Capítulo 2

Whitney não teve muito tempo para analisar seu anfitrião de cabelos lisos e olhos cinzentos. Gleda Caufield parou de importuná-lo, mas começou a lançar sua fúria contra ela.

— E quanto a você, sua sem-vergonha — insultou-a com a voz bem alta —, espero que esteja satisfeita, agora que meu noivado terminou.

Whitney tinha certeza de que não fizera nada errado. Devia ser mesmo um pesadelo.

Para seu alívio, Sloan Illingworth vestiu um roupão que misteriosamente aparecera ao pé da cama e levantou-se para resolver a situação.

Ela o fitava, ainda atordoada, quando ele se dirigiu à noiva. Como por milagre, as pessoas haviam sumido. Segurando o braço de Gleda, ele a conduziu para fora do quarto.

Verificando que, como era seu desejo, estava totalmente vestida, saltou da cama também. Entretanto, para onde iria? Sloan com certeza estaria fazendo a noiva entender que as aparências enganavam. Se alcançasse seu objetivo, não haveria problema em encarar Gleda Caufield outra vez. Seu rosto parecia pegar fogo; resolveu esfriá-lo no banheiro particular cuja porta estava entreaberta.

Dez minutos depois ela já recuperara sua abandonada compostura. Não sabia se deveria aparecer antes que Gleda e o noivo tivessem esclarecido as coisas; já havia feito muito por uma noite.

Por um momento ficou cismada com o fato de Sloan Illingworth ir para a cama quando sua noiva o esperava com uma festa. Então lembrou-se de que Valerie dissera alguma coisa sobre negócios no exterior.

"Ele deve ter enfrentado um vôo prolongado, por isso chegou atrasado. Quis dormir porque se sentia exausto."

Agradeceu aos céus por não ter visto Toby nem a irmã dele na porta do quarto. Contudo, era certo que logo eles tomariam conhecimento do fato.

Whitney ficou no banheiro por mais dez minutos. Era tempo suficiente para Sloan convencer Gleda de que não a estava traindo. Curiosa, abriu uma fresta na porta para ouvir alguma coisa.

Ali reinavam uma paz e um silêncio impressionantes. Não acreditando que a casa pudesse ter se tornado esse paraíso depois de parecer uma torre de Babel, ela abriu a porta um pouco mais. E alguém rompeu o silêncio:

— Se você pretende sair desse banheiro, por favor, saia logo. Eu gostaria de dormir agora!

Whitney abriu totalmente a porta e, com os nervos à flor da pele, respirou fundo antes de enfrentar o dono daquela voz agressiva.

— Você é... Sloan Illingworth? — indagou, tomando ciência do peito largo, peludo e nu do homem que estava sentado na cama.

— Em carne e osso — ele retrucou sem nenhum humor. Seu olhar percorreu o corpo de Whitney do alto de sua cabeça morena até os dedos de seus pés descalços. — Vejo que conseguiu encontrar suas roupas.

Whitney levou um susto, mas um segundo depois conseguiu responder:

— Elas não estavam perdidas. — Rapidamente compreendeu que ele a analisara, concluindo que estivera tão nua quanto ele. E acrescentou: — Na verdade, um sujeito indecente arrancou a alça do meu vestido esta madrugada. Mas eu não me separei de minhas roupas enquanto estive aqui. Apenas de meus sapatos.

— Você está se vangloriando ou se lamentando? — ele zombou.

Ela não gostou de Sloan Illingworth. Tentou ignorá-lo e começou a procurar os sapatos. Encontrou-os sob a cama e calçou-os imediatamente. Era um pouco mais alta que a maioria das moças, mas diante daquele homem, mesmo sentado, sentiu-se melhor com uns centímetros a mais.

Ele só esperava que ela saísse do quarto para tornar a dormir, mas Whitney lembrou que lhe devia desculpas.

— Sinto muito — dirigiu-se a ele com sinceridade, e acrescentou enquanto caminhava para a porta: — Sei que não deveria ter vindo aqui e me deitado em sua cama, mas...

— Você estava sozinha? — ele interpelou-a, olhando-a de um modo devastador.

— Claro que estava sozinha — ela se defendeu.

— Não estava se divertindo na festa?

— Não... é o tipo de festa que costumo freqüentar — ela explicou de um modo polido, uma vez que fora sua noiva quem organizara a recepção.

— E por isso você resolveu ir para a cama?

— Não tive intenção — negou. — E não ouvi você entrar...

— Não quis incomodá-la — ele gracejou.

Whitney poderia jurar que vira um sorriso ao final de sua irônica observação.

— Você sabia que eu estava deitada — ela exclamou, dando um sentido real àquela ironia.

— Honestamente, não! — ele exclamou.

Whitney se espantou. Ele devia estar pensando que ela era uma pessoa insensível, que não percebera seu humor.

— Bem, de todo modo — ela dava um outro passo em direção à porta —, sinto muito sobre isso. E é natural que Gleda tenha ficado furiosa. Agora que tudo já está esclarecido e vocês estão noivos outra vez, eu...

— Agora... — Sloan interrompeu-a — De onde você tirou essa idéia? Pensa que ainda estou noivo e que vou me casar?

— Você não está? — Whitney gaguejou, detendo-se bruscamente e voltando um passo para dentro do quarto.

Ele balançou a cabeça:

— Não!

Ela ficou angustiada. Com certeza Gleda se aborrecera e não quis ouvir suas explicações.

— Sinto muito mesmo. — Whitney poderia ficar repetindo que sentia muito até não ter mais voz, mas isso não faria Gleda reatar o noivado. — Irei falar com Gleda. Ela ficará sabendo que você não tem culpa de nada, que nem sabia que eu estava na cama... — Diria isso à mulher que era apaixonada por ele?, pensou. — Agora vou me retirar — falou com firmeza e voltou-se em direção à porta.

— Posso saber aonde você vai? — a voz de Sloan Illingworth era baixa.

— Para o andar térreo, naturalmente. Falarei com Gleda e...

— Se acha que vai encontrar minha ex-noiva lá embaixo, receio que fique desapontada — ele a interrompera outra vez. — Ela já foi embora...

