Hope Narrando
Meu nome é Hope Valet. Tenho 25 anos e sou órfã de pai desde criança. Meu pai era um soldado leal ao Don Collins. Um homem firme, honrado, que nunca vacilou diante das ordens que recebia. Ele jurou fidelidade ao Don, e cumpriu esse juramento com a própria vida. Morreu no campo de batalha para proteger o seu senhor. Foi enterrado com todas as honras, com palavras bonitas e aplausos que, na época, eu não entendi. Era pequena demais para compreender o que era "honra".
Na verdade, quando criança, eu achava que aquilo era algo lindo. Hoje, adulta, entendo que a tal honra não encheu nossa mesa. Não pagou os boletos que minha mãe teve que lidar sozinha. Não acalmou as noites em que acordei chorando, chamando por um pai que nunca mais voltaria. Ele nos deixou. Deixou eu e minha mãe para trás.
Mas o Don, ele não virou as costas pra gente. Talvez por culpa. Talvez por afeto. Ou por respeito à lealdade que meu pai teve por ele. Seja lá qual for o motivo, ele fez questão de nos trazer pra Fortaleza, a casa principal da família Collins. Claro que a gente não ficou nos aposentos nobres. Nossa morada sempre foi a ala dos empregados. Mas nem por isso posso reclamar. Meu padrinho, como passei a chamá-lo, sempre nos deu tudo do bom e do melhor.
Minha mãe trabalha até hoje na casa, cuidando da lavanderia e da cozinha, sempre discreta, sempre dedicada. Eu fui tratada como uma filha, ou quase isso. Estudei nas melhores escolas, junto com os filhos do Don. Todo ano, ganhava uma viagem internacional, roupas de grife, celular de última geração. Eu tive o que muitos chamariam de vida de princesa. Mas tudo isso tem um preço. Porque existe um juramento.
O Don Collins assumiu o papel de pai pra mim, e com isso, um acordo foi firmado: eu só posso me casar com quem ele escolher. Meu coração, minha vida, minha história, tudo passa pelo crivo dele. Ele quer o melhor pra mim, eu sei. Mas às vezes o melhor para ele não é o melhor para o meu coração.
Porque a verdade é que meu coração bate de um jeito diferente quando ouve um nome: Fred. O filho mais velho do meu padrinho. O primogênito.
Fred sempre foi reservado, maduro, com aquele olhar sério que parece enxergar o que você não diz. Ele já foi casado, mas o casamento durou pouco. A esposa dele, uma moça linda e doce, faleceu vítima de um câncer no sangue. Foi rápido e devastador. Da descoberta até a morte, foram poucos meses. Eu era só uma adolescente, mas lembro como se fosse ontem. Lembro de ver minha mãe correndo pra cuidar dele, enquanto ele mergulhava em silêncio na própria dor.
Talvez tenha sido ali que começou o que eu sinto por ele. Não foi por causa do nome, da posição ou da aparência, embora ele seja bonito, claro. Foi naquele momento de fragilidade, de humanidade, que algo dentro de mim se despertou. Vi o homem por trás do soldado. Vi o filho, o viúvo, o homem quebrado tentando se recompor.
Desde então, esse sentimento só cresceu. Mas sempre escondido. Nunca ousei falar. Nunca deixei escapar. Não posso sequer sonhar com ele em voz alta, porque sei que o Don não aceitaria. Não apenas pelo juramento, mas porque Fred é intocável. O primeiro filho . E eu sou apenas a filha do soldado que morreu em nome da causa.
Talvez, se eu fosse filha de sangue nobre, o Don até cogitaria a ideia de me ver ao lado de Fred. Mas sendo quem eu sou, alguém que foi acolhida por piedade ou dever moral, não, não posso alimentar essa esperança.
Faz oito anos desde que saí da Itália. Eu tinha só dezessete quando embarquei pra França com a missão clara: estudar. Meu padrinho fez questão de me matricular em uma das melhores universidades de Paris. Faculdade, pós-graduação, tudo pago por ele, com o maior orgulho. E eu cumpri com excelência. Não fui pra festas, não me envolvi com ninguém, nem me permiti sair muito. A verdade é que eu não queria decepcioná-lo.
