Capítulo 2

Diogo Vitorio

A minha paciência para as segundas-feiras terminava exatamente às dezoito horas. Depois disso, o que restava era um resíduo de café amargo no estômago e o peso de um distintivo que parecia cada vez mais difícil de carregar. O corredor da delegacia estava um caos, um zumbido de vozes que eu pretendia silenciar com um único olhar.

- Se não tiverem o número do protocolo, não me façam perder tempo! - Rosnei, abrindo a porta da minha sala com força suficiente para fazer o trinco reclamar.

Eu estava pronto para despachar qualquer um que estivesse ali, até que os meus olhos encontraram os dela.

No meio de um grupo de pessoas desesperadas, ela sobressaía como uma labareda num campo de cinzas. Pele bronzeada pelo sol, um sol que não entrava nesta esquadra há anos, cabelos que pareciam ter vida própria e um olhar que, em vez de se desviar por medo da minha autoridade, fixou-se em mim com uma intensidade quase física.

Senti uma descarga elétrica percorrer a minha espinha, algo que não acontecia há muito tempo. Mas eu não era homem de me deixar levar por impulsos. Analisei-a. Ela estava exausta, os olhos levemente inchados, mas havia uma dignidade naquela postura que me irritou profundamente. Porque a atração, quando vem desacompanhada de controlo, é apenas um obstáculo.

- Delegado, por favor... é sobre o desaparecimento de Zaya Oliveira - um sujeito ao lado dela gaguejou.

Zaya Oliveira. O boletim que eu tinha em cima da mesa. O marido suspeito, os detalhes que não batiam. Olhei para a mulher à minha frente novamente. O meu instinto de polícia disse-me que ela era a chave; o meu instinto de homem disse-me que ela seria o meu inferno.

- Mais uma mulher que cansou do marido e foi dar uma volta? - Soltei a frase com o máximo de desdém que consegui reunir. Era uma técnica. Eu precisava de uma reação. Precisava de ver quem ela era sob pressão.

E ela não me decepcionou.

A mulher deu um passo em frente, invadindo o meu espaço pessoal. O cheiro dela, algo doce, como fruta madura, misturado com o calor da pele atingiu-me como um murro. Vi o brilho de desafio nos seus olhos. Ela era atrevida, desbocada e possuía uma boca que, por um segundo pecaminoso, eu desejei silenciar de uma forma que nada tinha a ver com a lei.

- Minha irmã não é de "dar voltas", delegado - ela retorquiu, a voz firme, embora eu pudesse ver a veia no seu pescoço pulsar rapidamente. - E se o senhor fosse metade do profissional que a sua fama diz, estaria fazendo perguntas em vez de dar palpites idiotas.

O silêncio no corredor tornou-se denso. Ninguém falava assim comigo na minha unidade. Inclinei a cabeça, medindo a distância entre nós, sentindo a tensão sexual vibrar no ar como um fio de alta tensão prestes a partir. Ela era insolente, mas tinha razão. E aquela combinação de coragem e vulnerabilidade era a coisa mais perigosa que eu já tinha visto.

- Atrevida - murmurei, apenas para ela ouvir.

Apertei a mandíbula para não deixar transparecer que o meu coração tinha decidido acelerar. Dei-lhe as costas, sentindo o peso do olhar dela nas minhas costas, o que só serviu para me deixar ainda mais tenso. Eu precisava de manter a distância. Se eu me aproximasse demais daquele fogo, acabaria por me queimar e eu tinha um caso para resolver.

- Entra na minha sala. Agora. - Ordenei, sem olhar para trás.

Eu sabia que, assim que aquela porta se fechasse atrás dela, o interrogatório não seria apenas sobre o desaparecimento de Zaya. Seria sobre o quanto eu conseguiria resistir antes de perder o controlo que tanto me esforçava por manter.

Capítulo 3

Isabel Silva

Vinte e quatro horas. Para o mundo, era apenas um dia; para nós, era uma eternidade de agonia.

