Capítulo 2

Eu estava revisando a última pergunta do questionário quando ele quebrou o silêncio de uma forma que me pegou completamente desprevenida.

Antes de continuarmos... quero lhe perguntar algo.

Levantei os olhos das folhas, um pouco confusa. O tom dele estava mais relaxado, quase casual, mas seus olhos ainda eram intensos, como se cada palavra que ele dissesse tivesse um peso que eu ainda não entendia.

Você tem namorado?

Senti como se tivessem jogado um balde de água fria em mim. Minha mente começou a girar em todas as direções, tentando encontrar uma explicação lógica de por que um homem como ele gostaria de saber algo tão pessoal. Não havia nada no questionário que sugerisse que ele deveria me fazer perguntas.

O quê? - minha voz saiu mais aguda do que eu pretendia, e eu precisei limpar a garganta para recuperar a compostura. - Não... não tenho namorado.

Não sei por que falei tão rápido, como se fosse algo importante para ele saber. Talvez porque estivesse nervosa ou porque o olhar dele fixo não me dava trégua.

Interessante. - Um sorriso sutil apareceu nos lábios dele, o suficiente para eu não conseguir adivinhar se ele estava falando sério ou apenas brincando comigo.

Por que pergunta? - ousei perguntar, embora imediatamente me arrependesse da ousadia.

Curiosidade. - Ele deu de ombros com uma naturalidade que me deixou sem palavras.

O silêncio se estendeu por um segundo desconfortável, mas antes que eu pudesse fugir para o próximo ponto do questionário, ele me parou com outra pergunta.

E agora, me diga... quem é Aletxa Velázquez?

Fiquei olhando para ele, piscando como se não tivesse entendido as palavras.

Desculpe?

Quero saber sobre você. Não o que veio perguntar de parte da sua amiga, mas sobre você.

Eu... não acho que isso seja relevante.

Para mim, é.

Havia algo na maneira como ele disse isso, uma firmeza tranquila que me desarmou. Não estava acostumada a que alguém demonstrasse interesse na minha vida, especialmente alguém como ele. Olhei para baixo, tentando encontrar as palavras certas.

Não há muito o que dizer.

Deixe-me julgar isso.

Suspirei e me armei de coragem. Se ele queria saber, não fazia sentido mentir.

Bem, sou estudante de arqueologia. Estou no último ano do curso. Amo o que estudo, embora não seja fácil. Tenho que trabalhar para pagar os meus estudos, então passo metade do meu tempo entre as aulas e empregos temporários. Nada emocionante.

E que tipo de empregos?

O que eu encontrar. - Dei de ombros. - De garçonete a assistente em uma loja de antiguidades. Não sou exigente, desde que me ajude a me manter.

E por que arqueologia?

O interesse genuíno dele me desconcertava. Não era só uma pergunta de educação; parecia realmente curioso.

Sempre me fascinou o passado. Saber que houve pessoas antes de nós que deixaram suas marcas, coisas que nunca entendemos totalmente... me parece incrível. Além disso, acho que é uma maneira de dar voz a quem não pode mais falar.

Percebi que havia falado com mais paixão do que pretendia. Olhei para baixo, envergonhada, mas quando olhei de relance para ele, vi algo diferente na expressão dele. Ele não parecia mais apenas um homem poderoso acostumado a ter o mundo ao seu redor; por um momento, ele parecia admirar-me.

Isso é nobre. - Sua voz estava mais suave agora, como se estivesse processando minhas palavras.

Suponho. Mas não é tão impressionante quanto o que o senhor conseguiu.

Ele balançou a cabeça.

O que eu consegui é só o resultado de ter recursos. Mas você... trabalha, estuda, e ainda encontra tempo para sonhar. Isso sim é impressionante.

O rubor voltou às minhas bochechas, mas dessa vez não era de nervosismo. As palavras dele tinham um peso que eu não esperava, como se ele realmente valorizasse o que eu fazia.

