Capítulo 2

Aos três anos, minha mãe, uma viciada em drogas, me deixou na porta de uma casa simples.

Ela me abandonou.

O casal que me encontrou, os Silva, não tinha muito, mas me criou. Pelo menos, foi o que eles sempre disseram.

A verdade é que, por anos, fui a empregada não remunerada deles, a válvula de escape para suas frustrações, o saco de pancadas que nunca revidava.

Hoje, dezoito anos depois, um carro de luxo, preto e brilhante como um besouro gigante, parou em frente à nossa casa caindo aos pedaços. A tinta descascada das paredes parecia se encolher diante de tanto luxo.

Um casal bem vestido desceu do carro, seus sapatos caros afundando um pouco na lama da nossa rua sem asfalto.

Eles eram os Fernandes, uma família rica da cidade grande.

Eles disseram que eu era a filha biológica deles, roubada na maternidade logo após o nascimento.

Meu coração, que eu achava estar morto há muito tempo, de repente começou a bater forte. Uma esperança que eu nem sabia que existia floresceu no meu peito.

Uma família. Uma família de verdade.

Eu dei um passo à frente, com os olhos cheios de lágrimas, pronta para correr para os braços deles.

Mas uma mão forte agarrou meu braço com força, as unhas da minha mãe adotiva, a senhora Silva, cravando na minha pele.

"Fique quieta, sua imprestável", ela sibilou no meu ouvido, o hálito dela azedo.

O senhor Silva, meu pai adotivo, se colocou na minha frente, bloqueando a visão dos Fernandes. Ele abriu um sorriso servil, as rugas em seu rosto se aprofundando.

"Senhor e senhora Fernandes, que honra. Por favor, entrem. Nossa filha está muito emocionada, coitadinha. Esperou por este momento a vida toda."

Eles não estavam falando de mim.

Do quarto dos fundos, de onde eu era proibida de entrar, saiu Patrícia.

A verdadeira filha dos Silva.

Ela usava um vestido novo, branco e delicado, que eu tinha passado a ferro a manhã inteira. Seu cabelo estava perfeitamente penteado e ela tinha um ar de inocência ensaiada no rosto.

Ela era a filha que eles apresentariam aos Fernandes.

"Mãe... pai...", Patrícia disse com uma voz trêmula, olhando para o casal rico.

A senhora Fernandes correu até ela, abraçando-a com força, chorando.

"Minha filha! Nós te encontramos! Finalmente!"

Eu fiquei ali, paralisada, enquanto a cena se desenrolava. Os Silva me empurraram para a cozinha, trancando a porta. Pela fresta, eu vi Patrícia sendo levada, entrando no carro de luxo que deveria ser para mim.

A porta da frente se fechou e o som do motor do carro se afastando foi o som do meu mundo desabando mais uma vez.

Naquela noite, e em muitas noites que se seguiram, a crueldade dos Silva atingiu um novo nível.

"Você quase estragou tudo, sua praga!", a senhora Silva gritava enquanto me batia com um cinto de couro.

Eu não chorava mais. As lágrimas tinham secado. Meu corpo doía, mas minha alma estava anestesiada. Eu apenas existia, presa naquela casa, servindo aos meus algozes enquanto eles esperavam que a filha deles, Patrícia, lhes enviasse a riqueza prometida.

Os dias se transformaram em semanas. Os Silva ficavam cada vez mais ansiosos, olhando para o telefone que nunca tocava, para a caixa de correio que continuava vazia.

"Aquela menina ingrata! Nós demos a ela a chance de uma vida de rainha e ela nem se lembra dos pais!", o senhor Silva resmungava, chutando os móveis velhos.

Eu observava tudo em silêncio, do meu canto na cozinha. Eu cozinhava, limpava, lavava suas roupas sujas, e via a ganância se transformar em desespero nos olhos deles.

Uma parte de mim, uma parte sombria e vingativa, sentia uma satisfação fria.

Então, em uma noite chuvosa, quando a esperança dos Silva já estava quase morta, um carro parou em frente à casa.

Não era o carro de luxo dos Fernandes. Era uma van velha e suja, com a pintura gasta.

A senhora Silva correu para a porta, o rosto iluminado por uma expectativa febril.

