«Nihara Vitti»
Da varada do meu quarto observo o brilho intenso do círculo de prata, solitária apesar de rodeia de pontos brilhantes. Assim como eu. Passara-se seis meses desde que soube da traição do meu ex, mais as cicatrizes do meu coração ainda doem como se dias nenhum tivessem passado.
Tentei seguir em frente, distrair-me com o trabalho, com os amigos, passatempos, mas nada parece tira-me do estado de dor e tristeza profunda. Sempre me pego pensando nele, nas lembranças felizes que compartilhamos, e então a dor é mais aguda quando percebo que tudo não passou de uma mentira.
Eu ainda tenho pesadelos. Sonho com ele e com a outra mulher, com a humilhação que senti quando descobri tudo no altar em frente a mais de cem pessoas. E mesmo acordada ainda sinto uma sensação de aperto no peito como se o mundo estivesse a desmoronar ao meu redor.
Dou uma pausa na escrita, no meu diário e encaro novamente o brilho da lua, suspirando cansada. Preciso recupera-me, preciso de voltar a brilhar assim com a lua, independente do tamanho da minha dor, talvez precise de estar longe daqui, de tudo que me lembra aquele fatídico dia. Falo em voz alta.
Leandra surgi agora no meu pensamento, ela sempre desejou ter-me junto dela lá em Berlim, "nem que fosse por um dia", como ela disse da última vez que falamos.
Levanto-me deixando o diário de lado, entro no quarto e pego o telefone na cabeceira da cama, absorvo o ar com veemência e o libero morosamente antes de buscar pelo número de Leandra, a minha irmã que vive na Alemanha a sete anos.
Não demora ela atende.
— Oi, Léah como você está?
— Oi mana, estou ótima e você como tens passado?
— Ah, tentando curar-me antes que essa ferida se torne crónica.
— Eu… sinto muito — murmura, depois de uma curta pausa —, por que não vens passar uma temporada aqui? Não tem nada melhor que viajar para esquecer uma desilusão amorosa.
— É por esse motivo que te liguei — digo, hesitante.
— Você finalmente vai ACEITAR O MEU CONVITE? NÃO BRINCA?
Volto a pôr o telefone no ouvido depois de o ter afastado dos gritos dela.
— Sim. E penso ficar por tempo indeterminado.
— Não tem problema nenhum, você e su…, SIMON SAIA DAÍ JÁ. Desculpe Niah, esse miúdo não para quieto,
— Simon, como ele está?
— Está grande, com dois anos já, a minha dor de cabeça e, ao mesmo tempo, meu paracetamol.
Leandra se perde em pensamentos.
— Ah, quero muito conhecê-lo, e apertar aquelas bochechinhas fofas.
— Finalmente vais poder conhecê-lo. Mas voltando ao assunto. O que eu dizia mesmo? Ah, você tem um sentido de oportunidade excelente...
— Por que dizes isso? Levanto uma sobrancelha, curiosa.
— É que nesse momento na empresa onde trabalho a vaga para diretor de criação está desocupada, e o meu chefe incumbiu-me de fazer as entrevistas com possíveis candidatos à vaga e, eu devo selecionar apenas três portfólios, para que ele mesmo escolha o candidato perfeito, cito as suas palavras.
— Espera... ainda trabalha como assistente de rh na agência de publicidade metamorfose? Não, — exclamo levando a mão desocupada a boca e, volto a sentar-me na beira da cama.
— Sim, meu bem.
— Meu Deus, isso é ótimo.
— Né? Azar no amor, sorte no trabalho.
— Na verdade, é sorte no jogo, Leandra.
— Tanto faz. Envia agora mesmo seu Curriculum e portfólio.
Corro até ao escritório/biblioteca que fica no mesmo corredor entre o meu quarto e o quarto da minha irmã. Tudo no meu quarto está organizado nos mínimos detalhes e aqui no escritório não é diferente, os livros físicos estão organizados por género e ordem alfabética e no computador o mesmo, os documentos, fotos, músicas, vídeos e livros digitais, em pasta diferentes, por isso não demoro para achar os documentos que preciso. Abro o correio eletrónico e anexos os arquivos, e envio. Uma nova vida espera-me, sussurro, segundos depois recebo a confirmação de que o correio eletrónico foi lido, e minutos mais tarde ela responde.