— Foi? — Whitney ficou atônita. — Mas...

— E todos os seus amigos também.

— Todos? — ela gaguejou, pois isso a afetava diretamente.

— A festa, como diz aquela canção — ele falava-lhe com calma — a festa acabou!

— Acabou?

— E, por favor, pare de parecer um papagaio! — Sloan murmurou sarcasticamente.

Só então Whitney se deu conta de que repetia todas as suas palavras. Então quis mostrar que não era ingênua. Ele não era tão esperto quanto pensava.

— Nem todos devem ter saído. As pessoas que me trouxeram devem estar me esperando para voltarmos a Londres.

Sloan Illingworth nem desejou saber com quem ela viera.

— Acredite-me. Não há mais ninguém — ele usou um tom baixo em resposta a suas maneiras petulantes.

— Como você pode ter certeza? — ela o questionou com hostilidade.

— Eu vi o último carro partir! — ele finalizou.

Ele deixou de ser amável, Whitney pensou. Agora está demonstrando uma impaciência que até posso compreender. Afinal, ela tinha sido a causa do rompimento de seu noivado. Mas, para o momento, Whitney tinha um problema mais urgente.

— Então — gritou —, se Toby e sua irmã já foram, como poderei voltar para casa?

O olhar que recebeu de Sloan Illingworth lhe informava que ele não era responsável por Toby, ou por sua irmã, ou por ela mesma. Deixou claro que seu apuro nada tinha a ver com ele. O sono dominava-o.

— Pelo amor de Deus — estava irritado ao máximo. — Eu quero dormir. — Conscientizando-se de que ele mesmo teria de encontrar a solução para o problema, deu um último conselho: — Vá fazer qualquer coisa. Ouça música, caminhe pelo jardim. Ou, melhor ainda, limpe tudo. Acabe com os vestígios da festa. Quando acordar, pensarei em seu caso.

— Você está sugerindo que eu faça uma limpeza?

— Não vejo por que ela deva ser feita só pela minha governanta.

Desanimada, Whitney concluiu que não iria a lugar nenhum antes que aquele bruto dormisse e descansasse. Nem passara pela sua cabeça que teria de limpar a casa quando aceitou o convite de Toby. A aurora já começava a invadir o céu escuro quando ele ordenou:

— Apague a luz quando sair. — Virou-lhe as costas, encerrando a conversa. Estirou-se e com certeza fechou os olhos.

A esperança de Whitney era que ele acordasse com bom humor.

— Idiota — murmurou entre dentes.

As barreiras colocadas na escada tinham sido removidas. Com certeza foram afastadas por ele quando entrou, ela imaginava enquanto descia os degraus.

Whitney ficou espantada com o estado da casa, agora que a festa terminara. Claro que não pretendia limpar nada. Mas teve de concordar com o bruto que agora dormia: nenhuma governanta teria obrigação de pôr ordem numa confusão daquelas. Não havia um só espaço sem que se encontrassem sobras da folia daquela noite.

Verificou que um corredor levava até a cozinha. Então encontrou um carrinho e começou a reunir copos, pratos usados e guardanapos amassados.

Durante aproximadamente uma hora, o estado de espírito de Whitney sofreu várias transformações. Pensou em Sloan Illingworth como uma miserável criatura. Depois de três meses de ausência, rompera o noivado na própria festa de boas-vindas e não demonstrava a menor preocupação com o fato.

Quando acabou de organizar os cômodos onde os convidados se divertiram, Whitney decidiu lavar os pratos e os copos na cozinha. Não ligara a lava-louças, pois temia apertar errado algum botão e deixá-la encrencada.

Estava com espuma até os cotovelos quando começou a sentir-se inconformada outra vez. Quem, em seu juízo perfeito, ficaria junto a uma pia de cozinha às cinco horas da manhã de um domingo? Pensando assim, passou as mãos pela água da torneira e enxugou-as.

Depois de cinco minutos, ela se encharcava de espuma novamente.

Bem que gostaria de castigar Sloan lllingworth e deixar que ele mesmo lavasse a louça...

Não havia sinal da governanta, mas Whitney poderia apostar que a limpeza sobraria para ela se tudo não estivesse no lugar. E, como aquele indivíduo que dormia lá em cima havia declarado, por que só a governanta deveria se encarregar disso?

Whitney também não via motivo para ela mesma assumir a tarefa. Talvez fosse porque, além do antagonismo, havia um forte sentimento de culpa. Foi por sua causa que Sloan Illingworth perdera a mulher que amava. E ela sabia como era doloroso perder a pessoa amada. Só que ela mandara Dermot embora, e Sloan fora desprezado pela noiva... De qualquer modo, uma separação era sempre triste.

Já estava tudo lavado e Whitney começou a trabalhar na sala de visitas. Removeu o último sinal deixado por um copo molhado numa mesa, levantou a cabeça e admirou a mobília da sala. Estranhou que a governanta permitisse que aquele pessoal mal-educado circulasse livremente naquele ambiente fino. Porém, imediatamente lembrou que ela não tinha escolha. Se as coisas continuassem como estavam, Gleda Caufield seria a dona de Heathlands. Ela daria as ordens e a governanta teria de acatá-las.

Faltavam dez para as oito quando Whitney foi à cozinha preparar um chá. Tomava sua primeira xícara quando uma mulher de mais ou menos cinqüenta anos entrou inesperadamente. Ao ver a jovem saboreando a bebida com tranqüilidade, parou assustada.

— Bom dia — Whitney sorriu. — Espero que a senhora não se importe por ter me utilizado de sua chaleira. Meu nome é Whitney Lawford.

— Prazer em conhecê-la — a mulher respondeu e também se apresentou: — Sou a sra. Orton, governanta do sr. Illingworth. — E, cautelosamente, interrogou: — Há ainda outros... convidados aqui?

— Não, apenas eu — ela se apressou a acalmar a governanta. Para disfarçar o que havia acontecido, acrescentou: — Todos se retiraram e se esqueceram de mim...

— Eu entendo — a sra. Orton murmurou, dando a impressão de que não acreditava.