Durante todos esses anos, eu não voltei nem uma vez pra Itália. Era uma mistura de foco nos estudos com medo de perder minha liberdade recém-conquistada. Minha mãe vinha me ver duas vezes por ano, sempre trazendo comidas que eu amava e aquele abraço apertado de saudade acumulada. E meu padrinho? Ele também vinha uma vez por ano, só pra me olhar nos olhos e dizer que estava orgulhoso. Ele sempre foi presente, mesmo à distância.
Ah, e claro, tinha também a soldado que ele designou pra ficar de olho em mim. Desde o primeiro dia. Uma mulher firme, silenciosa, mas sempre ali. No começo achei estranho, depois me acostumei. Nunca me incomodou, pra falar a verdade. Eu tinha meus livros, meus projetos, minhas metas. Fiz alguns amigos, sim, mas a maioria só de sala de aula mesmo. Nunca fui de sair, de badalar, de me distrair demais.
Agora, tudo isso tá chegando ao fim.
Acabei de me formar. Pós concluída. Mala em cima da cama. Documentos prontos. E uma mensagem no celular que fez meu coração bater mais forte: era da minha mãe.
- Filha, o jatinho já está a caminho. Estamos todos te esperando. Você será recebida com honra.
Recebida com honra. Parece bonito, né? Mas me dá um frio na barriga. Porque eu sei o que significa. Significa que meu padrinho vai me apresentar oficialmente à família de novo. Que os olhos estarão todos em mim. Que, talvez, o juramento volte à tona.
E uma pergunta não sai da minha cabeça: será que o Fred também vai estar lá?
Será que ele se lembra de mim, da menininha que ficou na ala dos empregados, que ele mal notava? Ou será que agora ele vai olhar pra mulher que eu me tornei?
Só sei que tô voltando. E que meu coração, tá acelerado demais pra ser só ansiedade.
Hope Narrando
A saudade me acompanhou até o aeroporto. Não ficou em casa, não se despediu. Sentou ao meu lado no avião como uma velha conhecida. Mas, dessa vez, ela não me esmagava. Era diferente. Eu estou voltando.
O voo até a Itália foi tranquilo. Dormi algumas horas, tentei organizar meus pensamentos, mas a ansiedade não deixava. Assim que o avião pousou, ainda meio zonza pelo fuso, vi os soldados esperando. Ternos escuros, postura rígida, o símbolo da família Collins no bolso esquerdo. Não houve dúvidas.
- Signorina Hope?
- Sim.
- Estamos aqui a mando de Don Collins. Seja bem-vinda de volta.
Assenti, tentando manter o controle da respiração. O coração batia acelerado. Oito anos. Oito anos longe da Toscana. Oito anos longe da minha história, da minha origem, da minha verdade.
Entramos na van preta, os vidros escurecidos escondendo o mundo lá fora. As estradas italianas se desenrolavam diante de mim como se tivessem ficado congeladas no tempo. Os campos verdes, as vinícolas, o aroma de terra molhada. Era tudo tão familiar e, ao mesmo tempo, distante.
- Quanto tempo até a fortaleza? - perguntei.
- Uma hora, signorina. Don Collins pediu que não fizéssemos paradas.
Concordei em silêncio. O caminho era longo, mas o peso no meu peito era mais. Lembrei da última vez que estive ali. Um almoço salgado, regado a lágrimas, fui embora buscar o meu sonho e agora estou voltando com ele na mala, para dar orgulho e a aposentadoria da minha mãe, já está no tempo dela descansar.
A estrada começou a subir. A vegetação ficou mais densa, os portões altos surgiram no horizonte. A fortaleza. As muralhas imponentes continuavam as mesmas. O brasão da família esculpido em pedra, as câmeras escondidas entre os ciprestes. Nada ali era simples. Nem eu.
Os portões se abriram devagar, rangendo como se sentissem minha presença. A van parou na entrada principal. Desci com o coração na boca. Um dos soldados abriu a porta da mansão e se virou para mim.
- Ele está lhe esperando.
Subi os degraus de pedra. Meus pés pareciam saber o caminho. Quando atravessei o corredor principal, vi a silhueta dele à frente, de pé, de costas para mim, olhando pela janela.