***
Os raios de sol invadem o meu pequeno quarto, destacando a fragilidade dos cortinados amarelados. Embora deseje ficar deitada o dia todo, lembro que tenho um último trabalho para entregar: a apresentação do site que criei para uma empresa de artigos desportivos.
Caminho lentamente até o casa de banho, ainda sonolenta esfregando os olhos. A água fria escorrendo pelo meu corpo relaxa-me e a minha mente volta no tempo sem que eu perceba.
«O fruto do nosso amor está a caminho, papai e mamãe já estão ansiosos demais»
«Eu sempre soube que esse relacionamento não chegaria tão longe, era bom demais para ser verdade»
«Ela é muito achada lhe mereci»
Levo um susto quando ouço batidas na porta e dou-me conta de que estou a vários minutos presa em pensamentos com a água jorrando em mim sem parar.
As pressas, cubro-me, saio da casa de banho, e já no quarto dou de cara com a Nilza, sentada na beirada da cama, olhando fixa para o quadro de foto em tamanho médio, eu vestida de noiva. Preciso tirar isso daí.
— O que você está a fazer aqui? — Indago, tentando manter a calma.
— E-eu precisava falar com você — disse ela, aproximando-se. — Sinto muito pelo que aconteceu, eu queria ter-te contado, mas eu não pude.
— Você sabia o tempo todo que ele me traía e nunca me disse nada — a minha voz saí tremula de raiva —, e agora você vem aqui tentando se justificar? Não quero ouvir as suas desculpas, Nilza. Eu não quero ver-te nunca mais.
— Por favor, você precisa ouvir-me — ela, segura as minhas mãos. — Eu estava com medo de que você se machucasse ainda mais se soubesse a verdade. Eu não queria que você passasse pelo que passei.
— E o que sabes sobre mim? — gritei, puxando as minhas mãos. — Eu vivia uma mentira, me preparando para casar com um homem que me traía. E você sabia disso e não fez nada para me ajudar.
— E-eu sei — diz ela, soluçando. — Sei que errei e sinto muito. Mas por favor, você precisa entender que eu só tentava proteger-te.
— Proteger? Proteger-me como? Deixar-me casar com um mentiroso? Você não sabe o que é proteção, Nilza. Você só sabe o que é trair uma amiga.
Empurro-a para fora do quarto e fecho a porta com força. Quero gritar, chorar, mas seguro-me. Não vou chorar de novo, por mais ninguém. Sento-me na cama, a minha cabeça girando de emoções.
Eu não sabia como lidar com essa traição, mas eu sabia que nunca mais confiaria em Nilza novamente.
Desço para tomar o pequeno-almoço, e acabo brigando com a minha irmã que permitiu a entrada daquela hiena no meu quarto, mas entre abraços e soluços e terminamos por nos entendermos, e abraçamos-nos eu a minha mãe, minha irmã e o meu irmão, faltando o meu pai nesse abraço. Depois, cada um de nós, deixamos o nosso lar para trás, cada um em direção ao seu destino.
***
Ao final do dia, finalmente estou em casa, exausta após resolver os últimos pendentes do trabalho e da viagem. Subo para o meu quarto, após tomar um banho, de água fria jogo-me na cama e pego no sono.
Acordando minutos depois com o som do telefone. Atendo logo sem olha a tela do aparelho.
— Nihara, ouvi dizer que você está a ir embora do país, isso é verdade?
Empertigo-me, assim que reconheço a voz do outro lado da linha. Como ele ousa, penso.
— Sim, é verdade, Bráulio. Eu estou a ir embora e isso não é da sua conta.
— Por favor, Nihara, não vá embora. Eu sei que errei, mas eu ainda te amo. Por favor, dê-me outra chance — ele implora.
Fecho os olhos com força, tentando controlar a raiva.
— Outra chance, Bráulio? Você acha mesmo que vou simplesmente perdoar-te e voltar para os seus braços? Você é patético. Por favor, deixe-me em paz — responde com veemência.
Bráulio tenta argumentar, mas desligo o telefone, sentindo as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Limpo-as com tanta força quase arrancando parte da pele, promete não chora de novo. É hora de seguir em frente e deixar o passado para trás.
Reúno-me com a minha família a mesa do jantar, e agora penso ser o melhor momento para contar sobre a minha decisão, essa que o maldito Bráulio ficou a saber não sei como. Observo-os conversando, e apenas balanço a cabeça concordando com o que dizem, até que engolindo em seco, abro a boca e deixo-os surpreso e se reação quando lhe digo de repente:
— Vou mudar-me para a Alemanha daqui alguns dias.
