Capítulo 2

No dia seguinte, eu os ouvi novamente. Desta vez, eles estavam no jardim, suas vozes flutuando pela janela aberta da biblioteca onde eu fingia ler.

"Meu aniversário é na próxima semana, Heitor", choramingou Genoveva. "Você prometeu que daria uma festa para mim. Uma de verdade. Onde todos saibam quem eu sou."

Por anos, Heitor me disse que seu aniversário era em outubro. Nós sempre comemorávamos, apenas nós dois, com um jantar tranquilo. Ele dizia que odiava festas grandes. Outra mentira. Acontece que seu aniversário de verdade era na próxima semana, o mesmo de Genoveva.

Meu corpo ficou rígido. Uma dor aguda atravessou meu peito, dificultando a respiração. Todas aquelas celebrações "íntimas" eram apenas uma maneira de me manter isolada, de manter sua vida real separada da farsa que ele construiu comigo.

"Claro, meu amor", a voz de Heitor era doce como mel, um tom que ele não usava comigo há anos. "Qualquer coisa por você. Anunciaremos nosso relacionamento. É hora de todos saberem que você é a verdadeira Sra. Monteiro."

Eu queria gritar. Eu queria jogar o livro em minhas mãos pela janela e vê-lo se estilhaçar. Mas eu me segurei, meus nós dos dedos brancos.

Mais tarde naquele dia, a secretária de Heitor ligou. Sua voz estava tensa, excessivamente alegre.

"Sra. Monteiro, o Sr. Monteiro está organizando uma grande festa na propriedade na próxima sexta-feira. Ele queria ter certeza de que você estava preparada."

"Obrigada", eu disse, minha voz oca.

Na noite da festa, a mansão foi transformada. Luzinhas de fada brilhavam nas árvores, a música flutuava de uma banda ao vivo, e centenas da elite de São Paulo circulavam ao redor da piscina, com taças de champanhe nas mãos. Era uma cena de celebração opulenta, e parecia um funeral.

Genoveva fez sua grande entrada no braço de Heitor. Ela usava um vestido vermelho deslumbrante que brilhava sob as luzes, um colar de diamantes que eu reconheci como um que Heitor me deu alguns anos atrás brilhando em sua garganta. Ela parecia em todos os aspectos a senhora da casa.

As pessoas os cercaram, oferecendo parabéns e elogios. "Que casal lindo!" "Genoveva, você está radiante!" "Heitor, você é um homem de sorte!"

Ela se deleitava com a atenção, seu riso ecoando pelo gramado. Heitor estava ao lado dela, o braço possessivamente em volta de sua cintura, um sorriso orgulhoso no rosto. Eles se beijaram para a multidão, um beijo longo e apaixonado que fez meu estômago revirar.

Eu estava nas sombras da varanda, um fantasma na festa do meu próprio marido. Senti uma pressão crescendo no meu peito, um grito preso na minha garganta. Eu tinha que me controlar. Só mais um pouco.

Heitor finalmente me viu. Ele se aproximou, seu sorriso sumido, seus olhos duros. Ele agarrou meu braço, seus dedos cravando na minha carne.

"Preciso que você faça algo por mim", disse ele, sua voz baixa e ameaçadora.

Ele me arrastou para o centro da festa, para um pequeno palco montado para anúncios.

"Quando eu subir lá com a Genoveva", ele sibilou no meu ouvido, "vou anunciar nosso noivado. Quero que você fique ao lado e lidere os aplausos. Quero que você pareça feliz por nós."

Meu coração parou. Ele queria que eu aplaudisse a mulher que roubou minha vida, que estava comemorando sobre as cinzas da minha felicidade.

Olhei em seus olhos frios e impiedosos e vi a verdade. Isso era um teste. Um jogo de poder. Ele queria me quebrar completamente.

Por um momento, não disse nada. Então, uma calma estranha se apoderou de mim.

"Ok", eu disse, minha voz mal um sussurro.

Ele pareceu surpreso, mas satisfeito.

Naquele momento, eu o deixei ir. Deixei ir os sete anos de amor, os sete anos de mentiras. Deixei ir o homem que eu pensei que ele era. Ele estava morto para mim.

Nesse momento, Léo correu até nós, o rosto iluminado de excitação. Ele segurava um robô de brinquedo novo e caro.

"Papai, olha o que a Genoveva me comprou!" ele gritou, me ignorando completamente.

Meu coração, que eu pensei que não poderia se quebrar mais, se partiu em mil pedaços. No mês passado, para o aniversário dele, eu passei semanas esculpindo à mão um conjunto de animais de madeira para ele. Ele deu uma olhada neles e os jogou no lixo, dizendo que eram "estúpidos e baratos".

