Capítulo 2

Massageando a têmpora na esperança de amenizar as pontadas na cabeça, Simon ouvia entediado o que a mulher sentada a sua frente de microvestido azul dizia. A voz dela era irritante, o constante cruzar e descruzar de pernas eram irritantes e as caras e bocas também. Tudo nela o irritava, mas o principal era perder seu precioso tempo para entrevistá-la quando era óbvio que ela desejava um cargo maior que governanta. Era evidente no sorriso exagerado, por fingir pudor, ao puxar devagar a barra do vestido ultrajusto para cobrir — obviamente sem sucesso — as coxas grossas e no modo como se inclinava por qualquer motivo, oferecendo uma bela visão dos seios fartos.

Cerrou os olhos por um instante, irritado com a oitava vez que ela cruzava e descruzava vagarosamente as pernas desde o começo da entrevista. Presumia que assistiu Instinto Selvagem demais.

Não era a primeira entrevistada a se insinuar descaradamente. Em outra situação, Simon até aceitaria o convite. No entanto, por bom senso, não contrataria uma mulher para fazer hora extra em sua cama. Jamais teria sexo casual com alguém que possuísse acesso total a sua casa e, num acesso de raiva, colocasse fogo em tudo.

No momento, só queria alguém para manter o apartamento em ordem, as roupas limpas e organizadas no armário, e garantir que, ao voltar do trabalho ou da balada, houvesse algo para comer. Um desejo simples, mas, aparentemente, impossível.

— O senhor pode ter certeza que realizarei todas as suas fantasias — ela insinuou, passando a língua pelos lábios.

Certo! Instinto Selvagem era sofisticado demais para ela. Devia copiar aqueles gestos de algum pornô barato.

— Senhorita Moraes, procuro uma governanta, não uma... — freou a vontade de dizer transa e se levantou. — Agradeço sua presença. Se for a escolhida, ligarei esta semana. — “O que nunca vai ocorrer”, completou mentalmente ao seguir até a porta do apartamento e a escancarar. — Tenha um bom dia!

— Pode chamar de Nanda — ela pediu se aproximando. — Aguardarei ansiosa sua ligação, Simon.

Perguntou-se quando deu intimidade para que ela ronronasse seu nome e o beijasse no rosto — e isso porque desviou o rosto.

— Nova namorada, filho? — A distinta voz feminina às suas costas o fez estremecer até os fios de cabelo.

Virou-se e observou sua mãe, Mirela Salvatore, elegante em um conjunto branco de saia lápis, camisa de manga longa e scarpin, aproximando-se. Um anjo perverso de perspicazes olhos negros fitando ele e a jovem ao seu lado com escancarado interesse.

— Não, mãe — respondeu temendo a interpretação errônea. — Acabei de entrevistá-la para a vaga de governanta.

— Mesmo? — Mirela olhou a mulher de cima a baixo, sorriu e comentou sarcástica: — Na minha época, governantas usavam mais roupa e não deixavam marcas de batom no rosto do futuro patrão. — Ignorando o palavrão de Simon, proferido após passar a mão na bochecha e ver os dedos tingidos de vermelho, completou mordaz: — Novo tempo, novas atitudes. Qual seu nome, minha jovem?

— Fernanda Moraes.

— Fernanda. Belo nome.

Mirela supôs que deixou evidente seu desagrado, pois a mulher se despediu rapidamente deixando-a sozinha com seu filho metido a conquistador. Assim que Simon fechou a porta, perguntou:

— Vai contratá-la? Não me intrometo na sua vida... Digamos, intensa. Mas contratar uma mulher que deseja ser mais que uma funcionária é um perigo — avisou seguindo-o pela sala. — Logo ela vai querer um anel de diamantes e um polpudo acordo de divórcio.

— Não se preocupe. Não pretendo contratá-la, nem me casar com quem quer que seja — apressou-se a acrescentar.

Mirela franziu o cenho.

— Que bom que ainda tem bom senso. Mas espero que mude de ideia quanto a casar.

— Hum... — Simon massageou a têmpora com mais força. Quando Mirela enveredava pelo assunto casamento a conversa não tinha fim.

— Logo terá trinta anos. Precisa pensar em casamento, filhos, um lar — repetiu o desagradável mantra aos ouvido do filho, completando taxativa: — Preciso de netos.