Whitney quis dar uma satisfação:

— O sr. Illingworth prometeu me levar para casa depois que descansasse um pouco.

— Ele é realmente um homem muito gentil.

Talvez ele tratasse sua governanta com gentileza, Whitney ponderou, e resolveu mudar de assunto:

— Eu quis tomar uma xícara de chá antes da limpeza...

— Oh, não posso deixar você fazer isso — a sra. Orton protestou, sem saber que essa tarefa já estava sendo feita havia três horas. — Além disso, acabei de dar uma olhada e a casa não está tão desarrumada como eu imaginava.

Demonstrando que ficaria mais feliz se estivesse sozinha na cozinha, começou a colocar os pratos limpos no lugar.

— Tomarei meu chá na sala de visitas — Whitney avisou. Não queria perturbar a governanta.

— Posso lhe preparar o café da manhã? — a sra. Orton estava mais simpática.

— Obrigada, sra. Orton — Whitney replicou. — Não tenho vontade de comer nada.

Tudo o que queria eram oito horas de sono! Terminou o chá e sentou-se no confortável sofá. De repente sentiu um cansaço enorme. Colocou a xícara e o pires numa mesinha, tirou os sapatos e estendeu-se no sofá. A sra. Orton estaria ocupada em outro lugar e Sloan Illíngworth não deveria aparecer antes do meio-dia. Portanto, não havia razão para não tentar dormir um pouco também.

Desta vez, quando acordou, não observou ombros largos e nus a seu lado. Viu uns olhos cinzentos que a fitavam intensamente. Aquele homem parado, alto, com os ombros cobertos por uma camisa xadrez, fez seu coração acelerar.

— Que horas são? — desejou saber enquanto se sentava e empurrava os pés para dentro dos sapatos. Sentiu uma perturbação muito grande ao vê-lo vestido. Nem fora capaz de consultar seu próprio relógio.

— Falta pouco para as dez.

Whitney achou que ele estava sendo amável, considerando que ela havia arruinado seu futuro.

— Gleda, sua noiva, ou ex-noiva, já telefonou?

— E por que ela deveria telefonar? — ele zombou. Ela pensou que ainda não estivesse bem acordada.

— Sinto muito — desculpou-se.

Imediatamente ficou irritada consigo mesma e com ele também. Tinha a impressão de que ele gostava de vê-la se desculpando o tempo todo. E, para evitar algum comentário que pudesse humilhá-la, ela arriscou sem rodeios:

— Agora podemos ir?

— Ir para onde? — ele perguntou, também sem rodeios.

— Você me prometeu uma carona...

— Agora eu vou tomar café. — Caminhava a passos largos quando acrescentou: — É melhor você fazer o mesmo. Vamos!

Whitney estava a ponto de lhe dizer que não queria café nenhum.

Ele se aproximou, tomou-lhe o braço, obrigando-a a acompanhar seus passos rápidos. Sua respiração começou a falhar e ela estava consciente de que ele a dominava.

No momento em que recuperou seu equilíbrio, eles atravessavam o corredor. Whitney sentiu fome e desistiu de mandá-lo tomar o café sozinho.

Entraram numa saleta que ficara trancada durante a noite.

Para sua surpresa, Sloan Ilingworth tornara-se muito amável. Puxou-lhe uma cadeira e esperou que ela se acomodasse.

— Obrigada — Whitney agradeceu em voz baixa.

A sra. Orton trouxe-lhes dois pratos com ovos e bacon e retornou à cozinha. Agora ambos saboreavam uma deliciosa refeição.

Pouco antes, ao se referir à carona, Whitney o deixara nervoso. Levá-la a Londres não estava em seus planos. Dali para a frente seria bem diplomata.

— Posso? — perguntou gentilmente, oferecendo-se para colocar café em sua xícara.

Ele concordou com um simples movimento de cabeça. Ficou mais difícil tentar um diálogo. Whitney detestava pedir favores. Não queria ficar mais tempo naquela casa e com certeza ele não a queria por perto. Esforçando-se para sorrir, entregou-lhe a xícara com café.

— Sr. Illingworth — sua voz era tão suave que ele se surpreendeu.

Os olhos cinzentos se estreitaram e se fixaram em seu rosto. Um brilho diferente tomou conta deles.

— Sr. Illingworth — repetiu especulativamente. Ele não era bastante conhecido para receber um tratamento menos formal. Mas ficou espantada quando, imitando seu tom de voz, ele quase murmurou:

— Mesmo depois de dormir comigo continuo sendo "sr. Illingworth" para você?

— Você... eu... — Nesse momento ficou satisfeita porque ninguém estava ouvindo aquela conversa.

— Ora, vamos, srta... Desculpe-me, estou sendo negligente. Diga-me, qual é o nome da mulher com quem recentemente tive o prazer de compartilhar minha cama?

Aquele brilho estranho ainda permanecia nos olhos cinzentos! Para Whitney ele só tocava nesse assunto por vingança. Gleda não devia sair de sua cabeça! A idéia da noiva parada à porta do quarto, assustada e ofendida, devia mexer com todos os seus nervos. Ela havia organizado uma festa-surpresa para ele, mas a surpresa fora encontrá-lo na cama com uma das convidadas.

— Meu nome é Whitney Lawford — informou-lhe com voz grave. Tentou se dominar e não apresentar mais nenhuma desculpa. Acabou dizendo: — Eu realmente sinto muito.

— Você sente muito porque achou a festa insuportável? Porque se decidiu esconder onde pensou que ninguém fosse encontrá-la?

Whitney ficou vermelha de raiva. Ela se desculpara pelo choque que causara a sua noiva. Todavia, ele fizera uma observação que estava bem próxima da verdade.

— Eu não pretendia dormir — falou um pouco envergonhada —, e também não sabia de quem era aquele quarto.

— Você não teve a menor preocupação em saber de quem era aquele quarto — Sloan replicou com desprezo na voz. — Nem com as conseqüências que poderiam resultar de seu ato.

Novamente lembrou seu sofrimento quando rompera com Dermot. Ela não tinha defesa e baixou os olhos. Não era sua culpa, porém o amor havia acabado para ele.

