Capítulo 2

[Joyce]

Sai da cafeteria, com o coração ainda acelerado por tudo o que rolou dentro, quando Isabela me alcançou na calçada. Ela parecia animada, talvez por ter sentido que algo estava diferente.

- Então, quem é aquele cara novo que você tem falado tanto? - Ela perguntou, um sorriso travesso no rosto enquanto tomava um gole do suco.

Eu ri, tentando esconder a bagunça que estava em minha cabeça.

- O Daniel? Ele é só um colega da faculdade.

- Sei... Colega que te chama pra sair e te manda mensagens fofas.

Eu quase caí na risada, mas me mantive firme.

- Não é assim, Isabela.

Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ouvi um som de passos apressados, e quando olhei para trás, Noah estava ali, puxando uma cadeira ao meu lado como se tivesse o direito de fazer aquilo.

- Quem é Daniel? - Ele perguntou diretamente, sem rodeios. Seus olhos estavam atentos demais, como se tivesse alguma missão a cumprir.

Isabela deu um sorriso mais largo, claramente se divertindo com a situação.

- O cara que quer levar a Joyce pra um encontro.

Noah ficou em silêncio por um segundo, como se estivesse tentando processar a informação. O ar ao redor pareceu pesar.

- Você tem certeza de que esse cara é confiável? - Ele finalmente disse, com uma tensão no tom da voz que eu não conseguia ignorar.

Revirei os olhos, já cansada das implicações.

- Você não tem nada a ver com isso, Noah.

Ele cruzou os braços e se recostou na cadeira, como se estivesse mais confortável.

- Só acho estranho. Você nunca se interessou por ninguém.

A provocação na voz dele me fez sentir um calor estranho no rosto.

- E você nunca se interessou por mim, então qual o problema? - Respondi, tentando manter a calma, mas sentindo uma faísca se acender dentro de mim.

O silêncio seguinte foi ainda mais pesado. Isabela olhou de mim para ele, e eu pude sentir que ela já sabia que a tensão entre nós dois estava crescendo.

Ele desviou o olhar, e foi então que, em um tom mais baixo, murmurou:

- Só... toma cuidado.

E, sem mais palavras, Noah se levantou e saiu rapidamente, deixando uma sensação estranha no ar. Eu e Isabela ficamos ali, em silêncio, enquanto ele se afastava.

Era a primeira vez que eu me perguntava se Noah estava falando sério ou apenas jogando mais um de seus jogos. Mas, por mais que tentasse ignorar, algo dentro de mim dizia que talvez ele não estivesse brincando dessa vez.

Capítulo 3

[Noah]

Eu não sabia o que estava acontecendo comigo.

Por que o que Joyce fazia me afetava tanto? Por que ver ela falar sobre Daniel, aquele cara novo da faculdade, me deixava com essa sensação estranha no peito? Eu tentava não me importar, como sempre fiz, mas não conseguia mais.

Eu e ela sempre fomos assim, sempre brincando, sempre com uma relação que, para mim, parecia clara. Eu sempre brincava, ela sempre se irritava, mas nunca fomos além disso. Ela sempre foi uma amiga, e é assim que deveria ser. Só que agora... não era mais.

Passei o dia tentando me convencer de que não estava me importando. Eu estava feliz com a minha vida. Modelagem, festas, amigos... O que mais eu precisava? Mas, de alguma forma, quando ela falou de Daniel, quando vi o sorriso no rosto dela, isso mexeu comigo de um jeito que eu não sabia explicar.

Talvez, no fundo, eu soubesse que estava começando a ver Joyce de uma forma diferente, mas eu não queria admitir isso para mim mesmo. Quando ela disse que estava indo sair com ele, uma parte de mim se perguntou se ela realmente queria isso ou se estava apenas tentando esquecer como eu a fazia sentir. E outra parte... outra parte sentia uma inveja inexplicável. Talvez porque eu sabia que, no fundo, nunca fiz questão de demonstrar o que sentia por ela. Sempre preferi esconder, como sempre fiz.

"Você nunca se interessou por ninguém", eu disse a ela, mas... era mentira. Eu sempre me interessei por ela. Sempre fui cego demais para ver. Agora, parecia tarde demais.

---

[Joyce]

A noite chegou e, com ela, o encontro com Daniel. Eu estava nervosa, mas ao mesmo tempo animada. Talvez fosse uma boa ideia sair um pouco da minha zona de conforto. Eu já estava tão acostumada a ter Noah por perto, que a ideia de estar com alguém diferente me fazia pensar em possibilidades que eu nunca havia considerado.

Quando cheguei ao restaurante, Daniel já estava lá, esperando na mesa. Ele estava sorrindo, simpático como sempre, e me fez sentir à vontade imediatamente. Ele parecia genuinamente interessado em mim, e isso, de alguma forma, fazia toda a diferença.

Conforme a conversa fluía, eu percebia que talvez Noah tivesse razão sobre uma coisa: eu nunca realmente me interessei por alguém antes. Talvez fosse porque eu nunca quis alguém que não fosse... Noah. Era estranho admitir, mas ele era meu ponto de referência. Mesmo quando ele me irritava, quando suas brincadeiras me faziam querer sumir, eu sabia que no fundo ele sempre foi... importante para mim.

Eu olhei para Daniel e sorri, mas, de alguma forma, não conseguia deixar de me perguntar o que Noah faria se estivesse ali. Aquela sensação de vazio, como se houvesse algo incompleto, estava me consumindo.

---

[Isabela]

Depois de todos os encontros que ouvi Joyce relatar, comecei a perceber algo que não tinha ficado claro para ela até agora. Havia algo de errado entre ela e Noah. Eu via como ele agia ao redor dela: provocava, mas também estava sempre ali. Ele não sabia, mas estava perdendo a chance de ser mais do que apenas amigo.

A tensão entre os dois crescia a cada dia, e era mais do que óbvio para mim que ele estava começando a se sentir incomodado com o fato de ela se interessar por outra pessoa. Quando ele se aproximou de nós, mais uma vez, parecia querer mais do que uma simples amizade. Talvez fosse hora de alguém dar o empurrãozinho necessário.

Quando ele se afastou, depois de avisar Joyce para tomar cuidado com Daniel, uma parte de mim sabia que ele tinha medo. Medo de ver Joyce com outro, mas medo, principalmente, de ver que ele tinha perdido a chance de realmente ser algo para ela.

Mas, às vezes, as pessoas precisam de um empurrão para perceber o que está bem na frente delas.

---

[Noah]

Eu não sabia por que, mas aquela noite não saiu da minha cabeça. Talvez fosse o fato de que, depois de ver Joyce com Daniel, eu me senti como se estivesse perdendo algo. Algo que eu não tinha percebido até agora. Ou talvez fosse apenas a minha natureza: eu não gostava de ver algo que era meu, mesmo que fosse só na minha cabeça, com outra pessoa.

A verdade é que eu ainda tinha medo. Medo de me abrir e mostrar para ela o que realmente sentia. Talvez fosse mais fácil continuar jogando as minhas piadas e ignorando os meus sentimentos. Mas e se eu perdesse a chance de ser mais do que apenas o amigo? O que eu faria?

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