Eu estava na delegacia, sentindo meu sangue ferver. Aquele delegado, o Diogo, nos olhava com uma calma que me dava vontade de virar a mesa. Mário tentava explicar, com a voz embargada, que Zaya não era mulher de sumir sem dar notícia, mas o homem parecia blindado.

- Esperar? O que o senhor quer esperar? Que a minha irmã morra? - Bati na mesa com força, as mãos tremendo de ódio.

Eu não sou de levar desaforo, e ver o descaso naqueles olhos escuros do delegado me cegava. Marcos, tentando manter o que restava de juízo, me segurou. Ele estava calmo, mas era a calma de quem está segurando um terremoto no peito. Saímos de lá com o "amanhã" servido como uma afronta.

- Você está calmo demais, Marcos - disparei quando entramos no carro, a dúvida corrosiva me atingindo por um segundo.

- Tu não matou minha irmã com teus ciúmes da peste, não é?

Marcos me olhou dentro do meu olho, e o silêncio dele doeu mais que um grito. - Claro que não, Bell. Que conversa é essa? - A voz dele era um sussurro de dor.

Me arrependi no mesmo instante. Eu sabia quem era Marcos. Ele era o porto de Zaya, o homem que ela amava com uma intensidade que eu via em poucos. Se ele estava de pé, era pelos meninos. Se ele estava calmo, era para não nos ver desmoronar.

A noite em casa foi um inferno de silêncios e choros abafados. Dalton na porta, os meninos agoniados, e Grego e Paçoca chegando para dar o suporte que a polícia se recusava a dar. Marcos assumiu o comando, mesmo com os olhos fundos. Ele falou em sequestro, pediu para conferir as contas. Cinco milhões. Um valor que me fez perder o chão por um segundo, porra minha irmã tinha tudo isso só numa conta? Nem sabia que comida dava tudo isso, meus olhos se esbulhagou quando ouvi.

- Bell, você é amiga da síndica, vê se traz as filmagens - ele pediu.

Fiz o que precisava ser feito. Rodei a cidade com ele e Grego, refazendo rotas, olhando cada beco, cada esquina escura. Nada. O carro de Zaya parecia ter evaporado. Quando as filmagens chegaram, meu coração apertou: lá estava ela, linda, com a blusa de renda rosa que o Marcos tinha dado, saindo de casa falando ao celular. Bem. Saudável. Sem saber que o mundo ia acabar minutos depois.

De madrugada, o cansaço venceu o corpo, mas não a mente. Vi Marcos chorar escondido no quarto, sentindo o cheiro das roupas dela. Me aproximei e apoiei a cabeça no ombro dele. - Desculpa por mais cedo, cunho. Eu sei que ela é sua vida.

- Ela é tudo o que eu tenho de melhor, Bell - ele confessou, a voz quebrada, braços caindo no corpo, ele estava cedendo ao desespero que não queria.

No dia seguinte, a cena na delegacia se repetiu, mas dessa vez eu fui com o cão no couro. O delegado não tinha chegado e eu quase derrubei o balcão. - Eu quero ele aqui agora! Minha irmã tá sumida e eu pago o salário de vocês!

Quando Diogo saltou da viatura, o ar entre nós estalou de novo. Ele me olhou como se eu fosse um problema a ser resolvido, e eu o encarei como o ignorante que ele era. Ele começou o interrogatório, e a cada pergunta, parecia que ele tentava encurralar o Marcos. Aquilo me dava asco. Como ele podia olhar para um homem naquele estado e ver um culpado?

- Você é um bruto, delegado - pensei, enquanto ele anotava endereços e mandava revistar tudo.

A polícia invadiu nossa privacidade, revirou gavetas, cheirou as roupas de Zaya como se fôssemos criminosos. Marcos se tornou o suspeito principal. Uma injustiça que fazia meu estômago revirar. Levei os meninos para minha casa, tentando protegê-los daquela invasão, enquanto Marcos, Vitória, a ex dele que apareceu para ajudar com Arthur, e todos nós tentávamos respirar.

