Capítulo 2

Lindsey Morgan

Naquele dia depois que voltamos do almoço e o Sr. Martinelli me deixou com aquela frase em suspenso, eu passei toda a tarde afogueada, não estava me reconhecendo. Sempre fui muito tranquila com relação a sexo, mas em se tratando dele e sobre tudo agora que conheço o material, está complicado de me controlar.

O restante da tarde, ele passou fora, em reunião com investidores, mas é obvio que ao passar por minha mesa, eu tinha que estar em mais um dos meus monólogos, preciso acabar com isso ou vão acabar me internando.

Ao final do expediente, ele ligou avisando que eu poderia ir embora, que ele não retornaria mais à empresa e que me enviaria alguns documentos por e-mail. Senti um desapontamento por não vê-lo, preciso me manter desapegada ou vou acabar sofrendo. Durante todo o tempo tentei me manter afastada e indiferente. Coisa que eu acabei esquecendo ao aceitar ir com ele naquele jantar, a desculpa de ser uma extensão do trabalho não convenceu nem a ele, quanto mais a mim, pois, sendo bem sincera, eu queria era mesmo ir com ele naquele evento.

Mas eu não estava preparada para o desfecho da noite.

“Minha nossa senhora das moças cautas e santas, me perdoe porque eu caí em tentação. E que tentação gostosa — penso.”

Depois de ter feito sexo na sala, na escada, no corredor, no quarto e no banheiro, eu pensei que ele fosse se vestir para ir embora, mas quando me viu vestindo uma roupa, ele logo perguntou.

— O que está fazendo?

— Achei que já iria embora... — disse encabulada de repente.

— Querida, a noite ainda é uma criança e tem muitas coisas que eu quero fazer com você — ele falou com um sorriso tão safado, que imediatamente me acendeu e eu não tive alternativa a não ser arrancar minha roupa e me jogar na cama de novo.

Quando acordei, ele já não estava mais... E pela primeira vez, cheguei atrasada ao trabalho.

Hoje, durante todo o período da manhã, após repassar os compromissos do dia ao querido e idiota do meu chefe, que agiu como se a noite de ontem não tivesse acontecido, fui designada a ficar com Kate, dando suporte ao que ela precisasse em seu projeto, já que sua assistente ficou doente e não pôde vir.

Passar a manhã com ela foi uma experiência boa, que tem um método de trabalho diferente, já que lida com muitas pessoas e em grupos, o que não é fácil, ainda mais em meio a tantos homens que não deixam ser facilmente liderados por uma mulher.

Ela com muita calma e perspicácia, iniciou com uma abordagem diferente da que eu tinha visto outro dia, pois o grupo desta semana tinha pessoas com mais idade, onde se via claramente que estavam reticentes e não muito amistosos.

Primeiramente foi feito uma dinâmica de liderança para desenvolver o trabalho em equipe e quebrar o gelo entre os presentes. Fazer isso logo no início ajudou a energizar positivamente o ambiente do grupo, o que foi favorável para o desenvolvimento do restante do planejamento.

O meu único problema nisso tudo era encontrar uma posição confortável, e tentar parar de me remexer a todo instante na cadeira, pois, eu estava com a sensação de que ele ainda estava dentro de mim, pensar nisso me fez beber litros de água para ver se amenizava o calor que eu sentia subindo pelo meu rosto, ainda mais quando me olhavam como se pensassem...

“Eu sei o que você fez a noite passada...”

Agora, depois do almoço estou aqui organizando uns relatórios para levar na sala do meu chefe. Ele já ligou duas vezes e eu estou protelando para ir até lá. Eu que sempre fui destemida, de uns tempos para cá não sei como me portar em sua frente.

Resolvo ir até a copa tomar um café, ele que espere mais um pouco... Quando estou chegando perto da porta, ouço uns sussurros.

— Você viu como o chefe gostoso está gato hoje? — é a voz da assistente enjoadinha do RH.

— Põe gato nisso. Aquele ali se eu sento, nem guindaste me tirava de cima — agora foi à ruiva da Xerox que falou. Sinto um calor subindo pelo meu rosto e quando penso em entrar, paro quando ouço uma terceira voz que não reconheci.

— Ouvi dizer que ele é o maior garanhão na cama. Um verdadeiro furacão, eu estou louca para saber se é verdade e agora que vou trabalhar próximo a ele, vou investir.

Que história é essa?

Mas espera aí que vou acabar com essa festinha agora. Entro na sala e todas se calam, sabem quem eu sou. Olho para a magrela que falou por último, uma estagiária que vai ser efetivada na próxima semana, muito calmamente coloco meu café e me viro em direção a elas.

— Não precisam para de falar só porque eu cheguei. Na verdade estou me divertindo muito com o papo de vocês.

— E por qual motivo posso saber? — a cenoura murcha da Xerox pergunta.

— Claro... Enquanto vocês ficam com esse papinho sobre a vida do chefe, eu como sua secretária, acabei de enviar um lindo presente ao seu namorado, a pedido dele.

— Namorado??? — perguntam as três com os olhos arregalados.

— Sim bobinhas, nosso chefinho é gato, mas é gay. Então sugiro às assanhadinhas que procurem outro alvo e voltem ao trabalho que estamos em pleno horário de expediente — pisco o olho para elas com um sorriso cínico.

Dou as costas e saio, gargalhando por dentro da cara de besta das idiotas. Bando de fura olho.

(...)

Meu Deus!

Sento na cama tentando focar a vista depois de uma forte tontura, um pensamento cruza minha mente e eu logo descarto, pois sei que é impossível, mas contra todas as probabilidades, eu acordei enjoada.

Novamente o pensamento se forma. Não! Isso não é possível... Ou é?

"Claro que não Lindsey, deixe de fantasiar as coisas", meu subconsciente racional me repreende.

Levanto cambaleante e vou para o banheiro tomar um banho e me arrumar para o trabalho. Depois de pronta, pego minha bolsa e saio, dispenso o café da manhã, pois, ainda sinto muito mal estar, com certeza é resultado de ter me empanturrado de chocolate e amêndoas ontem, enquanto fazia os meus biscoitos.

