Capítulo 2

A Família Morris seguia um conjunto rígido de regras, e navegar pela etiqueta durante as refeições era como pisar em ovos. Quando o jantar começou, a conversa animada transformou-se em um silêncio desconfortável.

A voz de Chelsey sobressaiu-se no meio do silêncio.

Alguns olhares de desaprovação já se dirigiam a ela.

Chelsey instintivamente cobriu a boca, lágrimas brotando em seus olhos enquanto acenava com a cabeça em sinal de desculpas para aqueles ao seu redor.

Mas então veio uma onda de náusea, uma vontade avassaladora de esvaziar o estômago.

Com urgência, ela se levantou e correu em direção ao banheiro.

O conteúdo do seu estômago foi expelido, deixando-a arquejando. Sua garganta contraiu-se em ondas, lágrimas escorrendo por seu rosto.

A porta do banheiro rangeu ao ser aberta por outra pessoa.

Chelsey, curvada sobre a pia, sentiu o coração acelerar ao ver Gabriela fechando rapidamente a porta atrás de si.

Antes que pudesse dizer uma palavra, outra onda de náusea a dominou.

Só depois que a sensação passou, ela ligou a torneira, lançando um olhar para a expressão hesitante de Gabriela refletida no espelho.

"Você está vendo alguém em segredo?"

As palavras de Gabriela pareciam zumbir nos ouvidos de Chelsey. "O quê?"

Gabriela repetiu a pergunta, seu olhar penetrante, como se estivesse interrogando uma criminosa.

Pausando sua tarefa, Chelsey arqueou as sobrancelhas. "O que exatamente você está insinuando?"

Gabriela aproximou-se, segurando o braço de Chelsey e analisando-a com intensidade.

Fraca de tanto vomitar, Chelsey encontrou o olhar cético de Gabriela, seus olhos vermelhos e seu rosto pálido.

"Você está esperando um bebê?" Gabriela perguntou.

"Mãe, que absurdo é esse?" A irritação de Chelsey aflorou, sua voz mais alta do que pretendia.

Gabriela a olhou com desconfiança.

Percebendo que seu tom foi muito áspero, Chelsey suavizou. "Não estou envolvida com ninguém; é só uma indisposição estomacal."

Para ser sincera, ela não fazia ideia do que estava acontecendo.

Antes disso, tudo estava bem; ela simplesmente não conseguia tolerar o leve aroma de salmão. A pergunta de Gabriela a fez pensar instintivamente em seu ciclo mensal.

Ela não conseguia afastar o pensamento incômodo de seu ciclo menstrual atrasado.

Será que ela realmente estava grávida?

Quando teve relações com Trevor no mês passado, recebeu uma ligação inesperada sobre uma viagem oficial. Ela não conseguia se lembrar se havia tomado pílulas anticoncepcionais ou não.

Gabriela, alheia ao tumulto interno da filha, parecia aliviada. "Bem, isso é um alívio."

Ela assumiu que Chelsey tinha engravidado antes de se casar e estava em um relacionamento sem contar a ela quando notou pela primeira vez a condição de Chelsey.

Isso a confortava, sabendo que não era o caso.

Ela pegou um lenço para enxugar os cantos da boca de Chelsey, suas palavras carregadas de significado. "Lembre-se, você é meu alicerce, Chelsey. Você não pode se desviar do caminho. Minha felicidade depende das suas escolhas."

"A Família Morris pode não ser perfeita, mas eles nos sustentaram." Chelsey pegou o lenço, limpando a boca.

As duas eram mal vistas pela Família Morris. Mas Cary havia pedido a Kaden que cuidasse delas antes de falecer.

Apesar da aversão de Kaden, ele manteve sua palavra, garantindo que Gabriela recebesse uma quantia que poderia sustentar uma família por gerações.

Essa quantia poderia sustentar uma família média por gerações, mas os gastos de Gabriela não tinham limites.

Chelsey havia imposto um limite estrito de gastos mensais de 300.000, guardando o excedente para emergências. Com uma família tão extensa como a dos Morris, as demandas financeiras eram muitas.

"Como é que essa quantia irrisória deve bastar? Todo mês, tenho roupas, bolsas, tratamentos de beleza e aqueles eventos sociais obrigatórios com a elite. O dinheiro some rapidamente!" Gabriela lamentou, calculando as despesas com Chelsey.

Chelsey esfregou as têmporas. "Você já tem roupas e bolsas suficientes. E precisa mesmo socializar com aquelas mulheres julgadoras? Elas nunca nos tiveram em alta consideração, então, por que se importar?"