— Faltam três aniversários para meus trinta anos — resmungou. — E o Alessandro te deu dois netos.

— Simon Salvatore, só porque seu irmão tem filhos não significa que não espero que também os tenha — ela retrucou sentando no sofá macio. Arrumou as roupas e o cabelo liso, perfeitamente tingido de preto, antes de cravar o olhar reprovador no filho caçula. — Precisa de uma boa moça para constituir algo mais duradouro que relações relâmpagos.

Simon revirou os olhos, cansado de ser retratado como o filho irresponsável que morreria sem deixar herdeiros. Por um lado entendia sua mãe. Orfã aos dez anos, Mirela passou longos anos em um orfanato, sem o calor de uma família. Sempre que falava desse tempo era com a tristeza da perda dos laços familiares e das sucessivas rejeições devido à idade. A alegria só retornava ao recordar como conheceu o marido e juntos formaram a família de seus sonhos.

Ela prezava a família. Prático, Simon prezava a si próprio.

— Sabe o que realmente preciso? — questionou, jogando-se no sofá, de frente para sua mãe. — Preciso de uma governanta discreta, organizada, confiável, que more no meu apartamento sem me atacar durante a noite — enumerou, deslizando a mão pela face esgotada devido o fracasso com às dezenas de mulheres entrevistadas. — Mas parece que essa pessoa não existe.

— Conheço a mulher perfeita, querido — ouviu da matriarca.

Ignorando o enorme sorriso na face de Mirela, o que normalmente representava uma ideia carregada de segundas intenções, Simon respondeu sem pensar:

— Contrate-a.

Era tudo o que Mirela necessitava para entrar em ação. Levantou-se e marchou até a porta.

— Aonde vai?

— Falar para Carlos preparar o contrato da sua nova governanta. À noite virei apresentá-la, querido — comunicou alegremente antes de sumir porta afora.

Alarmado ao ouvir o nome do advogado da família, Simon correu atrás dela. Mas não deu tempo. A porta do elevador se fechou, com Mirela acenando em despedida.

De repente foi tomado por uma inquietação e se perguntou se tomou a decisão certa.

Capítulo 3

Retornando de outra entrevista, Paulina entrou em seu quarto. Esgotada, jogou a pasta de couro sobre a cama e caminhou até o espelho da penteadeira. Manteve distância do objeto, o suficiente para analisar seu reflexo da cabeça aos pés. Procurou alguma imperfeição no traje, uma pista para as sucessivas rejeições.

Não era sofisticado: uma camisa branca de manga comprida, saia longa e terninho discreto, ambos na cor azul escuro. Queria parecer responsável e mais velha do que realmente era, e o traje, em teoria, fornecia essa imagem. Na prática, porém, não conseguiu o efeito desejado.

O dia começou bem, mas foi anuviado no momento em que o recrutador do hotel, no qual desejava trabalhar como governanta, olhou-a de cima a baixo e torceu o nariz. Foi questão de minutos para ouvir o tão conhecido "a senhorita não se enquadra no perfil". Era a terceira entrevista só naquela semana em que ouvia essa frase. Que diabos de perfil seria esse?

O problema tinha de estar em sua aparência, pois seu currículo estava impecável. Desde a infância, teve contato com a profissão, acompanhando e ajudando sua mãe na administração da mansão Salvatore dia e noite. Quando Soraia Perez faleceu, passou a trabalhar com Núbia Santos, governanta que substituiu sua mãe. Formou-se em governança hoteleira, fez diversos cursos para se aperfeiçoar e, nos últimos dois anos, trabalhou e morou na casa de uma senhora. Experiência não faltava.

Havia somente uma mácula em seu currículo, uma que a obrigou a omitir o contato de referência do antigo emprego, diminuindo as provas de sua experiência. Infelizmente, junto com a casa e o dinheiro, o filho de sua antiga patroa achou que ela fazia parte da herança. Tremia ao lembrar-se da proposta abusiva, do tapa que deu e da corrida desesperada para evitar outras investidas nojentas durante o velório da mãe dele.

