Somos atendidas por um rapaz que deve ter no máximo 16/ 17 anos e acha que é gostosão. O guri me olha de cima a baixo e pergunta nosso pedido passando a língua ao redor da boca. Não aguento e caio na gargalhada, mas quem disse que ele se abala?
- Gata, gata, você pode ter certeza que te levarei à loucura. Claro, depois do expediente.
- Pelos Deuses! De onde o Marcos te tirou? Meu querido, você com certeza deve ser muito bom, é um gatinho, mas guarda todo seu encanto para as menininhas da sua escola. Não sou muito de limpar fraldas.
- Que porra você tá fazendo Guilherme? Dando em cima das clientes de novo? - Olho para a voz atrás de mim e vejo o Marcos. - Não acredito! Puta merda! Maya!
- Olha a boca que ainda sou mais velha que você! - Levanto lhe dando um abraço apertado e ele me tira do chão. - Como tu tá Marcos? Ainda usando a pizzaria pra cuidar da tua larica?
- Mais respeito que sou um homem de negócios! -Todos nós caímos na gargalhada - Gui, pede 2 salva vidas. Uma meio peperoni e meio frango com catupiry e outra inteira camarão. E a refri de limão de 2 litros mais gelado que você achar.
- Não acredito que ainda lembra das minhas favoritas?
- Maya, você ainda é meu amor platônico, mesmo fugindo de mim. Nunca vou esquecer suas pizzas. O pessoal vai surtar quando souber que você voltou.
- Nada disso Marcos! Não quero que ninguém saiba.
Marcos fez parte dos meus momentos de merda e sei bem a que pessoal ele se refere.
- Putz, esqueci completamente. Você está de volta por causa do Tello neh?! Foi mal aí.
- É isso sim. E quando ele estiver melhor a primeira coisa que vou fazer é voltar pra minha casa.
Não demora muito e as pizzas chegam. Salva vidas é a maior pizza que tem aqui e por muitas vezes era a minha salvação da madrugada. Falamos sobre várias coisas. O menino Gui é primo do Marcos e o tio pediu um emprego antes que ele engravidasse a cidade inteira. Pelo visto o garoto é um terror com apenas 17 aninhos. Morri de rir com eles e com as histórias.
Vejo que já são 19hrs. Claro que nenhum hospital tem horário de visita a essa hora, mas estou torcendo para que aquele lá de cima ilumine minha mãe e o pessoal do hospital e me deixe passar a noite com ele.
Fabi tenta me contar que ao que parece ele estava sendo perseguido e acabou sofrendo o acidente. A polícia está investigando a possibilidade de assalto, já que os pertences dele não estavam no carro. Mas aquilo me incomoda, não sei, mas mesmo estando no Rio de Janeiro, um lugar em que assalto é comum, alguma coisa está me dizendo que não é bem assim.
- Não sei Fabi, mas alguma coisa tá estranha. Sabe que o Tello é muito bom no volante, mesmo que ele estivesse correndo, esse acidente não faz sentido.
- Maya, claro que faz, sei que vocês tinham gasolina na mamadeira ao invés de leite, mas foi acidente. Acontece. Ele deve ter perdido a direção, sei lá.
- Beleza gatinha, não quero discutir isso agora, vai entrar comigo?
- Claro neh?! Tenho que saber se você vai poder ficar.
E assim seguimos.
Como ela já veio ver meu irmão, fomos direto para o andar onde ele está. Paramos na recepção e demos nosso nome. Claro que sou informada que já passou do horário de visita, mas com meu “jeitinho brasileiro” conseguimos entrar. Paro na porta e respiro fundo criando coragem. Minha mãe está deitada em um pequeno sofá. Vou até ela e beijo sua testa. Seus olhos azuis se abrem devagar e arregalaram ao me ver. Em um pulo já estamos abraçadas e sinto meus ombros molhados. Nos soltamos e caminhamos até a maca onde meu irmão está. Ela segurou forte minha mão dando toda a força que preciso para ver meu amor naquele estado. A carcaça dura que criei não deixa uma lágrima se quer rolar, mas por dentro estou destruída. Tubos, agulhas, aparelhos, tudo ligado em seu corpo. Sinto raiva por não estar aqui com ele. Fabi me abraça por trás me dando apoio.