"Você simplesmente não entende!" Gabriela retrucou impacientemente. "Quando você se adaptar à sociedade, perceberá que manter o status é crucial. Tudo é sobre conexões nesses círculos. Além disso, alguém me apresentou um jovem promissor. Eu estava querendo te contar sobre isso."

Antecipando o discurso, Chelsey a interrompeu. "Estou atolada de trabalho ultimamente; mal tenho tempo."

Ignorando suas desculpas, Gabriela continuou: "A família dele pode não ter o poder dos Morris, mas é respeitável em Eu vou te contar. Ele é o único filho. Se você se casar com ele..."

"Mãe!" Chelsey interveio, exasperada. "Não estou pronta para me casar ainda!"

Gabriela zombou. "Então, qual é o seu plano? O destino de toda mulher é se casar. Se você se casar bem, posso me orgulhar entre os Morris e o resto da sociedade. Casar cedo traz felicidade cedo, dizem eles."

Chelsey não conseguia entender a lógica dela. "Tenho um emprego, mal dois anos após a graduação. Há muito espaço para crescimento, e meu salário não será uma ninharia. Posso nos sustentar."

Enfurecida, Gabriela rebateu: "Com esse salário, você mal consegue comprar uma bolsa decente. Como vai nos sustentar? Mal cobre suas próprias necessidades! Essa questão está resolvida. Quando aquele sujeito marcar uma data, você vai conhecê-lo!"

Gabriela não deixou espaço para discordância, arrastando Chelsey para fora do banheiro.

Perdida em pensamentos sobre seu ciclo atrasado, Chelsey não percebeu duas figuras se aproximando.

Kaden, com o apetite diminuindo com a idade, saiu para tomar ar, acompanhado apenas por Trevor.

"Como vai, Chelsey?" Kaden perguntou.

Chelsey parou, encontrando seu olhar.

Aos oitenta e um anos, Kaden era uma figura marcante em suas vestes vermelhas, exalando um ar de nobreza e vitalidade.

Seus cabelos grisalhos, meticulosamente arranjados, insinuavam o jovem bonito que ele fora, encantando muitos.

Os homens da Família Morris eram famosos por sua beleza, especialmente Trevor. Ele e Ismael Powell eram os solteiros mais cobiçados da cidade, com uma reputação que os precedia.

Havia um ditado em Eu vou te contar que ninguém podia escapar do alcance dos homens da Família Morris.

Quando Chelsey ergueu o olhar, inevitavelmente cruzou o olhar de Trevor.

Trevor apenas lançou um olhar, seu olhar frio e distante, um leve toque de gelo em seu comportamento.

Era seu sinal característico de mau humor.

O coração de Chelsey deu um salto.

Ela rapidamente desviou o olhar para Kaden. Desde a infância, ela nutria um medo dele. Apesar de seu carinho pelos netos, Kaden permanecia severo, raramente lhe dirigindo um sorriso.

Seu comentário aparentemente preocupado não era genuíno; ao contrário, surgia de seu respeito pelos últimos desejos de Cary.

"Sinto muito, vovô. Tive uma dor de estômago mais cedo hoje. Não queria incomodá-lo," Chelsey respondeu.

A expressão de Kaden azedou, seu tom repreensivo. "Se não estava se sentindo bem, por que não falou nada? Não precisava ter comparecido à reunião de família!"

Suas palavras soaram como uma rejeição de seu status dentro da Família Morris.

Chelsey apertou os dedos e instintivamente rangeu os dentes. Tal comentário a deixou envergonhada, especialmente com Trevor por perto.

Parecer mal diante dele era seu último desejo.

Ela abriu a boca para dizer algo, mas Gabriela, parecendo inquieta, puxou sua manga, sinalizando para que parasse.

Trevor riu um pouco disso. "Vovô, por que você perde tempo com essa pessoa sem importância? Vamos, ainda temos um longo caminho pela frente."

"Tudo bem." Kaden engoliu sua irritação e seguiu em frente.

Houve apenas uma pequena pausa quando Trevor roçou suas mangas em Chelsey. Passou despercebido e silencioso.

Capítulo 3

A sugestão de Gabriela para que Chelsey passasse a noite na Mansão Morris foi educadamente recusada. A mansão se estendia como um império, com vilas separadas abrigando os numerosos filhos de Kaden, e a casa de Gabriela ficava mais distante do prédio principal.

