Lívia
O vento frio cortava meu rosto quando voltei para casa naquele fim de tarde.
A imagem de Noah sumindo entre as árvores ainda girava na minha cabeça.
Quem ele era de verdade?
E por que parecia me conhecer antes mesmo de ouvir meu nome?
As perguntas me acompanharam até o pequeno chalé que eu dividia com minha tia, Helena, na beira da cidade.
A casa cheirava a café e canela - aconchego em meio àquele lugar estranho.
Mas nem o calor do fogão conseguiu afastar a sensação de que algo me observava do lado de fora.
Depois do jantar, me sentei na cama com o laptop.
A internet em Sierra Creek era lenta, mas bastou digitar "família Blackwood" para encontrar... nada.
Nenhum registro, nenhuma rede social, nada.
Como se ele não existisse.
Uma rajada de vento fez a janela bater.
Olhei para fora - o bosque escuro balançava ao longe, e uma névoa começava a subir, iluminada pela lua.
Então ouvi de novo.
O mesmo uivo.
Baixo, distante, mas impossível de ignorar.
Meu corpo reagiu antes que eu pensasse.
Peguei o casaco e saí, seguindo o som.
Os galhos estalavam sob meus pés enquanto eu me embrenhava na floresta, o coração acelerando a cada passo.
De repente, algo passou rápido à minha frente - uma sombra grande, veloz, que desapareceu entre as árvores.
Tentei dar um passo atrás, mas escorreguei.
E antes que pudesse cair, mãos fortes me seguraram pela cintura.
- Eu disse pra você não vir aqui sozinha - a voz dele soou grave, perto demais do meu ouvido.
Noah.
O calor das mãos dele atravessava o tecido do meu casaco.
Por um instante, fiquei sem ar.
- O que... o que era aquilo? - perguntei, tentando recuperar a voz.
- Um lobo - respondeu, sem hesitar. - Eles aparecem quando a lua está quase cheia. Você devia ter ficado em casa.
Mas havia algo estranho no jeito como ele falava - como se não estivesse apenas me alertando, mas também lutando contra algo dentro dele.
Seus olhos, sob a luz prateada, pareciam brilhar.
- Por que se importa tanto comigo, Noah? - ousei perguntar.
Ele me soltou devagar, recuando um passo, o olhar duro.
- Porque há coisas aqui que você não entende.
- Então me explica.
O silêncio se estendeu.
Só o som da respiração dele - profunda, contida - preenchia o ar.
Quando finalmente falou, sua voz era um sussurro:
- Eu não posso... não ainda.
E, como antes, ele se virou e desapareceu na névoa.
Deixando para trás o eco do seu perfume - madeira, chuva e algo selvagem.
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Noah
Eu a senti antes de vê-la.
O batimento acelerado do coração dela ecoava entre as árvores, puxando o lobo dentro de mim para a superfície.
Ela era imprudente.
Curiosa demais.
E linda demais para o meu próprio bem.
Quando a segurei, o calor do corpo dela atravessou minhas barreiras.
Meu controle vacilou.
Por um instante, o mundo sumiu, e só existia o som da respiração dela - suave, trêmula, perigosa.
Eu devia tê-la deixado ir.
Mas a cada vez que ela me olhava, algo em mim mudava.
O lobo reconhecia algo que eu não queria admitir.
De volta à clareira, o cheiro de sangue me fez parar.
Um coelho morto. Rasgado.
Eles estavam caçando de novo.
Outros da minha espécie.
- Ainda tentando fingir que é humano, primo? - a voz rouca de Dylan soou atrás de mim.
- Não é fingimento - respondi sem olhar. - É sobrevivência.
Ele riu, um som baixo e sombrio.
- A garota está te mudando.
- Fica longe dela - rosnei.
Mas ele só sorriu, mostrando um brilho ameaçador nos olhos.
- Se você não contar a verdade, Noah, a lua cheia vai fazer isso por você.
E quando ela descobrir o que você é... será tarde demais.
Fiquei ali, sozinho, com o gosto metálico da noite na boca.
A fera em mim pulsava, exigindo sair.
E, no fundo, eu sabia que Dylan estava certo.
Eu podia tentar enganar a mim mesmo.
Mas não à lua.
E nem a ela.
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Lívia
Na manhã seguinte, os corredores da escola estavam cheios de murmúrios.
Um animal selvagem havia atacado uma casa próxima ao bosque.
Ninguém sabia o que era.
Mas quando Noah passou, o burburinho parou - como se todos soubessem que ele carregava algo que ninguém entendia.
Ele não olhou pra mim.
Mas eu senti.
O mesmo frio na espinha, o mesmo arrepio na pele.
E uma certeza:
Entre nós, algo já estava acontecendo.
Algo que nem o tempo, nem o medo, e nem a lua seriam capazes de deter.
Lívia
A segunda-feira amanheceu com o céu coberto de nuvens espessas, o tipo de dia em que o sol parece desistir antes mesmo de tentar.
