Capítulo 2

Marisa estava sozinha naquele lugar e muito ferida. Não queria morrer, mas era inútil lutar contra a fúria daquela mulher com uma adaga. Ela foi esfaqueada pela empregada misteriosa e ficou gravemente ferida no chão e sangrando. Quando a empregada estava prestes a matá-la com um golpe no coração, Dimitri apareceu de repente e conteve a empregada como um leão segurando-a pela mão. Aquela mulher cruel fugiu pela floresta, Marisa chorava de dor e Dimitri a pegou nos braços e ele foi a última coisa que ela viu, antes de desmaiar.

- Dimitri?

Ele saiu com ela em seu cavalo e o sangue deixava um rastro pelo caminho, o coração dele apertava a cada segundo e o medo de que a jovem morresse.

Marisa

Sinto meu corpo perder as forças segundo após segundo, essa dor parece me tirar o ar. Só posso sentir o calor do corpo de Dimitri me tirar o frio da morte, sinto que irei encontrar-me com minha mãe e os meus dias de sofrimento irão ser encerrados hoje.

[…]

Dimitri chegou com ela em seus braços e já desacordada, pediu que um médico cuidasse daquele ferimento…

- Eu ordeno que a salve, faça isso!

Todos que estavam presentes perceberam o temor que ele tinha por perder Marisa, mas os ferimentos pareciam ser graves demais. Ela foi levada para um quarto, seu ferimento foi limpo e colocaram-no algumas ervas, um tempo depois as notícias pareciam não ser nada boas.

- Sinto muito majestade, mas temo que eu não possa fazer nada pela donzela!

Dimitri suspirou, pensou no que poderia fazer naquele momento e só lhe ocorreu uma saída.

- Tragam a maga, se não há cura em nosso mundo… há de existir na magia.

- Sim, vossa majestade.

Enquanto os súditos foram buscá-la, Dimitri ficou ao lado de Marisa segurando sua mão que a cada momento parecia mais fria. Porém, a expressão de plenitude dela o fazia pensar.

- Você vai ficar bem!

Os súditos foram a cavalo às pressas para buscar aquela poderosa mulher, ela vivia longe do reino, mas estava sempre disposta a ajudar quem precisava de sua sabedoria.

- Viemos buscá-la a mando do rei Dimitri.

- Se ele precisa da minha ajuda, então ele a terá!

Ela precisou pegar algumas coisas para levar em sua missão, algumas ervas, livros para guiá-la no feitiço correto.

- Já estou pronta, podemos partir.

Deram-na um cavalo e ela seguiu com eles pela floresta o mais rápido que conseguiam, cada minuto poderia custar uma vida importante. Algumas horas mais tarde a maga chegou com seus apetrechos para tentar curar o corpo de Marisa, antes que fosse tarde demais. As duas ficaram a sós no quarto e ela preparava seus feitiços, mas algo a fez parar de repente para apenas admirar, um brilho de cor branca estava sobre a cama onde a menina estava.

- Só pode ser ela!

Ela saiu rapidamente e foi falar com Dimitri…

- Alteza, preciso que venha comigo um momento.

- Ela se salvou? - Ele perguntou preocupado.

- Essa jovem tem um véu, vossa majestade!

- O que significa isso?

- Ela tem poderes mágicos, pelo brilho intenso que irradia… ela é muito poderosa. Ainda é só uma menina, mas com o tempo seus poderes irão aflorar cada dia mais, tornando a maior de todas as feiticeiras que eu já conheci.

- Tem certeza do que está dizendo?

- Eu não tenho dúvidas!

Dimitri

Se ela tem reais poderes, poderá me servir e ajudar a combater a tirania de Octávio, só assim poderei vingar do assassinato de meu pai. Após sua morte, eu tive que aprender a reinar e me tornar um líder muito antes do que eu poderia imaginar… entrei no quarto, ela estava naquela cama e ainda em sono profundo. A maga me acompanhou, eu queria ver com meus próprios olhos a força que diziam, mas aparentemente ela não quis mostrar-se para mim.

- Alteza, se me permite um conselho, o senhor deve controlá-la e manter ao lado de nosso reino. Uma força como a dela é melhor que se mantenha dominada.