"Isso é ótimo, filho", disse Heitor, bagunçando seu cabelo.

Léo então se virou para mim, seus olhos exigentes. "É o aniversário da Genoveva. O que você comprou para ela?"

Antes que eu pudesse responder, Genoveva se aproximou, seus olhos pousando no simples medalhão de prata que eu usava no pescoço. Era da minha mãe. A única coisa que eu tinha dela.

"Ah, que colar lindo", disse ela, sua voz pingando doçura falsa. "Ficaria muito melhor em mim."

Os olhos de Heitor piscaram para o medalhão. Por uma fração de segundo, vi um lampejo de hesitação. Ele sabia o que significava para mim.

Mas então Léo, sempre o pirralho mimado, se lançou sobre ele.

"Dá pra ela!" ele gritou, suas pequenas mãos agarrando a corrente delicada.

A corrente cortou minha pele enquanto ele puxava. Dor, aguda e súbita, atravessou meu pescoço.

"Léo, pare!" eu gritei.

Mas ele não parou. Ele puxou com mais força, um sorriso cruel no rosto.

Olhei para Heitor, um apelo silencioso em meus olhos. Ele apenas observava, seu rosto uma máscara fria e indecifrável.

Com um puxão final e vicioso, a corrente se partiu. O medalhão caiu na mão de Léo.

Minha mão voou para o meu pescoço, onde uma fina linha de sangue já estava se formando.

Com o coração completamente estilhaçado, olhei para Genoveva. Seus olhos brilhavam de triunfo enquanto Léo orgulhosamente lhe apresentava seu prêmio.

"Toma, Genoveva", disse ele.

"Obrigada, querido", ela arrulhou, pegando o medalhão e prendendo-o em seu próprio pescoço. Parecia obsceno contra seu vestido vermelho.

Léo pareceu confuso por um momento, como se esperasse uma briga maior. O rosto de Heitor estava indecifrável, um lampejo de algo inquieto em seus olhos. Mas então ele viu o sorriso feliz de Genoveva, e sua expressão relaxou.

Eu não disse uma palavra. Apenas me virei e fui embora, de costas retas, cabeça erguida. Fui para um canto tranquilo do jardim, peguei meu telefone e comprei uma passagem só de ida para um país do outro lado do mundo. Meu voo era em duas horas.

Eu estava quase livre.

Mas quando me levantei para sair, Genoveva apareceu atrás de mim.

"Saindo tão cedo?" ela zombou. "A festa está apenas começando."

Ela estava no topo dos degraus de pedra que levavam da varanda para o jardim. Eu estava na parte de baixo.

"Não tenho nada a dizer a você", eu disse, minha voz fria.

"Ah, mas eu tenho muito a dizer a você", disse ela, descendo um degrau. "Eu só queria te agradecer. Por tudo. Pelo seu marido, sua casa, seu filho..." Ela gesticulou para o medalhão. "E por isso."

Ela deu outro passo, seu sorriso se alargando em um sorriso malicioso.

E então, ela "tropeçou".

Ela soltou um grito teatral enquanto caía para a frente, seus braços se agitando. Ela não caiu da escada. Ela caiu em cima de mim.

Seu corpo atingiu o meu com a força de um aríete. O impacto me jogou para trás. Meus pés se emaranharam e eu caí.

Minha cabeça bateu no chão de pedra com um estalo pavoroso. Uma explosão de dor branca e quente explodiu atrás dos meus olhos, e então, uma onda de escuridão ameaçou me puxar para baixo.

A última coisa que vi antes de perder a consciência foi Genoveva, agarrando o tornozelo e gritando: "Ela me empurrou! Helena me empurrou da escada!"

Heitor estava correndo em direção a ela, o rosto uma máscara de preocupação. Léo estava logo atrás dele, os olhos arregalados de falso horror.

Eles passaram correndo pelo meu corpo quebrado e sangrando, sua única preocupação era com a mulher que acabara de tentar me matar.

Capítulo 3

"Sua mulher malvada!" O grito de Léo cortou a névoa da minha dor. "Você machucou a Genoveva!"

Heitor já estava ao lado de Genoveva, me ignorando completamente. Ele se ajoelhou, sua voz cheia de preocupação. "Você está bem? Ela te machucou?"

Eles me deixaram lá. Deitada em uma poça crescente do meu próprio sangue no pátio de pedra fria. Ninguém veio ajudar. Os convidados da festa olhavam, sussurravam e depois se viravam, convencidos pela atuação de Genoveva.

Eu fiquei ali, o mundo girando, uma risada amarga presa na minha garganta. Era tão absurdo. Tão horrivelmente, previsivelmente cruel. Uma lágrima escorregou do meu olho, misturando-se com o sangue na minha bochecha.

Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, alguns funcionários do buffet se aproximaram hesitantemente.

"Senhora? Devemos chamar uma ambulância?" um deles perguntou, seu rosto jovem e pálido.

Consegui balançar a cabeça fracamente. "Não. Apenas... me ajudem a levantar."

Eles me ajudaram a sentar em uma cadeira na varanda, longe dos olhares curiosos. Uma delas, uma mulher de rosto gentil, limpou suavemente o corte na minha cabeça com um guardanapo. A ardência era aguda, mas não era nada comparada à ferida aberta na minha alma.

"Devemos chamar seu marido?" ela perguntou suavemente.

"Não", eu disse, a palavra com gosto de cinzas. "Não há ninguém para chamar."

Eu podia ouvi-los à distância, um murmúrio de vozes discutindo meu "ataque vicioso" à "pobre e grávida Genoveva". Grávida. Claro. Outra mentira para angariar simpatia.

Outra risada, esta mais alta e mais descontrolada, escapou dos meus lábios. Parecia o choro de um animal moribundo. Os funcionários do buffet trocaram olhares preocupados e recuaram lentamente.

Meu corpo gritava em protesto, mas me forcei a ficar de pé. Eu tinha que sair. Tropecei pela casa, minha visão embaçando e focando. Meu voo estava saindo em breve.

Cheguei ao meu quarto, o mundo balançando violentamente. Desabei na cama, cada músculo do meu corpo tremendo. Apenas alguns minutos, eu disse a mim mesma. Apenas alguns minutos para reunir minhas forças.

Meus olhos se fecharam.

Fui acordada por uma dor aguda e lancinante no meu braço. Meus olhos se abriram.

Uma onda de choque anafilático me atingiu. Minha garganta começou a fechar, minha pele irrompendo em vergões vermelhos e irritados. Eu ofegava por ar, meus pulmões queimando.

Léo estava ao lado da minha cama, um sorriso triunfante e cruel no rosto. Em sua mão havia um punhado de amendoins. Ele sabia que eu era mortalmente alérgica.

"Você não vai a lugar nenhum", disse ele, com a voz fria.

Eu recuei instintivamente, tentando me afastar dele.

"Caneta... de adrenalina", engasguei, minha voz um sussurro estrangulado. "Na minha... bolsa."

Ele riu, um som agudo e arrepiante. Ele pegou minha bolsa da mesa de cabeceira, remexeu nela e tirou minha caneta de adrenalina.

Ele a ergueu, balançando-a na frente do meu rosto. "Procurando por isso?"

Eu estendi a mão para pegá-la, meus movimentos desajeitados e desesperados. Ele a puxou de volta, seus olhos dançando com alegria maliciosa.

"Você não merece ser salva", ele zombou, seu rosto uma máscara distorcida de ódio.

Ele caminhou até a janela aberta e, sem um momento de hesitação, jogou meu remédio salva-vidas na escuridão.

"Não!" O grito foi um soluço cru e desesperado.

Tropecei para fora da cama, meu corpo gritando em protesto, e rastejei em direção à janela. Eu tinha que pegá-lo. Eu tinha que.

Mas meu corpo estava me traindo. Eu estava ficando mais fraca, minha visão se afunilando. Desabei no chão, minha cabeça batendo no tapete grosso.

O impacto foi suave, mas desencadeou uma nova onda de agonia. Dores agudas e perfurantes irromperam por todo o meu corpo. Olhei para baixo.

O chão ao redor da minha cama estava coberto de cacos de vidro. Fragmentos de todos os tamanhos, brilhando ao luar. Ele havia armado uma armadilha para mim.

Minhas mãos, meus joelhos, meus braços - todos estavam cortados, sangrando livremente. Um caco quase atingiu meu olho, deixando um corte profundo e ardente logo abaixo dele.

Eu não conseguia gritar. Minha garganta estava muito inchada. Tudo o que consegui foi um gemido baixo e agonizante.

Eu estava morrendo. Esta criança de seis anos, a que eu criei e amei, estava me assassinando.

A porta se abriu. Heitor e Genoveva estavam lá, silhuetas contra a luz do corredor.

Genoveva olhou para a cena, para Léo de pé orgulhosamente sobre meu corpo quebrado, e suas primeiras palavras não foram de horror, mas de aborrecimento.

"Léo! O que eu te disse sobre fazer bagunça?" ela repreendeu. "E você poderia ter danificado o rosto dela. A medula dela é a coisa mais importante. Precisamos manter o recipiente em bom estado."

Recipiente.

Um pensamento amargo e autodepreciativo flutuou pela escuridão que estava engolindo minha mente.

Ela não estava preocupada comigo. Ela estava preocupada com sua cadeia de suprimentos.

E então, tudo ficou preto.

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