Ponto de Vista de Helena Cardoso:
O galpão zumbia com um tipo diferente de silêncio depois que eles partiram. Um silêncio onde a presença deles ainda cutucava minha pele. Eduardo queria dizer mais, eu sabia. Mas não havia mais nada a ser dito. Para ele, talvez. Para mim? Tudo.
Mas esse "tudo" estava enterrado fundo, sob concreto e aço. Minha vida agora era sobre sobrevivência, não sobre reviver fantasmas. Minhas mãos, calejadas e manchadas, eram um testemunho disso. Eram para levantar caixas, não para segurar mãos.
Meu turno acabou, e o ar frio da noite mordeu minha pele exposta enquanto eu caminhava para casa. Casa. A palavra era uma piada cruel. Era uma quitinete caindo aos pedaços em cima de um boteco pé-sujo, o ar denso com o cheiro de óleo de cozinha velho e desespero. O colchão afundava no meio, um vale perpétuo do meu cansaço. A única janela dava para uma parede de tijolos pichada. Estava muito longe da cobertura elegante que eu dividia com Eduardo nos Jardins, aquela com vistas panorâmicas da cidade.
Uma batida súbita e insistente na minha porta fina me assustou. Meu coração pulou para a garganta. O aluguel venceu ontem. Dona Sônia, a proprietária, era notória por suas cobranças noturnas.
"Só um minuto!", gritei, minha voz rouca. Apertei o cinto do meu roupão gasto, preparando-me para a ladainha de sempre sobre pagamentos atrasados.
Destranquei a fechadura, abrindo a porta apenas o suficiente para espiar pela fresta. Meus olhos se arregalaram. Não era Dona Sônia.
Eduardo estava lá, seu terno caro parecendo ridiculamente fora de lugar no corredor imundo. Ao lado dele, Selene Lacerda, envolta em um casaco de seda que provavelmente custava mais que meu aluguel anual, seu cabelo loiro perfeito brilhando sob a luz fraca do corredor. Ela segurava uma bolsa de grife, e seus olhos, antes predatórios em um tribunal, agora tinham um brilho calculista.
"Helena", Eduardo sussurrou, o rosto gravado de preocupação.
Tentei bater a porta, minha mão ardendo quando o pé de Eduardo se enfiou na fresta. Ele a empurrou com uma força surpreendente, impulsionando a si mesmo e a Selene para dentro do meu minúsculo quarto.
Selene deu um passo para dentro e imediatamente recuou, levando a mão ao nariz. Seu olhar varreu o espaço apertado, o papel de parede descascando, o fogão elétrico de uma boca no chão. Um arrepio percorreu seu corpo, um claro calafrio de nojo.
"Meu Deus, Eduardo", ela sussurrou, sua voz pingando falsa piedade. "É assim que ela vive?"
Eu a encarei, meus punhos cerrados ao lado do corpo. "Fora daqui", sibilei, apontando para a porta. "Os dois."
Selene me ignorou, seus olhos finalmente pousando no meu rosto. Ela soltou um pequeno suspiro teatral. "É você mesmo. Eu e o Edu estávamos comentando... sabe, depois de todos esses anos, sendo dada como morta, o funeral, tudo..."
Meu sangue gelou. O funeral. A zombaria de tudo aquilo. "O que vocês querem?", perguntei, minha voz perigosamente baixa.
Ela sorriu, um sorriso sacarino e venenoso. "Nós só viemos ver se você estava... bem. Afinal, você foi declarada legalmente morta." Seu olhar percorreu meu quarto miserável novamente, um julgamento silencioso. "Embora 'bem' pareça um pouco exagerado, não é?"
Minhas mãos tremiam com uma raiva tão potente que ameaçava me consumir. "Já terminou de se gabar?"
Selene riu, um som frágil e desagradável. "Ah, Helena, não seja tão dramática. Estamos apenas tentando ajudar." Ela fez uma pausa, depois colocou a mão em sua barriga ligeiramente arredondada. "Eu e o Eduardo, estamos esperando um bebê. Um novo começo para nossa família, sabe?" Seus olhos, frios e triunfantes, encontraram os meus. "Uma família de verdade."