- Mãe, vai pra casa. Vou ficar com ele. Só garanta estar aqui antes do outro chegar.
- O outro é seu pai Maya. Ainda não sei o que deu em vocês.
- Mãe, agora não. Por favor.
- É sempre agora não. Tanto com você, quanto com ele.
- Se ele não quer contar e eu também não, respeita caramba.
- Gente vocês estão em um hospital. Tia Katerina, vem que levo a senhora. Amanhã passo cedo e lhe trago pra levar a Maya.
- Faz isso e vê se consegue fazer ela comer Fabi. Tá cheia de olheira e magra.
- Tá bom minha filha, não vou insistir, não agora. Mas essa conversa ainda não acabou.
Ela sai com Fabi que ao fechar a porta sussurra, “Fica bem” e eu um “obrigada”.
Puxo o sofá para perto da maca e me sento segurando as mãos de Tello.
- Meu irmão desculpa não estar com você. Não te proteger. Fiquei longe tempo demais. Deveria aparecer mais e cuidar da oficina com você. Mas tudo estava bem. Não achei que precisava de mim. Lá no Havaí já perdi as contas de quantas multas por excesso de velocidade ganhei rs. Lá sou quem sou, não um boneco do pai. Tenho tanta coisa pra te contar. Mas pra isso preciso que você saia daqui Tello. Preciso de você me falando da merda de nome que te dei. Preciso de você me desafiando. Por favor irmão. Preciso de você.
E assim pego no sono apoiando minha cabeça em nossas mãos entrelaçadas.
Acordo com um pequeno aperto em minha mão. Levanto a cabeça e vejo seus olhos entreabertos, aperto rápido um botão de emergência que tem próximo a cama, em segundos enfermeiras e médico entram no quarto e começam a verificá-lo.
O médico questiona quem sou, já que só conhece minha mãe e o outro lá. Me identifico e ele informa o estado de Tello. Ao que parece desde o acidente é a primeira vez que ele acorda. Puderam tirar o tubo de respiração, mas vão ficar de olho. Assim que todos saem me aproximo novamente dele.
- Seu desgraçado! - Eu sei, nosso amor é lindo! - Se queria fazer acrobacias com o carro era melhor ter esperado pra fazer comigo. Vai dar susto na casa do caralho, seu escroto. - Vejo seu sorriso fraco - Se queria me ver era só aparecer no paraíso que estou morando e não fazer essa cena pra me tirar de lá.
- Você... veio! - Ele fala em um sussurro com muita dificuldade- Foi….. causa….. Dom.
Ele fala com muita dificuldade e apaga novamente. Ouvir isso me faz ficar em chamas de ódio. Sei exatamente o que ele quis dizer. Dom!
A partir dali não consigo mais prestar atenção. Meu irmão voltou a dormir pelo medicamento e acho que dá para sentir o cheiro de fumaça saindo pela minha cabeça. Penso tanto que quando vejo minha mãe já chegou com Fabi. Lhe dou um beijo e apenas saio. Estou perto do carro já quando Fabi consegue me alcançar.
- Filhos de uma puta! - Grito não me contendo mais - Eu acabo com vocês!
- Pelos céus Maya. O que aconteceu?
- Ele acordou e falou comigo Fabi.
- E não era pra você estar feliz?
- Estavam atrás do Dom.
- Não acredito! Então era uma perseguição mesmo.
Ela olha para mim como quem tenta identificar o que estou pensando. Ela sabe que não vou deixar assim.
Já a caminho de casa, o silêncio no carro pesa.
- Fabi, me leva pra pizzaria.
Vocês devem estar se perguntando o que vou fazer em uma pizzaria logo de manhã. Primeiro, ela fica embaixo da casa de Marcos e agora ele é um dos poucos que pode me ajudar. Durante a madrugada já bolei metade do plano. A minha luz agora está em uma cama de hospital. Eles que se preparem para serem engolidos pela sombra!
✧✧✧
Fabi sabe a gravidade da situação. Apenas 6 pessoas me conheceram por completo. Ou posso dizer que conhecem com e sem máscaras. Vovô me conhecia como ninguém e foi quem me ensinou a pelo menos tentar manter o equilíbrio entre minhas personalidades. Ele usava sempre uma moeda como exemplo de como deveria manter meu equilíbrio. Os outros 5 são Fabi, Marcos, Erick, Donatello e meu pai.