Chego à empresa no horário habitual e depois de verificar a agenda do dia do chefe, respiro aliviada, hoje não terá nenhuma reunião e a manhã está toda livre. Essa época é mais tranquila e dentro de poucos dias teremos férias coletivas, lembrar disso me deixa triste, pois, assim como o ano passado, esse será mais um ano que passarei só.

Meu único parente vivo é uma tia idosa, que mora em outra província e que este ano resolveu passar as festas com o filho na Irlanda. Minha amiga, com quem divido a casa, vai ficar com a família do namorado. Solto um suspiro.

"Preciso comprar um gato ou um cachorro" — penso. — Não, melhor não. O último animal que tive morreu de overdose de comida. Mas ninguém me avisou que um peixinho dourado só come duas bolinhas de ração por dia.

Dou de ombros e organizo uns papéis em minha mesa e como a manhã está livre, eu vou até a sala onde terá a confraternização dos funcionários para ver se está tudo em ordem. Pego a bolsa que trouxe cheia das guloseimas e sigo até lá.

Vejo que já tem alguns funcionários circulando pelo local e alguns grupos numa conversa animada.

Depois de dispor tudo no local indicado, passo próximo à mesa de guloseimas dispostas para degustação, onde tem uma variedade enorme de biscoitos, e penso em sair correndo dali, a mistura de cheiros está deixando meu estômago que já não estava bom, pior ainda.

— Lindsey, você está bem? — Kate pergunta quando esbarro nela sem querer na entrada da sala. — Está pálida.

Olho para ela e vejo que o Sr. Martinelli está ao seu lado, ele me olha franzindo o cenho e eu trato de sair dali o quanto antes ou vou acabar dando um presentinho nada agradável aos dois.

— Estou bem, só preciso ir ao toalete — engulo em seco, controlando outra onda de náusea.

Saio apressada e assim que entro no banheiro, corro para o vaso, me abaixando em seguida. Esvazio meu estômago com o pouco que restava do que tinha comido na noite anterior. Levanto com as pernas trêmulas e quando saio da cabine...

— AHHHHHHHH — meu grito ecoa no ambiente. — Se eu morrer por sua culpa, juro que venho puxar seu pé. O que está fazendo aqui?

— Vim saber o que você tem, saiu praticamente correndo — responde.

— Tenho vontade de matar o senhor quando me assusta desse jeito.

— Não mude de assunto, está pálida parecendo uma vela de tão transparente e acabou de vomitar até as tripas.

Meu coração dispara e não sei o que dizer.

— Não estou mudando nada, só acho que não deve se interessar por uma indisposição de uma simples funcionaria. Comi alguma coisa que me fez mal, já acordei assim...

— Está grávida? — Sr. Martinelli pergunta sem rodeios, e se eu não estivesse me sentindo tão mal, teria gargalhado da sua cara, tamanha era a ironia da situação. Mas ao contrário, apenas respondi.

— Não estou!

— Como pode ter certeza? Transamos como dois loucos e nem todas às vezes nos prevenimos — sinto meu rosto esquentar.

— Não estou grávida — respondo categórica, abaixo o olhar e coloco a mão sobre o ventre. — Isso é algo impossível de acontecer...

— Não está? — ele me olha confuso e, então compreende o que significa. — Está dizendo que você...

— Sim — respiro fundo, apesar de querer muito, meu lado racional me faz constatar que o mal-estar que senti pela manhã e agora, era devido a qualquer coisa, menos uma gravidez.

— Tem certeza? — insiste segurando o meu braço. Estremeci diante do seu olhar.

— Certeza absoluta, agora se o senhor me dá licença, estamos em um banheiro feminino se não percebeu e essa conversa não tem cabimento.

Solto meu braço, vou até a pia onde lavo minha boca e rosto, passo por ele tentando manter a compostura. Deveria me sentir aliviada, até mesmo feliz, por não estar grávida devido a uma transa casual com o meu chefe, que ainda por cima é apaixonado por outra. No entanto, ver que ele pensou na possibilidade, assim como eu pela manhã, me faz sentir uma tristeza profunda, precisei esforçar-me para controlar as lágrimas e voltar para junto dos outros.

Levi Martinelli

Depois de ter tido mais uma noite maravilhosa ao lado dela, logo após aquele jantar, cheguei à conclusão que seja o que for que estiver acontecendo, não dará certo. O melhor talvez fosse encerrar o que nem começou, antes que um de nós fique envolvido demais e saia machucado, diante disso passei todo o dia indiferente ao que tinha acontecido, mas uma parte do meu corpo insistia em me lembrar de tudo toda vez que ela chegava perto e ao final do dia, todas as minhas convicções caíram por terra.

Penso em minha família e em tudo que eles planejaram para mim a vida toda.

Que se foda. Meu destino quem faz sou eu e jamais iria permitir que ditassem minha forma de viver a vida ou seguir regras idiotas.

Mas ao contrário do que eu penso e quero, ela tem fugido de mim.

Observei a Srta. Morgan o dia todo. Seu comportamento, apesar de atrapalhado, não estava normal e era visível que não estava bem.

Quando a surpreendi no banheiro e interroguei sobre uma possível gravidez, ela me garantiu ser impossível, e embora não tenha dito com todas as letras, ficou subentendido que não poderia ter filhos.

Não convencido disso, não consegui me concentrar em nada, só pensava na possibilidade e se de fato ela estivesse grávida, o que isso implicaria em nossas vidas.

Sendo de família italiana e que preza pela tradição, um filho bastardo está fora de cogitação, assim sendo, o melhor que faço é tirar todas as dúvidas de uma vez.

Depois de muito conjecturar, resolvi ir para casa, todas essas coisas rondavam minha cabeça, já no carro, guio para a avenida principal num estado intranquilo, mas em vez de ir para minha casa, faço o retorno pegando a rota contrária. Poucos minutos depois, saio da farmácia com a sacola em mãos, a vendedora disse que não tinha erro, que era 99% de chance de acerto, mas tinha aquele 1%, então por via das dúvidas peguei seis logo.

Poucos minutos depois, mais uma parada, agora num restaurante de comida japonesa. Com o pedido em mãos, sigo meu destino e assim que chego, toco a companhia. Nada!

Será que ela não veio para casa ou aconteceu algo no caminho?