"É ela! Patrícia voltou! Ela trouxe o dinheiro!"

Mas quando a porta da van se abriu, não foi a Patrícia radiante que eles esperavam que descesse.

A figura que foi praticamente jogada para fora na lama era um farrapo humano.

O vestido branco estava rasgado e manchado de sangue seco e sujeira. O cabelo, antes penteado, estava emaranhado e sujo. O rosto de Patrícia estava inchado, com um olho roxo e um corte no lábio. Ela mal conseguia ficar de pé.

Os Silva ficaram boquiabertos, o choque e a decepção estampados em seus rostos.

A fantasia deles havia acabado.

E a minha vez estava apenas começando.

Capítulo 3

A primeira coisa que a senhora Silva fez quando a van partiu, deixando Patrícia caída na lama, não foi ajudar a filha.

Foi se virar para mim.

A mão dela voou rápido, acertando meu rosto com um tapa estalado que fez minha cabeça girar.

"Isso é sua culpa!", ela gritou, a voz esganiçada pela raiva e pela frustração. "Você e sua má sorte! Desde que você chegou nesta casa, só trouxe desgraça!"

Ela me agarrou pelos cabelos e me arrastou para dentro, me jogando no chão da cozinha.

"Limpe essa sujeira! E nem pense em comer hoje!"

Enquanto eu esfregava o chão com um pano velho, podia ouvir os lamentos de Patrícia na sala. O senhor Silva a tinha carregado para dentro, e agora a senhora Silva a interrogava.

"O que aconteceu? Onde está o dinheiro? Por que eles te mandaram de volta assim?"

Eu não precisava ouvir a resposta para saber. Os Fernandes não eram tolos. Eles usaram Patrícia pelo tempo que precisaram e depois a descartaram.

Minha mãe adotiva continuava a me insultar da outra sala, sua voz carregada de veneno.

"Você nunca será nada, Ana. Você é lixo, nascida do lixo. Deveríamos ter te deixado na rua para morrer."

Cada palavra era uma facada, mas eu já estava tão acostumada que mal sentia. Eu apenas continuei meu trabalho, meus movimentos mecânicos. Minha mente, no entanto, estava a mil por hora. A volta de Patrícia, por mais trágica que fosse para ela, era uma oportunidade para mim.

A senhora Silva, depois de esgotar sua raiva em Patrícia, voltou suas esperanças frustradas para o futuro.

"Não importa", ouvi-a dizer para o marido, em um tom conspiratório. "Eles vão voltar. Eles precisam da nossa filha. Da verdadeira filha. Vamos conseguir nosso dinheiro, de um jeito ou de outro."

Ela ainda acreditava que os Fernandes voltariam por Patrícia. A ganância a cegava para a realidade. Ela não conseguia ver que o jogo deles tinha falhado.

Alguns dias depois, o som de um motor potente encheu a rua novamente.

Desta vez, eram dois carros de luxo.

A senhora Silva correu para a janela, um sorriso triunfante se espalhando por seu rosto.

"Eu não disse? Eles voltaram! Rápido, esconda a Patrícia no quarto! E você", ela se virou para mim, "fique fora de vista! Não quero que seu rosto feio assuste nossas visitas ricas."

Ela abriu a porta antes mesmo que eles batessem, o sorriso mais falso e servil que eu já tinha visto.

"Senhora Fernandes! Que surpresa agradável! Sabíamos que voltariam. Nossa Patrícia sentiu tanto a falta de vocês."

Ela começou a contar uma história inventada, uma teia de mentiras sobre como Patrícia estava doente de saudades, como ela não se adaptava à vida simples depois de provar o luxo.

Ela falava sem parar, gesticulando, tentando preencher o silêncio tenso que emanava do casal Fernandes.

A senhora Fernandes, no entanto, não parecia nem um pouco comovida. Seu rosto era uma máscara de gelo. Ela usava óculos escuros que escondiam seus olhos, mas sua boca estava pressionada em uma linha fina e dura.

Ela deixou a senhora Silva falar por quase um minuto antes de levantar uma mão, interrompendo-a bruscamente.

"Chega."

A voz dela era baixa, mas carregada de uma autoridade que fez a senhora Silva se calar instantaneamente.

"Não estamos aqui por causa da sua filha."

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