Whitney pretendia apresentar arrependimento, e responsabilizou seu orgulho por ter levantado os olhos sem humildade:

— Sei que meus atos resultaram num desastre para você. Por isso não me queixo por você obviamente ter segundas intenções quanto a me ajudar a voltar para Londres. — Devagar e com dignidade ela colocou o guardanapo sobre a mesa. — E como amanhã cedo serei novamente uma secretária, eu... agradeço a hospitalidade e vou...

— Eu disse que tinha segundas intenções? — ele cortou sua frase.

— Não, mas...

— Então, por favor, tenha a gentileza de não tirar conclusões sobre o que penso, ou como penso, ou qualquer coisa a mais sobre mim — ele redargüiu com voz firme. — Eu lhe falei que encontraria um modo de você voltar para casa. Essa é a minha única intenção.

Whitney não gostou da sensação de que acabara de ser repreendida pelo atrevimento.

— Certo — ela falou meio sem jeito. — Mas ontem à noite, quando escolhi este vestido, não pensei que passaria o domingo todo com ele. Por esse motivo, você poderia, por favor, me dar uma idéia de quanto tempo ainda precisarei para chegar em meu apartamento, tomar um banho e trocar de roupa?

A resposta de Sloan foi atirar seu guardanapo sobre a mesa também. Não parecia amigável.

— Dê-me dez minutos para apanhar uns papéis, e sairemos daqui!

— Você vai a seu escritório! — ela exclamou.

Sem dizer mais nada, Sloan Illingworth deixou a sala.

Whitney voltou a seus pensamentos amargos. Levantou-se e ficou andando pelo hall.

Como havia prometido, Sloan voltou em dez minutos. A pasta de couro confirmava que iria ao escritório depois que a deixasse em casa. Saíram mudos, e silenciosamente ele abriu a porta do seu magnífico carro preto.

Em pouco tempo Heathlands ficava para trás. Whitney esperava esquecer os acontecimentos dessa noite desagradável.

Apenas um profundo silêncio vinha do homem atrás do volante, e ela não tinha como censurá-lo. Além do mais, ele estava resolvendo o problema de uma pessoa desconhecida e impertinente como ela.

Ao se aproximarem de Londres, Whitney forneceu-lhe o endereço, sem ouvir nenhum comentário. Whitney olhou para fora da janela e esforçou-se para odiá-lo. Um sentimento de culpa a invadia e não conseguia desprezá-lo.

Achava que, embora não demonstrasse, Sloan estava sofrendo por Gleda. Seu próprio sofrimento fez seu coração entristecer-se por ele.

Ainda sofria por ele quando, depois de indicar-lhe algumas direções, Sloan encostou o carro em frente a seu apartamento. Podia ler-lhe no rosto que ficaria agradecido se Whitney se apressasse em saltar.

— Sloan — sussurrou. O "sr. Illingworth" se perdera em algum lugar.

Friamente ele voltou a cabeça para olhá-la.

— Sloan — repetiu, e, com voz emocionada, quase implorou: — Se houver alguma coisa que eu possa fazer...

Com uma sobrancelha levantada, ele respondeu secamente:

— Garanto-lhe, srta. Lawford, que você já fez muito mais do que possa perceber.

Capítulo 3

Toby Keston esperava por Whitney no escritório na segunda-feira. Sentia-se envergonhado e precisava pedir desculpas por tê-la abandonado na festa.

— Posso jurar que não pretendi fazer isso — afirmou com sinceridade. — Não sei lhe dizer quanto bebi. Algum idiota teve a idéia de completar meus drinques a todo instante. Ontem à tarde, quando acordei em meu apartamento, nem conseguia me lembrar direito da festa.

— Você deve ter ficado numa situação... — Whitney murmurou cuidadosamente. Imaginava se ele ficara sabendo que Sloan Iilingworth não estava mais noivo, e por sua culpa.

—- Fiquei desesperado ao saber que vim para casa com minha irmã, e você não voltara conosco. Senti-me um imbecil quando Valerie explicou que chamara alguém para me colocar dentro do carro. Você havia desaparecido e ela achou que estivesse com outra pessoa. Você não teve problema, teve? — perguntou ansioso.

— Não, nenhum — Whitney respondeu, ainda imaginando se ele sabia alguma coisa.

— Ainda bem! — Ele sentiu um alívio e acrescentou: — Quase fui até sua casa para ver se estava tudo bem. Mas, para falar a verdade, fiquei com uma terrível dor de cabeça e não tinha certeza se você me receberia com prazer. — Toby fez uma pausa. Em seguida, para assegurar o próprio sossego, indagou: — O sujeito que lhe ofereceu carona foi correto, não foi? Quero dizer... ele não tentou...

— Ah, sim, ele foi ótimo — Whitney tranqüilizou-o. Resolveu não informá-lo de que voltara para Londres com o dono da casa onde acontecera a festa. — A que horas você saiu de Heathlands? — tentou descobrir mais alguma coisa.

— Não sei ao certo. Deve ter sido antes da chegada do noivo. Ontem fui obrigado a ouvir um sermão. Segundo Valerie perdemos a melhor parte da festa por minha culpa.

— Quê! — Whitney ficou decepcionada. Não seria capaz de perguntar o que a irmã quis dizer com aquilo. Será que "a melhor parte da festa" fora a chegada do noivo? Ou teria sido quando o homenageado fora surpreendido na cama com outra mulher?

Nesse momento o chefe de Whitney passou por eles.

— Bom dia, sr. Parsons — Toby cumprimentou-o com o tom normal que usava com todas as pessoas. — Falo com você mais tarde — sorriu para Whitney. Deixou a sala, pois o sr. Parsons não apreciava funcionários que perdiam tempo em longas conversas.

O trabalho que Whitney desenvolvia para a empresa era agradável, porém não lhe exigia muito esforço. Naquela segunda-feira ela teve muito tempo para deixar a imaginação voar. A cada instante os acontecimentos do fim de semana retornavam a sua mente.