Toco mais três vezes e sou surpreendido com uma cara de poucos amigos, ela parecia péssima, estava pálida e com lágrimas nos olhos.

— Você está bem?

Ela balançou a cabeça dizendo que sim, mas era obvio que não estava.

— O que você quer aqui? — pergunta de má vontade.

— Precisamos conversar e eu trouxe comida — tento me aproximar e ela se afasta, me dando passagem.

Tento não olhar para a camisola que ela está usando, para não observar os seios redondos sob o tecido fino. Trinco os dentes, sentindo uma parte do meu corpo ganhar vida e me questiono por que essa mulher exerce um efeito tão intenso sobre minha libido.

— Sobre o que quer conversar? Ou será que veio atrás de mais uma noite de sexo?

— Não temos um simples ato sexual. É sexo ardente querida, e se quer saber, o melhor que tive em muito tempo — ela fica instantaneamente vermelha. — E tenho certeza que com você é igual.

Seus olhos brilham e eu espero uma resposta mal criada, então ela olha para sacola em minha mão, tapa a boca e corre. Eu largo a sacola com a comida sobre uma mesa no caminho e com a outra em mãos, vou atrás e invado o banheiro onde ela entrou.

Quando ela se recompõe, eu estendo a sacola em sua direção, ela pega e quando olha o seu conteúdo fica ainda mais pálida, mas logo em seguida solta uma gargalhada na minha cara.

— Isso é ridículo. Já lhe falei hoje mais cedo que isso é impossível.

— Se é tão impossível assim vamos tirar a prova — aponto com o queixo a sacola em sua mão.

— Tudo bem, eu vou fazer. Mas só para provar que está errado.

Fico ali olhando para ela que não se mexe.

— O que está esperando? — pergunto.

— Que o senhor saia, ou acha que vou fazer xixi no palitinho na sua frente?

— Para quem já teve um squirting, isso não seria nada demais — digo com um sorriso cínico.

Ela me empurra para fora, fechando em seguida à porta na minha cara e não me resta outra opção que não seja esperar.

Ando de um lado a outro e nada de ela sair desse banheiro. Impaciente, bato na porta e quando ela sai, está mais pálida do quando entrou e seus olhos estão arregalados e vermelhos.

Lindsey Morgan

Meu Deus! Solto a exclamação diante da constatação do evidente milagre. Isso não é possível... Mas como? Questiono ainda sem acreditar no que está diante dos meus olhos.

Minhas lembranças invadem minha mente no exato momento em que mesmo estando no estado de embriaguez, Levi se lembrou do preservativo e eu alucinada de desejo, disse-lhe para que não se preocupasse quanto ao fato de uma gravidez, que aquilo não era um problema! Garanti ainda das outras vezes em que estivemos juntos que poderíamos aproveitar o momento sem pensar em usar proteção por que eu era saldável e ele me garantiu o mesmo.

"Isso só pode ser uma pegadinha ou uma piada de muito mau gosto."

Vou olhando um a um e os seis testes que ele trouxe e que mostram o mesmo resultado.

"Estou grávida!"

Faz muito tempo que matei esse sonho dentro de mim, por acreditar que nunca fosse acontecer. Lembro as palavras exatas que o médico me disse, cravando de vez um punhal no meu peito.

— Mulheres que são diagnosticadas com endometriose podem engravidar, porém, possuem apenas cerca de 5 a 10% de chances, devido à diminuição da fertilidade — ele me olhou com pena. — No caso da senhora, é ainda mais difícil devido a outros fatores que dificultam ainda mais, eu diria que apenas 1% de chance e se chegar a isso.

Eu fiquei arrasada, o médico ainda falou da cirurgia e do tratamento para diminuir o desconforto e as fortes dores que eu sentia, apresentou uma alternativa, que seria o meu marido fazer o teste de espermograma, também chamado de viabilidade espermática, onde seria verificado se os espermatozoides estavam em boa qualidade e se possuía boa velocidade, o que seria fundamental para a fertilização do óvulo. Ele se recusou veementemente e quando chegou em nossa casa, arrumou suas coisas e foi embora, disse que não ficaria com uma mulher seca. Três meses depois, os papéis do divórcio foram entregues por um advogado que também ficou responsável pela venda da casa, da qual eu deveria sair imediatamente, e desde então, nunca mais o vi.

Deixo as lembranças de lado quando ouço uma batida na porta, e reunindo uma coragem que não tenho, saio do banheiro e ele me olha em expectativa.

— E então? — como não digo nada, Levi entra no banheiro, retornando em seguida com os testes na mão e um vinco na testa.

Antes que ele diga qualquer coisa, eu falo.

— Não se preocupe. Eu não espero que você faça de mim uma mulher honesta e muito menos que se relacione comigo — murmuro baixo.

— Do que está falando? Tem uma criança envolvida aqui, não se trata de nós dois apenas. Vamos nos casar.

— Não quero me casar com você. Nós nem gostamos um do outro! O que temos é sexo, puro e simples.

— Gostamos o suficiente em todas as noites que transamos como loucos — lembrou-me, o calor de seu olhar me aquecendo por inteira.

Eu não queria me iludir, imaginando ter visto um brilho diferente em seus olhos e por isso o desafio.

— Aquilo foi apenas sexo — levanto o queixo.

Levi Martinelli

Eu deveria ficar aliviado com sua recusa, porém, no mesmo instante recrimino-me. Mas devo insistir na questão do casamento? Baseado em quê? Atração sexual?

— Deveríamos conversar Srta. Morgan... Lindsey — a chamo pelo nome, formalidades já não são necessárias, não eram antes, menos ainda agora. — Não existe a opção de não nos casarmos.

— Mas nos casarmos é um engano, ainda mais por causa de uma gravidez que eu nem ao menos sei como isso é possível e onde fica o amor? — ela fala com a voz trêmula. — Ainda não acredito que seja verdade.

— Sei muito bem como foi feito. Não creio que haja engano algum, e se tem alguma dúvida quanto ao fato de ser verdade ou não, isso pode ser facilmente resolvido com um exame de sangue — ressinto-me com suas palavras e luto para controlar meu temperamento, preciso agir com praticidade, ela de fato parece muito chocada. — Amanhã cedo venho lhe buscar para ir ao médico comigo, por hora, vou deixar que pense — caminho para a saída, mas antes de abrir e sair, eu me volto para ela e digo. — Mas, se o resultado de amanhã for igual ao de hoje, nos casaremos o quanto antes e não aceito um não como resposta.

