãe, ele a forçou, ele a machucou. Não pareceu a primeira vez. Por que a senhora ainda está com esse monstro? — Tinha dificuldades em aceitar que sua mãe vivesse aquilo. Sempre achou que ela fosse uma mulher forte, vê-la apanhando do marido quando tinha saúde, um trabalho... toda uma chance de uma vida melhor, enchia seu coração de revolta.

— Ele é seu pai...

— O que o torna mais monstruoso. A senhora sabe que eu me guardei com o sonho bobo de ser só de um homem; o meu marido. Agora vejo que nem os maridos merecem confiança.

— Seu marido vai amá-la. Eu prometo — disse temendo que a filha abandonasse o sonho de ser esposa e mãe, sonho que tinha desde menina.

— Não vou me casar jamais. Nunca vou deixar nenhum homem me tocar. — Bella tremia. — E nós vamos embora dessa casa porque se eu me encontrar com aquele monstro vou matá-lo com minhas mãos.

Francine a olhou com ternura. Sua amada filha falava em defendê-la mesmo estando amparada por duas muletas.

— Quero que me prometa que vai confiar em seu coração e amar. Não existe nada mais belo que o amor. Prometa — pediu. Sabia que a filha seria uma mulher sozinha e amargurada se passasse a acreditar que todos os homens eram iguais. E ela sabia bem que não era assim. Teve alguém antes de Marcos que a amava acima de tudo, mas o câncer o levou.

— Eu prometo, mas só se a senhora prometer que vai se amar e sair dessa casa. A senhora não precisa passar por isso, mamãe — exigiu.

— Oh, minha filha! Eu amo tanto você e sua irmã. Vou sair sim. Já estava pensando nisso, mas primeiro vou juntar um dinheiro para não ter o perigo de precisar voltar implorando.

— Quanto tempo?

— Uns dois meses, no máximo. Já tenho um pouco. Com mais dois meses vou ter o dinheiro das minhas férias. Não é muito, mas vai ser suficiente para nos manter em alguma cidadezinha até eu conseguir algum emprego. — Acariciou o rosto molhado da filha em busca de passar confiança.

— E a Graça?

— Só vamos contar para ela depois que tivermos certeza de tudo. Ela é muito apegada ao pai. Pode contar para ele e colocar tudo a perder.

— Tudo bem, mamãe. Também tenho um pouco de dinheiro que poupei na lanchonete. E vou fazer mais trabalhos para os meus colegas de escola . Estão todos desesperados por ser o último ano.

— Você e sua irmã são meus tesouros — disse emocionada.

Se abraçaram e, depois dessa troca de carinho, Francine ajudou a filha a se colocar de pé e a ir para o quarto que dividia com a irmã.

***

No dia seguinte, ao retornar da escola, Bella descobriu uma nova dor, a dor da perda. Sua mãe havia sido atropelada por um motorista bêbado quando voltava da padaria, na mesma rua em que ela se acidentou. Ninguém sabe quem foi, pois não foi possível anotar placa e o bairro não tinha câmeras de segurança nas ruas. Seria só mais um crime que seria tratado como “acidente”.

Mas não para Bella, que teve o seu coração destroçado, que nunca mais poderia ouvir a voz doce de sua mãe, que nunca mais a abraçaria novamente.

Para ela, as cores do mundo se tornaram apenas tons de cinza.

Capítulo 3

Dias atuais

Bella acordou assustada. Não estava no armário. Foi apenas um sonho. Mas também não estava longe do que mais a atormentava, e sua mãe se foi para nunca mais voltar.

Ela olhou para o lado e viu que suas lágrimas molharam a foto da mãe, com a qual dormia todas as noites. Lembrar da última conversa, do último abraço; era muito doloroso.

Sem conseguir voltar a dormir, ela se enrolou na manta e foi até a cômoda onde guardava seus poucos pertences. Antes olhou para a cama da sua irmã e constatou que ela novamente havia saído. Ela fazia isso quase todas as noites depois que começaram a faculdade, saia dizendo que ia estudar com amigos e só voltava quase amanhecendo. Graça, apesar de serem idênticas fisicamente, era o oposto de Bella. Ela andava com roupas estravagantes e ousadas, enquanto Bella cada vez mais se escondia em roupas sóbrias e longas, pois não queria que nenhum homem a olhasse com segundas intenções, depois que sua mãe se foi ela desistiu de cumprir a promessa de dar uma chance ao amor. Outra diferença entre as duas era que o pai preferia Graça, descaradamente. E ela sempre foi apegada a ele. Mas isso era algo que Bella só desejou até aquele maldito dia em que viu quem Marcos realmente era.

Seus pensamentos e lembranças faziam seu coração doer.

Depois de sentar no chão, ela puxou a última gaveta e tirou um envelope que estava preso com fita adesiva. O papel estava gasto, por todas as vezes em que o abriu, amassou de raiva ou chorou sobre ele.

— Em breve vou sair dessa casa, mamãe — prometeu olhando a foto e as notas que tirou do envelope. Ver esse dinheiro a deixava mais triste por lembrar que não teria a vida que tanto quis ao lado da mulher que lhe deu a vida.

Havia passado quase dois anos desde a morte de sua mãe. E durante esse período ela passou longas tardes e noites trancada no quarto fazendo trabalho de colegas para ganhar um dinheiro. A faculdade de Administração, para a qual ganhou uma bolsa integral, era repleta de pessoas precisando desse tipo de serviço. Depois que suas pernas sararam ela também voltou para a lanchonete para conseguir mais dinheiro, pois seu pai havia se apossado de cada centavo que sua mãe deixou.

Ela planejou tudo direitinho para fugir logo após conseguir uma transferência da universidade. Usou a biblioteca da escola para pesquisar as cidades onde havia campus, e escolheu uma boa para empregos e com alugueis baratos. Por sorte o seu pai não cobrava parte do seu salário. Podia guardar cada moeda. E ele nem desconfiava dos seus planos. Vivia preso em seu mundo onde apenas uma filha lhe importava.

— Eles que sejam felizes e esqueçam que existo. — Falava sozinha como se isso de certa forma aplacasse um pouco sua raiva.

Faltava poucos dias para ela deixar tudo para trás e começar uma nova vida.

— Mãe, a senhora terá orgulho de mim, ai do céu. Serei feliz por nós duas — prometeu novamente.

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