Obrigada... eu acho.

Me diga, Aletxa, alguma vez você já esteve em uma expedição?

Balancei a cabeça rapidamente.

Não. Mal consigo pagar os estágios no laboratório da universidade, muito menos viajar.

Ele se reclinou na cadeira, cruzou os braços e me observou atentamente. Havia algo no olhar dele que parecia calcular, como se estivesse traçando um plano.

Isso tem que mudar.

Desculpe?

O fato de você nunca ter estado em uma expedição. É um desperdício de talento.

Não sabia o que responder. Era um elogio? Uma sugestão? Antes que eu pudesse perguntar, ele voltou a sorrir, dessa vez com um toque de mistério.

Bem, acho que isso é o suficiente por hoje.

Isso significa que terminamos a entrevista?

Por agora, sim.

Levantei-me desajeitada da cadeira, me sentindo como se estivesse acordando de um sonho estranho e intenso demais. Enquanto recolhia minhas coisas, ele permaneceu sentado, me observando com aquela expressão que eu não conseguia decifrar.

Foi um prazer conhecê-la, senhorita Velázquez. Espero que seja a primeira de muitas vezes.

Suas palavras me seguiram mesmo depois que saí da sala dele, com o coração batendo tão forte que temi que os outros pudessem ouvi-lo. Havia algo em Carlos Torres, algo além da sua fama e fortuna, que me fazia sentir que este não seria nosso último encontro. E, embora eu não soubesse o que isso significava, uma parte de mim não podia evitar esperar que ele tivesse razão.

Capítulo 3

Saí da sua sala com os pés trêmulos, aquele homem causava algo em mim, como se minha alma, meu corpo o reconhecessem. Estava prestes a entrar no elevador quando alguém me empurrou, me prensando contra o vidro do elevador.

- O que está acontecendo? - perguntei, procurando o agressor. Fiquei surpresa, era ele, Carlos Torres.

- Nunca faço isso, mas a verdade é que não consigo me conter mais - disse, enquanto suas mãos tomavam meu rosto.

Sua boca se colou à minha, no começo não sabia o que fazer, mas depois algo foi mais forte do que minha vontade de resistir.

O elevador parou com um leve puxão, e durante alguns segundos, a realidade ficou suspensa naquele pequeno espaço metálico. Meus lábios ainda queimavam, o sabor dele ainda estava ali, na minha boca, como um lembrete do que acabara de acontecer. Carlos permanecia na minha frente, sua respiração errática, sua testa encostada na minha. Por um momento, pensei que ele fosse falar, mas tudo o que fez foi fechar os olhos e apertar a mandíbula.

- Isso é um erro - murmurou, sua voz rouca, quase um sussurro.

Meus olhos buscaram os dele, mas ele não os abriu. Parecia perdido, como se estivesse lutando contra algo que não conseguia controlar. Quis me mover, me afastar, mas não consegui. Meus pés estavam presos ao chão, meu coração batia descompassado no peito, e minha mente estava em um caos.

- Um erro? - repeti, tentando não deixar minha voz tremer. Dói, embora eu não entendesse por quê. Como algo tão rápido poderia doer tanto, algo que eu mal havia processado?

Carlos se afastou um passo, deixando um vazio que me fez estremecer. Finalmente, abriu os olhos, mas não havia vestígio da paixão de antes. Estavam cheios de culpa.

- Não devia ter te beijado, não devia ter deixado isso acontecer - continuou, evitando me olhar diretamente.

Suas palavras me atingiram como um soco. Senti o calor que havia invadido meu corpo se transformar em gelo. A confusão se misturava com uma pontada de raiva, mas, principalmente, de dor.

- Então, por que fez isso? - perguntei, incapaz de me conter. Minha voz saiu mais alta do que eu esperava. Minhas mãos se fecharam em punhos ao meu lado.

Ele não respondeu imediatamente. Passou uma mão pelo cabelo, visivelmente frustrado, como se estivesse procurando as palavras certas.

