Meire passou o resto do dia tentando convencer o próprio coração de que nada havia acontecido.
Nada além de um olhar prolongado. Nada além de uma voz que não soara como julgamento. Nada além de um nome - Otávio - que insistia em ecoar dentro dela como se tivesse sido gravado a fogo.
No refeitório, sentou-se na mesa mais afastada, onde as bolsistas costumavam se agrupar em silêncio. O cheiro da comida era o mesmo de sempre, mas o gosto parecia outro. Não conseguia comer. Sentia-se exposta, como se alguém tivesse acendido uma luz sobre tudo o que ela tentava esconder.
- Ele falou com você, né? - sussurrou uma das meninas, sem levantar o rosto.
Meire fingiu não ouvir.
- Falou sim. Eu vi - insistiu a outra, com um meio sorriso carregado de aviso.
- Não foi nada - respondeu, rápido demais.
Mas no Instituto Santo Antônio Além do Carmo, nada nunca era só nada.
Do outro lado do salão, Otávio almoçava cercado. Risos, comentários sobre viagens, carros, festas. Ele respondia no automático, mas sua atenção estava distante. Em intervalos quase imperceptíveis, seus olhos buscavam a última mesa perto da parede.
E sempre a encontrava.
Meire comia devagar, os ombros levemente curvados, como quem pede desculpas por ocupar espaço. Aquilo o incomodava mais do que deveria. Havia algo de profundamente errado naquele gesto - alguém tão jovem já saber desaparecer.
Quando as aulas da tarde começaram, o clima mudou.
- Trabalho em dupla - anunciou a professora de Literatura. - Tema livre, mas quero profundidade. Entrega em duas semanas.
O burburinho foi imediato. Cadeiras arrastadas, combinações rápidas, afinidades óbvias.
Meire abaixou a cabeça. Já sabia como aquilo terminaria.
- Meire - chamou a professora, consultando a lista. - Você pode fazer com seu colega Saito.
O silêncio caiu pesado sobre a sala.
Ela ergueu os olhos devagar, incrédula. Otávio também pareceu surpreso, mas se recompôs rápido.
- Claro - disse ele, antes mesmo que Meire pudesse reagir.
Os cochichos começaram imediatamente.
- Ela?
- Que absurdo...
- Aposto que foi ideia dela.
Meire sentiu o estômago revirar. Aquilo era perigoso. Muito perigoso.
No final da aula, tentou sair antes, mas foi alcançada no corredor.
- Ei - disse Otávio, sem tocá-la. Nunca tocava sem permissão. - Se quiser trocar de dupla, eu entendo.
Ela parou.
- Não - respondeu, com firmeza surpreendente até para si mesma. - Posso fazer.
Ele sorriu de leve. Não um sorriso de vitória, mas de respeito.
- Biblioteca, depois da última aula? - sugeriu.
- Pode ser.
A biblioteca ficava no prédio antigo, afastada do fluxo principal. Poucos alunos iam até lá. Era silenciosa, cheirava a papel envelhecido e tinha janelas altas que deixavam a luz entrar em faixas douradas.
Meire chegou primeiro. Sentou-se em uma mesa próxima à estante de autores brasileiros. Quando Otávio apareceu, o coração dela acelerou sem pedir permissão.
- Pensei em trabalhar Machado - ele disse, puxando a cadeira em frente a ela. - Mas não o óbvio.
- Dom Casmurro? - arriscou.
- Ciúme narrado por quem tem poder - completou ele. - Sempre achei suspeito.
Ela o olhou, surpresa.
- Ninguém fala isso aqui.
- É por isso que eu falo.
Houve um silêncio confortável. Raro. Bom.
Enquanto discutiam ideias, os cotovelos quase se tocavam. Às vezes, os dedos roçavam sem querer ao virar uma página. Pequenos acidentes que faziam o ar mudar de densidade.
- Você esconde muita coisa - disse Otávio, de repente.
Meire congelou.
- Como assim?
- Sua inteligência. Sua leitura. Seu jeito de observar antes de falar. - Ele baixou o tom. - Aqui, isso incomoda as pessoas erradas.
Ela fechou o livro devagar.
- Você não entende - respondeu. - Se eu chamar atenção, eu perco tudo.
- Tudo o quê?
- Esse lugar. Essa chance. - Seus olhos brilharam, mas ela não chorou. - Você pode errar. Eu não.
Otávio sentiu algo apertar no peito. Aquilo não lhe fora ensinado nos livros, nem no seu pequeno círculo familiar. Era uma verdade nua, impossível de ignorar.
- Eu não vou deixar ninguém te prejudicar - disse, sem pensar.
Ela sorriu triste.
- Você não pode prometer isso.
- Posso tentar.
Os olhos deles se encontraram. Pela primeira vez, não havia pressa em desviar.
Ali, naquele espaço esquecido do colégio, algo perigoso começava a nascer: confiança.
E confiança, quando atravessa muros de classe, costuma cobrar um preço alto.