« Nihara Vitti»
Dúvidas atormentam-me, e não consigo dormir. Levanto-me da cama e desço até a cozinha, num estado de torpor. Desatenta, coloco o copo de água num lugar qualquer, e som de vidro quebrando ecoa pela casa. Preocupada, rezo mentalmente para que a minha mãe não tenha ouvido, mas a vida nem sempre atende os nossos desejos. Ela aparece atrás de mim, reclamando como todas as mães fazem.
Em silêncio, juntas arrumamos a bagunça que fiz. Num gesto inesperado, a minha mãe abraça-me, sem dizer uma palavra. É um abraço apertado, mas reconfortante, que me faz sentir menos sozinha nesse momento de despedida iminente. Conversamos sobre a minha partida, e dona Cândida aconselha-me com a sabedoria que só as mães têm.
Por fim, ela segura as minhas mãos e abençoa-me, o que me deixa emocionada e grata. Prometo manter contacto sempre, e ela abraça-me novamente, como se não quisesse soltar-me. As lágrimas escorrem pelo meu rosto, enquanto digo adeus ao meu lar e à minha família, com certeza de que a saudade será minha companheira fiel.
Eu ainda me estou a acostumar com a ideia de deixar tudo para trás e começar uma nova vida num país estrangeiro. Sento-me assustada, mas, ao mesmo tempo, animado com a possibilidade de conhecer novos lugares, pessoas e culturas. Em meio a esses pensamentos, meu telefone toca — já passa das treze horas —, uma ligação do trabalho, pensei que não tivesse deixado nenhum pendente. Despeço-me da minha mãe e saio; assim que chego sou surpreendida com uma festa de despedida organizada pelos meus colegas de trabalho.
A sala de convívio está decorada com balões e flores coloridas, e há uma mesa repleta de comida deliciosa. Todos sorriem para mim, dando boas-vindas com palavras e abraços afetuoso.
Não posso deixar de sentir uma emoção indescritível ao ver que eles se importam tanto comigo. As lágrimas humedecem os meus olhos quando os meus colegas entregam-me cartões e lembranças carinhosas. Eles desejam-me boa sorte na minha nova jornada e prometem manter contacto comigo sempre que possível.
Dirijo-me para casa, com o coração alegre, o sorriso não abandona o meu rosto. O sol já demarca nas nuvens raios alaranjados, anunciando a noite, amena. Essas, quatros, horas foram inesquecível, cheia de amor e alegria. Eu estava rodeada de pessoas que me amavam e apoiavam-me na minha decisão de ir para o exterior. Agora eu sei que, embora esteja a deixar para trás muitas coisas importantes na minha vida, sempre terei uma família e grupo de amigos verdadeiros que me acompanharão, onde quer que eu esteja.
Sinto o meu telefone tocar, me tirando dos devaneios, olho a tela e logo o meu sorriso desaparece, Nilza está a ligar-me.
***
Nilza se aproxima com passos hesitantes, os ombros caídos, revelando o peso de um segredo guardado por tempo demais. Os seus olhos cansados se encontram com os meus, e eu sinto uma mistura de tristeza e curiosidade. Por que ela finalmente decidiu falar?
Convido-a a sentar-se e pedimos as nossas bebidas e sanduíches, enquanto o silêncio constrangedor preenche o espaço entre nós. Eu esforço-me para não ser rude, mas a presença dela deixa-me tensa.
Finalmente, Nilza quebra o silêncio. A sua voz é baixa e trémula, e eu preciso inclinar-me para ouvir as suas palavras. Ela começa a contar-me sobre a sua história com Bráulio, o noivo que eu tanto amava e confiava.
A verdade é chocante, e eu sinto o meu coração apertar enquanto ela me revela a traição e o vídeo íntimo que ele usou para ameaçá-la. Agora é mais fácil para mim compreender porque ela me deixou no escuro pensando que me casava com um bom homem.
— Desculpa-me, eu não fazia ideia de tudo isso. Por isso, sempre foste hostil com ele?! — Ela balança a cabeça, e limpa o seu rosto.
— Desculpa-me você, por não contar antes. E desculpe pelas fotos — olhei-a com o cenho franzido.