Estava curiosa para saber se Sloan Illingworth fizera as pazes com a noiva. Porém, não tinha como se informar, a não ser que lhe perguntasse diretamente. Ela não iria fazer isso e continuou aflita. Duas pessoas que se amavam agora estavam separadas devido a seu procedimento imprevidente!

Às onze horas da noite, quando se preparava para dormir, ela ainda pensava no assunto. Mas uma vizinha bateu à porta com o toque característico que usava.

Érica Fane estava sempre bem-humorada. Tinha trinta e dois anos, um ótimo emprego, e à noite fazia um curso de graduação na universidade. Embora fosse eficiente em seu trabalho e em seus estudos, ela se preocupava menos com outros assuntos.

Whitney já se acostumara com o horário especial de Érica e foi abrir-lhe a porta.

— O que... — começou, mas parou quando a vizinha levantou uma lata de sardinhas no ar.

— Não tenho aula esta noite...

— Entre, já que está livre.

Foram até a cozinha onde Whitney preparou duas xícaras de chocolate.

— Estou louca para descobrir onde você esteve sábado quando, com estas sardinhas na mão, vim bater a sua porta e...

— Bem, sente-se, que vou lhe contar.

— Céus! — Érica exclamou depois que Whitney lhe fez um minucioso relatório. Agora já sabia como a amiga fora descoberta na cama com um industrial milionário. — Você não é desse tipo!

— Fico muito lisonjeada com isso — Whitney ironizou. — Mas o que posso fazer?

— Nada. Absolutamente nada, querida. Você se ofereceu para fazer tudo o que fosse possível. Honestamente, se eu encontrasse meu noivo na cama com outra mulher, a última pessoa que eu desejaria ver seria essa mulher. Esqueça isso — Érica aconselhou.

Ela fora a única pessoa para quem Whitney fizera confidências sobre Dermot. E concluiu:

— O amor, você sabe, é uma emoção poderosa. Eles estarão juntos novamente, tenho certeza, se já não estiverem.

Whitney não se esquecera do conselho da amiga quando foi trabalhar na manhã seguinte. Tentava se convencer de que tudo voltara ao normal com Sloan e Gleda. Às onze horas foi até a máquina de café e encontrou Toby, que lhe enviou um sorriso:

— Preciso falar com você.

A consciência pesada advertiu-a de que o rapaz já tinha conhecimento de que Sloan Illingworth a surpreendera.

— Gostaria de sair novamente com você, só receio que não aceite meu convite.

O alívio que sentiu foi responsável por sua resposta:

— Se você não estiver pensando em convidar-me para outra festa...

A face de Toby acendeu-se como uma fogueira, e ele vibrou entendendo que era uma resposta positiva.

Saíram juntos várias vezes nas duas semanas seguintes. Ele somente tentou beijá-la na despedida do terceiro encontro. Whitney, entretanto, desviou a cabeça e o beijo pousou em sua face.

— Não? — ele perguntou.

— Não, Toby — ela repetiu com firmeza. — Eu lhe disse...

— Sim, eu sei que por enquanto você não quer se comprometer com nenhum homem. Mesmo assim eu quis tentar — ele confessou e continuou, desajeitado: — Você pode me perdoar e sair comigo outra vez se eu lhe prometer me comportar?

Whitney soube então que gostava muito de Toby. Ele não perguntou por que ela evitava os homens; ele a aceitava como ela era.

— Quem consegue resistir a você? — ela sorriu.

— Minha mãe diz que eu sou uma gracinha — ambos riram.

No encontro seguinte, Toby tentou apenas segurar-lhe a mão. Ela percebeu que, de um modo fraternal, estava gostando cada vez mais dele.

Três semanas após a festa, numa manhã de sexta-feira, ela pôs de lado um documento que acabara de datilografar. Em seguida fixou o espaço a sua frente. Começava a pensar que aquele incidente iria perturbá-la até o último de seus dias. Aquele industrial não lhe saía da cabeça. Esforçando-se para expulsá-lo dos pensamentos, ela se dedicou ao trabalho novamente. Puxa! Ele tivera tempo para explicar o caso a Gleda pelo menos uma dúzia de vezes! Nesse momento tudo já devia estar esclarecido entre eles. Whitney jurou que não perderia mais um segundo pensando nele.

Uma hora depois, Slon Illingworth não povoava mais seus pensamentos.

Quando o telefone tocou, ela estava mais preocupada em fornecer informações do que em saber quem estava do outro lado da linha.

Subitamente, tudo sumiu da sua frente. O tom profundo de uma voz masculina balançou-a quando perguntou:

— Como vai, Whitney?

Nunca antes conversara com ele pelo telefone, mas nem por um segundo duvidou de quem era aquela voz.

— Eu... eu vou bem! — replicou tão serenamente quanto seus sentidos abalados permitiram.

— Ótimo... Aqui é Sloan Illingworth. — Ele se apresentou e foi direto ao assunto: — Gostaria de me encontrar com você!

— Oh! — ela exclamou. Ainda não conseguira se refazer completamente e já balançava outra vez. — Você quer dizer... — A voz desaparecera. Suas idéias se confundiam. Se ele queria vê-la, e não falar-lhe por telefone, o assunto devia ser estritamente pessoal. Só poderia se referir ao noivado desfeito. E, num piscar de olhos, veio-lhe à lembrança o compromisso de ajudá-lo. Portanto, não poderia recusar o convite. — Tudo bem, eu... — Ia explicar que estava livre na hora do almoço, da uma às duas horas, mas não teve oportunidade. Sloan Illingworth era um homem de negócios muito ocupado. Não perdeu tempo e interrompeu-a assim que ela concordou.

— Então encontro você às oito. Jantaremos em algum lugar.

Um instante depois Whitney estava boquiaberta. Não conseguia acreditar no que havia acontecido. O fone estava mudo em sua mão. "— Meu Deus! — exclamou em voz alta, e recolocou o fone no lugar. Com os pensamentos já organizados, percebeu que havia recebido uma ordem. O sr. Illingworth nem quis saber se ela estaria livre. "Encontro você às oito", repetiu mentalmente. No íntimo ela fervia de raiva. — Que sujeito presunçoso! — enfureceu-se. Mas o que poderia fazer? Ela mesma o deixara em maus lençóis com a noiva. Porém ele ficaria sabendo que estava arruinando um romance que surgia em sua vida.

