Capítulo 2

Beatriz ainda estava absorvendo o ritmo intenso do novo emprego quando o telefone em sua mesa tocou pela primeira vez. Ela havia se instalado em sua estação de trabalho há menos de meia hora, mas a voz autoritária de Gabriel Costa já ecoava do outro lado da linha.

— Srta. Nogueira, na minha sala agora. — Ele desligou sem esperar resposta.

Bia respirou fundo e revisou mentalmente os documentos que acabara de ler. O resumo das reuniões da semana estava na ponta da língua, e ela se preparou para apresentar tudo com clareza. Em seu primeiro dia, não haveria espaço para erros.

Ela bateu na porta antes de entrar e encontrou Gabriel novamente ao lado da janela, com as mãos nos bolsos e a expressão tão séria quanto antes. A vista da cidade parecia ser seu ponto de reflexão, como se o horizonte lhe oferecesse as respostas para suas decisões de negócios.

— Sente-se. — Gabriel indicou a cadeira à frente da sua mesa sem desviar o olhar da janela. Ele permaneceu em silêncio por alguns instantes antes de finalmente se virar e encará-la. — Preciso que você me diga o que entendeu sobre as reuniões desta semana. Quero ouvir sua análise.

Era um teste, claro. Gabriel não precisava apenas de informações; ele queria avaliar a capacidade de Bia de processar e interpretar os dados.

Ela endireitou os ombros e começou:

— Temos uma semana cheia de compromissos estratégicos. A reunião mais importante é na quarta-feira com os acionistas, onde será discutida a proposta de expansão internacional da TechNova. Esta é uma decisão que terá impacto direto nos próximos cinco anos da empresa, especialmente considerando a recente entrada no mercado asiático. Notei que o Sr. agendou um encontro com a equipe jurídica amanhã para revisar os contratos relacionados a essa expansão. Também há reuniões diárias com os diretores de produto para avaliar o progresso no desenvolvimento da nova plataforma de IA, que, acredito, será o centro das atenções na próxima conferência de tecnologia.

Gabriel a observava atentamente enquanto ela falava. Não havia qualquer expressão em seu rosto que indicasse aprovação ou desaprovação. Isso só fez Bia redobrar a atenção em suas palavras.

— Além disso — ela continuou —, percebi que há um almoço agendado com o Sr. Henrique Ventura, o CEO da Connext. Acredito que este seja um encontro delicado, dada a recente concorrência entre as duas empresas. Sugiro que revisemos os relatórios de mercado antes dessa reunião para nos prepararmos melhor para qualquer tentativa de negociação por parte dele.

Gabriel permaneceu em silêncio por um momento, seus olhos fixos nos dela. Finalmente, ele assentiu ligeiramente.

— Boa análise. Mas você deixou passar um detalhe. — Ele cruzou os braços e se inclinou ligeiramente para frente. — Na quinta-feira, temos uma reunião com a equipe de marketing para revisar a campanha publicitária da nova plataforma. Eu gostaria de enfatizar que essa campanha será o rosto da TechNova nos próximos meses. Não podemos nos dar ao luxo de errar.

Bia sentiu uma onda de alívio ao perceber que sua análise foi bem recebida, mas também ficou consciente de que o nível de exigência de Gabriel era ainda maior do que ela imaginava. Ele não apenas queria que ela estivesse atenta ao óbvio, mas também ao que estava nas entrelinhas.

— Entendido, Sr. Costa. Vou me assegurar de que estejamos preparados para a reunião de marketing na quinta-feira. Revisarei o material com antecedência e farei uma prévia com a equipe antes do encontro.

Gabriel assentiu, satisfeito com a resposta. Ele se recostou na cadeira e finalmente exibiu algo próximo a um sorriso, embora ainda fosse contido.

— Bom. Veremos como você se sai. — Ele fez uma pausa e a encarou com uma intensidade renovada. — Uma última coisa, Srta. Nogueira. Se você quiser sobreviver aqui, precisará aprender a antecipar o que eu preciso antes que eu peça. Estou acostumado a ter tudo ao meu alcance imediatamente, e espero que você se adapte a isso.

Bia encontrou o olhar dele e respondeu sem hesitar:

— Entendido, Sr. Costa. Vou me adaptar rapidamente.

— Ótimo. Pode voltar ao trabalho.

Ela se levantou, pegou os documentos que Gabriel entregou, e se preparou para sair, mas ele a interrompeu no último segundo.

— Ah, e Srta. Nogueira... — Gabriel inclinou a cabeça ligeiramente, como se estivesse ponderando se deveria ou não continuar. — Não deixe que o ambiente daqui a intimide. Todos os que trabalham comigo já foram testados ao limite, e alguns tentam intimidar os novos. Concentre-se no seu trabalho, e você se sairá bem.

