Capa do Romance Então Eu Quero Te Esquecer

Então Eu Quero Te Esquecer

8.5 / 10.0
No segundo volume da série Clichês, acompanhamos o intenso embate entre Clara e Valentin. Colegas de trabalho que se detestam, eles são forçados a conviver quando seus melhores amigos iniciam um namoro. Entre farpas e hostilidades, surge uma tensão inesperada que oscila entre o ódio e o desejo. Resta saber se esse fogo resultará em paixão ou destruição mútua. É um romance moderno sobre a complexa decisão de insistir ou finalmente partir por amor-próprio.

Então Eu Quero Te Esquecer Capítulo 1

Sabe quando sua mãe te avisa para não sair para a balada dia de semana pois tem trabalho no outro dia e isso pode dar merda? E mesmo com raiva você a escuta e não vai. Pois, mãe sempre tem razão e no fundo você realmente sabe que ia mesmo dar merda?

Bom, eu não escutei a minha, e é por isso que estou assim hoje.

Mas calma, eu não escutei porque a minha morreu quando eu nasci e esse papel ficou para o meu pai, mas ele também não fez isso, ao menos não nos últimos anos porque eu não moro mais com ele.

Me mudei há quatro anos para cidade vizinha para fazer faculdade, o coitado não tinha como saber quando os universitários fariam uma festa de calouros regada a álcool e suruba plena quarta-feira e muito menos que eu estaria nela.

Agora estou aqui, pronta para pedir a morte de joelhos e com um gosto de lama na boca me avisando que estava de ressaca. Usando o vestido de ontem pois vim direto diferente de todas as vezes que dormi na casa da minha melhor amiga e pegava algo no guarda-roupa dela. Mas aquela vadia estava sumida desde que tinha sofrido um pequeno acidente e fodido com o pé.

Bem, olhe para mim sentada no meu pequeno cubículo, os olhos queimando com a mistura de sono e bebidas.

— Clarinha, vai tomar um café, aproveita e traz para mim. — Maurinho se aproximou da minha mesa me entregando documentos que deveriam ser levados para a simpática assistente do diabo.

Estiquei a coluna me espreguiçando. — São todas para Doutor Romano?

— Sim. — Respondeu e meu suspiro escapou.

Alguns meses atrás Doutor Valentim Romano tinha ocupado o cargo do agora então aposentado Doutor Reinaldo Ribeiro e não tinha nenhum problema nisso, juízes se aposentavam mesmo, o problema era que doutor Reinaldo era um doce e ia muito com minha cara, ao contrário do recém-chegado que parecia me odiar e querer me chutar a cada vez que eu entrava na sua sala.

— Tudo bem, vou buscar café primeiro, o seu é sem açúcar?

— Por favor.

— Já volto. — Assenti desejando que há uma semana eu não tivesse feito promessa de ficar sem comer doce para então poder atacar meu pacote de jujubas vermelhas escondidas dentro da minha gaveta para momentos de emergência.

Sigo pelo corredor que me levaria até a cozinha e diminuo os passos quando escuto a voz do que eu reconhecia ser do filho do diabo.

“— Você sabe que não faço essas coisas, levo a sério a ética do trabalho. ”

“ Ah, Valentin, ela é gostosa, e quer te dar, você já come a cidade inteira mesmo que diferença faz? ”

Quem queria dar para aquele capeta? Provavelmente qualquer mulher que tivesse olhos.

Ok, não seria hipócrita. Doutor Valentin Romano era tão gentil quanto um demônio? Sim! Mas o infeliz parecia um deus. Era tão lindo, que chegava a ser sacanagem.

O corpo que sempre estava coberto por ternos impecáveis de aparência caríssima, mas tinha certeza ser malhado! E aquele rosto? Era tão divino que chegava a ser vulgar... aquela mandíbula bem marcada com a pequena faixa de barba que levavam a boca grande e carnuda, o nariz afilado e os olhos meio puxadinhos faziam minha mente rodar a cada vez que me encarava e brigava comigo por algo que segundo ele eu tinha feito errado! A pele era a cereja de tudo, parecia ter sido moldado perfeitamente e no fim Deus tinha dito: “Muito bem, já está muito gostoso, agora para finalizar, o mergulhem no chocolate. ”

Chocolate era o que eu sempre pensava quando meus olhos caiam distraidamente sobre ele, eu disse distraidamente, pois em sã consciência eu tinha a certeza de que ele era o capeta. Sim, o anjo caído mesmo, sua beleza severa e sua maldade eficaz comigo me davam a confirmação.