— E vai fazer o quê? Obrigar-me? Eu nem gosto de você...

Sorrio sem vontade. Sei muito bem quando uma mulher tenta mascarar o que sente, e com Lindsey não é diferente. Com passos lentos faço o caminho de volta até ela e com a boca bem próxima do seu ouvido e a voz baixa, eu digo.

— Não irei obrigá-la a nada, assim como você foi receptiva em todas as noites em que estivemos juntos, onde você se mostrou tão ardente e desejosa de ter um sexo gostoso comigo, quanto eu com você, aceitará ser minha esposa, porque a atração que existe entre nós é inegável, e além do mais, o que está em jogo vai muito além da nossa vontade.

Dizendo isso, dou um beijo em seus lábios e a deixo com os olhos arregalados, processando minhas últimas palavras.

Levi Martinelli

Logo cedo, passei na casa de Lindsey e fomos ao médico como combinado, de lá seguimos para o laboratório para ela colher sangue, devido ao número reduzido de funcionários por conta das festas de fim de ano, o resultado só ficaria pronto na hora do almoço, então fomos para a empresa e no horário combinado voltaríamos os dois para buscar.

Como ela estava muito enjoada pela manhã, resolvo eu mesmo ir buscar um café para mim na cantina, passo por sua mesa e está vazia, imagino que tenha ido ao banheiro.

Quando estou me aproximando da porta, escuto umas vozes de mulheres conversando baixo, à medida que vou seguindo, vai ficando mais nítido, então estaco de repente com o que escuto.

— Ainda não acredito que nosso chefe é gay. Que desperdício, um homão daqueles.

Estou possesso de raiva e minha vontade é de entrar e demitir essas fofoqueiras que ficam de conversa fiada em pleno expediente e ainda mais espalhando fofoca falsa. Mas então o que ouço a seguir me deixa chocado.

— Mas pode acreditar, você ouviu com seus próprios ouvidos o que a secretária dele falou.

"O quê? O que aquela maluca andou falando."

— É, eu sei... Como secretária dele, ela deve saber de todos os babados. E enviar presentes em seu nome para o namorado deve ser o mínimo.

"Namorado? Que loucura é essa?"

— Quem será o tal cara que é o namorado?

Isso já foi longe demais. Entro na sala e elas levam o maior susto.

— Por acaso está faltando o que fazer, que as senhoritas estão de conversa fiada esta hora na cantina? Imagino que não, então sugiro que em vez de ficar especulando a vida do patrão de vocês, procurem o que fazer, ou serão demitidas por justa causa — elas estão petrificadas no lugar. — Saiam daqui agora — grito.

Desisto do café e volto para minha sala muito puto, quando passo por sua mesa, ela já está lá, digo sem nem ao menos parar.

— Minha sala agora.

Ela demora uns dois minutos e entra, ver seu rosto pálido diminui um pouco minha raiva, respiro fundo e digo.

— Srta. Morgan, descobri a pouco que é uma das suas atribuições, enviar presentes em meu nome.

— Eu...

Ela arregala e os olhos e abre a boca, mas antes que prossiga com qualquer coisa que iria dizer, eu continuo.

— Então por gentileza, encomende um buque de rosas vermelhas e envie neste endereço... — começo a escrever num bloco de papel, em seguida estendo para ela.

— Eu posso explicar...

— Guarde suas explicações. Tenho certeza que quando esteve gemendo embaixo de mim não me achou nada gay.

Seus olhos que já são grandes ficaram ainda maiores...

— Gemer e gozar são duas coisas bem diferentes, fingir então, mais fácil ainda e conhecendo o seu ego gigante, sei que gosta de barulho — desaforada, disse e se encaminhou para porta, antes que saísse, agarrei seu braço a puxando e olhando bem dentro dos seus olhos, respondi.

— No momento oportuno vou sentir muito prazer em fazer você engolir cada uma dessas palavras e duvido muito que vá fingir e muito menos que consiga andar no dia seguinte — a soltei e ela cambaleou para fora da sala.

Essa mulher está acabando com minha paz de espírito.

Consulto a hora e vejo que está quase na hora de sairmos, quando estou chegando perto de sua mesa, como de costume ela está falando sozinha.

— Onde já se viu, enviar flores para um endereço sem remetente... — ela solta um muxoxo e numa voz engraçada repete a frase do cartão: "Ansioso por sua chegada!"

— É porque é segredo — digo bem próximo do seu ouvido e ela solta um grito de susto.

— Sr. Martinelli, eu juro por Deus, que qualquer hora dessas vou fazer picadinho do senhor por me assustar desse jeito.

Acabo sorrindo da sua ameaça.

— Está na hora de irmos, vamos direto pegar o resultado e na volta almoçamos.

Ela não diz nada, apenas pega a bolsa e me acompanha.

Depois que saímos do laboratório com o resultado que eu tinha certeza que seria este, em mãos, a guiei para o carro e em vez de voltar para a empresa, vim direto para minha casa.

Ela parecia não acreditar naquilo que estava diante dos seus olhos, passou quase meia hora, apenas olhando para aquele pedaço de papel e quando enfim pensei que ela falaria algo, ela entrou numa crise de choro e a única coisa que pude fazer foi oferecer meu ombro. Quando se acalmou, ela acabou adormecendo em meu sofá.

Coloquei uma manta para aquecer seu corpo, mas ali não era o melhor lugar para ela ficar, então com muito cuidado para não acordá-la, resolvi levá-la para minha cama que é mais confortável, quando acordasse providenciaria alguma coisa para ela comer.

Quase três horas depois, enfim, ela acorda e ao me aproximar da cama, sento e digo com a voz calma.

— Nós vamos nos casar o quanto antes. Se você tiver algo marcado para o Natal e Ano Novo, cancele. Você vai passar comigo e com a minha família em Toronto, onde pretendo apresentá-la como minha noiva.

— E se eu não quiser ir?

— Não estou lhe dando essa opção — levanto e pego a bandeja que preparei para ela na mesinha. Com a voz mais branda, digo. — Agora coma, tem que se alimentar por dois.