Minha respiração ficou presa na garganta. Olhei para ela, depois para Eduardo, que evitava meu olhar, o rosto pálido. A notícia me atingiu como um golpe físico, embora não devesse. O que era mais uma traição em uma vida inteira delas?
"Já acabou?", eu disse, minha voz mal um sussurro, mas tingida com uma frieza que pareceu surpreendê-la. "Então saia."
Selene piscou, pega de surpresa pela minha falta de reação. Ela esperava lágrimas, histeria, uma cena. Em vez disso, não obteve nada.
Eduardo, sua voz rouca com o que soava como arrependimento genuíno, finalmente falou. "Helena, por favor. Deixe-nos te ajudar. Você não precisa viver assim." Ele tirou um bolo grosso de notas de cem reais da carteira, oferecendo-o a mim. "E aqui. Para um novo começo. Eu e a Selene até encontramos uma vaga para você em uma de nossas filiais. É uma página em branco. Uma nova identidade, até."
Selene interveio: "Pense nisso como... velhos amigos se reencontrando. Estávamos preocupados com você, afinal." Seu sorriso era enjoativamente doce.
Olhei para o dinheiro, depois para o elegante cartão de visita que ela estendeu. "Amigos?", ri, um som áspero e seco. "Você chama isso de amizade?"
Selene agarrou o braço de Eduardo, puxando-o em direção à porta. "Vamos, querido. Já fizemos nossa boa ação. Ela claramente não aprecia."
Eduardo hesitou, seus olhos demorando-se em mim, cheios de uma súplica desesperada. "O Caio sente sua falta, Helena. Ele fala de você o tempo todo."
Eu não vacilei. Não mais. Bati a porta com toda a minha força, a madeira frágil tremendo em seu batente.
O silêncio que se seguiu foi um alívio, mas durou pouco. Olhei para o dinheiro que Eduardo havia enfiado na minha mão, depois para o cartão de visita. Com um rosnado de nojo, rasguei o cartão em pedacinhos, deixando-os flutuar até o chão como cinzas. Joguei o dinheiro no fogão elétrico, observando as notas baratas se enrolarem e enegrecerem nas bordas.
A 'ajuda' deles não era ajuda. Era culpa. Uma tentativa de comprar a absolvição pela destruição que causaram. Mas minha vida, minha dignidade, não estava à venda. Não mais. E certamente não para eles.
Ponto de Vista de Helena Cardoso:
O sono não veio. Seus rostos, suas vozes, o sorriso presunçoso de Selene, a culpa patética de Eduardo, o rosto manchado de lágrimas de Caio - eram todos invasores vívidos e indesejados em minha mente. Cada memória era uma faísca, acendendo o inferno de ódio que ainda ardia dentro de mim. Era uma dor surda na maioria dos dias, mas esta noite, era um incêndio violento.
Eu precisava me mover, fazer algo, qualquer coisa, para acalmar a tempestade interior. Meu pequeno quarto oferecia pouco para organizar, mas comecei mesmo assim, arrumando os poucos livros, dobrando minhas roupas limitadas. Afastei uma pilha de revistas velhas e minha mão roçou em algo duro, escondido no fundo do pequeno e empoeirado armário.
Uma caixa esquecida. Pesada, gasta, fechada com fita adesiva. Eu a puxei para fora, gemendo com o esforço. Quando a levantei para a cama, o fundo cedeu. O conteúdo se espalhou sobre o cobertor puído, espalhando-se pelo colchão. Entre eles, um porta-retrato, velho e de madeira, caiu no chão. O vidro se estilhaçou com um estalo agudo e doentio.
Minha respiração falhou. Meus olhos caíram sobre a imagem dentro da moldura quebrada. Uma foto de família. Eduardo, Caio e eu. Estávamos sorrindo, em frente a uma árvore de Natal, guirlandas de luzes piscando ao nosso redor. Uma memória perfeita e fabricada.
Caio. Meu Caio. Meu filho adotivo. Aquele que eu amei com uma ferocidade que beirava a loucura. Ele não era meu por sangue, mas era meu por todas as outras medidas que importavam.
