Capítulo 2

A primeira coisa que Helena viu quando abriu os olhos foi o teto branco e estéril de um quarto de hospital. O cheiro de antisséptico encheu seus pulmões.

Caio estava sentado em uma cadeira ao lado da cama. Ele parecia exausto, seu terno de grife amassado, uma barba escura sombreando sua mandíbula. Havia uma leve linha vermelha em seu colarinho onde o sangue dela havia manchado.

Ele viu que ela estava acordada. Sua expressão era uma mistura de alívio e raiva.

"O que você estava pensando, Helena?", ele perguntou, sua voz baixa e tensa. "Aquela cena com o vidro... você estava tentando se matar?"

Helena olhou para o braço enfaixado, depois de volta para o rosto dele. Toda a dor, a esperança, o amor que sentira por ele haviam evaporado, deixando para trás uma calma fria e vazia.

"Não tem nada a ver com você", ela disse.

Um sorriso amargo e autodepreciativo tocou seus lábios. "Claro que não. Como poderia? Eu sou apenas o cara que você paga para manter por perto. Não tenho permissão para ter uma opinião, não é?"

As palavras foram feitas para machucar, para lembrá-la do desequilíbrio de poder que definira o relacionamento deles. Uma semana atrás, elas a teriam despedaçado. Agora, eram apenas ruído.

Ela sentiu uma dor surda no peito, a dor fantasma de uma ferida que finalmente cicatrizara. Ela não se deu ao trabalho de corrigi-lo.

"Não vou mais interferir entre você e a Clara", ela disse, sua voz plana. "Você pode ficar com ela. Não precisa se esconder."

Ele franziu a testa ao ouvir o nome de Clara, um lampejo de algo indecifrável em seus olhos. Ele começou a dizer algo, a explicar. "A Clara acabou de voltar para o país. Ela passou por muita coisa. Ela precisa de mim."

Ele estava dando desculpas. Ele estava reduzindo seus sete anos juntos a um arranjo temporário, facilmente deixado de lado por seu amor verdadeiro. O pensamento nem doía mais. Era apenas um fato.

Uma risada seca e rascante escapou de seus lábios. "Então vá. Vá ficar com ela."

"Ela está bem", ele insistiu, sua voz tensa. "A equipe do hotel conseguiu abrir a porta. Foi apenas uma queimadura leve. Estou te levando para casa."

Ele não perguntou. Ele a informou. Ele cuidou da alta dela com eficiência rápida, ignorando seus protestos. Ele a ajudou a entrar no carro, seu toque impessoal, como um manobrista lidando com uma posse valiosa.

A viagem foi silenciosa. O ar no carro estava frio e pesado.

"Você não comeu", ele disse, quebrando o silêncio. Ele não olhou para ela.

Ela não tinha apetite. O pensamento de comida fazia seu estômago revirar.

Ele não ouviu. Ele parou em um restaurante pequeno e despretensioso, um que ela nunca tinha ido. "Você precisa de algo leve", ele disse, sua voz mais suave agora, uma gentileza calculada que ela conhecia muito bem.

Ele pediu por ela. Um simples mingau de arroz e alguns legumes no vapor. Ele se lembrou que ela gostava de comida simples quando estava estressada. Por um momento, um lampejo do antigo calor retornou. Talvez ele se importasse, à sua maneira.

Ela se forçou a comer algumas colheradas. O mingau quente assentou em seu estômago.

"Sentindo-se melhor?", ele perguntou.

Antes que ela pudesse responder, uma voz brilhante e alegre interrompeu. "Caio! Eu sabia que te encontraria aqui!"

Clara deslizou para o banco ao lado dele, envolvendo-o com o braço. Ela estava vestida com um vestido amarelo ensolarado, parecendo radiante. Ela olhou para a comida na mesa.

"Ah, você pediu meu mingau favorito!", ela disse, batendo palmas. "Você sempre sabe exatamente o que eu quero."

A colher de Helena congelou a meio caminho da boca. O calor em seu estômago se transformou em gelo. Não era sobre ela. Nunca foi sobre ela. Os hábitos dele, as preferências dele, as coisas que Helena pensava serem suas intimidades compartilhadas - eram todas apenas ecos de Clara.

"O que você está fazendo acordada tão cedo?", Caio perguntou a Clara, sua voz suavizando para aquele tom familiar e indulgente.

"Eu queria planejar nossa viagem para ver os túmulos dos seus pais", disse Clara, fazendo um biquinho. "O aniversário é na próxima semana. Eu quero ir com você."

O rosto de Caio se nublou com a menção de seus pais. Eles haviam morrido anos atrás, uma tragédia da qual ele raramente falava.

"Claro", ele disse baixinho. "Eu gostaria disso."

"Eu ainda o tenho, sabe", disse Clara, sua voz baixando para um sussurro conspiratório. Ela puxou um delicado medalhão de prata de debaixo do vestido. Era antigo e um pouco manchado. "Aquele que sua mãe me deu antes... antes de falecer. Ela disse que era para sua futura nora."

Clara abriu a palma da mão, oferecendo-o a ele. "Acho que é hora de eu devolvê-lo a você."

Caio pegou o medalhão. Ele o segurou na palma da mão, seu polegar acariciando a prata gasta. Por um longo momento, Helena pensou que ele poderia colocá-lo no bolso. Uma parte dela, uma parte tola e moribunda, rezou para que ele o fizesse.

Então ele olhou para Clara, seus olhos cheios de um afeto profundo e triste. Ele gentilmente fechou a mão dela sobre o medalhão.