— Sr. Martin...

Lindsey é uma mulher extraordinária, mas vive na defensiva. Imagino que isso seja um mecanismo de defesa, que não saiba o que é ser amada e cuidada por alguém. Então serei eu que vai lhe ensinar isso, preciso apenas ter um pouco de paciência.

— Levi — digo, colocando um dedo em seus lábios. — Escute, sei que começamos a nos relacionar de forma inusitada, mas existe uma atração sexual muito forte entre nós e mesmo que não exista amor, como você mencionou outro dia, com o tempo ele pode surgir — eu sorrio. — Tirando suas loucuras, e eu até gosto delas, nós nos damos muito bem, podemos ter uma convivência razoável, não podemos pensar apenas em nós, agora existe um pequeno ser que será totalmente dependente de nós dois.

— Isso é loucura.

— Viver é uma loucura, Lindsey, podemos tentar viver essa loucura juntos. O que me diz? — ela fica pensativa e por fim fala.

— Tudo bem... Vamos tentar.

Sorrio, ela retribui o sorriso e a certeza de que estamos fazendo a coisa certa se fortalece em mim.

— Vai dar certo.

Os dias que seguiram foi uma verdadeira loucura. Ela praticamente dormia na minha casa todos os dias, os enjoos estavam cada vez mais fortes, mas o médico disse que era normal nesse primeiro momento.

(...)

O Natal com minha família é um capítulo a parte, minha avó caiu de amores por ela e quando soube do bisneto fez a maior festa. Meu relacionamento com ela pegou a todos de surpresa, ainda mais quando anunciei o casamento, o que resultou numa discussão acalorada com meus pais, devido algumas tradições da família que eles insistem em jogar nos meus ombros. Deixei muito claro para todos que da minha vida cuido eu. Meu pai acabou por aceitar, minha mãe nem tanto.

Agora estamos aqui, em plena noite de réveillon, em Toronto, no restaurante 360 localizado no topo da torre CN Tower de onde temos uma vista privilegiada, aguardando a queima de fogos.

Ela saiu para ir ao banheiro tem uns dez minutos, preocupado, penso em ir até lá para ver se não está passando mal, vou até minha avó, lhe dou um beijo e digo que não me espere, ela me dá um sorriso cumplice e eu sigo para Lindsey. Quando estou me aproximando, vejo um cara segurando em seu braço e ela tentando se soltar. Quando me aproximo, escuto o que estão dizendo.

— Solte meu braço, está me machucando!

— O que uma mulher como você está fazendo aqui? Deu o golpe em algum velhote que não queira filhos, contou que é seca?

Eu enxerguei vermelho, puxei o desgraçado de junto dela e desferi um gancho de direita e em seguida outro com a esquerda em sua cara, ele cambaleou e caiu. Só não dei mais porque me seguraram.

— Soltem-me agora — gritei enraivecido, apontei o dedo para o desgraçado e disse. — Nunca mais dirija uma única para minha mulher ou arranco cada um dos seus dentes.

Olhei para ela que estava parada num canto com os olhos arregalados e estendi minha mão.

— Venha! — ela segura, a puxo para mim e em seguida caminhamos para o elevador.

— Não vai ver a queima de fogos com seus pais e o resto da família?

— Fiz isso durante todos os anos da minha vida. Desta vez quero passar a virada de ano com você.

— Onde estamos indo?

— Aluguei uma suíte num hotel aqui ao lado para nós dois — a safada dá um sorriso e eu estou quase agarrando ela aqui mesmo, dentro do elevador.

Afastando o pensamento para não ser preso por atentado ao pudor, pergunto quem era o imbecil que a atacou e fico sabendo que é o ex-marido que a largou anos atrás.

— Obrigada por ter me defendido.

— Fiz apenas o que um homem faz. Protege a sua mulher.

Ela fica sem graça, mas acaba me dando um sorriso. Quando já estamos entrando na suíte, ela pergunta.

— Tem certeza que não quer voltar para ficar com seus pais? Eu não me importo de voltar para lá. Sua mãe já não gosta de mim e eu, afastando o filhinho querido dela, é pior ainda.

— Não sei de onde você tira essas coisas — digo, mas no fundo sei que é verdade. — Mas não viemos aqui para falar da minha mãe.

Enquanto falo, eu vou descendo o zíper do seu vestido e passeando meus lábios por seu pescoço delgado. Apenas de calcinha e sutiã, eu a empurro em cima das almofadas da cama e começo a me despir, ela não perde um movimento meu, me olhando de forma sedutora, me comento apenas com os olhos. Depois de liberar minha ereção que pulsava por libertação, eu me posiciono em cima do seu corpo esguio e perfumado.

Levo minha mão para trás do seu corpo e não encontro a porcaria do fecho de sua peça íntima, com um sorriso provocante, ela leva sua própria mão para frente e abre, revelando os mamilos rosados diante dos meus olhos, eu não perco tempo e os submeto a exploração da minha boca em uma carícia com movimentos circulares com minha língua.

Concentro-me em lhe proporcionar tanto prazer, que quero ver essa safada dizer na minha cara que era fingimento. Enquanto gemia inebriada de desejo, ela acariciava minhas costas e ombros com as mãos delicadas e eu já estava me preparando para quando ela colocasse as garras de fora.

— Levi, não vou aguentar. Quero você agora.

— Calma, só estamos começando, ainda temos a noite inteira só para nós.

Levo minha mão até a lateral da sua calcinha e rasgo um depois o outro lado, expondo seu sexo pulsante diante de mim. Passo meus dedos de cima para baixo e depois o inverso, em seguida levo até minha boca e chupo.

— Deliciosa — minha voz sai de forma grave.

Sexo com a Lindsey sempre foi maravilhoso, tanto que mesmo em meio a um quase coma alcoólico, ela me marcou de uma forma que minha mente não conseguiu esquecer.

Abaixo a cabeça em direção ao seu centro quente e molhado, com lambidas e sucções, eu vou levando nós dois a loucura, quando percebo que ela está quase gozando, eu paro e a viro de costas, empinando sua bunda, ela protesta com minha a interrupção, mas logo em seguida geme quando volto a chupar seu clitóris nessa posição.