- Eu sei disso, ela é muito mais útil ao meu lado do que no meu caminho, mas diga-me como fazer para mantê-la sob meu domínio? Não sei como lidar com isso, preciso de sua sabedoria nesse momento.

Para ela era tão fácil entender, mas aquele jovem rapaz precisava de uma luz.

- Somente o amor é capaz de controlar uma mulher, alteza. Faça com que ela o ame de todo o coração e o servirá sempre que pedir a ela.

Ele sorriu, desde que Marisa se apaixonasse por ele… tudo estaria em suas mãos.

Marisa acordou confusa.

- Como você se sente? - Dimitri perguntou ao se aproximar dela.

- Ainda um pouco fraca e confusa com o que aconteceu, mas eu não esperava te encontrar aqui ao meu lado Dimitri.

Marisa

Mesmo com tantos anos estando casados, ele nunca havia demonstrado tanta preocupação, me salvou mais uma vez e isso me deixou confusa.

- Agora que já está bem, finalmente posso ir embora!

Ele se levantou para sair de repente.

- Dimitri espere…

- O que você quer?

- Pode me levar para viver em uma casa no reino? Me sinto muito sozinha na cabana!

- Não, você ficará onde está!

- Por favor, mesmo que seja fora do palácio.

- Não discuta Marisa.

Eu não sei por que ele me trata assim, me quer como esposa desde que eu mantenha distância dele. Me recuperei muito rápido do ferimento, logo eu estava de pé novamente e pensando no que pode ter acontecido no reino de Scarlatti desde que saí de lá por esses quatro anos em que estive aqui nesse lugar.

[…]

A empregada que quase causou a morte de Marisa foi capturada pelos guardas de Dimitri e levada até a masmorra do castelo. Ele chegou até o castelo e pediu que o levassem até lá e ele ansiava descobrir o motivo desse atentado.

- Levem-me até ela! - Ele ordenou, entrou naquele lugar escuro e viu aquela mulher de aparência estranha. - Quem é você e a mando de quem, tentou matar Marisa?

Aquela mulher parecia trazer dentro de si uma fúria que ele não podia entender.

Capítulo 3

Os homens do reino de Florença estavam temendo o que o rei Dimitri poderia dizer sobre o atentado a vida de Marisa, que o reino poderia estar inseguro e eles falhando em sua missão de proteger o povo. Levaram-no até o lugar onde ela estava presa, aguardando que decidissem sobre a vida dela, era tudo o que podiam fazer, já que o pior quase já havia sido concretizado.

Dimitri entrou na masmorra, altivo e disposto a tudo para descobrir a mando de quem aquela estranha trabalhava. Sabia que aquilo precisa ter um motivo forte para levar uma estranha a invadir suas dependências.

- Diga-me, quem te mandou tirar a vida de Marisa? - Ele perguntou de maneira firme e direta, sem desfazer o contato visual com ela.

- Ninguém vossa alteza!

- Acha mesmo que poderei acreditar nisso?

A mulher ficou ainda mais séria, não parecia temer o poder que ele tinha sobre a vida dela, ou estava segura demais em suas próprias convicções.

- Vossa alteza tem o direito de duvidar, mas a verdade é que não há um mandante e eu vim aqui disposta a tudo. Desafortunadamente meu pai e meu marido morreram na batalha contra o maldito reino de Scarlatti, eu odeio Marisa e todos os vermes vindos daquele lugar… ela é uma princesa amaldiçoada e minha missão neste mundo é tirar a vida dela! Eu sei que vossa majestade não se importa com essa criatura, apenas a mantém longe daqui do palácio como se fosse uma pobre donzela qualquer, ninguém a trata como rainha e jamais lamentariam sua morte… estou certa?

Ela sorriu debochando e ele se manteve neutro, a mulher deu um passo na direção dele esperando que o rei a deixasse terminar o que havia começado.

Dimitri engoliu seco e deixou de olhar para ela naquele instante, apenas ordenou que abrissem a cela. Os guardas não entenderam sobre sua reação, não sabiam mais o que fazer e apesar de temer, eles precisaram perguntar ao rei.

