Capítulo 2

Lívia

O vento frio cortava meu rosto quando voltei para casa naquele fim de tarde.

A imagem de Noah sumindo entre as árvores ainda girava na minha cabeça.

Quem ele era de verdade?

E por que parecia me conhecer antes mesmo de ouvir meu nome?

As perguntas me acompanharam até o pequeno chalé que eu dividia com minha tia, Helena, na beira da cidade.

A casa cheirava a café e canela - aconchego em meio àquele lugar estranho.

Mas nem o calor do fogão conseguiu afastar a sensação de que algo me observava do lado de fora.

Depois do jantar, me sentei na cama com o laptop.

A internet em Sierra Creek era lenta, mas bastou digitar "família Blackwood" para encontrar... nada.

Nenhum registro, nenhuma rede social, nada.

Como se ele não existisse.

Uma rajada de vento fez a janela bater.

Olhei para fora - o bosque escuro balançava ao longe, e uma névoa começava a subir, iluminada pela lua.

Então ouvi de novo.

O mesmo uivo.

Baixo, distante, mas impossível de ignorar.

Meu corpo reagiu antes que eu pensasse.

Peguei o casaco e saí, seguindo o som.

Os galhos estalavam sob meus pés enquanto eu me embrenhava na floresta, o coração acelerando a cada passo.

De repente, algo passou rápido à minha frente - uma sombra grande, veloz, que desapareceu entre as árvores.

Tentei dar um passo atrás, mas escorreguei.

E antes que pudesse cair, mãos fortes me seguraram pela cintura.

- Eu disse pra você não vir aqui sozinha - a voz dele soou grave, perto demais do meu ouvido.

Noah.

O calor das mãos dele atravessava o tecido do meu casaco.

Por um instante, fiquei sem ar.

- O que... o que era aquilo? - perguntei, tentando recuperar a voz.

- Um lobo - respondeu, sem hesitar. - Eles aparecem quando a lua está quase cheia. Você devia ter ficado em casa.

Mas havia algo estranho no jeito como ele falava - como se não estivesse apenas me alertando, mas também lutando contra algo dentro dele.

Seus olhos, sob a luz prateada, pareciam brilhar.

- Por que se importa tanto comigo, Noah? - ousei perguntar.

Ele me soltou devagar, recuando um passo, o olhar duro.

- Porque há coisas aqui que você não entende.

- Então me explica.

O silêncio se estendeu.

Só o som da respiração dele - profunda, contida - preenchia o ar.

Quando finalmente falou, sua voz era um sussurro:

- Eu não posso... não ainda.

E, como antes, ele se virou e desapareceu na névoa.

Deixando para trás o eco do seu perfume - madeira, chuva e algo selvagem.

---

Noah

Eu a senti antes de vê-la.

O batimento acelerado do coração dela ecoava entre as árvores, puxando o lobo dentro de mim para a superfície.

Ela era imprudente.

Curiosa demais.

E linda demais para o meu próprio bem.

Quando a segurei, o calor do corpo dela atravessou minhas barreiras.

Meu controle vacilou.

Por um instante, o mundo sumiu, e só existia o som da respiração dela - suave, trêmula, perigosa.

Eu devia tê-la deixado ir.

Mas a cada vez que ela me olhava, algo em mim mudava.

O lobo reconhecia algo que eu não queria admitir.

De volta à clareira, o cheiro de sangue me fez parar.

Um coelho morto. Rasgado.

Eles estavam caçando de novo.

Outros da minha espécie.

- Ainda tentando fingir que é humano, primo? - a voz rouca de Dylan soou atrás de mim.

- Não é fingimento - respondi sem olhar. - É sobrevivência.

Ele riu, um som baixo e sombrio.

- A garota está te mudando.

- Fica longe dela - rosnei.

Mas ele só sorriu, mostrando um brilho ameaçador nos olhos.

- Se você não contar a verdade, Noah, a lua cheia vai fazer isso por você.

E quando ela descobrir o que você é... será tarde demais.

Fiquei ali, sozinho, com o gosto metálico da noite na boca.

A fera em mim pulsava, exigindo sair.

E, no fundo, eu sabia que Dylan estava certo.

Eu podia tentar enganar a mim mesmo.

Mas não à lua.

E nem a ela.

---

Lívia

Na manhã seguinte, os corredores da escola estavam cheios de murmúrios.

Um animal selvagem havia atacado uma casa próxima ao bosque.

Ninguém sabia o que era.

Mas quando Noah passou, o burburinho parou - como se todos soubessem que ele carregava algo que ninguém entendia.

Ele não olhou pra mim.

Mas eu senti.

O mesmo frio na espinha, o mesmo arrepio na pele.

E uma certeza:

Entre nós, algo já estava acontecendo.

Algo que nem o tempo, nem o medo, e nem a lua seriam capazes de deter.

Capítulo 3

Lívia

A segunda-feira amanheceu com o céu coberto de nuvens espessas, o tipo de dia em que o sol parece desistir antes mesmo de tentar.