Quando saíram da biblioteca, o céu já escurecia. No portão, Meire se despediu rápido.
- Até amanhã - disse, antes de ir.
Otávio ficou observando enquanto ela se afastava pela rua de pedras, entre os casarões antigos.
Ele sabia. Sentia no corpo, no instinto, no silêncio que ficou depois dela partir. Aquela aproximação não era apenas um risco para Meire. Era uma ameaça direta ao império que o esperava. E, ainda assim, ele não recuou.
Porque algumas histórias começam exatamente onde não deveriam.
Na manhã seguinte, Meire sentiu antes de ouvir.
Era um silêncio estranho, pesado demais para ser casual. Quando entrou no pátio do Instituto Santo Antônio Além do Carmo, as conversas diminuíram como se alguém tivesse abaixado o volume do mundo.
Ela manteve o olhar fixo à frente.
Mas os olhos estavam nela.
- É ela.
- A bolsista.
- A que anda com o Saito.
As palavras não eram ditas em voz alta. Eram sopradas, afiadas, treinadas para machucar sem deixar marcas.
Rebeca Becker observava tudo do alto da escadaria principal, cercada por duas amigas inseparáveis. Filha de um desembargador, neta de um empresário do ramo imobiliário, Rebeca aprendera cedo que mandar não era levantar a voz - era decidir quem pertencia e quem não.
- Ela não entendeu o lugar dela - disse Rebeca, com um sorriso leve demais para ser inocente.
- Acha que é o quê? - respondeu uma das meninas. - Diferente?
- Acha que é Cinderela - completou a outra.
Rebeca desceu os degraus com elegância estudada. Parou diante de Meire, bloqueando sua passagem.
- Bom dia - disse, com meiguice forçada. - Ou você só fala com quem vale a pena?
Meire parou. O corpo inteiro em alerta.
- Com licença - respondeu, tentando contornar.
Rebeca estendeu o braço, impedindo.
- Só queria entender uma coisa - continuou. - Você se acha especial por quê?
O pátio parecia conter a respiração.
- Não me acho - disse Meire, com voz firme apesar do tremor interno. - Só estou indo pra aula.
- Engraçado - Rebeca inclinou a cabeça. - Porque parece que você anda frequentando lugares que não são seus.
Meire sentiu o rosto queimar.
- E o que a vida dela tem haver com você - disse uma voz masculina atrás delas.
Otávio.
Ele se aproximou sem pressa, mas o olhar era duro.
- Estamos falando entre garotas - rebateu Rebeca, sem perder o sorriso. - Não precisa se meter.
- Preciso, sim - respondeu ele. - Quando alguém está sendo constrangido.
Um murmúrio percorreu o pátio.
Rebeca sustentou o olhar por alguns segundos, avaliando. Depois sorriu ainda mais.
- Claro - disse. - Deve ser difícil pra ela se defender sozinha.
Virou-se para Meire, baixando o tom.
- Aproveita enquanto pode. Só lembre-se que a ultima bolacha do pacote, sempre está quebrada!
E saiu, deixando para trás um rastro de tensão.
Meire sentiu as pernas bambas.
- Você está bem? - perguntou Otávio, em voz baixa.
- Estou - respondeu, rápido demais. - Não precisava...
- Precisava, sim.
Ela o encarou.
- Isso vai piorar.
- Já estava pior - ele disse. - Só não era visível.
Durante a aula, Meire percebeu os olhares atravessados, os risos abafados, os celulares discretamente apontados. Algo estava sendo construído. Ela sabia reconhecer o início de uma armadilha.
No intervalo, entrou no banheiro feminino e encontrou o espelho riscado com batom vermelho:
VOLTE PARA O SEU LUGAR MACACA.
O ar faltou.
Fechou os olhos por um segundo, apoiando as mãos na pia. Não chorou. Não ali.
Quando saiu, encontrou Otávio encostado na parede do corredor, esperando.
- Não quero que me procure - disse ela, antes que ele falasse. - Eles estão mirando em mim por sua causa.
- Eles já miravam antes - respondeu. - Agora só estão com medo de perder o controle.
- Você não entende - insistiu ela. - Se isso vira escândalo, eu perco a bolsa.
Otávio se aproximou um pouco mais, sem invadir.
- E se virar escândalo por causa deles?
- Não funciona assim.
Ela deu um passo para trás.
- Fica longe de mim - pediu. - Pelo menos por enquanto.
Aquilo doeu mais do que ele esperava.
- Tudo bem - disse, engolindo o impulso de insistir. - Mas eu não vou fingir que você não existe.
Os olhos deles se encontraram mais uma vez. Intensos. Carregados de coisas não ditas.
Meire virou-se e foi embora, sentindo o peso da decisão nas costas.
Do outro lado do corredor, Rebeca observava, satisfeita.
A guerra havia começado.
E, naquele lugar, quem ousava atravessar fronteiras aprendia rápido o custo da desobediência.