Respirou fundo e afastou a lembrança daquele homem, voltando a focar na busca pelo motivo das rejeições. Talvez fosse o cabelo, imaginou, analisando os fios, que chegavam abaixo da cintura, parcialmente presos por um laço. Devia ter feito um penteado mais elaborado. Levou as mãos aos fios para fazer um coque improvisado, mas soltou-os ao ouvir batidas na porta.

Apressou-se a abri-la, sem se surpreender ao ver Mirela Salvatore à sua frente. Antes de ser a rica proprietária da mansão e matriarca dos Salvatore, Mirela morou por anos no orfanato onde conheceu a mãe de Paulina. Por isso, tratava seus funcionários e os filhos deles como família, principalmente Paulina e sua irmã.

- Boa tarde, querida! Como foi a entrevista? - perguntou Mirela, entrando sem cerimônia no pequeno quarto.

- Não muito bem - confessou triste pela oportunidade perdida e grata pela consideração da bondosa Salvatore.

Até que a ouviu exclamar, satisfeita:

- Ótimo!

- Perdão?!

- Desculpe, querida, deixe-me explicar. - Mirela segurou suas mãos entre as dela. - Encontrei o trabalho perfeito para você. Paga bem e, se aceitar, está contratada.

- Que tipo de trabalho? - perguntou curiosa. A mansão não precisava de uma governanta, e ela não aceitaria menos que isso.

- Simon está procurando uma governanta que possa trabalhar e dormir no apartamento dele. O salário é praticamente o mesmo que pago ao seu pai, e há vários benefícios.

O salário alto e os benefícios desapareceram num instante.

- Trabalhar no apartamento do senhor Simon... Dormir lá... Eu?

Não que Simon Salvatore, filho mais novo de Mirela, fosse uma pessoa ruim - não totalmente -, mas se havia alguém no mundo que representava tudo o que Paulina abominava, era ele. Arrogante e prepotente, passou anos fazendo piadas de sua vida sexual, ou, como adorava ressaltar, da falta dela. Além disso, dias antes, a chamou de ostra e desejou, sarcástico, sorte a ela e a quem a contratasse. A sorte que ele desejou só lhe trouxe azar.

- Querida, será ótimo ter alguém da minha confiança cuidando do meu bebê, zelando por ele.

Bebê? Simon podia ser chamado de muitas coisas, menos de bebê.

- Não posso, dona Mirela... Simon não gosta de mim... - "Nem eu dele", completou em pensamento. - Será um desastre.

- Ah, vocês eram tão amigos quando pequenos. - Mirela soltou uma risada baixa. - Eu e Soraia passávamos horas fazendo planos... Podem retomar a amizade - finalizou com um sorriso esperançoso.

Paulina não se lembrava de ter sido amiga de Simon. Ao contrário, sua mãe sempre exigiu que mantivesse distância dos filhos dos patrões. Não via motivo para Mirela mentir, mas supôs que fosse para convencê-la a aceitar o emprego. O passado, porém, não conseguiria mudar o presente.

- Pelo menos tente, Lina - pediu Mirela, estreitando mais suas mãos nas dela. - Se não gostar, é só pedir demissão. Sem multas, sem complicações. Por favor, tente. Por mim.

Às vezes, como naquele momento, Paulina condenava-se por ter um coração mole e ser obediente demais. Era fácil dobrá-la.

- Tudo bem, dona Mirela. Por você, aceito.

Mirela envolveu-a num abraço apertado.

- Obrigada, filha. Tenho certeza de que não se arrependerá.

Paulina duvidou, mas nada disse, limitando-se a aceitar o abraço caloroso da Salvatore - que, de certa forma -, lembrava o de sua falecida mãe.

~*~

As portas do elevador abriram no nono andar, e Simon Salvatore saiu com o semblante carregado, o estresse perceptível nos passos fortes e apressados em direção ao seu escritório. Ignorou todos à sua volta, principalmente sua secretária, Cherrilyn Martins. Não que adiantasse: assim que passou pela porta do escritório, ela apareceu, a agenda aberta em uma mão e uma caneta na outra.

- Pensei que o senhor não viria hoje - comentou, empurrando uma mecha acobreada para trás da orelha.

- Pensou errado - respondeu, ainda sob o efeito da dor de cabeça. Não que fosse gentil com a espiã de sua mãe.

- Já contratou a governanta?

Ele olhou irritado para a secretária.