Um romance... Essas palavras remeteram-na até Dermot. Ele havia sido seu caso mais sério, e ela não se achava em condições de partir para uma nova experiência.

Whitney pegou o fone para chamar o ramal de Toby. Não podia fazer diferente. Sloan Illingworth não daria a mínima importância a um "possível romance" em seu horizonte.

— Toby, é Whitney.

— Alô! — ele exclamou. — Ela podia sentir satisfação em sua voz.

— É sobre hoje à noite — começou a falar e hesitou. Já o conhecia suficientemente bem para saber que ele não mencionaria o fim do noivado de Sloan Illingworth e o papel que ela representava no caso. Mesmo assim achou melhor não lhe contar por que não iria a seu encontro. — Desculpe-me, Toby. Algo aconteceu e não poderei vê-lo esta noite.

— Você não está com problemas, está?

Essa preocupação fez com que Whitney gostasse ainda mais desse rapaz que sempre pensava primeiro nos outros.

— Não há nada errado — rapidamente ela respondeu. Ficou constrangida por não explicar a verdade, e por isso acabou dizendo: — Sinto por hoje, mas amanhã é sábado e, se você estiver livre, gostaria que fosse jantar em meu apartamento.

— Que maravilha! — Toby pulava de alegria. — Por um minuto imaginei que você não quisesse me ver nunca mais!

— Você está muito sensível por causa da sua avançada idade — brincou com ele, e aproveitou a ocasião: — Por acaso você sabe como posso entrar em contato com Sloan Illingworth?

— Ora, você sabe onde ele mora — respondeu animado, e acrescentou: — Conhece a Illingworth International? Experimente ligar para lá. Ele é o presidente da empresa.

Whitney colocou o fone sobre o aparelho em estado de choque. Sloan Illingworth era presidente daquela vasta companhia multinacional! E ela iria encontrá-lo à noite...

À hora do almoço ela ainda não se havia recuperado totalmente. Embora soubesse que ele era um grande industrial, não relacionara seu nome com a poderosa Illingworth International.

À tarde, voltou para casa lembrando as informações de Toby. Ela vibrava com suas descobertas.

De repente como um raio caindo do céu, uma pergunta sem resposta deixou-a preocupada: ela descobrira onde o sr. Illingworth trabalhava, mas como ele havia conseguido o telefone da firma onde ela trabalhava?

Meia hora mais tarde, sua imaginação ainda funcionava enquanto se ensaboava sob o chuveiro. Ela se lembrava muito bem sobre o que haviam conversado. Contara-lhe que era secretária, mas não mencionara o nome da firma.

— O que importa isso agora? — perguntou a si mesma quando saiu do banho. — Sloan podia não saber onde trabalho, mas sabia onde moro. Teria me encontrado com facilidade...

E ele não esquecera onde ficava seu apartamento. Iria buscá-la em casa à noite e não pedira o endereço quando falaram ao telefone.

Escolhia a roupa que iria usar quando um corpo alto e um belo rosto vieram-lhe à mente. Whitney subitamente foi tomada por uma sensação peculiar, uma ansiedade desconhecida.

— Ridículo — falou baixinho. — Não estou nervosa só porque vou sair em sua companhia — concluiu. Alisou as pregas da saia do vestido de seda cor de creme e calçou os sapatos de saltos bem altos. Caprichou na maquiagem, respingou um perfume suave e colocou suas belas bijuterias de marfim e prata.

Às oito horas já estava sentada esperando por ele. Às oito e cinco a campainha da porta do prédio soou. No mesmo instante ela se levantou e pegou a bolsa. Saiu do apartamento, fechando a porta com a chave; respirou fundo, desceu a escada e chegou à porta do prédio. Respirou novamente para manter o controle antes de alcançar a maçaneta.

— Que mulher pontual! — Sloan elogiou antes que ela o cumprimentasse. Pelo modo como Whitney segurava a bolsa, ele percebeu que não seria convidado a entrar. — Uma mulher bela e pontual — repetiu o elogio.

Como ela estava satisfeita, essas palavras não lhe pareceram falsas.

Sloan segurou seu cotovelo e conduziu-a até o luxuoso carro estacionado em frente. Aquela sensação peculiar apoderou-se dela novamente.

"Tudo bem", ela pensou, e tentou se acalmar, quando já estava dentro do carro. "Talvez eu esteja mesmo ansiosa, mas o que está errado?"

Então dirigiu-se a ele fazendo uma pergunta que logo depois acharia muito idiota.

— Aonde vamos? — Ficou deprimida quando reconheceu que só se sentira daquela maneira quando saía com Dermot.

Sloan dirigia com atenção e pronunciou o nome de um restaurante elegante e muito caro.

— Está bem para você?

— Para mim está ótimo — Whitney replicou. Teve a impressão de que, se dissesse uma palavra contra, ele a levaria a um outro lugar.

Era o homem mais sofisticado e atencioso que já conhecera! Ele a fizera compreender que poderia escolher outro restaurante sem falar abertamente sobre o assunto.

Whitney estava se sentindo bem naquele ambiente luxuoso e em sua companhia.

"Acho que faz parte da educação dele deixar as pessoas à vontade", ela pensou, quando já estavam frente à frente na mesa redonda, num dos cantos do restaurante.

Mas não era ingênua. Ele estava sendo polido apenas para que falasse bastante sobre si mesma e lembrasse que prometera ajudá-lo e a Gleda também. Whitney não viu problemas em lhe dar satisfação:

— O que posso lhe dizer? Trabalho na Plásticos Alford, onde sou secretária do sr. Parsons. — Subitamente parou e mudou de assunto: — A propósito, como você ficou sabendo que eu trabalho lá? Tenho certeza de que nunca lhe disse...

— Realmente, você não disse — Sloan confirmou. — Você apenas se referiu a Toby e sua irmã.