Chelsey não morava ali desde que se tornou adulta.

Gabriela, ciente do temperamento teimoso de Chelsey, não insistiu, mas lembrou-a de fazer uma visita ao hospital antes de partir.

Assim que um semblante de calor começou a permear a conversa, Gabriela interveio com uma provocação: "Você está com uma aparência horrível de tanto vomitar! Você tem um encontro em alguns dias. Como vai aparecer assim, tão desgastada? Primeiras impressões são preciosas, sabia?"

"Chega, vamos deixar essa conversa para depois." Chelsey encerrou a conversa, incentivando Gabriela a se recolher para a noite.

Gabriela, agora irritada, retrucou: "Você não percebeu como a Família Morris nos vê? Se você estragar isso, vou ficar completamente envergonhada!"

"E casar-se com uma família rica não conta como estragar tudo?" Chelsey rebateu.

Gabriela suavizou a abordagem, segurando gentilmente a mão de Chelsey, seus olhos transbordando de emoção. "Você conhece a minha posição nesta família. Você pode suportar me ver ostracizada?"

Chelsey não resistiu às lágrimas de Gabriela. Sua determinação vacilou. "Vamos deixar essa discussão de lado por enquanto; estou exausta."

Aproveitando a postura mais branda, Gabriela insistiu: "Nesse círculo, os homens preferem a juventude como um presente. Eles já provaram todos os sabores, sabe. Uma esposa precisa ser maleável, jovem e bonita."

Ela puxou o braço de Chelsey, acrescentando: "Agora, Trevor pode ser um pouco mais decente, mas ele não está imune às normas."

Ao mencionar Trevor, Chelsey estremeceu involuntariamente. Ela queria fugir, mas também ansiava por ouvir mais sobre ele.

"O que há de errado com ele?" ela perguntou hesitante.

As palavras de Gabriela cortaram o ar. "Dizem que Kaden exibiu várias potenciais combinações, e ele escolheu a mais jovem e adorável."

Chelsey ficou ao vento, seu coração disparado.

Quando deixou a Mansão Morris, a noite já havia caído por completo.

O outono chegou cedo em Lisboa; a brisa da noite estava fria.

Ela apressou seus passos; a mansão estava situada nos arredores, sem estações de metrô por perto. Para pegar um táxi, ela precisava alcançar a estrada principal, uma caminhada de vinte minutos.

No meio do caminho, uma buzina soou atrás dela. Instintivamente, ela se afastou, mas o veículo parou ao seu lado.

A janela do carro desceu. Ao volante estava o secretário de Trevor, Killian Gordon.

"Senhorita Howard," Killian chamou.

Chelsey sentiu um arrepio gelado percorrer sua espinha ao olhar para dentro, embora a escuridão envolvesse o interior.

Killian percebeu seu olhar e explicou: "Senhor Morris ainda está preso na festança. Ele me enviou aqui."

Chelsey estava prestes a recusar. Eles ainda estavam no radar da Família Morris, suscetíveis a olhares curiosos.

Killian deu-lhe um sorriso educado e continuou: "Senhorita Howard, Senhor Morris achou prudente que eu a levasse ao hospital. Se você não está bem, é melhor se consultar. Senhor Morris está preocupado."

Trevor não era conhecido por gestos tão atenciosos.

Chelsey juntou as peças do que estava acontecendo, uma suspeita que foi confirmada pelas próximas palavras de Killian.

"Senhor Morris mencionou que, se for apenas uma dor de estômago, o médico pode prescrever algo. Mas se for mais sério, podemos fazer os arranjos com antecedência."

O coração de Chelsey deu um salto.

Killian estava sugerindo sua potencial gravidez?

E o que ele queria dizer com arranjos?

Trevor não permitiria que ela carregasse seu filho!

Além disso, neste momento crucial, ele estava prestes a se casar. Se ela realmente estivesse esperando, temia contemplar sua possível reação.

Chelsey sentiu um frio percorrer seu corpo, relutante em entreter os pensamentos das terríveis consequências caso seus temores se confirmassem.

Killian tinha tudo organizado. No hospital, Chelsey passou pelo exame diligentemente, até consentindo em fornecer uma amostra de sangue adicional para um teste de gravidez.

Sentada na sala de espera depois, Chelsey coçava distraidamente as palmas das mãos, deixando marcas vermelhas de raiva. O tempo se arrastava, cada minuto se estendendo em uma eternidade.