Fabi e Marcos são meus amigos de infância e quando fui embora Marcos não aceitou bem, por esse motivo nos distanciamos, mas pelo abraço quando me viu sei que ainda se importa comigo. Erick é meu primo materno. Aquele cúmplice na hora de esconder um corpo de um homicídio, é ele. Donatello nem preciso falar nada. Meu pai descobriu da pior forma e foi isso que nos separou.
Chegamos na pizzaria e Guilherme está na porta.
- Você mora aí também é? Tem escola não?
- Gata, quanto tempo, já estava com saudades desde ontem quando saiu.
- Sem palhaçada agora Gui. O assunto é sério. Marcos tá aí?
- Vamos por partes porque você fez muitas perguntas. Não moro aqui, estou indo pra escola agora e o Marcos chegou ainda a pouco.
- Obrigada menino - Dou um beijo na bochecha dele- Agora vai atrás das tuas gatinhas que aqui agora o assunto é de adulto.
- Beijos gata. Até mais. Vê se me espera tá.
Ele sai dando uma piscadela e mesmo com ódio não consigo ficar brava ou deixar de rir.
Uma dica. Quando se tem amigos que são quase irmãos eles sabem de quase tudo da sua bosta de vida e com toda certeza no momento certo vão usar isso contra você mesmo que por um bom motivo.
- Marcos eu estou subindo e se você tiver com essa bunda branca pálida de fora pode tratar de cobrir porque eu estou invadindo sua casa.
- Estou vendo que a moeda girou - Ele fala gritando de dentro da casa - A porta está aberta Maya, não precisa arrombar.
Entro e como imaginei ele estava pelado.
- Eu falei pra se vestir merda!
- Não tive tempo. Você já arrombou minha porta várias vezes, não quero perder mais uma.
- Ei! Eu sempre paguei depois.
- Sem enrolação Maya. Se você está na minha casa às 8:30 da manhã e disposta a arrombar minha porta, sei que é por um bom motivo.
Ele passa pela porta do quarto terminando de colocar uma bermuda. E já me jogo no sofá dele com Fabi.
- Avisa a todos que Dom está de volta!
Quando falo isso vejo um corpo nu sair do quarto questionando.
- Donatello está bem? - Olho sem acreditar - Ele saiu do hospital? Finalmente o Dom voltou.
- Sério Marcos? A Prispiranha?
- Olha lá como fala queridinha.
- Primeiramente queridinha é a puta que te pariu. Segundo pega seus trapos, se cobre e sai agora antes que eu faça uma merda.
- Marcos, você vai deixar ela falar assim comigo?
- Priscila saí! A Maya tá certa. O assunto agora é sério e você não faz parte disso
- Eu quero saber do Dom, Marcos. Ele é meu amigo.
Eu saio do sofá vendo tudo vermelho e agarro ela pelo pescoço.
- Sua vadia, foi você, não foi? FALA CARALHO!
- Maya solta ela, ela tá engasgando. - Fabi está do meu lado e segura o braço que está em Priscila - Por favor! Pelo Tello.
Ela sabe como me acalmar. Largo o pescoço da Prispiranha e vejo ela cair tossindo.
- Priscila, pega suas roupas e sai. Tenho que conversar com a Maya e a Fabi.
Sento no sofá e vou respirando até voltar a mim. Depois de um tempo Marcos vem com um balde de long neck e coloca em cima da mesa de centro.
- Já pedi nossa pizza, vamos aos negócios.
E agora começa o meu plano!
✧✧✧
11 anos antes
- Aqui temos uma moeda. Desse lado, cara, desse outro coroa. Essa moeda é como você minha menina. Sei que quer ser a filha perfeita, mas não existe perfeição. Seja você mesma. Abrace a escuridão e a luz que há em você. Em tudo busque o equilíbrio para seguir. Grite, chore, quebre, mas também ame, beije e sorria.