Eduardo, em seus primeiros dias, ficou marcado pela primeira traição de Selene. Ele jurou não ter filhos, alegando que não suportaria a ideia de mais dor. Mas eu tinha visto outra coisa nele, um anseio que ele não conseguia admitir. Eu queria um filho, desesperadamente, mas a vida me deu cartas diferentes.
Numa tarde chuvosa, eu o encontrei. Um bebê minúsculo, abandonado, deixado nos degraus da igreja local. Ele era frágil, desnutrido, com uma doença cardíaca congênita que exigiria inúmeras cirurgias, uma vida inteira de cuidados. Eduardo hesitou, preocupado com o custo, os sussurros, o fardo.
Mas eu não. Nem por um segundo. Peguei o pequeno embrulho, meu coração transbordando de um amor feroz e protetor. Eu o chamei de Caio, um nome que significava 'prestativo' e 'gentil' em um dialeto antigo que eu havia estudado. Ele era meu propósito, minha razão de ser.
Lutei por ele, paguei por seus tratamentos, segurei sua mãozinha em cada procedimento doloroso. Aprendi tudo o que pude sobre sua condição, tornei-me uma especialista em cardiologia pediátrica por necessidade. Eduardo, eventualmente, se acostumou, mas sempre foi a minha batalha. Meu sacrifício. E Caio, por sua vez, se agarrou a mim, seus bracinhos envolvendo meu pescoço com força, me chamando de "mamãe" com uma reverência que derretia meu coração. Essa era a minha maior alegria.
Então Selene voltou. Um fantasma do passado de Eduardo, uma sereia que o puxou de volta para sua órbita com facilidade praticada. Ela era tudo o que eu não era - chamativa, ambiciosa e totalmente implacável. Ela me via como um obstáculo, Caio como um incômodo.
Eduardo começou a trabalhar até tarde, suas desculpas ficando mais esfarrapadas, seus olhos mais frios. Caio também mudou. Selene, com seus presentes caros e promessas sussurradas, lentamente envenenou sua mente. Ele começou a me chamar de "controladora", "superprotetora". Ele se ressentia das intermináveis consultas médicas, do olhar vigilante que eu mantinha sobre sua saúde frágil. Ele queria liberdade, o tipo de liberdade que Selene balançava como um brinquedo novo e brilhante.
Lembro-me de uma briga, eu gritando: "Eduardo, o que está acontecendo conosco?!". Ele, se virando, os ombros curvados: "Nada, Helena. Você está imaginando coisas." A porta de seu escritório estava sempre trancada agora, seu telefone colado na mão. Caio parou de me contar sobre seu dia, passando horas com Selene, que o cobria de atenção e gadgets caros. Ele até começou a chamá-la de "tia Selene", uma palavra que parecia uma faca se torcendo em minhas entranhas.
Meus olhos arderam, uma nova onda de lágrimas ameaçando transbordar. A borda irregular do vidro quebrado cravou-se no meu dedo, uma fina linha vermelha florescendo contra minha pele, manchando os rostos sorridentes na foto. Era um eco físico da dor no meu peito. O vidro quebrado, a família estilhaçada, o sangue se infiltrando na memória.
Lembrei-me do décimo aniversário de Caio. Ele havia soprado as velas do bolo, seus olhos brilhando de esperança. "Eu desejo", ele disse, "que possamos ser uma família para sempre, mamãe. Só nós."
Eu ri agora, um som amargo e quebrado que ficou preso na minha garganta. Para sempre. Que desejo ingênuo.
Com um soluço engasgado, peguei a foto, o sangue do meu dedo manchando a imagem. Amassei-a na mão e joguei-a na pequena lixeira no canto. Os rostos amassados me encaravam, acusadores e zombeteiros.
Naquele exato momento, meu celular vibrou. Uma mensagem de texto. Um número desconhecido.
Você está convidada para a Festa de 18 Anos do Caio. Neste sábado. Salão Imperial do Hotel Unique.
Meu sangue gelou. Caio. O aniversário dele. Depois de todos esses anos. E depois da visita de Eduardo e Selene. Parecia uma armadilha, mais uma torção cruel da faca. Mas uma parte de mim, uma parte pequena e tola, se perguntou se esta era uma chance. Uma chance de vê-lo novamente, de entender. Ou talvez, uma chance de finalmente, verdadeiramente, dizer adeus.