Bia sentiu um breve toque de surpresa com o conselho inesperado, mas apenas sorriu e assentiu.

— Obrigada, Sr. Costa. Agradeço o conselho.

Ela saiu da sala e voltou para sua mesa, sentindo um misto de alívio e nervosismo. Gabriel Costa era, sem dúvida, um chefe exigente e implacável, mas também demonstrava uma compreensão aguçada das pessoas ao seu redor. Talvez houvesse mais por trás daquela fachada fria do que ela imaginava.

Assim que Bia começou a organizar a agenda e revisar os documentos para a reunião de marketing, a porta de vidro do escritório ao lado do seu se abriu com um estalo. Uma mulher alta e loira, com olhos azuis penetrantes e um terno preto impecável, saiu do escritório com um ar de superioridade que imediatamente chamou a atenção de Bia.

— Então, você é a nova assistente do Sr. Costa? — A mulher perguntou com um sorriso que não alcançava os olhos. — Sou Camila Vieira, diretora de operações. Vejo que conseguiu sobreviver à primeira reunião. Impressionante, considerando que nem todos conseguem.

Bia percebeu o tom levemente condescendente, mas não se deixou abalar.

— Prazer em conhecê-la, Sra. Vieira. Estou ansiosa para colaborar com todos aqui na TechNova.

Camila olhou para Bia por um momento, avaliando-a com o mesmo olhar que Gabriel havia usado mais cedo.

— Veremos quanto tempo isso vai durar. — Ela disse com um tom desafiador antes de sair, deixando Bia sozinha novamente.

Bia percebeu que não seria apenas o trabalho que a desafiaria ali. Haveria também o teste constante de navegar pelas dinâmicas de poder e as sutilezas do ambiente corporativo. Mas ela estava pronta. Era só o começo, e Bia estava determinada a mostrar que poderia não apenas sobreviver, mas também prosperar.

Enquanto voltava sua atenção aos documentos, Bia não podia deixar de se perguntar o que mais aquele ambiente reservava para ela. Uma coisa era certa: os próximos dias seriam intensos.

Capítulo 3

Nos dias que se seguiram, Beatriz mergulhou de cabeça em seu novo papel, equilibrando-se entre as demandas de Gabriel Costa e o ambiente competitivo da TechNova. Cada dia era uma nova maratona de reuniões, e-mails urgentes e tarefas inesperadas. Bia logo percebeu que, embora Gabriel fosse o núcleo de todas as decisões, a verdadeira força da empresa vinha de seus executivos, cada um mais ambicioso e determinado que o outro.

Na terça-feira pela manhã, Bia estava organizando os relatórios para a reunião da tarde quando seu telefone tocou. Era Camila Vieira, a diretora de operações que a havia confrontado na semana anterior.

— Srta. Nogueira, venha ao meu escritório agora. — A voz de Camila era fria e direta, sem espaço para questionamentos.

Bia sentiu o estômago revirar por um momento, mas rapidamente retomou o controle. Ela sabia que não poderia se dar ao luxo de mostrar qualquer sinal de fraqueza. Quando chegou ao escritório de Camila, a diretora estava sentada em sua mesa, analisando uma pilha de documentos com uma expressão impassível.

— Sente-se — disse Camila, sem tirar os olhos dos papéis.

Bia obedeceu, mantendo a postura firme. Camila finalmente levantou os olhos, observando-a com um olhar clínico.

— Preciso saber qual é sua intenção aqui, Srta. Nogueira. — A voz de Camila era controlada, mas havia uma clara nota de desconfiança nela. — Todos sabemos que Gabriel é um líder difícil de agradar, mas você parece estar se saindo bem. Rápido até demais, para ser honesta.

Bia respirou fundo antes de responder.

— Minha única intenção é fazer meu trabalho da melhor forma possível, Sra. Vieira. Estou aqui para garantir que as coisas corram bem para o Sr. Costa e para a TechNova.

Camila sorriu, mas não era um sorriso caloroso.

— Bom, espero que seja verdade. — Ela se inclinou para frente, seu olhar se intensificando. — Mas saiba que aqui, cada movimento é observado. Não há espaço para erros, e certamente não há espaço para agendas ocultas.

Bia entendeu imediatamente. Camila estava testando-a, sondando para ver se ela tinha alguma intenção de se destacar às custas dos outros. A diretora de operações claramente não confiava facilmente, especialmente em alguém novo e relativamente inexperiente como Bia.

— Acredito que todos estamos aqui para um único objetivo: o sucesso da empresa — respondeu Bia, mantendo a voz calma. — E, para mim, isso significa apoiar o Sr. Costa em suas decisões e garantir que a TechNova continue crescendo.