- Don Collins - minha voz saiu quase num sussurro.
Ele se virou devagar. Os olhos envelhecidos, mas ainda firmes. O mesmo olhar que me criou, que me moldou, que me ensinou o certo e o errado no mundo torto em que vivíamos.
- Finalmente em casa, mia bambina.
Sorri, mesmo com os olhos marejados.
- Demorou, mas eu voltei.
Ele se aproximou e me envolveu num abraço que dizia mais do que qualquer palavra.
Antes que eu pudesse me mover, ouvi passos rápidos e apressados vindos da cozinha. A porta se abriu de repente, e lá estava ela. Minha mãe. Com o avental amarrado na cintura, as mãos cheias de farinha, os olhos arregalados e o coração na boca.
- Hope? É você, minha filha?
- Sou eu, mãe, Cheguei.
Ela soltou um grito abafado, levou as mãos ao rosto e, sem pensar duas vezes, correu até mim. Abri os braços. O abraço veio apertado, quente, cheio de vida. Como se os anos todos tivessem derretido ali, naquele segundo.
- Minha menina, minha filha, você voltou - ela chorava contra meu pescoço, o corpo tremendo.
- Eu voltei, mãe. De verdade.
Ela me olhou de cima a baixo, emocionada. Tocou meu rosto com as mãos cheias de pó de farinha, sorriu entre as lágrimas.
- Formada! Olha só pra você, minha filha virou uma mulher formada. Eu sabia que você ia conseguir, Hope. Sabia.
- A Senhora sempre acreditou em mim - falei, com a voz embargada.
- Claro que acreditei, Sempre soube que você ia ser alguém grande. Mesmo sendo só a filha da empregada, você brilhou, minha filha. Brilhou longe daqui. E agora voltou. Volta como doutora, como mulher, como tudo que eu sonhei pra você.
Ela me abraçou de novo, e eu me deixei ficar ali, sentindo o coração da minha mãe bater contra o meu. Era o som mais seguro do mundo. O único lugar onde eu sempre fui só a Hope. Sem máfia, sem deveres, sem medo. Só filha.
Depois do reencontro emocionante com minha mãe, ela me levou até o quarto dela, na Ala dos empregados. Era simples, mas cheio de carinho em cada detalhe. Ali, onde cresci brincando entre os lençóis lavados e as histórias sussurradas no fim do dia, me senti segura. Tomei um banho demorado, deixei a água levar um pouco da tensão acumulada na viagem
Vesti a roupa que minha mãe havia separado com tanto carinho: um vestido midi de tecido acetinado, azul-petróleo, que abraçava meu corpo com leveza e sofisticação. O decote em V era discreto, mas valorizava meu colo, enquanto as mangas longas transparentes davam um toque refinado. A saia justa, bem marcada, até a altura dos joelhos, com uma fenda lateral sutil, que revelava um pouco da perna ao caminhar. Nos pés, um salto fino preto, clássico, elegante, do tipo que não chama atenção, mas impõe presença.
Deixei o cabelo solto, escovado com cuidado por minha mãe, caindo em ondas leves sobre os ombros. Não passei maquiagem, como sempre. Só um perfume suave, o mesmo de sempre. Um toque floral com fundo amadeirado minha marca. Minha mãe sempre dizia que aquele aroma parecia feito pra mim: delicado na entrada, mas firme na essência. Como eu.
Respirei fundo antes de sair do quarto. Cada passo pelos corredores da mansão era uma lembrança. Um retorno.
Quando cheguei à sala de jantar, todos os homens da família já estavam ali. Os sorrisos cessaram aos poucos, um silêncio sutil tomou o ambiente, como se minha presença tivesse mudado o ar. Eles me encararam como se estivessem vendo um fantasma, ou uma mulher feita.
E então, eu vi ele.
Fred.
Encostado à cabeceira da mesa, com uma taça na mão e aquele olhar que sempre me desarmava. O dono do meu coração. O mesmo sorriso torto, o mesmo olhar intenso. O tempo passou, mas ele... ele continua ali. No mesmo lugar dentro de mim.