— Fotos?
— Fui eu, que enviei as fotos, de um número privado, foi o jeito que encontrei. Não podia ver-te casando com aquele canalha sem fazer nada.
Ficamos em silêncio por segundos nos encarando. Por fim, dou um suspiro e digo.
— Tudo bem, daqui alguns dias nada disso importará mais.
***
Enquanto caminho em direção ao portão de embarque, sinto um aperto no peito e um nó na garganta. Olho para trás e vejo a minha família, pequena e distante, acenando e sorrindo. É difícil deixá-los para trás, mas sei que esta é uma jornada importante para mim.
A voz do alto-falante interrompe os meus pensamentos, atraiu atenção para o meu voo. Sinto um frio na barriga e aperto o pingente de borboleta que papai deu-me, sentindo o peso do ouro nas minhas mãos. É como se uma parte deles estivesse comigo, mesmo estando tão longe.
Ao entrar no avião, sou recebida com um sorriso caloroso da comissária de bordo, que indica o meu assento. Sigo pelo corredor procurando o número do seu assento. Quando finalmente o encontro, vejo um homem sentado no meu lugar. Olho novamente o ‘ticket’ para confirmar o número do assento.
— Desculpe, o senhor está sentado no meu lugar — afirmo com uma expressão neutra no rosto.
O homem encara-me por segundos com um sorriso gentil, os seus olhos atraentes e profundos percorrem todo o meu corpo, provocando-me calafrios.
— Perdoe-me, acho que me enganei. Eu estava distraído com os meus pensamentos e sentei aqui sem perceber. Se você quiser o seu lugar de volta, eu posso mudar para outro assento. Não quero causar nenhum problema
Ele não desgruda o seu olhar dos meus, o verde dos seus olhos intenso e hipnotizantes, o cabelo castanho e bem cuidado penteados para trás.
— Não se preocupe, não é nenhum problema. É posso sentar-me aqui, vejo que você precisa desse lugar mais do que eu — sorri tímida, sentando-me. Ele sorri de volta.
— Obrigada. Já agora sou o Tobias Bernstorff
— Tchissola Vitti — prazer!
«Senhoras e senhores, por favor peço que se recostem aos seus lugares e aperte os cintos decolamos em cinco minutos, obrigada. »
O avião começa a se movimentar na pista, e eu começo a sentir o meu estômago se contorcer de nervosismo. Olho para a janela, vejo a paisagem se mover rapidamente e sentindo a velocidade aumentar. Seguro o meu pingente e inclino a cabeça no assento, respirando devagar profundamente.
Quando o avião começa a decolar, senti no mesmo instante o coração bater mais rápido, abafo um grito com a mão, enquanto cravo as unhas da outra mão, em alguma firme e liso. Olha para os outros passageiros, vendo que a maioria parece calma e serena, como se não fosse nada de mais. Viro-me para olhar o homem do meu lado que segura a minha mão, me passando alguma segurança.
Minutos depois, mas calma, não posso olhar para ele, de tanta vergonha, solto a minha mão da sua e escondo o meu rosto com as mãos posando-as na perna. Ele continua em silêncio, com ar de dúvida ou confusão, não sei dizer ao certo.
— Ah, meu Deus, por favor, desculpe-me — exclamo, puxando a sua mão para o meu colo, preocupada com o pequeno ferimento de unhas que ficou na sua pele extremamente clara — Eu não queria... olha só o que fiz?
— Está tudo bem, não precisa se preocupar… — É a primeira vez que você voa? Ou é algo comum que acontece sempre que viajas.
— Com certeza a primeira opção, em minha defesa não sabia que teria tanto medo assim — respondo enquanto reviro a minha bolsa a procura de adesivo e desinfetante, sempre ando com esse tipo de coisa.
— É as vezes não sabemos como vamos reagir diante de uma situação até enfrentá-la.
— Por favor, me dê a sua mão, — peço quase como uma ordem. — Espero que isso não lhe cause nenhum problema. — Limpo o ferimento e depois ponho o adesivo.
O homem faz algumas caras e bocas assim que ponho o desinfetante, e logo abri um sorriso frouxo quando olha o adesivo colorido de borboleta que cobre o arranhão.
— Desculpa, só tenho estes.
— Não, tudo bem, a minha menina vai amar quando vir isto.
Obs. Olá tudo bem? Está a gostar da história?