— Você conhece Toby Keston? — perguntou e imaginou por que ele não dissera que Sloan pedira o número do telefone de seu serviço. E ela lhe fizera quase a mesma pergunta: "Onde posso encontrar Sloan Illingworth?"

Mas não fora Toby quem informou onde Whitney poderia ser encontrada.

— Conheço o jovem Keston tão bem quanto sua insípida irmã — Sloan contou-lhe, e Whitney ficou admirada quando ele explicou: — Imagino que Valerie Keston não faça parte de seu círculo de amigos. Então só lhe resta ser amiga do irmão dela. E onde, eu me perguntei, poderia um homem como ele encontrar uma mulher como você?

— E concluiu que ele me encontrara no lugar onde trabalhava? — ela sugeriu levemente. — Você lhe telefonou...

— Eu concluí que vocês dois deviam trabalhar juntos. O problema foi lembrar em qual firma.

— Então você ligou para perguntar...

— Eu liguei para a Plásticos Alford e pedi para falar com a srta. Whitney Lawford.

Depois de pensar no que acabara de ouvir, ela encarou-o e, com um sorriso, falou:

— Não é de admirar que você seja a pessoa mais importante de uma empresa internacional!

— Penso que isso é um elogio, mas não tenho certeza — ele retrucou com bom humor, e pela primeira vez Whitney observou um sorriso encantador.

Seus olhos se abaixaram, e, nesse momento, o garçom veio até a mesa. O prato já havia sido servido quando ela encarou Sloan novamente:

— Por que você acha que não sou amiga de Valerie Keston? A princípio Whitney pensou que ele não fosse responder. Mas um olhar afetuoso surgiu nos olhos cinzentos que fitavam sua face:

— Vocês são tão diferentes quanto um anão e um gigante — replicou com seriedade.

Whitney também o fitava e, encorajada por aquele olhar, não resistiu e retrucou:

— Acho que isso é um elogio, mas não tenho certeza... Estranhamente seu coração vibrou quando Sloan deu uma gargalhada.

— Você tem razão — Sloan concluiu. E, enquanto Whitney se alegrava por ele achá-la diferente da fútil Valerie Keston, ele continuou:

— Nenhuma outra mulher naquela festa estragaria as unhas pintadas para limpar tudo como você fez.

Agora ele a atingia duas vezes. Primeiro, ele se referia as outras mulheres, menos a sua ex-noiva. Segundo, se a própria governanta não sabia da limpeza que ela fizera, como foi que ele ficara sabendo? Morta de curiosidade, interpelou-o:

— Sem considerar as ordens expressas que recebi para não deixar que a sra. Orton fizesse tudo sozinha, como você soube que eu arrumei sua casa?

— Primeiramente, considerei que, se você quisesse, teria me falado o que fazer com minhas "ordens expressas". Mas soube que você trabalhara bastante quando a sra. Orton me informou que os convidados da srta. Caufield deixaram tudo em ordem antes de partirem...

Era a primeira vez que ele mencionara a ex-noiva, e Whitney continuou ouvindo-o:

— Depois que todos foram embora, parecia que minha casa tinha sido varrida por um furacão. Ninguém deixara nada em ordem.

— Oh! — ela murmurou quando compreendeu a dedução. Então procurou uma justificação para desculpar sua atitude: — Bem, eu não podia deixar tudo para a sra. Orton fazer...

— Percebe o que eu quero dizer? — ele sussurrou, e Whitney entendeu que ele reforçava o elogio. Valerie Keston nunca levantaria uma pena para ajudar a governanta.

Em seguida Sloan indagou:

— Agora você trabalha na Plásticos Alford. E antes?

Ele voltava no tempo como se estivesse mesmo interessado em saber tudo sobre sua vida.

— Antes eu tinha um emprego na firma Implementos Agrícolas Hobson — ela informou com vivacidade. — E antes ainda eu morava em Cambridge com minha família. Apenas... — sua voz falhou — quando minha mãe faleceu e meu pai tornou a se casar, achei que era hora de me sustentar com meu próprio esforço. E vim para Londres.

— Você não se dá bem com sua madrasta? — ele quis saber. De repente Whitney parou. Ela não sabia o que havia com Sloan Illingworth. Sempre fora uma pessoa discreta, e agora relatava toda sua história.

— Eu me dou muito bem com ela, sim! — respondeu-lhe friamente. — Mas — suavizou a voz — nossa casa nunca mais foi a mesma...

Ela falava e ao mesmo tempo não acreditava que estava falando. Apenas Érica havia sido sua confidente até aquele jantar. Encerraria suas informações pessoais e perguntaria como poderia ajudá-lo no problema com a ex-noiva. Entretanto, nesse instante Sloan a surpreendeu com uma observação:

— Quem era ele?

— Ele? — Whitney hesitou, e ficou mais confusa quando ouviu a resposta:

— O homem que trabalha na Implementos Hobson e que machucou você...

— Como você sabe? — ela começou a enrubescer. Mesmo admitindo que ficara machucada, levantou o queixo orgulhosamente: — Quem ele era não tem importância. Não o vi mais desde que deixei aquela firma e...

— Gostaria de vê-lo novamente? — Sloan questionou com voz áspera.

— Não — ela negou com firmeza. Melancolicamente lembrou que já amava Dermot quando descobriu mais coisas sobre ele. Voltou sua raiva contra Sloan, explicando no mesmo tom: — Descobri muito tarde que já era casado e que morava com a família. Como poderia querer um homem como ele? Eu vi como minha mãe sofreu com a traição de meu pai. — "Oh, Deus!" Whitney pensou. "O que há com este homem que acabo lhe revelando meus segredos mais íntimos?" Ela lançou-lhe um olhar, mas não pôde ler nada em sua face rígida.

— Você deixou o emprego na Hobson por causa dele? — ele quis saber com uma voz tão fria quanto seu olhar.

— Naturalmente — ela replicou, tentando emitir uma voz tão fria quanto a dele.

— Há quanto tempo você está na sua firma atual?

— Não tenho visto Dermot há quatro meses, se é isso que você quer saber — Whitney disparou, e devia ter mordido a língua antes. Ela continuava falando demais. Agora ele já sabia até o nome do homem que ela amava.