"Não", ele disse, sua voz embargada de emoção. "Ela o deu a você. Fique com ele."

Capítulo 3

A escolha estava feita. No restaurante silencioso, com o cheiro de mingau e traição no ar, Caio havia escolhido. Ele escolheu o passado. Ele escolheu a garota com o medalhão.

Helena os observava, uma espectadora em sua própria execução. Ela não sentia nada. A parte dela que podia sentir dor por causa dele havia sido arrancada, deixando um vácuo limpo e entorpecido.

Ela queria ir embora, afastar-se da visão deles juntos, tão perfeitamente combinados em sua história compartilhada.

"Estou cansada", ela disse, empurrando sua tigela. "Quero ir para casa."

Caio ergueu os olhos, arrancado de seu devaneio. "Eu te levo."

"Eu também vou!", Clara chilreou. "Quero ver o quarto da Helena. Aposto que é lindo."

Enquanto saíam, um garçom carregando uma bandeja de fajitas escaldantes passou correndo. Clara, em um gesto teatral de surpresa, tropeçou diretamente em seu caminho. A travessa quente inclinou-se.

Caio se moveu com a velocidade de um raio. Ele empurrou Clara para fora do caminho, protegendo o corpo dela com o seu. A frigideira de ferro fundido caiu no chão, errando Clara completamente.

Mas não errou Helena.

Óleo fervente e pimentas quentes espirraram em seu braço, o mesmo que já estava enfaixado. Uma dor lancinante e branca subiu de seu pulso até o ombro. Ela gritou, tropeçando para trás, suas pernas cedendo.

Ela caiu no chão, sua visão embaçando. A última coisa que viu antes que a dor a consumisse foi Caio, com os braços em volta de uma Clara perfeitamente ilesa, sussurrando garantias em seu cabelo enquanto a afastava da bagunça. Ele não olhou para trás.

A queimadura era grave. Segundo grau, o médico da emergência lhe disse. Seu motorista particular, chamado por um gerente de restaurante solidário, a levara às pressas para lá.

Enquanto esperava uma enfermeira fazer o curativo na ferida, ela os viu. Caio e Clara estavam em um cubículo do outro lado do corredor. Um médico examinava o tornozelo de Clara, aquele que ela "torceu" na gala. Caio pairava sobre ela, o rosto marcado pela preocupação, segurando um copo de água em seus lábios. Ele estava tratando o tornozelo torcido dela como uma ferida mortal.

O braço de Helena estava empolado, a dor um fogo constante e latejante. Mas a visão do outro lado do corredor foi o que realmente a queimou.

Ela se virou, a imagem gravada em sua mente.

Caio não ligou por três dias. Quando finalmente apareceu na mansão, Helena estava na sala de estar, cercada por caixas. Um vestido de noiva branco e imaculado estava pendurado em uma cadeira, e uma caixa de veludo na mesa de centro estava aberta, revelando um deslumbrante anel de diamante.

O anel de Eduardo.

Caio parou na porta, seus olhos percorrendo a cena. Uma carranca vincou sua testa.

"O que é tudo isso?", ele perguntou.

"Vou me casar", disse Helena, sua voz desprovida de emoção.

Ele riu, um som curto e sem humor. "Não seja ridícula, Helena. Se você está com raiva, podemos conversar sobre isso. Não há necessidade para esse tipo de drama."

Ele não acreditou nela. Ele pensou que era um jogo, uma manobra desesperada por sua atenção. A arrogância disso era de tirar o fôlego.

Ele tentou apaziguá-la, como se faria com uma criança. Ele comprou um presente para ela, uma pulseira cara que ela não queria. Ela a deixou na mesa, intocada.

Ele pensou que ela estava apenas de mau humor. Para animá-la, ele disse, estava a levando para uma nova exposição de arte.

"Você vai adorar", ele prometeu.

A galeria era austera e moderna. Por um momento, Helena sentiu um pouco de sua antiga personalidade retornar. Ela amava arte. Era uma linguagem que ela entendia.

Então ela viu a placa na entrada: "CLARA BASTOS: UMA RETROSPECTIVA."

Seu coração afundou. Ele não a trouxera aqui por ela. Ele a trouxera aqui por Clara.

A própria Clara apareceu, radiante, e entrelaçou seu braço no de Caio. "Eu sabia que você viria!"

Caio sorriu para ela, um sorriso orgulhoso e indulgente. "Claro. Eu não perderia por nada."

Helena era a terceira roda, um fantasma assombrando o quadro perfeito deles. Ela os seguiu pela galeria, uma observadora silenciosa de sua história de amor, imortalizada em fotografias. Clara no ensino médio, rindo. Clara e Caio em uma praia, silhuetas contra um pôr do sol. Cada foto era um testemunho de uma vida da qual Helena não fazia parte.

A peça central da exposição era uma fotografia em grande escala pendurada na parede do fundo. Era um retrato de Caio.

Ele estava dormindo, o rosto relaxado de uma forma que Helena nunca vira. A luz da manhã entrava por uma janela, iluminando a curva de seus cílios, a suave inclinação de seus lábios. Ele parecia pacífico, vulnerável e tão profunda, profundamente amado. A foto foi tirada da perspectiva de alguém deitado na cama ao lado dele, um momento íntimo e roubado.

Clara se aproximou, sua voz suave. "Eu tirei esta foto na manhã seguinte ao pedido de casamento dele, logo antes de ele ir para o ITA. Ele estava tão cansado, adormeceu segurando minha mão."

Ela se virou para Helena, seus olhos brilhando de triunfo. "Ele nunca olhou para mais ninguém desse jeito, não é?"

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