“A diferença é que ela é uma das estagiárias, eu não posso torar Patrícia e fingir que não, fora que ela poderia contar para alguém... ”

Patrícia? Aquela puta que eu odiava estava prestes a conseguir transar com Valentin?

“ — Ah na minha época de solteiro sem estar apaixonado faria todas as estagiárias, todas bonitas pra caralho! ”

“ — Sim e eu também amigo... aliás nem toda, temos a fofinha ne? Aquela lá eu deixava para você. ”

A bile subia por minha garganta enquanto mantinha os pés plantados no corredor. Valentin me desprezava de todas as maneiras, agora eu sabia que tanto na minha frente quanto em minhas costas. Quem ele achava que era para dizer que não me comeria? Quem disse que eu queria dar pra ele? Eu o detestava!

“ — Está falando da Clara? Tá brincando? Ela é linda cara. Inclusive hoje ela está com um vestido que com todo respeito... está belíssima. ”

Quis agradecer a quem quer que fosse pelo elogio.

“ — Prefiro bundas menores. ”

“ — Pois eu não, caralho tem dias que ela vem com uns vestidos que não marca nenhuma calcinha, acho que ela vem sem, sabia? Mas sou muito bem casado, é claro que estou comentando só pelo fato de não ser cego. Eu amo a minha mulher e não devia estar aqui de conversa fiada. ”

Puta que pariu! Finalmente consegui distinguir a voz que conversava com o mal-acabado. Doutor Jonas Silvério. Porra, depois de Valentin ele era o mais gostoso daquele Tribunal. Ele achava minha bunda bonita? Realmente era uma pena ele ser casado. E mal sabia ele que estava certo, eu quase nunca usava calcinha.

O que? Pois saiba que minha xana precisa respirar e aquela merda marca nos vestidos, eu só estou fazendo o que você também deveria fazer.

“— Você além de cego é louco, Clara é a patinho feio meio a tanta carne boa, meu amigo. Tenha dó! ”

Filho de uma mãe! Eu não ia mais ficar parada ouvindo aquele otário me diminuir. Andei até lá e os surpreendi enquanto Jonas estava prestes a dar outra resposta.

— Bom dia, doutores. — Falei com minha cara de tacho fingindo muito bem que não tinha escutado nada e comecei a preparar dois cafés.

— Esta bonita hoje, Clara. — Jonas elogiou e agora sabendo que ele me achava gostosa deixava tudo ainda mais quente, meti o meu sorriso mais bonito no rosto antes de jogar uma mecha do cabelo que caia em meu rosto.

— Obrigada pela gentileza, doutor, o senhor também está incrível nessa manhã.

— Ah imagine, você votaria em mim para ser o mais bonito deste Tribunal?

— Sem dúvida nenhuma, o mais galanteador de todas as Varas. — Não pestanejei e vi Valentin subir as sobrancelhas antes de fazer um barulho de indignação com a boca.

— Sabemos que a estagiária Clara Maria só está querendo agradar, Jonas.

— Por que eu estaria? Ele é bonito mesmo, com todo respeito doutor. — Rebati mirando os olhos escuros de Valentin.

— Imagina, Clara. Eu que agradeço o elogio. Toma, otário! — O amigo começou a rir e vi a irritação tomar o rosto do homem.

— Jonas é casado, se você não sabe, Clara.

— Estou apenas dizendo que ele é bonito, não que quero trepar com ele, doutor Romano, o senhor deve ter se precipitado em seu entendimento. Mas acho que Jonas entendeu o elogio não é Doutor Silvério? — Os surpreendo com minhas palavras.

— Com certeza, Clara. Inclusive agradeço de novo o elogio, saiba que você também seria votada por mim. — Piscou de um olho só e trocamos um sorrisinho de amigos.

— Ótimo, então se me dão licença preciso voltar ao trabalho, tenham um bom dia.

Sai daquela cozinha com o corpo todo tremendo, voltei para minha mesa carregando os cafés literalmente a base do ódio. Valentin era um filho de uma puta que se achava! Ele me dava pena! Que era um mulherengo todos ali sabíamos, e que ele era simpático com todos menos comigo por me achar uma gorda ridícula? Eu também já desconfiava! Mas o que ele não sabia era que eu era muito boa em fazer pessoas engolir as palavras. E eu faria Valentin engolir cada uma delas!

Como? Sei lá, talvez planejando em colocar laxante no seu café? Arranhando um daqueles seus carros importados que ele vem trabalhar? Desenroscando o parafuso da sua cadeira para estatelar no chão?

Fala sério!