— E onde entra o jovem Keston no seu esquema? — Sloan perguntou, e sua voz estava rouca.

Agora ele já sabia sobre Dermot, e seu orgulho determinou que não devia deixá-lo pensando que ainda estava sofrendo pelo ex-namorado casado.

— Toby — ela falava devagar — tornou-se em pouco tempo um amigo muito querido. Tanto que agora vamos praticamente a todos os lugares juntos.

Fitando Sloan com o canto dos olhos, achou que ele já estava cansado daquela conversa. E, esperando aborrecê-lo mais um pouco, recomeçou:

— Foi por isso que ele me convidou para acompanhá-lo à festa em sua casa.

— E foi por isso — Sloan retrucou com ironia —, porque vocês praticamente vão a todos os lugares juntos, que ele não se lembrou de levá-la de volta a Londres quando deixou a festa...

Whitney esquecera-se de que Toby não tinha condições de se recordar de nada daquela noite. Valerie o levara para casa, mas, convenientemente, a deixara em Heathlands.

O garçom veio servir o último prato e os dois permaneceram em silêncio. Whitney ficou pensando nesse detalhe que acabara de lembrar e imediatamente começou a mudar de idéia. Sloan conhecia Valerie muito bem. Agora podia entender por que ele parecia tão amargo. Estava se esforçando para proporcionar-lhe uma noite agradável! Toda a raiva se transformou em simpatia.

Contudo, não devia ser fácil para ele solicitar seu auxílio.

— Tem visto a srta. Caufield ultimamente? — Whitney tocou no assunto para facilitar-lhe as coisas.

— Não! — A resposta foi seca, e Sloan encarou-a como se perguntasse: o que lhe interessa quem eu vejo ou deixo de ver?

Como ela sabia o que era ter o orgulho ferido, não ficou ofendida. Iria falar com Gleda ou fazer qualquer outra coisa que ele precisasse.

— Sloan — disse suavemente. Talvez fosse melhor dizer sr. IIlingworth, mas já era tarde. — Estou aqui com você porque... se eu puder fazer alguma coisa para ajudar... — Observou a surpresa que sua boa vontade causou. Sorriu e continuou: — Você não vai me dizer por que me convidou para sair?

— Por que não poderia convidá-la simplesmente para vê-la outra vez? — ele a interrompeu friamente.

Whitney tentou não dar importância ao rubor que as palavras dele trouxeram a sua face. Sloan Illingworth era o homem mais orgulhoso que ela já conhecera. Por um lado, devia ser contra seus princípios pedir qualquer favor; por outro, devia estar desesperado para voltar para Gleda.

— Porque tenho a impressão de que você nunca faz nada sem um motivo. Sei que sou culpada por Gleda ter terminado o noivado. Foi só por isso que você quis se encontrar comigo. E se eu puder fazer alguma coisa...

Sloan encarou-a por um longo tempo. Whitney não podia saber o que ele estava pensando, mas ficou feliz por não ter misturado as coisas. Teve a impressão de que foi depois de um século que ele resolveu admitir isso.

— Você tem razão — concordou com um sorriso fraco. — Na verdade, eu quis vê-la por razões que, bem, são um pouco diferente do normal.

— Gleda... — ela interferiu, já pronta para ajudá-lo.

— Não, não é Gleda! — Sloan balançou a cabeça para apresentar-lhe alguma novidade.

Whitney ficou totalmente confusa, e ele esclareceu:

— Tenho de admitir que minha ex-noiva e eu não significamos mais nada um para o outro, e...

— Mas... —ela iniciou um protesto. — Não pode ser! Vocês pertencem um ao outro. Se não acontecesse aquele lamentável incidente, vocês ainda estariam noivos.

— Pode acreditar, srta. Lawford, quando digo que Gleda Caufield e eu nunca nos casaremos.

— Mas... — ela tentou replicar, e ele não a deixou continuar.

— Não tenho mais uma noiva, porém tenho outra preocupação maior.

— Qual? — ela quis saber instantaneamente.

Sloan meneou a cabeça parecendo hesitar, e então, calmamente, falou:

— Minha mãe!

— Sua mãe? — Os olhos de Whitney se arregalaram. Ele contraiu os lábios antes de explicar:

— Minha mãe ficou tão feliz quando lhe contei sobre meu noivado que eu não tenho coragem de lhe dizer que está tudo terminado.

Whitney achou que deveria haver pouca coisa que ele não tivesse coragem de fazer e ficou atônita por um segundo.

— Quer dizer que sua mãe gostava muito de Gleda e...

— Na verdade — Sloan a interrompeu —, as duas nunca se encontraram. Mas minha mãe espera há tanto tempo por uma filha que ficaria muito desiludida comigo. — Fez uma pausa e prosseguiu: — O problema, Whitney, é que um dia antes de minha volta à Inglaterra ela... sofreu um acidente de carro...

— Oh, sinto muito — lamentou. Pelo modo hesitante com que ele falava, devia ser difícil tocar no assunto. E, lembrando do acidente de sua mãe, ela começou nervosamente: — E como ela está?

— Ela está se recuperando fisicamente — ele apressou-se a explicar. — Mas, como sei que ficará preocupada quando souber que não estou mais noivo, eu... não vou lhe contar. Pelo menos por enquanto.

— Claro, não deve mesmo — Whitney afirmou. Seu coração se entristeceu não apenas por Sloan, que enfrentava um problema por sua culpa, mas também por sua mãe.

Então lembrou que ainda estava sem saber por que Sloan a convidara para jantar. Ele não precisava de sua ajuda para voltar para Gleda e tinha razões diferentes das normais.

— Sloan — falou vagarosamente e viu que ele olhava diretamente para ela —, por que, se posso saber, você me convidou para sair esta noite?

Por um longo momento, ele continuou com o olhar fixo nela. Então replicou com firmeza.

— Preciso de uma noiva para apresentar a minha mãe quando ela sair do hospital. E como foi você, Whitney, quem me fez perder uma noiva legítima, eu proponho que você tome o lugar dela...

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