- O que faremos com ela, vossa alteza?

- Enforquem-na ao amanhecer! - Ele respondeu sem sequer virar-se de volta para a mulher.

O medo tomou conta dela, mas não iria clamar por sua vida. Sabia dos riscos que corria ao adentrar aquele reino para matar a jovem e estava disposta a pagar por isso… foi acorrentada pelos pés e pescoço e assim, levada para a parte detrás do castelo onde os sacrifícios e condenações eram feitos. O carrasco apenas leu sua sentença, ela foi colocada no alto de uma espécie de torre de onde era forçada a saltar com a forca em seu pescoço. Ela olhou para o céu pela última vez e apenas pulou para a morte.

[…]

Na cabana onde Marisa estava, tudo permanecia em silêncio. Ela seguia em seu quarto sozinha e pensando em todos os perigos aos quais tem estado submetida nos últimos tempos, sentiu falta do pai, apesar de nunca ter recebido o amor que gostaria dele. Na verdade, ela sentia um vazio por dentro que nada parecia conseguir curar.

Marisa

Acordei naquela cama, entediada e sem nada de interessante para fazer ou com quem conversar. Aquele lugar estava me deprimindo pouco a pouco. Mas parei e me lembrei de como era a minha vida no castelo de Scarlatti, uma eterna procura por um lugar que fosse meu.

Pelo menos aqui, eu recebia uma visita… Calvin sempre foi o melhor amigo de Dimitri na infância e ambos têm a mesma idade, agora meu melhor amigo também e ele sempre que pode me faz companhia, desde que cheguei aqui. Assim que ouvi um cavalo se aproximar, eu saia que era ele, sempre ele!

Ouvi a porta ser aberta e ele entrou com um imenso sorriso, o astral dele me contagiava e certamente me ajudou a permanecer aqui neste lugar. Os pássaros cantavam e lá fora certamente havia um lindo dia que esperava por mim, mas sem poder sair dessa cama é um tédio.

- Que bom que você chegou, Calvin, eu estava me sentindo muito sozinha. Entre!

Percebi que ele relutou aceitar o meu convite.

- Anda, vem!

- Mas, você está na casa Marisa.

- O que tem demais, somos amigos e você veio me ver como sempre.

Fiz um esforço sentei-me na cama e ele ao meu lado, após eu insistir muito para que entrasse, não sei por que ele ficou com esse receio todo.

- Você está mesmo bem Marisa? Eu fiquei assustado ao saber do que havia acontecido, aquela mulher estranha quase conseguiu o que queria.

- Estou, sim, milagrosamente, eu sobrevivi… pelo menos, o meu corpo está curado!

Ele me olhou próximo de onde eu havia recebido o golpe que quase me matou e depois nos meus olhos, tenho certeza de que viu dentro deles, toda a imensa solidão e o desprezo que tenho carregado nessa vida. Não gosto que as pessoas sintam pena de mim, mas Calvin me conhece tão bem que eu não poderia esconder isso, mesmo que eu quisesse.

- Como sempre sozinha, não sei por que Dimitri se recusa a te levar para o reino!

Eu neguei com a cabeça.

- Acho que ele sente vergonha de que eu seja sua rainha, talvez tenha se arrependido de ter me escolhido para se casar.

- Eu não gosto de te ver assim sempre triste Marisa, penso o tempo todo em você aqui sozinha neste lugar. - Suspiro de angústia - Por isso, eu trouxe alguns presentes.

Ele conseguiu me arrancar um leve sorriso, fiquei logo curiosa para o que poderia ser.

- Então me diz, o que é isso em suas mãos? - Perguntei tentando ver o que era, mas ele queria fazer uma surpresa ou adiar um pouco mais, me torturando de curiosidade.

- Apenas cartas que eu trouxe para jogarmos juntos, topa?

- Claro! - Eu nem me lembro quando havia sido a última vez que havia jogado cartas, acho que minha mãe ainda era viva.

Ele embaralhou as cartas, espalhou sobre a cama e nós dois passamos muito tempo brincando e conversando, ele sempre me distraía quando eu estava sozinha. Eu o vejo como o irmão que eu gostaria de ter tido!

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