- A senhorita ao menos se dignou a entrevistá-las antes de mandá-las ao meu apartamento?

- A agência para a qual telefonei disse que mandaria as melhores, de acordo com o perfil do senhor - defendeu-se Cherry, imaginando que o mau humor daquela vez tinha sido por causa das entrevistadas. Não que ele fosse gentil com ela.

- Que perfil?

Cherry lembrou as informações passadas por e-mail.

- Solteiro; vinte e sete anos; empresário renomado; CEO da Oryun Vision Publicidade; herdeiro das empresas Salvatore...

- Não pensou em contar quanto tenho no banco? - resmungou, imaginando as funcionárias da tal agência fazendo fila para encontrá-lo, sedentas pela oportunidade de pôr as mãozinhas em sua fortuna.

- Ajudaria? - quis saber com interesse.

- Claro que não! - quase gritou, encarando os olhos verdes da Martins com raiva. - Da próxima vez, diga minha personalidade, não minhas qualidades financeiras.

Mentalmente, Cherry perguntou-se quantas pessoas aceitariam trabalhar para ele se o descrevesse como: Grosseiro, mal-humorado e exigente ao extremo. Provavelmente, nenhuma. Por fim, ofereceu:

- Posso refazer o perfil.

- Não é preciso. Minha mãe já escolheu a governanta.

- Dona Mirela?! - estranhou. - O senhor tem certeza de que não quer refazer o perfil?

- Não é preciso - repetiu com irritação.

Cherry perguntou-se qual seria o interesse da Salvatore agora. Afinal, foi contratada por Mirela para informar tudo o que acontecia na empresa que Simon montou com um amigo há cerca de dois anos. Ela queria uma espiã dentro do apartamento?

- Martins, ouviu algo do que falei? - perguntou Simon, estranhando que ela não tivesse se retirado.

Cherry piscou, confusa.

- Quero comprimidos para dor de cabeça - repetiu, o desagrado vibrando na voz.

- Ah, desculpe-me. Volto em um instante, senhor.

Saiu apressada, quase se chocando contra o sócio e diretor da empresa, Gabriel Saadi. Lançou um rápido pedido de desculpas ao homem alto de cabelo castanho acobreado e continuou seu percurso.

- O que fez com a garota agora? - Gabriel perguntou ao fechar a porta.

- Nada. E olha que estou tentado - resmungou, antes de sentar-se em sua poltrona giratória de couro preto. - Acredita que ela deixou que enviassem várias ninfomaníacas ao meu apartamento?

- Com o seu histórico, tinha de estar feliz - gracejou o Saadi, sentando-se de frente para o Salvatore.

- Meu histórico não é diferente do seu. Então me diga: ficaria feliz?

- Não. - Gabriel fixou os olhos verde-água no amigo. Simon parecia prestes a explodir. - Pelo jeito, foi muito ruim.

- Pior - resmungou, massageando a região entre os olhos. - Se soubesse que seria assim, deixava nas mãos da minha mãe antes.

- Mirela?! Deixou que ela contratasse alguém para trabalhar para você de novo? - Gabriel encarou-o com um pequeno sorriso descrente. - Vive reclamando que tem de aguentar a Cherry e repetiu a dose?

- Cherry é uma secretária eficiente, mesmo ajudando minha mãe a controlar meus passos.

- E qual é o nome da nova governanta?

- Não sei. Ela disse que conhecia a pessoa certa e saiu antes que eu pudesse perguntar o nome.

- Pelo menos, sabe quando conhecerá a sua futura governanta?

- Hoje à noite.

- Se fosse você, telefonava e exigia o nome. Nunca se sabe que tipo de pessoa é "certa" na mente de Mirela Salvatore - comentou, coçando a barba por fazer. - E o que ela fazia em seu apartamento hoje?

- É provável que Cherry tenha contado sobre as entrevistas.

- Nesse caso, creio que Mirela já tinha alguém em mente para o cargo.

- Será?!

Simon sentiu um frio na espinha. Desconfiava que Mirela tinha planos mais ousados do que lhe fornecer uma governanta adequada, mas ouvir outra pessoa dizer o mesmo tornou tudo pior. Não que sua mãe fosse fazer uma escolha ruim... Esperava que não fizesse.

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