Até que o telefone tocou. Era Paçoca. - Marcos, chega na doze. Os maloca encontrou o carro... mas não se anima, coroa. Tá queimado. - Ele já tava tão surtado que atendeu no viva-voz.

O chão sumiu. Olhei para Marcos e vi o momento exato em que a esperança dele se transformou em puro pavor. O carro estava queimado. E se o carro estava assim... onde estava a minha irmã?

A notícia do carro queimado tinha sido um soco no meu estômago, mas o que veio depois foi pior. Diogo me puxou para a sala de tv, embora mais reservada, longe de Marcos e dos outros que como ainda estavam em choque. Ele fechou a porta com força e se virou para mim, a expressão mais dura do que nunca.

- Quem é Paçoca, Isabel? E esse tal de Grego é o chefe da treze não é? - Ele cuspiu os nomes como se fossem veneno, encurtando a distância entre nós. - Você conhece esses caras? Qual é o seu nível de envolvimento com a malandragem da área?

Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo, ah se ele soubesse que eu não apenas conheço, mas como sou a namorada de Grego, sim, o chefe da treze, mas neste momento, eu só conseguia pensar que minha irmã poderia estar dentro de um carro carbonizado e ele estava preocupado com os meus contatos?

- Você está de brincadeira com a minha cara, não está? - Dei um passo à frente, batendo com a mão no peito dele. O músculo sob a camisa era como pedra. - Minha irmã está desaparecida! O carro dela foi encontrado queimado, Diogo! E você quer saber quem são meus amigos? Vá para o inferno!

- Eu quero saber quem você é, Isabel! Traficante também? Marmita de bandido também? - Ele segurou meus pulsos, as mãos grandes me prendendo com uma força que não machucava, mas dominava. - Se você está andando com gente que incendeia carros, você é cúmplice! Uma bandida também.

- Cúmplice de quê, seu bruto? Eles são os únicos que estão ajudando enquanto você fica aqui sentado, com essa cara de ignorante, brincando de ser Deus! - Eu gritava, as lágrimas de ódio começando a descer. - Você não tem coração? Não vê que a minha família está morrendo por dentro?

- Eu vejo uma mulher que me desafia a cada segundo e que esconde segredos atrás dessa marra toda! - Ele rugiu, puxando-me para mais perto, até que nossos corpos se chocassem.

O impacto me fez perder o ar. A raiva era imensa, mas o calor que emanou dele naquele momento foi mais forte. Eu estava colada ao peito dele, sentindo a respiração pesada de Diogo contra o meu rosto. O cheiro de café, suor e aquele perfume viril me entonteceu. Meus olhos caíram para a boca dele, lábios firmes, perigosos. Ar viril de macheza bruta.

Eu queria dar um tapa na cara dele e sair arranhando em seguida, sempre fui boa de briga, me senti desafiada.

Eu queria esmurrá-lo por ser tão insensível. Mas, ao mesmo tempo, o desejo me traiu de uma forma violenta. Naquela proximidade, com a adrenalina no topo, tudo o que eu queria era que ele calasse a minha boca com um beijo. Que ele usasse toda aquela força bruta para me tirar daquela realidade de dor, nem que fosse por um segundo.

Eu o desafiei com o olhar, a respiração curta, os lábios entreabertos. - Então me prenda, delegado - sussurrei, a voz trêmula de luxúria e fúria. - Me prenda, me revista, faça o que quiser... mas pare de perder tempo e encontre a Zaya.

O olhar de Diogo escureceu. Ele desceu os olhos para a minha boca e eu vi o controle dele se estilhaçar. A mão que prendia meu pulso subiu para a minha nuca, os dedos se enterrando no meu cabelo, puxando minha cabeça levemente para trás.

O silêncio na sala era ensurdecedor, preenchido apenas pelo som das nossas respirações descompassadas. Eu estava entregue, desejando aquele toque como nunca desejei nada na vida. Se ele me beijasse agora, eu não saberia se o mataria ou se me perderia nele de vez.

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