Quando finalmente saiu do hospital, a escuridão envolvia a noite por completo.

O clima a envolveu como um manto úmido, esfriando-a até os ossos enquanto ela permanecia do lado de fora, tremendo e espirrando.

Seu nariz parecia um tomate maduro, e seus olhos estavam cheios de lágrimas. Cada rajada de vento parecia um tapa, dobrando sua estrutura delicada como um galho de salgueiro prestes a quebrar.

Killian abriu a porta traseira do carro, sinalizando para Chelsey entrar, mas ela hesitou, seu olhar fixado nas calças impecavelmente passadas de Trevor, pernas cruzadas à sua frente como uma barreira intransponível.

Trevor colocou uma mão em seu colo, destacando suas articulações individuais. Seus dedos pareciam fortes. Seu relógio tinha até um brilho metálico frio, dando uma aparência de refinamento.

"Vamos, Senhorita Howard, entre," Killian insistiu gentilmente, um lembrete sutil de que ela precisava entrar no carro.

Trevor, talvez embriagado, reclinou-se contra o assento com os olhos fechados quando Chelsey se aproximou. O interior do automóvel estava escuro, com grande parte de seu rosto escondido pelas sombras.

Ele era como um quebra-cabeça esperando para ser resolvido, bonito, mas enigmático.

Seu paletó estava descartado, e os dois primeiros botões de sua camisa preta estavam desabotoados, dando-lhe um ar relaxado.

Chelsey sempre soube que Trevor ficava incrível de preto.

Isso acentuava seu charme rebelde, fazendo-o parecer um fora-da-lei charmoso.

Era como se o preto fosse feito sob medida para ele, uma cor que outros homens só poderiam sonhar em usar com o mesmo estilo.

Ele era como a própria noite, misterioso e sedutor.

Assim que Chelsey se acomodou, Trevor arrancou a sacola contendo sua medicação.

"Só para você saber, não estou esperando," ela comentou amargamente, o peso de suas palavras pairando pesadamente no ar.

Trevor fez uma pausa, examinando o relatório do teste com um ar distante antes de responder: "Bem, isso é um alívio."

Uma mistura de emoções rodopiou dentro de Chelsey, um nó pesado se formando em sua garganta.

Alívio se misturou a um sentimento de perda, deixando-a à deriva em um mar de incertezas.

Mas as palavras de Trevor foram um alerta, despertando-a.

Nada de mais devaneios.

Quando recuperou a compostura, Chelsey percebeu que Trevor já havia organizado sua medicação. Ele lhe entregou uma garrafa de água, desrosqueando a tampa e passando-a para ela.

"Tome o remédio e nada de vomitar no meu carro," ele comentou, lembrando-a de sua fobia de germes.

Mal sabia ele que Chelsey já havia esvaziado o conteúdo de seu estômago na Mansão Morris; não havia mais nada para vomitar.

Ela engoliu os comprimidos com um gole de água, sentindo o desconforto de um estômago vazio protestando.

Assim que terminou, seu telefone tocou. Era Gabriela.

Chelsey hesitou, temendo que Gabriela revelasse o encontro que se aproximava.

Mas o toque persistente e a expressão impaciente de Trevor a instigaram a atender.

"Oi," ela cumprimentou, tentando manter a voz firme.

"Chelsey, você foi ao médico?" A voz preocupada de Gabriela veio.

O carro estava silencioso demais para o conforto, então Chelsey pressionou o telefone mais perto do ouvido, esperando manter a conversa privada.

"Sim, é só um caso de gastroenterite. O médico me deu alguns remédios," ela respondeu, tentando soar despreocupada.

Gabriela devia estar ocupada cuidando da pele, pois sua voz ecoou pelo alto-falante do telefone.

"Ah, e lembra do que eu te disse antes? Pegue leve nesses dias, recarregue suas energias, e no sábado, encante com seu charme!"

Chelsey lançou um olhar para Trevor, sentindo uma pontada de nervosismo. Ela rapidamente encerrou a ligação.

Mas as palavras finais de Gabriela, "Encante com seu charme!" escaparam antes que ela pudesse desligar.

Chelsey sentiu como se estivesse ansiosa, rezando para que Trevor não tivesse ouvido nada.

O carro caiu em um silêncio inquietante enquanto deslizava sobre um viaduto. As altas luzes das ruas lançavam manchas de luz no carro, iluminando o perfil de Trevor.

Acompanhado por uma risada baixa, ele perguntou: "Um encontro às cegas?"

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