Ela fica alucinada e rebola em meu rosto, me fazendo abocanhar sua boceta por inteira, então ela se entrega a um gozo que estremece todo seu corpo e só de sacanagem eu sopro seu ponto sensível, e mais uma vez seu gemido preenche o ar.

Com o corpo mole pós-gozo, ela desaba na cama e eu coloco meu braço por baixo do seu corpo, suspendendo seu belo traseiro.

Coloco meu pênis em sua entrada, jogo a cabeça para trás enquanto vou entrando bem devagar, centímetro a centímetro e me enterro por inteiro apreciando o contato. Ela se contrai, me apertando, evito me mover. Então eu saio quase que totalmente de dentro dela, deixando só a cabeça na beirada e me enfio todo de uma vez novamente.

— Ahhhh... — seu gemido ecoa pelo quarto ao receber meu impulso.

A safada começa e rebolar de novo, se contraindo e me apertando. Estou chegando ao meu limite, ela é muito gostosa.

Começo a me movimentar com rapidez, de forma que sinto minhas bolas batendo contra seu traseiro firme, seguro nas laterais para proporcionar um ritmo cadenciado e vou cada vez mais fundo e mais rápido e outro orgasmo a atinge.

— Porra! — digo fazendo o movimento mais algumas vezes, até gozar, fechando meus olhos, viajando nas ondas de prazer que este momento me dá.

Os fogos começam a explodir lá fora e ainda dentro dela, ofegante com respiração acelerada, eu digo.

— Feliz Ano Novo, querida.

Capítulo 3

Levi Martinelli

Olhando Lindsey adormecida ao meu lado, penso em como a vida é uma caixinha de surpresas. Quem diria que hoje estaríamos à caminho da Itália para o nosso casamento. Como ela não tem família, apenas uma tia idosa, que está com o filho em outro país e está um pouco adoentada, não pôde viajar, e uma amiga, a qual com quem dividia o apartamento e que também não pode comparecer. Será só a minha família mesmo na cerimônia.

Ela resistiu o quanto pôde, mas, eu soube usar bons argumentos.

Ela continua tão atrapalhada como quando a conheci, poucos meses atrás. Pensar naquele dia, traz um sorriso ao meu rosto.

Realmente o mundo dá muitas voltas.

Eu estava tão estressado, não sabia o que pensar.

Depois de horas dentro de um avião, eu fui direto para a empresa do meu pai. Naquele dia estava se encerrando o prazo que dei a meu pai, ou ele tomava uma atitude ou tomaria, eu. Não aguentava mais tanta enrolação. Apesar de ter conseguido meu primeiro objetivo, eu não consegui me livrar da ideia que minha mãe fixou na cabeça dela, até hoje ela me enche com isso e mesmo que tente disfarçar para minha noiva, sei que minha mãe não engoliu meu casamento repentino.

Amo minha família, tenho muito respeito por eles, mas jamais permitirei que me tratem como um moleque. Se eles pensam que tomarão as rédeas da minha vida estão muito enganados. Principalmente minha mãe, que mantém essa ideia de seguir à risca as tradições familiares.

Há muito tempo resolvi que seguirei meu caminho sem essa droga toda, e não permitirei o contrário. Essa história de tradição familiar é uma furada e se para eles funcionou, beleza, comigo não. E o primeiro passo era sair da Itália.

Cresci vendo o que a frustração pode causar às pessoas, ainda mais por se sujeitarem a fazer o que os outros querem e não aquilo que têm vontade.

A verdade é que não precisei usar muitos argumentos, meu pai já estava meio cansado de tudo isso, ele é um homem do campo e ama tudo que nossa Quinta representa. Foi fácil mostrar o quanto ele estava perdendo longe de tudo aquilo lá. Enquanto estive na faculdade, administrei os negócios de produção de vinhos e de azeite com excelência, tornamo-nos referência nesse quesito em toda a Itália e minha nonna, era só elogios para mim.

Eu também amo nossa Quinta, cresci naquelas terras, correndo livre em meio às oliveiras ou as parreiras, poucas vezes estava no Canadá com meus pais, preferia ficar na Toscana. E até hoje acho uma das regiões mais lindas de toda Itália.

Não apenas a minha família, mas algumas outras também eram produtoras de vinhos, que são distribuídos por todo o país e para fora dele.

Eu estava feliz, mas, as implicações de permanecer lá, não me agradavam, ainda mais depois que Lorenzo se casou com nossa prima Giovanna, e todas as atenções se voltaram para mim. Então resolvi mudar o rumo das coisas.

Sem que minha família soubesse, comprei um apartamento no Canadá, onde pretendia me estabelecer, já que conhecia muito bem o país, peguei as chaves do meu novo lar, que estava com a decoração pronta, tinha recebido a ligação no dia anterior, me informando, dez dias antes do prazo.

Perfeito!

De dentro do táxi, observei a fachada imponente da Martinelli Corporation, criada por meu avô e repassada ao meu pai, e se tudo desse certo como eu esperava, logo estaria sob meu comando. E assim foi...

Mas o inusitado foi o que aconteceu antes disso.

Depois de pagar a corrida, coloquei meus óculos escuros, descendo em seguida do carro. Abotoei o terno e com passos firmes, segui disposto a resolver a questão que me levara até ali.

Adentrei o saguão, estava tão concentrado em meus pensamentos, que não me dei conta de que ia esbarrar em alguém, só percebi quando senti o impacto e ouvi sua voz.

— Ai...

Minha primeira reação foi segurá-la, mas, absorto como estava, meus reflexos ficaram lentos e ela foi de bunda no chão, espalhando os papéis que estavam em suas mãos.

— Perdono (perdão), não vi você — ajudei a recolher as folhas e vi que eram contratos da empresa. Ela deve ser funcionária daqui — pensei.

— Eu estava distraída, mas o senhor podia olhar por onde anda — que ragazza (garota) desaforada.

Encarei-a, boquiaberto, a mulher de cabelos castanhos, olhos verdes, nariz empinado, um corpo de chamar a atenção, tem também uma língua afiada. Eu pedi desculpas e ela me responde assim?

— O mesmo vale para a senhorita — ela arregalou seus olhos verdes, que são muito expressivos, ia dizer alguma coisa, mas acabou desistindo.