Camila a estudou por mais alguns segundos antes de se recostar na cadeira, parecendo ligeiramente satisfeita.

— Vamos ver se você consegue manter essa atitude. Agora, volte ao seu trabalho. — Ela dispensou Bia com um aceno, voltando sua atenção para os documentos em sua mesa.

De volta à sua estação de trabalho, Bia sentiu a pressão aumentar. Ela já sabia que Gabriel era exigente, mas agora ficava claro que todos ao redor dele também estavam constantemente testando sua lealdade e competência. Cada palavra, cada ação era analisada, e um único erro poderia significar o fim de sua carreira ali.

Apesar disso, Bia se manteve focada. Sabia que o verdadeiro desafio não era apenas impressionar Gabriel, mas também navegar com cuidado pelas dinâmicas de poder que permeavam a empresa. E isso exigia mais do que competência técnica; exigia inteligência emocional e uma compreensão profunda das pessoas ao seu redor.

Mais tarde, naquele mesmo dia, durante uma reunião com a equipe de marketing, Bia viu essa dinâmica em ação. Gabriel estava ao lado de Camila e de outros diretores, revisando as propostas para a nova campanha publicitária da TechNova. Cada slide era analisado meticulosamente, e cada sugestão recebia uma resposta precisa e direta de Gabriel.

— Isso é muito genérico — Gabriel disse, cortando uma das apresentações. — Nós precisamos de algo que reflita a inovação da TechNova. Algo que não seja apenas uma campanha, mas que se torne um marco. Vocês têm uma semana para me trazer algo melhor. Algo ousado.

A sala ficou em silêncio, e Bia pôde sentir a tensão. As expectativas de Gabriel eram sempre altas, e ele não hesitava em expressar sua insatisfação. Ela observou os diretores trocarem olhares discretos, alguns claramente preocupados, outros frustrados.

Enquanto a reunião avançava, Gabriel de repente olhou para Bia, que estava sentada em silêncio, anotando todos os pontos importantes.

— Srta. Nogueira — chamou Gabriel, com aquele tom que exigia uma resposta imediata. — O que você acha?

Foi uma pergunta simples, mas carregada de peso. Ele queria saber se ela estava prestando atenção, se ela tinha uma opinião formada e se estava disposta a expressá-la diante dos outros.

Bia respirou fundo e falou com firmeza, embora por dentro sentisse o peso das expectativas.

— Concordo com o Sr. Costa. A campanha atual não captura a essência da TechNova. Precisamos de algo mais ousado, algo que desafie as percepções do mercado e reforce nossa posição como líderes em inovação. Talvez devêssemos explorar novas formas de comunicação, algo que engaje nossos clientes de maneira mais pessoal e memorável.

Gabriel observou-a em silêncio, e Bia não conseguiu ler sua expressão. Camila, por outro lado, a olhou de relance, como se estivesse avaliando cada palavra que ela havia dito.

— Interessante — respondeu Gabriel, finalmente. — Vamos explorar isso. Quero ver propostas concretas na próxima reunião.

A reunião prosseguiu, mas Bia sabia que aquele momento havia sido crucial. Ela tinha dado um passo à frente, exposto sua opinião e, felizmente, não havia tropeçado. Quando a reunião terminou, ela sentiu um misto de alívio e satisfação. Havia passado por mais um teste.

Enquanto arrumava suas coisas para voltar à sua mesa, Camila se aproximou, com aquele mesmo olhar calculista.

— Você está se saindo bem até agora, Srta. Nogueira — disse ela, em tom de alerta. — Mas lembre-se: o que impressiona hoje pode não ser suficiente amanhã.

Bia apenas assentiu, entendendo a mensagem por trás das palavras de Camila. Ela teria que continuar se provando dia após dia, sem baixar a guarda. O ambiente da TechNova era implacável, mas Bia estava determinada a se adaptar e a crescer.

Ao fim do dia, quando finalmente se sentou em sua mesa e revisou a agenda do dia seguinte, Bia refletiu sobre tudo o que havia aprendido até então. A TechNova era uma selva corporativa, onde apenas os mais fortes sobreviveriam. Mas se havia algo que Bia sabia sobre si mesma, era que ela não desistiria facilmente.

Ainda havia muito a aprender, muitas batalhas a serem travadas, mas Bia estava pronta para enfrentar tudo o que viesse pela frente. No fundo, ela sabia que essa experiência a mudaria para sempre, e, embora o caminho fosse desafiador, ela estava disposta a seguir em frente. Porque, no final das contas, ela não estava ali apenas para sobreviver. Ela estava ali para vencer.

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