Eu não dormi direito - cada vez que fechava os olhos, via Noah entre as árvores, os olhos dele brilhando, a voz rouca me mandando fugir.
Mas o que realmente me deixava sem ar era a sensação de que, mesmo longe, ele ainda me sentia.
Como se houvesse algo invisível nos ligando.
Quando cheguei à escola, percebi que algo estava diferente.
Os alunos cochichavam pelos corredores, olhares desconfiados se cruzando.
Uma notícia corria: um morador havia sido encontrado ferido perto da floresta.
Diziam que fora um ataque de animal.
Mas quando passei por Noah no corredor - e vi o arranhão em seu braço -, entendi que talvez o ataque não fosse apenas um rumor.
- O que aconteceu? - perguntei, parando diante dele.
- Nada - respondeu sem me encarar.
- Noah, você está sangrando.
- Não é o meu sangue.
O modo como ele disse aquilo me gelou.
Antes que eu pudesse insistir, ele já tinha se afastado, deixando para trás um silêncio denso e o eco do meu próprio coração acelerado.
Durante a aula de História, não consegui prestar atenção em nada.
Noah estava no fundo, olhando fixamente pela janela, os dedos tamborilando sobre a mesa como se contassem os segundos para algo acontecer.
A cada vez que eu desviava o olhar, o instinto me forçava a olhar de novo.
E então, no meio da explicação do professor, ele levantou-se e saiu.
Sem pedir permissão.
Sem dizer uma palavra.
Algo em mim me mandou segui-lo.
Saí alguns minutos depois, o corredor vazio e o som dos meus passos ecoando.
Quando abri a porta que dava para os fundos da escola, vi Noah parado ali, encostado no muro, com a cabeça baixa e o punho fechado.
- Por que você me seguiu? - perguntou, sem olhar.
- Porque... eu me preocupo.
Ele ergueu o olhar - e por um segundo, eu quase recuei.
Os olhos dele estavam cinzentos demais, como metal líquido.
Bonitos e assustadores ao mesmo tempo.
- Você não devia se aproximar de mim, Lívia.
- Então por que você sempre aparece quando eu preciso? - devolvi.
O silêncio entre nós ficou carregado.
O vento levantou os cabelos dele, e eu percebi a tensão no maxilar, o esforço para manter o controle.
- Você não entende... o que eu sou, o que eu carrego, o que eu posso fazer com você.
- Então me explica, Noah. - minha voz saiu mais firme do que eu esperava. - Me deixa entender.
Ele deu um passo à frente.
Depois outro.
Até que o espaço entre nós desapareceu.
O cheiro dele - madeira, chuva e algo selvagem - me envolveu.
- Se eu te contar, você nunca mais vai me olhar do mesmo jeito.
- Já é tarde pra isso.
Por um instante, o tempo parou.
Os olhos dele desceram até minha boca, e o ar ficou denso, pesado.
Era como se o mundo inteiro estivesse suspenso naquela respiração compartilhada.
Mas então ele se afastou bruscamente.
Como se algo dentro dele o puxasse de volta.
- Os Blackwood não são o que parecem - disse ele, a voz rouca. - Fique longe da floresta. Fique longe de mim.
E foi embora, me deixando sozinha com um coração descompassado e uma nova certeza:
quanto mais ele tentava me afastar, mais eu queria entender o que o prendia à escuridão.
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Noah
Ela não faz ideia do que está pedindo.
Se soubesse o que vi nas últimas luas, o que fiz pra manter o lobo sob controle, ela fugiria sem olhar pra trás.
Mas em vez disso, ela me encara com aqueles olhos castanhos - quentes, curiosos - e tudo dentro de mim se parte.
O humano tenta falar mais alto, mas o lobo sussurra: Ela é sua.
Eu não posso deixá-la se aproximar.
Não quando o instinto começa a crescer dentro de mim como fogo.
A marca no braço latejava.
O sangue do ataque ainda estava ali, misturado com o meu.
Era sinal de que eles estavam perto.
A matilha que eu deixei pra trás.
Os mesmos que fariam de tudo pra me caçar... e agora, talvez, caçar ela também.
Voltei pra casa antes do pôr do sol.
A casa dos Blackwood ficava afastada, entre colinas e árvores antigas.
Por fora, parecia abandonada. Por dentro, era o único lugar onde eu podia deixar o lobo respirar.
No porão, um espelho quebrado refletia meu rosto cansado.
Aos poucos, os olhos mudaram de cor - do cinza para o âmbar profundo.
E as veias sob minha pele começaram a brilhar como prata líquida.
O rugido veio sem aviso.
Um som rouco, primal, que fez as paredes tremerem.
E no meio do caos, uma imagem atravessou minha mente:
Lívia.
Sozinha. No bosque. Me chamando.
Eu sabia o que isso significava.
A marca estava se formando - o laço entre nós, o mesmo que destruiu meus pais.
E a cada batida do meu coração, a fera dentro de mim sussurrava uma verdade que eu não podia aceitar:
Você pode tentar fugir do destino, Noah... mas ela já é sua lua.