— Dá-me isso aqui — pegou as folhas da minha mão. — Vou ter o maior trabalho para organizar tudo isso de novo e a culpa é sua.

— E sua, já que estava distraída — usei sua fala contra ela mesma. Dei um sorriso de lado para amenizar o clima. Levantei lhe estendendo minha mão.

Ela olhou e fazendo pouco caso, ignorou e levantou-se sozinha.

Recolhi minha mão, um pouco desconfortável, desmanchei o sorriso.

“Que mulherzinha mais ranzinza” — pensei.

Olhei seu crachá, vendo seu nome e logo abaixo escrito presidência.

Antes que eu dissesse mais alguma coisa, ela caminhou para um corredor sem dizer uma palavra.

“Tanto melhor” — analisei comigo mesmo.

Caminhei para o elevador com um sorriso se instalando em meus lábios.

— Pelo jeito, se eu ficar por aqui, vai ser interessante — disse em voz alta.

Saí do elevador e como não tinha ninguém na recepção, fui direto para sua sala.

Depois de cumprimentar meu pai. Sentamos para conversar e antes que eu entrasse no assunto que me levou até ali, ele disse.

— Sabe filho, pensei muito em nossa última conversa e acho que você tem razão. Que sua mãe não me ouça — disse, fazendo graça. — A verdade é que já não quero mais nada disso, isso agora é para você, que é jovem e está com todo gás. Seu irmão jamais vai querer assumir isso aqui — ele fez um gesto com a mão, mostrando todo o lugar. — Recebi esta empresa como herança de seu avô Enrico, que batizou com o nome da família, mesmo não sendo um Martinelli.

— Sim! Conheço a história...

— Pois bem, resolvi que vou me aposentar, nem da Quinta vou cuidar, quero viajar, já trabalhei muito. Seu primo Pietro pode muito bem cuidar de tudo lá, enquanto você está aqui. Lorenzo só quer saber daquele consultório dele, sua irmã é muito nova.

— Apesar de não confiar no Pietro, acho que essa é a melhor solução e estando lá, nos intervalos de cada viagem, você pode acompanhar por cima como andam as coisas.

— Também não confio. Porém, não tem outro jeito, e querendo ou não, aquilo lá também é dele.

— Sim...

— Só preciso lhe passar alguns detalhes com relação às negociações que estou com a companhia Ferrell, é um processo de fusão, vou lhe explicar tudo e também detalhes e arranjos com alguns funcionários, e esses arranjos devem permanecer como estão.

E assim ele foi me explicando tudo até que o interfone de sua mesa tocou e ele autorizou a entrada da gestora de projetos, de quem tinha acabado de falar. Eu nunca tinha visto alguém com o rosto tão angelical, não conseguia desviar meus olhos da direção dela.

— Srta. Welsh, por gentileza, venha aqui. Gostaria que conhecesse meu filho — meu pai disse e eu me levantei. — Vocês vão trabalhar muito juntos. E ela está à frente do planejamento para que a fusão com os Ferrell seja um sucesso — dirigiu a mim a última frase.

Corada, ela se aproximou de mim e estendeu sua mão.

— Como vai Sr. Martinelli? É um prazer conhecê-lo — sua voz era doce e firme, segurei em sua pequena mão. — Seu pai já tinha me avisado de que ficaria à frente da empresa.

— Levi, apenas Levi e o prazer é todo meu — eu ainda segurava sua mão e ela deu uma leve puxada. Soltei de imediato.

— Sente-se querida — meu pai falou e o clima estranho que havia se formado foi desfeito. — Fale um pouco do projeto para ele se inteirar.

Eu não pretendia me demorar ali naquele dia, mas estava tão fascinado com tudo que ouvia e com quem estava à minha frente, que eu prestava a atenção em tudo, não perdia um movimento seu.

As horas se passaram tão rápido, que quando dei por mim, era hora do almoço e ela precisou ir. Ainda a convidei para almoçar conosco, mas, ela recusou alegando um compromisso e meu pai me explicou que seu trabalho era meio expediente e assim deveria permanecer, pois, ela cuidava do filho pequeno. Lembro que me senti frustrado, não tinha percebido que era casada, o que vim a descobrir mais tarde que estava enganado. Mas não adiantou muito, já que ela nunca me deu bola e hoje agradeço por isso.

Naquele mesmo dia, tive um segundo encontro com a maluquinha do saguão e foi inevitável soltar uma gargalhada quando vi sua cara ao saber que eu seria seu novo chefe.

Estava saindo da sala, acompanhado por meu pai.

— Agora vai conhecer sua assistente, ela é meio... Como é mesmo a palavra que ela usou? — ele tentou se lembrar. — Estabanada, isso, foi essa a palavra, mas é inteligentíssima e igualmente eficiente. Está conosco desde o estágio, assim como a Srta. Welsh.

Quando ele a chamou, ela estava distraída, parece que esse é seu estado permanente, então, acabou batendo no copo com água que foi direto para os seus pés, molhando seu sapato esquerdo.

— Desculpe senhor, não o vi chegar... — parou de falar quando me viu.

— Tudo bem senhorita, quero que conheça seu novo chefe, Levi Martinelli, meu filho.

Ela arregalou tanto os olhos, que por um momento tive medo que saíssem das órbitas. Meu pai pediu licença para atender uma ligação no minuto exato que estendi minha mão para ela e disse.

— Prazer senhorita — olhei seu crachá novamente. — Morgan... — ela segurou minha mão e não disse nada, então me aproximei um pouco e disse. — O que foi? O gato comeu sua língua?

Afastei-me a tempo de ver um brilho surgir em seus olhos e desaparecer com a mesma velocidade, fazendo-me questionar se tinha visto ou se foi impressão minha.

— Prazer, senhor — respondeu por fim. Então eu gargalhei ao ver a senhorita atrevida toda mansinha. Porém, sem que eu esperasse, ela respondeu baixo para que apenas eu escutasse. — Ainda não foi dessa vez, mas qualquer hora, ele pode comer a sua.

Mal sabia eu que acabaríamos como estamos hoje. Volto ao presente observando seu ressonar tranquilo.

Olho seu rosto sereno, tive que pedir a obstetra um calmante para ela relaxar durante o voo, ela tem pavor de aviões e nas duas vezes que viajamos a trabalho, ela só foi e voltou assim, apagada.