- Não sei, não consigo explicar. É como se... como se eu não pudesse me controlar quando estou perto de você. Mas isso não deveria acontecer.

- Por que não? - retruquei, dando um passo em direção a ele. Meu coração ainda batia forte, e embora soubesse que estava me arriscando, não conseguia ficar em silêncio. - Não entendo, Carlos. Primeiro me beija como se... como se significasse algo, e agora diz que foi um erro. O que você quer de mim?

Ele me olhou, e nos seus olhos vi um brilho de algo que parecia tão confuso quanto o que eu sentia. Dor, desejo, medo... tudo misturado.

- Quero que você se afaste de mim, Aletza. Não volte à minha sala, não haverá mais entrevistas - disse, finalmente, sua voz firme, mas quase um sussurro.

As palavras dele foram um golpe direto no peito. Abri a boca para dizer algo, para perguntar o porquê, mas nada saiu. Como se esperava que eu reagisse?

- Se afaste? - repeti, incrédula. Dei um passo para trás, como se a distância física pudesse me proteger do impacto do que acabara de dizer. - Por quê? O que você está tentando proteger? A mim ou a você? Eu não vim aqui porque quis, vim fazer um favor.

Carlos suspirou, e por um momento, parecia mais cansado do que nunca.

- De ambos.

- Não entendo... - minha voz quebrou, e odiei o quanto soava vulnerável. Me forcei a erguer o queixo, a manter minha dignidade, embora por dentro me sentisse desmoronando. - Se me quer longe, então não me beije mais. Não olhe para mim assim, como se fosse me devorar. Não brinque comigo, Carlos.

Ele deu um passo em minha direção, e antes que eu pudesse recuar, tomou meu rosto entre as mãos. Seus dedos eram firmes, mas não me machucavam. Pelo contrário, seu toque era quente, reconfortante.

- Não estou brincando com você, Aletza - disse com uma intensidade que me deixou sem fôlego. - Você é... você é tudo o que eu não deveria querer, mas não consigo evitar. E isso me assusta.

Sua confissão me deixou paralisada. Não sabia o que dizer, o que fazer. Meu coração batia forte, como se fosse sair do peito.

- Por quê? - perguntei, minha voz mal era um sussurro. - Por que não deveria me querer?

Ele fechou os olhos e soltou um suspiro longo, como se carregasse um peso muito grande.

- Porque não sou o que você precisa, porque não posso te dar o que você merece. E porque... porque há coisas em mim que você não conhece, coisas que fariam você se arrepender de ter cruzado essa linha comigo.

As palavras dele me desconcertaram ainda mais. Quis perguntar o que isso significava, mas antes que eu pudesse, o som de uma campainha nos interrompeu. O elevador, ainda parado, começou a se mover novamente.

Carlos afastou as mãos do meu rosto como se queimassem e deu um passo atrás. O ar entre nós ficou tenso, quase insuportável.

- É melhor assim - disse, seu tom frio e distante, como se não tivesse me beijado com toda a intensidade que jamais experimentei.

Quando as portas do elevador se abriram, ele saiu sem me olhar, me deixando ali, sozinha, com um turbilhão de emoções que eu não sabia como lidar.

Fiquei parada por alguns segundos, incapaz de me mover, incapaz de processar tudo o que acabara de acontecer. O elevador se fechou e parou em outro andar, mas já não me importava.

O único fato que eu sabia com certeza era que Carlos estava fugindo, não só de mim, mas de algo que nem eu entendia. E embora cada fibra do meu ser quisesse segui-lo, quisesse entendê-lo, também sabia que havia algo sombrio dentro dele, algo que provavelmente me machucaria se eu me aproximasse demais, queria conhecê-lo mais.

Será que eu estava louca?

No entanto, o que mais me aterrorizava era que, apesar de tudo, queria correr esse risco, mesmo sem conhecê-lo, porque ele era um desconhecido para mim.

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