Eu não dormi direito - cada vez que fechava os olhos, via Noah entre as árvores, os olhos dele brilhando, a voz rouca me mandando fugir.

Mas o que realmente me deixava sem ar era a sensação de que, mesmo longe, ele ainda me sentia.

Como se houvesse algo invisível nos ligando.

Quando cheguei à escola, percebi que algo estava diferente.

Os alunos cochichavam pelos corredores, olhares desconfiados se cruzando.

Uma notícia corria: um morador havia sido encontrado ferido perto da floresta.

Diziam que fora um ataque de animal.

Mas quando passei por Noah no corredor - e vi o arranhão em seu braço -, entendi que talvez o ataque não fosse apenas um rumor.

- O que aconteceu? - perguntei, parando diante dele.

- Nada - respondeu sem me encarar.

- Noah, você está sangrando.

- Não é o meu sangue.

O modo como ele disse aquilo me gelou.

Antes que eu pudesse insistir, ele já tinha se afastado, deixando para trás um silêncio denso e o eco do meu próprio coração acelerado.

Durante a aula de História, não consegui prestar atenção em nada.

Noah estava no fundo, olhando fixamente pela janela, os dedos tamborilando sobre a mesa como se contassem os segundos para algo acontecer.

A cada vez que eu desviava o olhar, o instinto me forçava a olhar de novo.

E então, no meio da explicação do professor, ele levantou-se e saiu.

Sem pedir permissão.

Sem dizer uma palavra.

Algo em mim me mandou segui-lo.

Saí alguns minutos depois, o corredor vazio e o som dos meus passos ecoando.

Quando abri a porta que dava para os fundos da escola, vi Noah parado ali, encostado no muro, com a cabeça baixa e o punho fechado.

- Por que você me seguiu? - perguntou, sem olhar.

- Porque... eu me preocupo.

Ele ergueu o olhar - e por um segundo, eu quase recuei.

Os olhos dele estavam cinzentos demais, como metal líquido.

Bonitos e assustadores ao mesmo tempo.

- Você não devia se aproximar de mim, Lívia.

- Então por que você sempre aparece quando eu preciso? - devolvi.

O silêncio entre nós ficou carregado.

O vento levantou os cabelos dele, e eu percebi a tensão no maxilar, o esforço para manter o controle.

- Você não entende... o que eu sou, o que eu carrego, o que eu posso fazer com você.

- Então me explica, Noah. - minha voz saiu mais firme do que eu esperava. - Me deixa entender.

Ele deu um passo à frente.

Depois outro.

Até que o espaço entre nós desapareceu.

O cheiro dele - madeira, chuva e algo selvagem - me envolveu.

- Se eu te contar, você nunca mais vai me olhar do mesmo jeito.

- Já é tarde pra isso.

Por um instante, o tempo parou.

Os olhos dele desceram até minha boca, e o ar ficou denso, pesado.

Era como se o mundo inteiro estivesse suspenso naquela respiração compartilhada.

Mas então ele se afastou bruscamente.

Como se algo dentro dele o puxasse de volta.

- Os Blackwood não são o que parecem - disse ele, a voz rouca. - Fique longe da floresta. Fique longe de mim.

E foi embora, me deixando sozinha com um coração descompassado e uma nova certeza:

quanto mais ele tentava me afastar, mais eu queria entender o que o prendia à escuridão.

---

Noah

Ela não faz ideia do que está pedindo.

Se soubesse o que vi nas últimas luas, o que fiz pra manter o lobo sob controle, ela fugiria sem olhar pra trás.

Mas em vez disso, ela me encara com aqueles olhos castanhos - quentes, curiosos - e tudo dentro de mim se parte.

O humano tenta falar mais alto, mas o lobo sussurra: Ela é sua.

Eu não posso deixá-la se aproximar.

Não quando o instinto começa a crescer dentro de mim como fogo.

A marca no braço latejava.

O sangue do ataque ainda estava ali, misturado com o meu.

Era sinal de que eles estavam perto.

A matilha que eu deixei pra trás.

Os mesmos que fariam de tudo pra me caçar... e agora, talvez, caçar ela também.

Voltei pra casa antes do pôr do sol.

A casa dos Blackwood ficava afastada, entre colinas e árvores antigas.

Por fora, parecia abandonada. Por dentro, era o único lugar onde eu podia deixar o lobo respirar.

No porão, um espelho quebrado refletia meu rosto cansado.

Aos poucos, os olhos mudaram de cor - do cinza para o âmbar profundo.

E as veias sob minha pele começaram a brilhar como prata líquida.

O rugido veio sem aviso.

Um som rouco, primal, que fez as paredes tremerem.

E no meio do caos, uma imagem atravessou minha mente:

Lívia.

Sozinha. No bosque. Me chamando.

Eu sabia o que isso significava.

A marca estava se formando - o laço entre nós, o mesmo que destruiu meus pais.

E a cada batida do meu coração, a fera dentro de mim sussurrava uma verdade que eu não podia aceitar:

Você pode tentar fugir do destino, Noah... mas ela já é sua lua.

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