A decisão de me casar com ela não foi bem recebida por minha mãe, que fez o maior drama e ameaçou nunca mais falar comigo.

Lembro-me de nossa discussão acalorada.

Fazia dois dias que eles tinham chegado ao Canadá, eu ainda estava aturdido com a ideia de ser pai. Tinha ligado mais cedo avisando de minha ida até o hotel e quando entrei no ambiente, quatro pares de olhos me encaravam como se soubessem o que fui fazer ali.

— Levi, meu filho. Que saudade — minha mãe foi a primeira a me abraçar. Retribui e fui em seguida beijar minha nonna (avó).

— Você está me saindo um neto muito ingrato, deixando essa velha morrer aos poucos com saudade de seu piccolo (pequeno). Não pense que me comprou com aquelas flores...

Sorri, lembrando-me das circunstâncias que me fizeram enviá-las.

— Eu sempre soube que ele era o seu preferido, nonna — minha irmã Julianna disse me abraçando.

— Também estava com saudade de vocês — beijei minha irmã e fiz um afago em minha nonna, que sorriu com os olhos. — Fico feliz que estejam aqui agora — olhei para meu pai. — Pai, como vai.

— Bem, filho e por aqui como andam as coisas?

— Pare com isso Joseph, deixe o bambino (menino) conversar com a nonna dele que está morta de saudade — minha nonna tem essa mania de me tratar como se eu fosse um garotinho, desisti de reclamar com ela há muito tempo.

— Na verdade quero falar com todos. Tenho algo importante a dizer — disse observando o semblante de cada um.

— O que é? — minha mãe perguntou antecipando-se aos demais e foi logo se sentando.

Não existe uma maneira fácil de contar algo, ainda mais quando você sabe o que lhe espera. Então fui direto.

— Vou me casar!

— O QUE VOCÊ DISSE, LEVI? — minha mãe falou alterada, se colocando de pé no mesmo instante.

— É isso que vocês ouviram, vou me casar, minha noiva vai passar as festas conosco, assim vocês poderão conhecê-la.

— Você só pode estar ficando louco. Já é comprometido com Kiara, esqueceu?

— Eu não sou comprometido com ninguém. Quando vai entender isso? Nunca vou aceitar essa tradição ridícula que inventaram. Isso é coisa do século passado.

Olhei para minha nonna que me observava sem esboçar nenhuma reação. Era impossível saber o que se passava por sua cabeça. Mas mesmo correndo o risco de desapontar a pessoa que mais amo e respeito, não iria baixar minha cabeça.

— Quem é ela? Alguém que conhecemos? — meu pai perguntou.

— Claro que não, deve ser uma qualquer que conheceu aqui nessa cidade.

— Ela não é nada disso que a senhora está falando e sim, pai, o senhor a conhece. É a Lindsey — ele me lançou um olhar confuso, tratei de esclarecer. — Srta. Morgan.

— Sua secretária? — perguntou incrédulo.

— Ela mesma. Vamos nos casar o mais rápido possível.

— O que você fez, seu irresponsável? — minha mãe puxou meu braço. — Você tem um compromisso com...

— Eu não tenho nada com ninguém a não ser com minha noiva, não vou voltar a repetir, entenda isso de uma vez. E não vai ser uma tradição idiota criada pelo clã Martinelli a milhares de anos por se acharem extraordinários e não querer misturar seu sangue puro com outros, que me fará mudar, se vocês se sujeitaram a isso, muito bem, comigo será diferente.

— Levi baixe o tom... — meu pai falou baixo. — Se quer ser respeitado, respeite também.

Respirei fundo, passando a mão na cabeça. Olhei em direção a minha irmã que estava encolhida em um canto. Minha nonna ainda era uma incógnita.

Em 1880, um ancestral de nossa família criou o ritual de manter o sangue da família puro, casando-se apenas entre eles, ou seja, os primos de uma casa eram prometidos a outros primos ainda no momento do nascimento e crescia sabendo disso para não se desviar da tradição e assim foi à sequência histórica das gerações seguintes.

Até hoje.

Comigo será diferente.

— Tudo bem. Eu só vim avisar mesmo. A decisão está tomada e se ela não for bem recebida por vocês, eu sinto muito, mas não passaremos este fim de anos juntos.

— A escolha é sua, se quer assim o problema é seu. Saiba que não vou aceitar isso...

— Francesca, já chega — minha nonna falou. — Figlio — ela fez um gesto com a mão. Aproximei-me e agachei ao seu lado. — Leve sua noiva...

— O quê? — minha mãe exclamou chocada.

— Calada! É isso mesmo, vamos recebê-la com toda educação e respeito como noiva do nosso bambino.

— Mamma...

— Ainda não acabei Joseph — ela cortou meu pai. — Mas antes, você vai trazê-la para um almoço comigo — pegou minha mão fazendo uma leve pressão. — E não se preocupe que se for preciso, amordaço esses dois.

Eu não pude evitar sorrir, sabia que seria tenso, mas ter o apoio de minha nonna foi crucial para mim. Julianna se aproximou e me abraçou, sorrindo tanto quanto eu, ela sabia o que aquilo significava.

Meu pai relutou um pouco, mas depois aceitou numa boa, porém, quem me surpreendeu mesmo, foi minha nonna, isso, não posso negar.

No tal almoço acabamos contando sobre nosso filho, que infelizmente não foi motivo de alegria para minha mãe, que pediu licença e saiu, meu pai foi logo atrás dela, nem com essa notícia, ela deu o braço a torcer.

Depois daquele dia, levei Lindsey para passar as festas de fim de ano comigo e minha família, no início ficou um pouco estranho, mas depois, ela caiu nas graças de minha nonna e não se desgrudaram um minuto, me senti até um pouco aliviado com isso.

Espero que ela seja igualmente bem recebida em nossa Quinta, ainda mais por minha mãe, ou não vai prestar. Ela tem que aprender a respeitar minhas decisões e principalmente a mulher que escolhi.

Olho meu relógio, ainda faltam quarenta minutos de voo, recosto-me no assento e fecho os olhos. Que tudo dê certo durante esses dias, e Lindsey seja bem tratada, o contrário, eu não irei tolerar.

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