Lembro de vovô me aconselhando. Ele pegava sua moeda da sorte e girava ela em cima da mesa. Era realmente o equilíbrio. Para nossa infelicidade nunca cheguei a ele. E por não conseguir, vivia de máscaras. Para todos eu era a Maya engraçada, meio tímida, medrosa, por vezes, incapaz. Me sentia inferior por muitas coisas e principalmente por não ser a melhor aluna, a melhor filha, a melhor amiga, a melhor namorada. Na minha cabeça, nunca seria melhor em nada. Mas como meu avô dizia de vez em quando a moeda girava. Eu era corajosa, petulante, e até meio louca e nervosa. Nesse lado da moeda, não tinha medos, enfrentava o que fosse, amava adrenalina sem medo de ser feliz. Só que a moeda continuava girando, aí vinha a vergonha, não queria decepcionar as pessoas que eu amava. E a minha personalidade, digamos, ousada, na minha opinião era decepcionante.
Para resolver esse problema me dividi. Soube bem diferenciar meus lados. E me protegi com todas as máscaras e fantasias possíveis.
Aos fins de semana vamos para a casa dos meus avós. Donatello e eu adorávamos. Esse não será diferente. Há alguns meses estamos reformando o carro antigo deles. E passamos quase todo o tempo livre fazendo isso. Estava quase pronto quando damos uma pausa para o almoço.
- Vocês já estão crescendo meninos. E um dia isso tudo vai ser de vocês. Já sabem o que querem da vida?
Donatello sempre foi objetivo.
- Vó, sabe que meu pai quer que a gente siga os caminhos dele, mas não adianta, eu vou ficar na oficina.
- Meu neto! Você tem só 10 anos mas é tão certo do que quer.
- Não sei essa palhaçada dele, mas a Maya pode seguir ele se quiser, já que tem medo de decepcionar o papaizinho.
- Donatello, olha como fala da sua irmã! Eu e sua avó não queremos que vocês discutam, só queremos saber suas opiniões.
- Desculpa vovô. - Ele fala e olha para mim e continua sua “humilde opinião” - Maya, você já tem 15 pode falar pro pai que não gosta da polícia.
- Tello, não é isso. Você ainda é pequeno, vai entender um dia.
- Minha menina. Faça o que deseja. Não se sinta pressionada pelo que querem pra você.
- Mas gente! Quando esse almoço virou uma cena de crime? Vamos animar! Só queremos o bem de vocês e seu avô é um pateta que ao invés de ter uma conversa agradável cria climão. Meu amor, casei com você pela sua animação.
- Tá certa minha gata - Eu amava o amor dos meus avós- Vamos comer em paz e terminar nosso possante. Esses pirralhos não vão sair daqui sem uma volta no carango!
E assim o almoço continuou alegre e bem animado. Realmente terminamos naquele mesmo dia o carro. Aquele Mustang 67 era o coração de todos nós. Vimos o pôr do sol de domingo encostados em seu capô de frente para a praia. Foi espetacular.
Dali nossos avós nos deixaram em casa. Na segunda, assim que chegamos da escola, soubemos que minha avó tinha falecido. Eu estava tranquila, mas sabia que antes do próximo fim de semana também não teria meu avô. E assim na sexta à noite, não tínhamos também o vovô.
Esse foi o fator que me fez criar mais máscaras e separar mais ainda meus lados. Iria deixar a moeda girar, mas nunca se veria os dois lados ao mesmo tempo. O equilíbrio já era e as máscaras seriam mais que necessárias.
Se passou uma semana do velório, meu pai sentou na sala e nos chamou ao seu lado.
- Maya e Donatello. Tem algo a ser dito, mas não sei se consigo.
- Pai, sei que o senhor está triste. Nós não precisamos conversar agora. Estamos do seu lado. - Eu sabia que meu pai estava mal e mesmo assim queria dar forças pra gente- Não se preocupe. Eu e o Tello vamos ficar bem.
- Minha filha. Eu sei. - Com um sorriso fraco ele continua - Obrigado por me dar força, mas o motivo da conversa é outro. Você já está com 15 anos, Donatello tem 10 mas é bem maduro então já posso ter essa conversa com vocês. Eu queria dizer que tudo que era dos seus avós é de vocês agora. A casa, a oficina, o carro e até o dinheiro da conta.
Eu e meu irmão nos olhamos sem entender o motivo daquilo.
- Pai na verdade é seu neh? Somos seus herdeiros.
- Não filho. A algum tempo eu levei os seus documentos pra eles. Já faz meses que tudo está no nome de vocês.