A quem eu queria enganar? Não faria nada além de chorar mais tarde no banho.

— Clara?

Subo o pescoço para encontrar Maurinho me olhando estranho.

— Está se sentindo bem? — Não! Estou de ressaca e com ódio daquele canalha desgraçado.

— Estou! — Estendo o copo de café para que ele pegue. — Vou levar os processos para o gabinete de Doutor Romano. — Fico de pé pegando as pastas e saindo antes que ele fale mais alguma coisa.

Para o meu descontentamento Yanna a coitada da assistente não estava as minhas vistas, teria de ser eu a bater na porta e entregar pessoalmente. Bati duas vezes e um som baixo veio do outro lado.

— Com licença. — Parei na porta e vi que ele levantou os olhos meio descrente.

— O que foi, Clara? — Seu tom saiu descontente.

— Educação mandou lembrança. — Sussurro.

— O que?

— Nada. — Digo ainda com raiva. — Vim lhe trazer estes processos, são os que estão com audiências marcadas para o mês.

— Deixe naquela mesa. — Apontou para onde eu deveria ir e segui colocando a pilha que carregava sobre a bagunça da mesa. Dois segundos depois o que era meio óbvio aconteceu. A pilha cedeu e algumas pastas aterrissaram no chão.

— Droga! Pego tudo num minuto. — Me abaixei ficando de cócoras começando a recolher o mais depressa possível antes que ele abrisse a boca e começasse a reclamar da minha competência.

Somente na última pasta em mãos senti o vento bater direto no meu centro me fazendo lembrar da minha florzinha livre. Arregalei os olhos, não por estar naquela posição sem calcinha e sim por estar naquela posição sem calcinha bem frente a mesa de Valentin!

Levantei no mesmo segundo rezando intimamente para que ele não tivesse visto minha boceta e muito menos que ele achasse que aquilo tinha sido feito propositalmente.

Não esteja olhando! Não esteja olhando! Não esteja olhando!

— Desculpe o transtorno, doutor. Está tudo aí, tchau. — Gaguejo e me aventuro a olhar seus olhos.

Valentin estava impassível, olhando além de mim. Como se tivesse sido tele transportado o que me acalmou bastante, se estava me ignorando como sempre fazia o que significava que minha gafe tinha passado ilesa.

Andei para fora do seu escritório correndo de volta para minha mesa sentindo suar frio sem saber se era pela tensão a pouco sofrida ou pela ressaca que insistia em manter forte. Daqui para seis da tarde meu corpo subia aos céus.

Encarei ao redor e vi Patrícia me olhando com um certo desprezo nos olhos, ela sempre ficava assim quando Maurinho sabendo que a única garota ali presente a não ter interesse em Valentin era eu, por isso me mandava a cumprir todas as coisas em seu gabinete.

Espera! Mauro me mandava por saber que eu não tinha interesse em Valentin ou mandava eu por saber que Valentin não tinha interesse em mim?

Com esse questionamento e muito trabalho a tarde correu. Somente quando estava sozinha trocando algumas mensagens com o cara que tinha beijado e trocado número na noite anterior esperando o elevador senti alguém parar ao meu lado e o cheiro amadeirado tomou todos meus sentidos. Era o diabo!

— É seu namorado? — Levantei a cabeça rápido e escondi a tela do telefone a colando no peito encontrando Valentin bisbilhotando.

— O quê?

— O Arthur que você está trocando mensagens aí. Achei que não tivesse namorado senhorita Clara.

— E não tenho.

— Ah, então é só uma paquera? Entendi.

Nosso elevador chegou e entramos, ele sendo gentil e me deixado entrar primeiro. Encostei no lado oposto ao seu e Valentin me encarou por uns segundos antes de limpar a garganta.

— Sinto muito pelo que disse mais cedo sobre você elogiar Jonas, não quis te ofender. — Acenei com a cabeça e ele continuou: — É sério, não quis ser rude.

O olhei com desprezo. — Não precisa se preocupar, conheço gente do seu tipo.

— Meu tipo?

— Por fora bela viola, por dentro pão bolorento.

— O que disse? — O rosto dele parecia chocado, mas graças ao bom Deus o elevador abriu na hora e o saguão ficou a nossas vistas.

— O que você ouviu, doutor.

— E está se referindo a mim?

— Se a carapuça serviu.

— E se eu lhe disser que nem por fora a senhorita é bela viola, minha querida?

— Você já diz isso. Todas as vezes que olha para mim. — Sai na sua frente com uma vontade imensa de chorar, eu o odiava com todas minhas forças.

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